Oficina de história: volume 1


Milho, batata, pimentas, tomate



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Milho, batata, pimentas, tomate

O milho e a batata são sempre lembrados como contribuições importantes da América para a alimentação europeia. A América, porém, ofereceu muitos outros alimentos, e não só para a Europa.

Os feijões, os pimentões e muitas pimentas americanas foram rapidamente incorporados à alimentação de europeus e dos árabes.

O tomate é originário das Américas e seu nome deriva de tomatl (em nahuatl, língua dos mexicas). Ele chegou à Europa provavelmente no século XVI e seu consumo logo se difundiu na península Ibérica e em parte da França. Na península Itálica, o tomate foi utilizado apenas como salada até o século XVIII, quando assumiu uma função central na culinária das famílias do sul: base para o molho das massas.

A comida de muitos africanos também se alterou depois da conquista da América, que ofereceu ingredientes hoje centrais na sua alimentação: a mandioca, o amendoim e o pimentão.

OS POVOS INDÍGENAS DA AMÉRICA PORTUGUESA

No caso do atual território brasileiro, quatro grandes grupos linguísticos marcaram a diferenciação básica: tupi, jê, aruaque e caraíba, subdivididos em várias famílias.

No Brasil atualmente há diversas pesquisas sendo desenvolvidas em sítios arqueológicos, locais onde se descobriram vestígios de ocupação humana. Os arqueólogos procuram por restos de fogueiras, pedaços de cerâmica, pinturas rupestres, esqueletos humanos, vestígios de aldeias e habitações, tentando levantar hipóteses quanto à época desses objetos, bem como sobre a forma de vida desses nossos antepassados.

Junto com essas informações e hipóteses, outra forma de tentar reconstituir a vida dos nativos antes da chegada dos europeus é, por mais paradoxal que possa parecer, pelos relatos e crônicas escritos por esses mesmos europeus no período colonial. Como os povos indígenas da América portuguesa também não desenvolveram a escrita, os principais documentos a respeito de sua história foram elaborados pelos conquistadores.

Dois grandes problemas aparecem de imediato. Primeiro: até que ponto as descrições dos conquistadores retratam de fato a vida dos nativos ou apresentam projeções e distorções? Segundo: tendo tais descrições sido realizadas após o ano de 1500, as formas de vida desses


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indígenas já não teriam sido alteradas pela chegada dos europeus, diferenciando-se daquelas que eram características no período pré-colonial? Essas dúvidas são importantes e é necessário que as levemos em consideração para não reduzir as dificuldades na compreensão da história dos negros da terra, como os nativos foram chamados pelos lusitanos. Mais ainda: a situação dos nativos antes da chegada de Cabral é motivo de polêmica entre os estudiosos.

A Terra sem mal: os deslocamentos dos Tupi

Sabe-se que os Tupi, o principal grupo que habitava o litoral da América portuguesa, deslocavam-se continuamente no sentido leste-oeste, em busca de uma região que acreditavam ser a morada de seus ancestrais e, ao mesmo tempo, um lugar de abundância, juventude e imortalidade, a Terra sem mal. Profetas indígenas percorriam as aldeias apresentando-se como reencarnação de antepassados heroicos e procurando convencer seus habitantes a abandonar o trabalho e a dançar. As peregrinações em busca dessa verdadeira "Terra Prometida" provocavam um comportamento nômade ou semissedentário entre os Tupi. Em razão disso, a sedentarização era incompreensível para suas bases culturais, pois significaria o afastamento em relação ao sentido essencial da vida.

A prática da refundação das aldeias constituía-se como elemento indissociável da vida Tupi. Os povos da América conquistada pelos portugueses eram coletores-caçadores nômades ou semissedentários. Praticavam a pesca, a caça e a agricultura com técnicas rudimentares. A disputa por áreas ricas em alimentos e os deslocamentos constantes provocavam conflitos e rivalidades entre as várias comunidades indígenas. A guerra era a forma de vingar os antepassados mortos em outros conflitos e capturar guerreiros adversários que, após o período de cativeiro, eram sacrificados em rituais de antropofagia. Na lógica dessas comunidades, junto com a vingança, prestava-se uma espécie de homenagem à valentia do cativo, cujas qualidades eram adquiridas pela ingestão das partes do seu corpo.

Além dos profetas ambulantes que chamavam os indígenas para a Terra sem mal, duas outras lideranças destacavam-se no interior dessas comunidades: o chefe guerreiro e o pajé. O primeiro era o responsável pela organização militar da aldeia, firmava acordos e alianças com os outros chefes guerreiros e liderava a comunidade em seus deslocamentos e refundações de aldeias. O pajé, também conhecido por xamã, praticava o curandeirismo, interpretava os sonhos e agia como intermediário entre o sobrenatural e a vida cotidiana.

O prestígio e a responsabilidade dessas lideranças não conferiam a elas nenhum tipo de privilégio socioeconômico. A propriedade privada era desconhecida pelos indígenas e o trabalho era distribuído igualmente entre seus integrantes. Segundo o relato do proprietário de terras Gabriel Soares de Souza, de 1587, o chefe guerreiro "há de ser valente homem para o conhecerem como tal, e aparentado e benquisto, para ter quem ajude a fazer suas roças, mas quando as faz com ajuda de seus parentes e chegados, ele lança primeiro mão do serviço que todos".

A partir do ano de 1500 os destinos das comunidades indígenas foram alterados e articulados à história dos europeus. Os milhões de nativos que habitavam o continente na época da conquista (as estimativas são conflitantes, e alguns estudiosos chegam a estabelecer mais de 50 milhões para toda a América e 5 milhões só para a região Amazônica) foram dizimados pelo maior genocídio já praticado ao longo da História. A dominação desses povos ocorreu tanto sob a forma da violência mais concreta, com extermínios e escravizações, quanto sob o manto de uma elaborada imposição cultural.






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