Oficina de história: volume 1



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DIÁLOGOS CULTURAIS

No romance O enteado, o escritor argentino Juan José Saer conta a história de um europeu, capturado por um grupo de nativos, que passa a viver entre eles. O europeu é o narrador e relata sua gradual e difícil descoberta das particularidades daquele outro mundo. O trecho mostra suas considerações sobre a língua dos indígenas.

"[...] para eles, esse mundo, que parecia tão sólido, havia que atualizá-lo a cada momento para que não se desvanecesse como um fio de fumaça no entardecer.

Essa comprovação a fiz enquanto penetrava, como num lodaçal, no idioma que falavam. Era uma língua imprevisível, contraditória, sem forma aparente. Quando achei que tinha entendido o significado de uma palavra, um pouco mais tarde percebia que essa mesma palavra significava também o contrário, e depois de saber esses dois significados, outros novos me apareciam, sem que eu compreendesse muito bem por que razão o mesmo vocábulo designava ao mesmo tempo coisas tão díspares. En-gui, por exemplo, significava os homens, gente, nós, eu, comer, aqui, olhar, dentro, um, despertar e muitas outras coisas mais. Quando se despediam, empregavam uma formula, negh, que indicava também continuação, o que é um absurdo se se leva em conta que, quando dois homens se despedem, isto quer dizer que a troca de frases se dá por terminada. Negh significa algo assim como E então, como quando se diz E então aconteceu tal ou qual coisa. Uma vez ouvi que um dos índios ria porque os membros de uma nação vizinha choravam nos nascimentos e davam grandes festas quando alguém morria. Chamei-lhes a atenção para o fato de que eles, quando se despediam, diziam negh, e ele me olhou longamente, com os olhos entrecerrados, com o ar de desconfiança e de desprezo, e depois se afastou sem saudar. Nesse idioma, não há nenhuma palavra equivalente a ser ou estar. A mais próxima significa parecer. Como tampouco tem artigos, se querem dizer que há uma árvore, ou que uma árvore é uma árvore dizem parece árvore. Mas parece tem menos o sentido de similitude que o de desconfiança. É mais um vocábulo negativo que positivo. Implica mais objeção que comparação. Não é que remeta a uma imagem já conhecida mas que tende, antes, a desgastar a percepção e a subtrair contundência. A mesma palavra que designa a aparência, designa o exterior, a mentira, os eclipses, o inimigo. O horizonte circular, que me parecera no início indiscutível e compacto, era, na realidade, tal como o designava o idioma desses índios, um armazém de embustes e uma máquina de enganos. Nesse idioma, liso e rugoso são nomeados com a mesma palavra. Também uma mesma palavra, com variantes de pronúncia, nomeia o presente e o ausente. Para os índios, tudo parece e nada é. E o parecer das coisas se situa, sobretudo, no campo da inexistência. A praia aberta, o dia transparente, o verde fresco das árvores na primavera, as lontras de pele morna e palpitante, a areia amarela, os peixes de escamas douradas, a lua, o sol, o ar e as estrelas, os utensílios que arrancam, com paciência e habilidade, da matéria reticente, tudo isso que se apresenta, nítido, aos sentidos, era para eles informe, indistinto e pegajoso no reverso onde se aglomerava a escuridão."

SAER, Juan José. O enteado. São Paulo: Iluminuras, 2002. p. 146-147.

Juan José Saer (1937-2005), escritor e roteirista argentino, considerado um dos mais importantes da literatura latino-americana e da literatura espanhola do século XX. Foi professor no Instituto de Cinematografia da Universidade do Litoral, em Santa Fé, Argentina.




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