Oficina de história: volume 1



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História E Biologia >> Índios perderam a guerra bacteriológica

"O Descobrimento da América, no quadro da expansão marítima europeia, deu lugar à unificação microbiana do mundo. No troca-troca de vírus, bactérias e bacilos com a Europa, África e Ásia, os nativos da América levaram a pior.

Dentre as doenças que maior mortandade causaram nos ameríndios estão as 'bexigas', isto é, a varíola, a varicela e a rubéola (vindas da Europa), a febre amarela (da África) e os tipos mais letais de malária (da Europa mediterrânica e da África). O cólera, o sarampo, a difteria, o tracoma, o tifo, a peste bubônica, a escarlatina, a disenteria amebiana, gripes, entre outros males, também foram aqui introduzidos pelos europeus. Já a América estava infectada pela hepatite, certos tipos de tuberculose não associados à doença pulmonar, encefalite e pólio. Mas o melhor 'troco' patogênico que os ameríndios deram nos europeus foi a sífilis venérea, verdadeira vingança que os vencidos da América injetaram no sangue dos conquistadores. Nos portos europeus onde desembarcavam os conquistadores, a sífilis, sexualmente transmitida, se propagava, gerando um pânico semelhante ao que a Aids suscita hoje entre nós.

Assim, no século XVI, a representação da morte passou a ser associada ao erotismo nas pinturas dos retábulos das igrejas: o tradicional esqueleto com uma foice foi substituído por uma jovem mulher, bela, diáfana, encarregada de levar os homens para o outro mundo.

Porém, as mortandades causadas na América pelos micróbios introduzidos pelos descobridores foram maiores que os estragos causados na Europa pela sífilis. Eclodindo a partir de 1519 nas Antilhas, a varíola começava na América a carreira que lhe daria o título de maior assassina da humanidade. No continente, a varíola abriu caminho para os espanhóis conquistarem Tenochtitlán (novembro de 1519), atual Cidade do México, e em seguida alastrou-se no Peru (1521), derrubando dezenas de milhares de indígenas que poderiam ter enfrentado os espanhóis. Nesse sentido, as vitórias de Cortez sobre os astecas e de Pizarro sobre os incas devem ser reconsideradas: não se trata de batalhas nas quais a cavalaria e a pólvora europeia venceram as flechas e as lanças indígenas, mas de uma guerra bacteriológica que os ameríndios não tinham chance de ganhar.

No Brasil, a varíola atinge a Bahia desde 1563, tirando a vida de três quartos dos índios. Em 1565 o mal incendeia aldeias de Pernambuco até São Paulo. Mais tarde ricocheteiam no Brasil os surtos anuais de varíola que eclodem em Portugal entre 1597 e 1616. Traços do trauma provocado por essas doenças parecem ter-se cristalizado na mitologia indígena. Quatro entidades maléficas se destacavam na religião tupi no final do Quinhentos: Taguaigba ('Fantasma Ruim'), Macacheira ou Mocácher ('O que faz a gente se perder'), Anhanga ('O que encesta a gente') e Curupira ('O coberto de pústulas'). É razoável supor que o curupira tenha surgido no imaginário tupi após o choque microbiano das primeiras décadas da descoberta, como representação simbólica das mortandades provocadas pelas 'bexigas' e outras doenças pustulentas até então desconhecidas pelos índios."

ALENCASTRO, L. F. de. Folha de S.Paulo, 12 out. 1991. Caderno Especial América, p. 7.

A MIGRAÇÃO DAS DOENÇAS (SÉCULO XVI)



NYPL/SCIENCE SOURCE/LATINSTOCK

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Fonte: Elaborado com base em Folha de S.Paulo, 12 out. 1991, Caderno Especial.






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