Oficina de história: volume 1


Gravura, Theodore de Bry. Extraída da obra



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Gravura, Theodore de Bry. Extraída da obra Narratio Regionum Indicarum per Hispanes quosdam devasta um veríssima, frei Bartolomé de Las Casas, Frankfurt, 1548.

"Brevíssima relação da destruição das Índias". O Paraíso destruído. A sangrenta história da conquista da América espanhola. p. 69.

O inferno dos africanos

Sobre os africanos escravizados foram projetadas imagens bem mais negativas. A África era tida como o lugar do pecado, das trevas e da infidelidade. Ao contrário do que se pensava dos ameríndios, não haveria nenhuma vinculação dos negros da Guiné, como eram conhecidos, com o Paraíso Terrestre.

As origens bíblicas destes estariam ligadas a duas maldições, ambas posteriores ao pecado original. Eles seriam descendentes de Caim, aquele que por inveja matou seu irmão Abel, e traziam na pele a cor negra, marca do sinal imposto por Deus, ou, então, membros da geração de Cam, filho de Noé, que desonrou seu pai e por isso foi condenado, juntamente com seus filhos, à escravidão.

A retirada dos africanos de seu continente era, para as justificativas que se elaboraram sobretudo no século XVII, um milagre da Providência Divina. Pela travessia atlântica e pelo batismo, o escravizado era trazido à fé e, assim, o que poderia ser entendido como injustiça era tido como uma graça.

Com exceção de alguns religiosos e teólogos indignados com a comercialização de seres humanos, a maior parte dos clérigos de todas as ordens não só aceitava como estimulava e justificava a escravidão africana. Muitos deles participaram diretamente do apresamento e da venda de negros na costa africana, de onde estes eram enviados para vários pontos da América.
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Purgação dos pecados

A América seria o lugar da purgação dos pecados bíblicos atribuídos aos africanos. Mais uma vez, pelo trabalho e sofrimento, os impuros ficariam limpos e poderiam, depois de mortos, entrar no reino de Deus. Nas palavras do padre Antônio Vieira, em suas vidas na Colônia tinham "os escravos o seu Purgatório".

As atividades açucareiras também reforçavam a imagem de Colônia-Purgatório. O melaço da cana era purgado de suas impurezas nas casas de purgar, ao mesmo tempo que os pecados atribuídos aos escravizados eram eliminados com os terríveis ofícios da terra. No entanto, os castigos impostos aos cativos ultrapassavam em muito aqueles imaginados no Purgatório. O engenho assemelhava-se mais, na verdade, ao Inferno.

Apesar de defender a escravidão dos africanos, tanto o clero católico como o protestante procuraram orientar e regulamentar o comportamento a ser seguido pelos senhores e por seus escravizados. Salientavam a igualdade espiritual de todos os fiéis cristãos, mesmo que esta repousasse sobre uma profunda desigualdade social. Diante de Deus, diante dos padres nas missas, tanto os escravizados quanto seus senhores deviam obediência, pois eram irmãos em Cristo.

Além disso, os religiosos tentavam impedir os pecados carnais e as violências abusivas contra os cativos. Revestiam a escravidão com uma roupagem paternalista, como se o senhor fosse um tipo de pai severo que pune seus filhos mas lhes garante uma boa formação cristã. Na lógica desse discurso, o escravizado pertencia a uma família cristã, mesmo sendo um filho desprivilegiado.

Os mestiços na sociedade colonial

Se para os negros africanos a Colônia era um verdadeiro inferno, outro grupo social, o dos mulatos, tinha uma sorte aparentemente diversa.

A mestiçagem entre brancos, indígenas e negros, que produziu o mameluco, o mulato e o cafuzo, esteve sempre associada às práticas sexuais duramente combatidas pelos membros da Igreja colonial.

No entanto, os costumes dos nativos, a escassez de mulheres brancas e, principalmente, o poder que os portugueses detinham sobre seus escravizados, fossem eles indígenas ou africanos, fizeram com que a moral cristã não fosse obedecida à risca nos trópicos.

Associados aos pecados presentes, diferenciados pela cor tanto do branco como do negro, os mulatos ficavam um pouco deslocados da oposição básica senhor/escravo.

Quando homens livres, por não serem brancos, eram discriminados pela herança africana. E carregavam a discriminação na denominação mulato: derivada de mula, animal resultante do cruzamento entre cavalo e jumenta, ou entre égua e jumento. Para os africanos, os mulatos livres, por não serem escravizados, não pertenciam completamente à dureza de seu meio social.

O espaço reservado ao mestiço, e ao mulato livre em especial, era, portanto, o da marginalidade. Menos controlados pelas regras do engenho e das lavouras exportadoras, a eles eram destinados serviços esporádicos ou a condição de agregados dos grandes senhores.

Suas vidas eram marcadas por certa autonomia: caçavam nativos no sertão, tocavam tropas de animais, capturavam e puniam escravizados fugidos e rebeldes, procuravam minas e metais preciosos.

Para muitos dos brancos, que também desfrutavam os prazeres coloniais, os mulatos viviam na Colônia o seu paraíso possível.

AS FORMAS DE RESISTÊNCIA DO AFRICANO ESCRAVIZADO

Apesar de todas as condições desfavoráveis e dos discursos legitimadores da escravidão, os negros cativos não deixaram de apresentar formas de resistência à sua situação: promoviam sabotagens no processo de produção do açúcar; organizavam fugas coletivas ou individuais; assassinavam senhores e feitores; suicidavam-se e geravam revoltas nas plantations e povoações. Além disso, muitos sentiam o banzo, uma atitude apática, de recolhimento, que os tornava ineficazes para os trabalhos requeridos. Deprimidos, muitos definhavam até a morte.

Outra forma de resistência foi a preservação das crenças e ritos africanos, apesar da condenação e vigilância do clero colonial. Não havia, entre os negros trazidos para a América a partir do século XVI, uma mesma religião ou ritual. Em comum, havia o culto aos antepassados, responsáveis pela proteção do grupo étnico. Com o deslocamento e a dispersão dos vários grupos, eles voltaram-se para divindades mais concretas, ligadas às forças mágicas da natureza. Essas divindades, os orixás, a partir de um processo de composição da herança africana com as concepções religiosas de brancos e indígenas instalados na Colônia, eram cultuadas em rituais e festas, ao som de atabaques e outros instrumentos de percussão.


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Os quilombos

Os quilombos foram a marca mais característica da resistência dos negros escravizados à sua condição. Após fugirem em grupos, estes organizavam pequenos acampamentos em áreas despovoadas e de difícil acesso, que podiam abrigar desde um pequeno bando de fugitivos, que promoviam assaltos a viajantes e povoações, até milhares de habitantes.

Para os grandes quilombos dirigiam-se não só negros como também indígenas, criminosos e outros grupos marginalizados da sociedade colonial. Ali se plantavam gêneros de subsistência e praticava-se a criação de animais. Muitas vezes, o vigor econômico dos quilombos era tal que chegavam a estabelecer relações comerciais com os povoados próximos, dos quais adquiriam armas, munição, ferramentas e outros produtos.

A organização social dos quilombos era estabelecida a partir de uma pequena elite de guerreiros, líderes da comunidade que promoviam sua defesa e os ataques armados às povoações portuguesas. Não era incomum a manutenção de relações de escravidão doméstica em seu interior, de forma semelhante àquela existente entre as etnias africanas. Podendo reproduzir neles suas heranças culturais, os negros conseguiam construir seus efêmeros paraísos sobre as terras do Novo Mundo.

ESCRAVIDÃO E ESCRAVISMO

Embora os europeus tivessem se deparado com as práticas de escravidão no continente africano, o que ocorreu com o tráfico atlântico, a partir do século XV, não pode ser tratado como o mesmo fenômeno.

A escala do tráfico internacional de escravos definiu o estabelecimento de uma rede gigantesca de comércio de seres humanos (o tráfico negreiro) e da montagem de um sistema produtivo assentado na escravidão (o escravismo) no continente americano.

O escravismo marcou decisivamente a história humana. Na América, eixo da conquista colonial, tornou-se o instrumento de produção de riquezas. Mais ainda: foi em torno desse sistema que se lançaram as bases da organização social da maior parte do continente. Suas consequências sociais podem ser identificadas até hoje.

Na África, o tráfico favoreceu a desagregação de estruturas políticas e a formação de outras a partir do tráfico negreiro. Estimulou rivalidades entre povos e permitiu a exploração do continente por europeus.

Na Europa, o acúmulo de riquezas proporcionado pelo tráfico e pela produção colonial foi um dos principais instrumentos de acumulação de capitais. O escravismo constituiu-se numa das alavancas do capitalismo.




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