Oficina de história: volume 1


Evolução política na floresta ocidental (séculos XI-XV)



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Evolução política na floresta ocidental (séculos XI-XV)

ILIFFE, J. Os africanos: história dum continente. Trad. Lisboa: Terramar, 1999. p. 104-107.

Nas florestas da África Ocidental e nas pastagens vizinhas, os estados formaram-se mais lentamente do que na savana e eram mais pequenos, e muitas sociedades não tinham estados constituídos quando os europeus as descreveram pela primeira vez. As sociedades de linhagem segmentar, onde a ordem assentava apenas na ameaça de retaliação, existiam essencialmente no seio de povos que se dedicavam à pastorícia, e portanto eram raras nesta região. O exemplo mais importante é o dos Tiv do Vale do Benue, cuja história é pouco conhecida. Mais vulgares eram as aldeias autônomas de pioneiros, chefiadas ou por um Homem Grande, cujas características pessoais atraíam os parentes e os clientes, como muitas vezes sucedeu nas zonas florestais dos Camarões, ou pelo descendente mais velho do colono pioneiro, como aconteceu em muitas regiões mais a ocidente. Povos do litoral como os Jola do Senegal não constituíram um estado e a sua sociedade apoiava-se em ritualistas hereditários que agiam como mediadores, enquanto outros recebiam uma orientação mínima indispensável dos dirigentes de estados vizinhos, cuja autoridade teriam rejeitado se ela se manifestasse de outro modo, como foi o caso dos povos sem estados que bordejavam o Benim. Talvez as instituições religiosas mais comuns que mantinham a coesão com comunidades sem estados fossem as sociedades secretas nomeadamente as sociedades iniciáticas Poro e Sande, destinadas a homens e mulheres cuja importância nas florestas da Guiné e da Serra Leoa foi atestada por antigos visitantes portugueses. Essas instituições não se excluíam umas às outras. Os povos sem estados mais numerosos em África pertenciam ao grupo linguístico mais tarde conhecido por Igbo, no sudeste da moderna Nigéria. Apesar da relativa densidade populacional e de uma atividade comercial considerável, os Igbo mantiveram-se decididamente sem estados utilizando quase todos os sistemas referidos. Um dos seus chefes rituais foi talvez o notável sepultado em Igbo-Ukwu no século IX. Os Igbo do ocidente viviam à sombra do Benim, enquanto os do norte se apoiavam em grupos etários e sistemas de títulos nos quais os homens iam avançando à medida que eram mais velhos, mais ricos e mais influentes.

Em termos políticos, a distância entre um chefe ritual ou um Homem Grande da aldeia e um chefe territorial era pequena, e é fácil imaginar como os povos da floresta e os seus vizinhos criaram os pequenos estados que terão surgido no final do primeiro milênio d. C., inicialmente na região dos modernos Ioruba, Edo, Nupe e lukun que contornam a orla meridional da floresta-savana do território Haússa. O pequeno estado mais antigo já identificado pelos arqueólogos foi Ife, precisamente na zona limítrofe da floresta. É grande a incerteza que envolve as suas origens, mas havia pequenos aglomerados populacionais nessa zona, nos séculos IX ou X, e indícios de urbanização, casas pavimentadas com fragmentos de barro e esculturas em terracota nos séculos XI ou XII. A cidade erguia-se sobre uma pequena mina de ouro e estava bem localizada para comerciar e interagir com a savana e a costa, mas os seus vestígios não denunciam grandes contactos deste tipo e sugerem antes a existência de uma economia agrícola que contribuía para um sistema de comércio regional com a produção de contas de vidro. Desta forma, Ife foi a capital de um reino importante talvez entre os séculos XII e XV. A sua fama assenta em magníficas esculturas de terracota e de latão; que representam seres humanos, mais do que os objectos naturais representados em Igbo-Ukwu. As terracotas foram feitas em primeiro lugar. É provável que muitas fossem oferendas destinadas a santuários. Representavam com todo o realismo um espectro de situações humanas, dos reis e dos cortesãos aos doentes e aos executados. Nos séculos XIV e XV, a tradição da terracota transferiu-se para o latão. Conhecem-se menos de trinta objetos de latão. Produzidos com moldes de cera e dotados de um realismo idealizado, quase todos representam reis no auge dos seus poderes e se caracterizam por uma majestade serena nunca ultrapassada na arte humana. Por razões que desconhecemos, os latoeiros de Ife nutriram um apreço pelo ser humano que iria sobreviver de uma forma mais popular no humanismo e na afirmação da vida das xilogravuras dos Ioruba, muito depois de outras comunidades organizadas terem isolado Ife das suas fontes de latão e de poder, reduzindo-a a uma prioridade meramente ritual.

O mais antigo sucessor de Ife que se conhece foi o reino Edo do Benim, o único outro estado florestal importante da época. Aqui, os vestígios de que o reino nasceu de aldeias mais antigas são particularmente claros, a avaliar pelos 10 000 quilômetros de sebes de terra construídas pelos seus fundadores no início do segundo milênio.
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A cidade de Benim, na orla ocidental, terá dado origem a um centro religioso, mas foi transformada nos séculos XV e XVI por reis guerreiros que reclamaram origens Ife e introduziram inovações Ioruba. O primeiro e o mais importante desses reis foi Ewuare, que se diz ter conquistado 201 cidades e aldeias, subjugando os pequenos estados envolventes, reinstalando as suas populações e transformando a cidade na capital de um reino com 120 quilômetros de largura. Ewuare terá construído o palácio e as fortificações da cidade. Converteu o governo numa burocracia patrimonial, nomeando homens livres para chefes militares e administrativos que suplantavam os chefes dos grupos hereditários. Ele ou os sucessores terão sido responsáveis pelo alto nível de envolvimento estatal no comércio com o estrangeiro, que os portugueses encontraram quando chegaram em 1486. O regime protegeu os latoeiros que fundiram as célebres cabeças reais do Benim e outras esculturas magníficas, combinando o metal europeu com técnicas de cera que se supõe serem originárias de lfe, embora os especialistas modernos não estejam de acordo quanto a este ponto. A arte do Benim era uma arte da corte, criada por artesãos hereditários que viviam no interior do palácio, separados por um abismo da cultura popular. Quando chegaram os primeiros europeus, o Benim era o estado mais importante da floresta da África Ocidental e impressionou-os fortemente com a sua riqueza e a sua sofisticação. Mas, no século XVII, os chefes militares e administrativos sobrepuseram-se ao rei, reduzindo-o a uma figura ritual isolada, guerreando entre si e despovoando a cidade.

No século XV, vários outros reinos loruba coexistiram com lfe, cada um com uma capital muralhada, um rei que se reclamava de origem lfe, chefes das cidades que dirigiam poderosos grupos de descendentes corresidentes e aldeias distantes. É provável que o comércio fosse importante em vários agregados políticos, sobretudo o comércio com mercadores itinerantes de Songai, pois a língua loruba ainda conserva muitos termos Songai que designam conceitos islâmicos, comerciais e equestres. Um dos novos reinos, ljebu Ode, terá [teria] ganho [ganhado] forma em 1400 e, um século depois, era “uma cidade muito grande”, enquanto que Owo, no século XV, era um centro artístico que rivalizava com lfe e Benim. A vinda de cavalos de guerra do Norte constituiu outro estímulo político. Até então, os povos da floresta tinham mantido a iniciativa nesta região. As esculturas em latão da Ife do século XIV tinham passado para norte, para o reino de Nupe, na savana. Tsoede, que segundo a tradição foi o fundador de uma nova dinastia Nupe no princípio do século XVI, era filho de uma mulher que falava Edo. No entanto, pouco depois, os exércitos Nupe e Baribá do norte invadiram o território loruba, talvez com cavaleiros. Atacaram sobretudo Oyo, o reino mais ao norte de loruba, situado na savana. Oyo reagiu adoptando a cavalaria na guerra e, no século XVII, era o estado loruba mais poderoso. É possível que processos semelhantes tenham estado na origem de Allada e Whydah, os primeiros reinos constituídos por povos de língua Aja (Ewe e Fon) que ocuparam a garganta de Daomé. É provável que os dois reinos existissem no século XV, embora a maioria dos povos de língua Aja vivessem ainda em pequenos reinos tribais.

Mais para noroeste, nas regiões da savana do Gana e de Burkina, os cavalos de guerra permitiram que pequenos grupos de cavaleiros fundassem uma série de estados no seio dos povos indígenas de língua voltaica, a começar pelos reinos de Mamprussi e de Dagomba no final dos séculos XIV ou XV. Seguiram-se os reinos Mossi de Uagadugu (no final do século XV) e de Yatenga (em meados do século XVI). As origens dos chefes são incertas, mas é provável que fossem forasteiros, pois reclamaram apenas o poder político e deixaram o controle da terra nas mãos dos indígenas, satisfazendo-se com tributos. Neste aspecto o seu comportamento diferiu acentuadamente das alterações políticas que se registraram na floresta, no seio dos povos de língua Akan do Gana. O homem já se instalara nessa região desde o princípio do primeiro milênio, mas os aldeamentos foram esparsos até ao século XVI, quando uma nova tradição de cerâmica substituiu a antiga, a colonização se expandiu rapidamente e na região começaram a surgir os estados florestais mais importantes da África Ocidental. O motor desta transformação foi o ouro. Não se sabe ao certo quando começou a sua exploração. Begho, o centro de comércio que ligava os Akan ao norte, a Jenne e ao Mali, era habitado desde o século XI, e Bono Manso, a capital do primeiro estado Akan, desde o século XIII, mas ambas progrediram muito nos séculos XV e XVI. O ouro fornecia os recursos necessários à compra de escravos para desbravar a floresta, cuja conquista modelou sempre a cultura Akan. Os pioneiros foram Homens Grandes típicos, os abirempom, cujos descendentes de homens de clãs matrilineares e de escravos formaram os núcleos dos estados da floresta, conferindo-lhes uma resistência, um espírito empreendedor e uma singularidade que impressionaram os europeus que comerciaram com eles no litoral, a partir do final do século XV. ◼






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