Oficina de história: volume 1


A História e a construção da cidadania



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2 A História e a construção da cidadania

Não sou de Atenas, nem da Grécia, mas do mundo.

Sócrates


Quis ser cidadão para ser melhor historiador, sempre me preocupei em ser um homem do meu tempo para ser melhor um homem do passado.

Jacques Le Goff

Um dos principais desafios do nosso tempo, no Brasil e no mundo, é erradicar o vírus da intolerância. Verdadeira endemia que em determinados momentos assume a feição de febre social, a intolerância é transmitida, sobretudo, por olhares deformadores.

Discriminações étnicas, estereótipos sociais, preconceitos regionais ou estigmas sexuais têm um mesmo denominador comum: a negação do outro. No limite, o desejo de eliminar aqueles que são diferentes. Uma postura violenta de quem está doente dos olhos.

O ensino de História tem de enfrentar essas questões. Trata-se de uma tarefa difícil, num momento em que a competitividade parece ter atingido níveis jamais imaginados. Historicamente, é o momento do triunfo da ideologia do trabalho, triunfo de uma disciplina introjetada que não se volta apenas para o desenvolvimento das potencialidades e habilidades de cada indivíduo, mas que o direciona para um embate – uma verdadeira guerra social pela sobrevivência e pela disputa por espaços e dignidades cada vez mais exíguos.

Há uma ética que emerge da globalização, consolidada nos últimos vinte anos e que apresenta um télos social, um destino ao qual todos devem se submeter. Uma ética capaz de universalizar a classificação dos homens entre winners e losers – tão estadunidense – e eleger o sucesso como uma espécie de prova inconteste das capacidades individuais. Ou de associar a manifestação da graça divina à expansão de uma parafernália tecnológica que se assemelha a amuletos contra a solidão e o vazio existencial. Uma tecnologia teleológica, viciosa e estimuladora de uma compulsão consumista que consome os próprios consumidores.

Essa ética torna o solo fértil para a semeadura de alucinógenos mais perigosos que a cocaína e o ópio, que se propagam viciosamente tanto no estímulo aos terrores das ações características das guerras étnico-culturais quanto na anestesia em relação aos horrores das guerras sociais travadas nas grandes cidades
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do Terceiro Mundo. Essa ética dissemina o cinismo com respeito às questões sociais e provoca um perturbador deslocamento daqueles que combatiam os diversos movimentos da sociedade civil para o interior desses mesmos movimentos, muitas vezes como pretensos líderes que servem na verdade como testas de ferro, não por acaso, de poderosos interesses internacionais.

Mas, principalmente, no nosso cotidiano, essa ética oriunda da globalização fragiliza as imunidades sociais frente às diversas formas de preconceito, enfraquecendo os anticorpos que seriam capazes de desencadear uma reação à ofensiva da intolerância em seus diversos matizes. Essa ética estimula a passividade ao transformar o cidadão num mero espectador. Ou, o que é até mais pernicioso, num ator de um grande espetáculo que submete as pessoas pelas imagens e cujo roteiro e direção não se ousa questionar. All that jazz. O show não pode parar.

A competição desenfreada provoca medos coletivos e individuais. E um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer com que as coisas pareçam o que não são, como afirmou Miguel de Cervantes. Devido a esses medos e à inércia de um olhar direcionado a enaltecer as benesses do espetáculo da globalização, banaliza-se a violência e acumula-se um explosivo arsenal de estereótipos e estigmas que visam desqualificar o outro como forma de alavancar o sucesso pessoal ou então de suportar a própria mediocridade.

Tão letais quanto os explosivos, as armas químicas e os artefatos nucleares que frequentam os noticiários são essas munições de intolerância que se alojam em nossas casas, em nossas famílias, em nossas escolas e universidades. Como professores(as) e educadores, temos de nos posicionar diante de uma corrida armamentista sutil e dissimulada.

Não se trata de desarmar nossos alunos. Trata-se de armá-los contra a intolerância. Trata-se de provê-los de um repertório cultural que seja condicionado por uma formação crítica e pluralista. Trata-se de coibir discriminações, exclusões e perseguições que fazem da violência uma trivialidade socialmente aceita.

A tão desgastada palavra “cidadania” não se esgota em programas assistencialistas, governamentais ou não. A tolerância não se reduz à caridade ou a espetáculos de generosidade de efemérides e de afetos súbitos.

A tolerância solidifica-se simultaneamente à construção de uma cidadania participativa e crítica que requer preparação constante e não sentimentos de ocasião. Preparação dos olhares destinados a ler e a entender o mundo, que supere a observação passiva em prol de uma intervenção firmemente contrária a qualquer tipo de intolerância. Principalmente, contra aquelas que nos possam ser convenientes.






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