Oficina de história: volume 1



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A política e a cultura

A problematização do cotidiano e da vida privada, os estudos da linguagem e do repertório simbólico das classes desfavorecidas e a atenção aos conflitos sociais – mesmo com a redução da escala de observação no caso da micro-História – representaram uma ampliação investigativa em direção a temas considerados prosaicos: cumprimentos, etiqueta, alimentação, comunicação oral, gestualização, sexualidade, relações de gênero. Em torno desses temas os pesquisadores procuraram estabelecer nexos e desvendar articulações sociais tão determinantes e decisivas para a vida coletiva quanto as conjunturas econômicas ou as estruturas sociais. Muitos conseguiram empreender tais práticas sem per-


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der de vista as implicações políticas de seus objetos. Outros trabalhos, como já observamos anteriormente, acabaram sucumbindo e reduziram-se à particularidade e à especificidade de seus objetos e temas.

Na busca de significados e da compreensão do funcionamento das sociedades, as mais diversas linguagens tornaram-se objetos privilegiados para a análise, vistas, cada vez mais, como metáforas da realidade. Os variados discursos (escritos, orais, arquitetônicos, urbanísticos, iconográficos, musicais, gestuais, rituais) passaram a ser decodificados com maior frequência, procurando-se também apreender neles os elementos que remetem a tensões sociais e a sentidos históricos, além de identificar sua produção, circulação e apropriação num dado meio social.

Dito de outra forma, registrou-se a expansão do território tradicional da política e das lutas sociais, dos lugares mais evidentes (Estado, sindicatos, partidos, associações) para áreas onde até então não se atribuía grande relevância (escola, família, cultura). Ou seja, a identificação de elementos da “micro-História” (LEVI, G., 1991) e sua valorização diante da tradicional “macro-História”. A história sociocultural impõe, nesse sentido, uma possibilidade de revalorização da política e sua identificação em todos os poros do tecido social.

Ao mesmo tempo em que se registrou tal redirecionamento entre os estudos históricos, operou-se também um alargamento do escopo das lutas sociais na sociedade contemporânea. No Brasil, como em diversas outras regiões do planeta, assistiu-se à multiplicação de movimentos que requereram (e requerem) o estabelecimento de garantias legais e a implementação de políticas públicas que erradicassem discriminações e condições sociais que promovem a degradação da convivência humana. Mesmo em conjunturas de refluxo dos movimentos sociais afirma-se uma cultura política diversificada e plural.

Essa verdadeira “era dos direitos” (BOBBIO, N., 1992) compreende a luta contra os preconceitos raciais, religiosos, sexuais, físicos, regionais, estéticos, geracionais e tantos outros. Não se trata mais de afirmar apenas os direitos fundamentais do homem e sim estabelecer mecanismos de proteção e defesa dessas regras elementares para a vida coletiva. Nesse sentido, nos dias de hoje, o debate desloca-se da esfera filosófica para o universo jurídico-político, tendo como cerne a edificação de uma cidadania participativa e democrática.






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