Oficina de história: volume 1


África: reflexões sobre história e historiografia



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África: reflexões sobre história e historiografia

A introdução dos estudos de História da África nos meios acadêmicos e escolares brasileiros não representa apenas um acerto de contas com uma malfadada consciência europeia acerca das conquistas de territórios e explorações de povos e nações, transformados, ao mesmo tempo, em símbolos de sua dominação nos últimos séculos. Muito menos a aceitação de uma espécie de mea culpa dos dominadores em busca de uma absolvição por suas práticas históricas.

A inclusão da temática africana deve ser vista como uma continuidade das lutas e resistências dos povos da África e dos africanos escravizados na América. Como as guerras contra o invasor, como as fugas e os quilombos, o reconhecimento da História da África e da História dos afrodescendentes impõe-se como a preservação e a reconstituição da memória histórica tão desfigurada e violada quanto o foram as formações sociais e as culturas africanas.

Constituída a partir das pressões e do trabalho dos movimentos negros, que explicam as deliberações governamentais de janeiro de 2003, a obrigatoriedade da inclusão da temática africana nas programações escolares amplia as pioneiras experiências de grupos de professores(as) da rede de ensino de todo o país que já atuavam nesse sentido.

Trata-se de um momento de renovação de nossas práticas de ensino. Um momento de transformações da nossa história e de intervenção social. Após a renovação dos estudos históricos com a ampliação de temas e objetos e com a já consolidada e fértil relação transdisciplinar com outras áreas do conhecimento, os estudos sobre a História da África abrem um novo capítulo da escrita da história brasileira. Assim, busca-se um novo eixo de compreensão para a formação do Brasil, reavaliando as chaves interpretativas que permitiram analisar a história do país até então.

A ausência de estudos sobre a História da África foi uma das maiores lacunas no sistema educacional brasileiro e teve consequências danosas sobre a população, principalmente a afrodescendente. Tal ausência acabou por permitir a criação de uma série de estereótipos que dificulta a construção de uma identidade positiva sobre as nossas origens e permite a formulação de hipóteses preconceituosas e desinformadas, criando uma profusão de ideias equivocadas e reforçando uma visão eurocêntrica acerca do nosso passado.

Conhecer a História da África é condição para o entendimento da formação da sociedade brasileira. As tecnologias, costumes, culturas, estruturas políticas, econômicas e sociais trazidas pelos africanos não são
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devidamente reconhecidos e integrados à História do Brasil. Nossa formação, via de regra, apresenta-se reduzida a uma extensão da história europeia com pinceladas exóticas das culturas indígenas e africanas, transformadas nos famigerados capítulos denominados “contribuições da cultura africana”: capoeira, feijoada (que não é dos escravos e sim portuguesa), samba, música, candomblé.

Além disso, a África é a região do mundo de mais longa historicidade. Berço da humanidade, o continente foi palco de diversas experiências sociais e uma multiplicidade de fenômenos culturais, inclusive do aparecimento da sociedade egípcia – uma das primeiras do mundo antigo, e certamente a mais duradoura, de mais de 3 mil anos. No entanto, uma operação conceitual recorrente nos livros didáticos e no ensino de História remove o Egito de sua vinculação ao continente africano associando-o à Mesopotâmia e Palestina. Trata-se do conceito de Crescente Fértil, criado pelo orientalista estadunidense James Henry Brestead, na década de 1920. Por mais operativo e didático, o conceito tem claras implicações ideológicas, provocando o esvaziamento da importância da história africana. Ele não é diretamente eurocêntrico, mas é etnocêntrico.

Com efeito, a tarefa de integrar adequadamente a História da África às grades curriculares da rede de ensino alia-se à tarefa de revisão do próprio conceito de História da África. Conceito que reclama uma releitura livre de preconceitos, anacronismos ou formulações aberrantes.

No intuito de oferecer um panorama geral sobre a historiografia africana, apresentamos sua produção dividida em três grandes tendências. Evidentemente, trata-se de uma classificação provisória e simplificada, sujeita a questionamentos, mas de certo modo aceita por grande parte dos estudiosos de temas africanos.

Um primeiro grupo de trabalhos, produzido entre 1840 e 1950 costuma ser denominado corrente da inferioridade africana. Identifica-se pela negação da historicidade dos africanos. Nessa perspectiva, os africanos seriam incapazes de fazer e contar suas histórias. Somam-se ainda a influência das teorias raciais às análises feitas pelas ciências sociais, de modo que resultam numa classificação dos africanos como primitivos e inferiores.

A África era considerada como um continente a-histórico por excelência. Hegel (1770-1831) definiria explicitamente essa posição em sua Filosofia da História, onde afirmava:

A África não é uma parte histórica do mundo. Não tem movimentos, progressos a mostrar, movimentos históricos próprios dela. Quer isto dizer que sua parte setentrional pertence ao mundo europeu ou asiático. Aquilo que entendemos precisamente pela África é o espírito a-histórico, o espírito não desenvolvido, ainda envolto em condições de natural e que deve ser aqui apresentado apenas como no limiar da história do mundo.

(Apud FAGE, J. D. In: KI-ZERBO, J., 1982, p. 48).

Para os historiadores do século XIX ou da virada para o século XX, a História da África teria começado no momento em que os europeus passaram a estabelecer relações com as populações do continente. Não somente pela ação de registrar e relatar, feita por viajantes, administradores, missionários e comerciantes dos séculos XV ao XIX, mas principalmente pelas mudanças introduzidas pelos europeus. Tal concepção foi exposta com ênfase em 1923, pelo professor de História colonial do King’s College, Arthur Perival Newton (1843-1942), numa conferência da Royal African Society de Londres sobre “A África e a pesquisa histórica”.

Segundo ele, a África ao sul do Saara não possuía “arte ou escrita antes da chegada dos europeus. A história começa quando o homem se põe a escrever”.

Essa opinião forjada no século XIX continuou a ecoar até bem pouco tempo. Na década de 1960, em pleno processo de descolonização do continente africano, o professor de História Moderna da Universidade de Oxford, Hugh Trevor-Roper, em uma série de ensaios sentenciava:

Pode ser que no futuro haja uma história da África para ser ensinada. No presente, porém, ela não existe; o que existe é a história dos europeus na África. O resto são trevas e as trevas não constituem tema de história. O mundo atual [...] está a tal ponto dominado pelas ideias, técnicas e valores da Europa ocidental que, pelo menos nos cinco últimos séculos, na medida em que a história do mundo tem importância, é somente a história da Europa que conta. Por conseguinte, não podemos nos permitir divertirmo-nos com o movimento sem interesse de tribos bárbaras nos confins pitorescos do mundo, mas que não exerceram nenhuma influência em outras regiões.

(Apud FAGE, J. D. In: KI-ZERBO, J., 1982, p. 49).

Podemos identificar um segundo grupo de pesquisas predominantes entre 1950-1980, articulado ao período das independências africanas e composto sobretudo por intelectuais e pesquisadores africanos engajados. É designado como corrente da superioridade africana, marcado pela reação ao colonialismo e ao racismo e pelo reforço às noções de negritude e de unidade decorrentes das propostas do pan-africanismo.

Esse novo contexto de afirmação permitiu o surgimento de uma historiografia africana, produzida inclusive por africanos, comprometida com o resgate de seu


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passado e a dissolução de estereótipos, sobretudo a ideia de um continente sem história ou fontes confiáveis. Reforça-se a noção do continente como um todo ainda que articulado em suas diversas partes. As investigações focavam as histórias dos reinos e sociedades africanas e sua capacidade de organização e transformação independentemente dos padrões europeus.

Durante as décadas de 1970 e 1980, foram publicadas diversas obras de introdução à História da África, trabalhos de síntese e divulgação, e pesquisas sobre diversos aspectos da realidade africana, feitos com o intuito de dar conta de todo o espaço continental. Um grande exemplo é a coleção publicada pela Unesco, História geral da África, 8 vols.

Por outro lado, a ascensão das independências no continente africano, ao mesmo tempo que abria novas perspectivas aos povos africanos, também apresentava uma certa divisão entre dois objetivos contraditórios: a unidade africana e a construção dos Estados-Nação.

A partir da década de 1980 surgiu uma escola de historiadores africanos denominada de Nova Escola de Estudos Africanos. A partir de então, a História da África passa a ser enriquecida com uma diversidade de temáticas para investigação como estudos ligados a elementos culturais e artísticos, ao cotidiano, às novas tendências da economia e da ciência política, às relações de gênero, à religiosidade. Mantém-se, contudo, a atenção aos temas “clássicos”: escravidão, colonização e os recentes processos de independência.

No Brasil, há uma significativa tradição em estudos africanos nas áreas de antropologia, sociologia, literatura e linguística. Não se deve esquecer o trabalho pioneiro e valioso de José Honório Rodrigues, Brasil e África: outro horizonte, de 1961. Sua obra coincide com o início das lutas pela libertação em Guiné-Bissau e Angola e com a chamada política externa independente promovida por Jânio Quadros.

É também desse período a criação de três importantes núcleos de estudos africanos em atividade até hoje: o Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), fundado em 1959, na Bahia, o Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos (IBEAA), fundado em 1961 e ligado à presidência da República, o Centro de Estudos e Cultura Africana, fundado em 1963, em São Paulo, e ligado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e hoje Centro de Estudos Africanos (CEA). Além desses, em 1973, foi criado o Centro de Estudos Afro-Asiáticos (CEAA) no Rio de Janeiro. Hoje também contamos com o Núcleo de Estudos Afro-Asiáticos (NEAA) na Universidade de Londrina (Paraná), o Núcleo de Estudos Africanos da Universidade de Brasília e o Núcleo de Estudos Africanos da Universidade Federal de Santa Catarina.

A Universidade Federal da Bahia é pioneira no ensino de História da África e cultura afro-brasileira e pode-se verificar a inclusão de disciplinas de História da África nos departamentos de História de diversas universidades em todo o país nos últimos 15 anos. A dispersão dos trabalhos desenvolvidos vem sendo superada pela promoção de diversos encontros, seminários e congressos. Sem dúvida nenhuma, trata-se de uma fase de constituição de uma massa crítica sobre a História da África, que começa hoje a conquistar o espaço que de direito lhe pertence no campo da pesquisa e do ensino de História.






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