Oficina de história: volume 1



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As Cruzadas

Além da intensa religiosidade, outras motivações estiveram por trás das Cruzadas: o controle das rotas do comércio com o Oriente, a conquista de terras e riquezas, a possibilidade do fortalecimento do poder dos monarcas feudais e a ampliação do poder da Igreja. Além disso, as Cruzadas exportavam para além das fronteiras da cristandade duas fontes de tensão social: as camadas empobrecidas e marginalizadas, que podiam envolver-se em revoltas populares e heresias, e os representantes da pequena nobreza, que, detentores de poucos recursos, viviam da pilhagem a senhorios e do assalto a comunidades camponesas.



AS CRUZADAS (SÉCULOS XI-XIII)

MÁRIO YOSHIDA

Fonte: Elaborado com base em ALBERT, J. Petit Atlas historique du Moyen Age. Paris: Armand Collin, 2007.

Relatos medievais

Outros fixavam a localização do Paraíso em alguma ilha fantástica, separada dos homens por águas perigosas e assustadoras. De uma forma ou outra, a obsessão pela materialidade desse lugar sonhado traduziu-se em expedições e em relatos de viagens que despertavam grande interesse em todos os níveis da sociedade medieval, dos mais humildes camponeses até os mais poderosos membros da aristocracia senhorial. Mais do que simples fantasias ou delírios de uma sociedade extremamente religiosa, as representações do Paraíso continham os desejos e as expectativas dos homens medievais. Muitas vezes, por trás dessas descrições havia críticas à sociedade da época.

A capacidade imaginativa do homem medieval levou-o a elaborar diversos outros lugares fantásticos, na maioria das vezes situados no Oriente. Reinos misteriosos e exóticos, ilhas repletas de riquezas e seres estranhos, povos que praticavam canibalismo e mantinham todo tipo de relações sexuais eram temas de relatos de viajantes que transpunham os limites da cristandade.

Por exemplo, no século XII, entre a segunda e a terceira Cruzadas, começaram a circular na Europa notícias sobre um rei-sacerdote cristão, possuidor de um rico e poderoso reino situado na Índia. Preste João, como era chamado, estaria combatendo os muçulmanos a partir do Oriente e teria quase chegado a conquistar a Terra Santa.

A proximidade com as terras do Paraíso fazia com que predominasse no reino um ambiente de paz e harmonia, onde se guardavam relíquias sagradas e onde havia uma fonte da juventude que impedia o envelhecimento e proporcionava saúde àqueles que bebessem de suas águas.

O Paraíso de São Brandão

Entre os séculos X e XV, circularam pela cristandade cerca de 120 manuscritos a respeito das viagens de São Brandão. O abade irlandês teria desafiado o temido oceano Atlântico em busca da suprema glória de encon-

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trar o Paraíso em uma embarcação feita com couro de boi, entre 565 e 573. Durante a viagem, o abade e outros monges se deparam com todo tipo de animais marinhos e fantásticos: baleia, serpente, grifo, dragão e uma congregação de monstros marinhos.

Antes de chegar ao Paraíso, os viajantes percorrem ilhas fantásticas repletas de riquezas, enfrentando tormentas e tentações demoníacas, sempre apoiados pela fé em Deus. Em terras infernais, encontram o diabo e o apóstolo Judas, este ainda sofrendo por sua traição a Cristo.

Finalmente, após sete anos de peripécias, chegam ao "recinto do qual Adão foi dono", localizado em uma ilha de altas montanhas de puro mármore, cuja entrada era guardada por dragões. No interior do Paraíso, o cenário corresponde às expectativas dos viajantes: numa temperatura sempre constante, semelhante a um doce verão, formosos bosques e jardins, rios, flores e frutas garantem abundância e maravilhosas fragrâncias. Ao final de sua estada no Paraíso, Deus teria permitido a São Brandão retornar com pedras preciosas.

As viagens do santo estimularam a imaginação de viajantes e cartógrafos. Muitas expedições foram realizadas ao final do século XV com o objetivo de descobrir a ilha lendária. Denominando-a ilha de São Brandão, diversos mapas forneciam sua localização, ao norte do Atlântico ou próximo às Ilhas Canárias, junto do Equador. Em alguns casos, o lugar foi representado por um arquipélago denominado Bracir, etimologicamente aparentado do idioma irlandês, que teria uma expressão para designar ilhas afortunadas: O'Brazil.

Não eram apenas o fascínio do Paraíso e a mística da peregrinação que motivavam os europeus a empreender viagens para além da cristandade. Muitos viajantes desejavam obter mercadorias que eram raras na Europa, valiosas o suficiente para compensar os riscos enfrentados nas expedições. As especiarias, como eram conhecidas, começaram a penetrar nos mercados europeus com maior frequência a partir do século XIII, vindas dos mais distantes pontos do Império Mongol. O comércio oriental manteve-se relativamente regular até o final do século XIV, sendo interrompido com a derrocada do Império Mongol e o avanço dos turcos sobre a Ásia Menor, que culminaria com a conquista de Constantinopla em 1453. Trazidas por comerciantes de diversas cidades italianas, as mercadorias orientais vinham acompanhadas de informações e relatos sobre o Oriente. As motivações materiais caminhavam lado a lado com as representações imaginárias.

As viagens de Marco Polo

O relato mais conhecido é o do veneziano Marco Polo, que teria partido para o Leste com 17 anos, acompanhando seu pai e seu tio, que já haviam conseguido chegar a Pequim em 1265. Nessa primeira viagem, os dois mercadores conheceram o Grande Khan (uma espécie de rei), que lhes deu uma carta na qual pedia ao papa o envio de padres para ensinar o cristianismo aos mongóis.

A segunda viagem só pôde realizar-se em 1271. Depois de três anos e meio de jornada, chegaram ao seu destino, sem os sacerdotes, que, temerosos, logo abandonaram a expedição.

Por sua facilidade em aprender idiomas, Marco Polo passou a comunicar-se com habilidade em mongol, persa e árabe, o que agradou ao Grande Khan. Assim, o jovem italiano foi encarregado de várias missões diplomáticas nos mais diversos pontos da China. Cerca de vinte anos depois, os mercadores tiveram permissão para retornar à Europa. Marco Polo regressou a Veneza em 1295. No ano seguinte, foi aprisionado por genoveses, então em guerra contra sua terra natal. No cárcere, ditou suas aventuras a outro prisioneiro, Rusticiano de Pisa, e anos depois publicou-as no intitulado Livro das diversidades e maravilhas.

Segundo Marco Polo, seu livro era fundamentalmente "uma descrição do mundo oriental". Trata, com detalhes, das dimensões e características do Império Mongol e de outras regiões até então nunca relatadas no Ocidente, como a imensa e riquíssima ilha de Cipango (Japão), localizada no meio de um vasto oceano a leste da China. Os aspectos referentes ao Paraíso Terrestre e outras regiões lendárias também faziam parte de suas descrições. Ele conta que, ao passar pela Pérsia, ouviu relatos da existência de uma árvore imensa, que chegava a tocar o céu e previa o futuro. Essa árvore profética, segundo lendas que circulavam durante a Idade Média, havia sido consultada pelo imperador macedônico Alexandre Magno, a quem previu que não voltaria vivo à Macedônia.




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