Oficina de história: volume 1


Médicos árabes. Iluminura extraída do manuscrito



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Médicos árabes. Iluminura extraída do manuscrito Al-Maqamat, de Abu Muhammed al-Kasim al-Hariri, 1237.

Os sucessores de Maomé

Maomé morreu em 632. A sucessão do poder islâmico ocorreu a partir da sua família. Os dois primeiros califas (sucessores) foram dois sogros do profeta: Abu Bakr e Omar. Em 644, um integrante da família Omíada, uma das mais poderosas de Meca, era escolhido como califa. Othmã era genro de Maomé e sofreu oposição de muitas comunidades de beduínos e de habitantes de Medina; acabou assassinado por um muçulmano em 656. Ali, primo de Maomé e sucessor de Othmã, foi acusado de envolvimento com o crime.

O Islã viveria sua primeira guerra civil. Contando com apoio popular, o califa Ali teve sua autoridade questionada pelo governador da Síria, Muhawya. Como parente de Othmã, segundo os costumes tribais que ainda se mantinham apesar da organização do Islã, Muhawya tinha o dever de exigir apuração do crime. Isso punha em xeque a autoridade de Ali, que acabou assassinado por outro muçulmano.

Fortalecido, Muhawya tornou-se califa. No seu governo, fundou a dinastia Omíada, tornou o califado hereditário e transferiu a capital de Medina para Damasco, na Síria, longe das areias, oásis e beduínos da Arábia. Os seguidores de Ali ficaram conhecidos como xiitas. São os defensores da sucessão a partir da família do profeta. O grupo mais numeroso ficou conhecido como sunita.

Economia e cultura

Apesar das muitas divisões internas, a partir do século VII, o Império Islâmico reordenava o comércio entre o Oriente e o Ocidente. O Mediterrâneo, transformado em um mar árabe, permitia a circulação de produtos de luxo: sedas, porcelanas, marfim, pimentas, ervas, perfumes e açúcar. Muitas caravanas de mercadores cruzavam os desertos, paravam em cidades, acampavam junto a oásis. Os comerciantes viajavam da Arábia até a Europa. Passavam pela África, Palestina, Pérsia. Chegavam até a Índia e a China. O deserto do Saara era percorrido em todas as direções por enormes caravanas que chegavam a contar com mais de 10 mil camelos. Os empoeirados beduínos, conhecedores do deserto, de seus movimentos e de suas miragens, pareciam ocupar toda a cena de uma vasta paisagem.

A conquista islâmica provocou mudanças no comportamento dos árabes. Os antigos beduínos que cercavam os novos califas acostumavam-se com o conforto de palácios suntuosos, tesouros incontáveis e cidades populosas. Tantas conquistas permitiram aos árabes incorporar às suas próprias tradições elementos das



Professor(a): Pode ser interessante propor ao(à) professor(a) de Biologia que aproveite a oportunidade para discutir, com os estudantes, aspectos da história da medicina, explorando a singularidade do avanço médico no Islã.
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culturas bizantina, persa, indiana e grega. Impressionados com os saberes registrados nos manuscritos de ciências dos gregos, os árabes traduziram escritos da cultura helenística para a sua língua, e graças a essa abertura aos conhecimentos desenvolvidos pelos povos com que tiveram contato muitos deles fizeram-se astrônomos, médicos, filósofos, arquitetos e alquimistas.

A literatura árabe também conta com um registro da assimilação de culturas diversas: o livro As mil e uma noites reúne histórias oriundas da Índia, da Pérsia, da Ásia Menor; em suma, das terras alcançadas e conquistadas pelos islâmicos. Os contos que compõem a obra até hoje encantam os leitores ocidentais e inspiraram autores importantes, como os franceses Voltaire (1694-1778) e Victor Hugo (1802-1885) e o argentino Jorge Luís Borges (1899-1986).

MUÇULMANOS NA PENÍNSULA IBÉRICA (SÉCULO VIII)



MÁRIO YOSHIDA

Fonte: Elaborado com base em NICOLLE, D. Atlas histórico del mundo islámico. Madrid: Thalamus, 2003.

A conquista da península Ibérica

Do norte da África, comandados por Tarik, os muçulmanos atravessaram o Mediterrâneo pelo estreito que separa o Marrocos da península Ibérica. A palavra árabe ficou gravada na região: Jibril al Tarik, "rocha de Tarik", localizada no estreito de Gibraltar. Em menos de cinco anos, os muçulmanos conquistaram quase toda a península Ibérica.

A influência árabe é visível em vários aspectos da sociedade ibérica: na arquitetura, na arte, na medicina, na química, na astronomia e na língua portuguesa. Muitas palavras árabes, por exemplo, fazem parte do nosso vocabulário: algarismo, álcool, alaridos (grito de guerra dos muçulmanos), alferes (antigo cavaleiro árabe), algazarra (gritaria), Algarve (onde se fala a língua árabe), alcatra (peça de carne), oxalá (que Alá o queira; ou "tomara").

Após a conquista, os povos ibéricos foram submetidos às regras islâmicas. Uma parcela da população subjugada refugiou-se ao norte, numa região montanhosa, que acabou abrigando romanos, celtas, visigodos, bascos e suevos. Lá formaram pequenos reinos cristãos.

No Al-Andaluz (a área dominada pelos muçulmanos) as populações cristãs e judaicas puderam manter suas crenças. Eram tidos como os "protegidos", povos que detinham livros sagrados (Torá, no caso judaico, que reúne os livros do Antigo Testamento, e a Bíblia, no caso cristão).

ÁFRICA: O IMPACTO DO ISLÃ

O Islã talvez tenha se constituído como a influência mais penetrante e duradoura no continente africano, pois conseguiu ultrapassar as fronteiras do deserto. No período de cerca de quatro séculos de conquistas, que teve início com a invasão do Egito (639), a religião muçulmana se tornou a fé predominante no norte da África, se propagou através do Saara e criou raízes na África ocidental e na África oriental. Ao fazê-lo, começou a reintegrar a África subsaariana ao restante do continente, pela primeira vez, desde o ressecamento do Saara.

Entretanto a religião muçulmana não foi a primeira a pregar as ideias de um povo eleito e a fé em um único deus. Elementos da cultura e da religião judaicas circulavam pelo norte da África desde o século V a.C. através das rotas mercantis gregas e cartaginesas.
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ÁFRICA (1000 d.C.)



MÁRIO YOSHIDA

Fonte: Elaborado com base em SMITH, S. Atlas de L'Afrique. Paris: Autrement, 2005.

O cristianismo, por sua vez, difundiu-se entre agricultores e habitantes das cidades, a partir do século II d.C. A religião muçulmana expandiu-se entre mercadores, pastores, agricultores e habitantes das cidades.

O Islã e as rotas africanas

Do ponto de vista econômico, a expansão islâmica colocou o continente africano no centro mercantil entre a Ásia e a Europa, através da organização do comércio transaariano em larga escala, a partir do reaproveitamento de antigas rotas. A faixa mediterrânea da África serviu de base para os avanços na península Ibérica e Sicília, por um lado, para o Saara e Sudão, por outro.

Do Egito o Islã expandiu-se para o sul, rumo à Núbia e ao Sudão oriental (Etiópia), onde encontrou a resistência dos antigos reinos cristãos. A cultura islâmica também penetrou regiões ao sul através do mar Vermelho, favorecendo o aparecimento de reinos muçulmanos em torno dos núcleos cristãos.

Na Núbia, os reinos cristãos formados após o desmoronamento do império de Kush conseguiram manter certa autonomia através de um acordo de paz com os islâmicos, pelo qual se comprometiam a fornecer negros escravizados e ouro. Na Etiópia, o Reino de Axum manteve sua independência política, cultural e religiosa, mas permaneceu isolado economicamente com o monopólio islâmico no mar Vermelho. Até o século XV, o reino etíope seria uma ilha cristianizada cercada pelas possessões muçulmanas.

O Islã expandiu-se pela costa oriental da África até Madagascar, através das rotas comerciais do oceano Índico. No século VIII, os muçulmanos se fixaram na costa, fundaram postos comerciais e mantiveram contatos com os povos africanos do litoral de origem bantu. Dessa interação entre árabes e africanos nasceu uma sociedade afro-muçulmana com cultura e língua próprias: a sociedade swahili (pronuncia-se suarrili), que

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vem do árabe sahel e quer dizer "costa ou margem". A língua swahili, originalmente uma fusão de línguas africanas com o árabe, tornou-se a língua utilizada no comércio da costa. O interior, rico em jazidas de ouro, escapou às influências islâmicas, de início, mas a crescente demanda pelo metal acabaria por provocar grandes mudanças na região ao sul do rio Zambeze.

A oeste, no chamado Magreb (ocidente), a chegada dos árabes modificou a paisagem sociocultural da região. Os mercadores árabes passaram a dinamizar e integrar uma vasta rede, de tal forma que o comércio saariano se desenvolveu rapidamente, tanto de oeste para leste (do Atlântico ao mar Vermelho), como de norte a sul, entre o Saara e a África subsaariana.

O sistema de trocas africano

O comércio transaariano fez do Reino Soninké de Ghana a potência dominante do sul do Saara, centro de uma rede de rotas para o comércio de sal, ouro, marfim e pessoas escravizadas. Através da cobrança de taxas sobre o comércio, os soberanos de Ghana puderam acumular riquezas que permitiram manter uma suntuosa corte real e um poderoso exército capaz de controlar as regiões auríferas.

Nas regiões ao sul do Saara o sistema mudava completamente, devido ao limite para a atuação dos camelos. Eles somente podiam bordejar o deserto. Nas regiões de savanas as mercadorias eram redistribuídas e carregadas por burros e bois, que podiam prosseguir para o sul. A imensa caravana dividia-se em outras menores, como um reino que se dividia em pequenos principados. As grandes artérias do deserto ramificavam-se numa rede de trilhas que se conectavam com os principais mercados. A floresta também determinava o limite de atuação dos animais de carga. Assim, as trilhas davam lugar a uma rede de vias fluviais.

No continente africano estabelecia-se, portanto, um imenso sistema de trocas, capaz de interligar regiões distantes e populações diversas.

Fatimidas: um Império Berbere

No Magreb, os povos Berbere haviam aceitado o Islã, sem que isso implicasse a aceitação da autoridade imperial. E, em fins do século IX, surgiu um grande movimento religioso que fugiu ao controle efetivo do califado de Bagdá.

A difusão das ideias xiitas por missionários alcançou um espantoso sucesso no Magreb, em fins do século IX. A pregação acerca de os estados muçulmanos existentes não serem legítimos encontrou rápido acolhimento entre os Berbere-Kutama das montanhas de Kabília.

A pregação logo se tornou um movimento sob lideranças xiitas, que defendiam a intervenção direta dos chefes religiosos na política, pois estes haviam se legitimado proclamando-se descendentes de Fátima, filha do profeta Maomé. Os fatimidas, como ficaram conhecidos, organizaram um exército que, no início do século X, conquistou todo o norte da África. Mas para assegurar sua posição os fatimidas desencadearam uma série de campanhas contra os diversos povos do deserto até que fossem submetidos.

Em 969 conquistaram o Egito e quatro anos depois o poder central foi transferido para a nova capital, Qahira (Cairo), que quer dizer "A vitoriosa". Com a conquista do Egito pelos fatimidas, a ocupação se inverteu. Os Berbere tinham constituído um império que se estendia do Marrocos até a Palestina.

Entretanto, a constante oposição dos povos Berbere à centralização levou à divisão da região do Magreb em reinos autônomos no século XI.



IMPÉRIO FATIMIDA (C. 1000)

MÁRIO YOSHIDA

Fonte: Elaborado com base em NICOLLE, D. Atlas histórico del mundo islámico. Madrid: Thalamus, 2003.

Caravanas: reinos em movimento

As caravanas eram uma combinação temporária de mercadores, carregadores, soldados, peregrinos e estudiosos que iam e vinham dos lugares santos (Meca e Medina) ou dos centros da vida intelectual islâmica, como Cairo (Egito) e Kairuan (ao sul de Cartago).
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Proposta: Pode ser interessante retomar os mapas da página 49 (sobre o Império de Kush), página 110 (sobre a África séc. III d.C.), página 126 (com os reinos da Núbia e Etiópia) e página 131 (sobre a África no Ano Mil) para identificar as particularidades da Núbia e Etiópia e o processo de difusão do cristianismo nessas regiões. Pode-se também realizar uma sequência didática com os mapas das páginas 184, 236, 244 e 245, deste volume, juntamente com o mapa da página 206 (África 1914) e o item “A Etiópia independente” da página 208. Todos esses elementos ajudarão a entender a dimensão cultural e política do imperador Haile Selassié e o pan-africanismo, que desenvolvemos às páginas 178 e 179 do volume 3.

A caravana era organizada como uma comunidade tanto política quanto econômica. Uma espécie de reino em movimento. Uma liderança era nomeada e, além de impor disciplina, era responsável por representar seus componentes nas relações entre as autoridades locais ao longo da rota. Muitas vezes o líder da caravana era também investido de cargo religioso e cuidava para que fossem realizadas as orações diárias. Homens armados eram convocados para proteger as mercadorias e os viajantes contra eventuais ataques. Esses homens funcionavam como uma espécie de muralha em movimento.



BIBLIOTECA NACIONAL, PARIS, FRANÇA






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