Oficina de história: volume 1



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O arianismo

Os principais pontos da doutrina cristã eram o monoteísmo, a Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), o Juízo Final, o batismo, a penitência e o arrependimento. Tais aspectos foram interpretados de forma diversa e às vezes conflitante por seus seguidores.

A questão da Trindade provocou muitas divergências. Para alguns, Deus não havia encarnado em Cristo. Para outros, Cristo era o próprio Pai. Em Alexandria, no século IV, o padre Ário defendia que Cristo fora criado pelo Pai e, portanto, não era da mesma substância nem coeterno com o Pai. A polêmica tomou conta da cristandade.

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O imperador romano Constantino convocou o Concílio de Niceia (325) para discutir a questão. O concílio deliberou que Pai e Filho eram da mesma substância, que Cristo não era uma simples criatura e havia sido engendrado e não criado, e era coeterno com relação ao Pai.

O arianismo foi condenado como uma heresia (do grego: háiresis, escolha), uma interpretação diferente daquela considerada ortodoxa (do grego: orthodoxos, opinião reta), adotada pela Igreja. As opiniões de Ário, no entanto, continuaram a se propagar pelo Império e foram assimiladas por godos e ostrogodos já no século IV.

Desde então, os povos germânicos sofreram as influências do cristianismo. Mas, num primeiro momento, possivelmente em razão de seu politeísmo original, era mais fácil assimilar o arianismo (que concebia o Deus Pai como superior ao Deus Filho) do que o cristianismo romano (que sustentava o mistério da Trindade e a equivalência entre Pai, Filho e Espírito Santo).

Os ostrogodos, que haviam conquistado a península Itálica no século V sob o comando de Teodorico, eram arianos. Seu rei, aliás, estava muito longe da imagem de homem rude e selvagem. Fora educado em Constantinopla e escolhera para chefiar seu governo na península o filósofo Boécio (480-525), tradutor das obras de Platão e Aristóteles para o latim.

Os visigodos que controlavam territórios na Gália (atual França) e na Hispânia (península Ibérica) igualmente seguiam o arianismo desde o século IV. Os suevos, também assentados na península Ibérica, aceitaram a doutrina de Roma em 448, mas foram dominados pelos visigodos no século VI e tiveram que se submeter ao arianismo. Os vândalos, que acabaram sediados no norte da África após passarem pelo sul da Hispânia (a denominação Andaluzia possivelmente origina-se de vândalos), adotaram o arianismo desde o início do século V.

Foram os francos que se constituíram no primeiro reino germânico sob influência de Roma. Estabelecidos na Gália e em luta constante contra tropas romanas e contra outros povos germânicos (visigodos, burgúndios, alamanos e ostrogodos), os francos unificaram-se sob o comando de Clóvis, batizado em 498. A partir de então, puderam contar com a estrutura da Igreja a seu favor e montaram um núcleo político-religioso que favoreceu a conquista da maior parte da Gália no século VI.

MEROVÍNGIOS

O nome da dinastia franca reinante entre os séculos V e VIII remete a um antepassado lendário que teria sido avô de Clóvis, denominado Meroveu. Há também referências a um antepassado mítico, um deus marinho do mar do Norte que teria raptado uma rainha franca. De qualquer modo, seus governantes eram conhecidos como os "reis de cabelos compridos", costume que usavam para se distinguirem dos romanos e dos padres da Igreja.



CONQUISTA DA GÁLIA POR CLÓVIS E SEUS FILHOS (SÉCULOS V-VI)

MÁRIO YOSHIDA

Fonte: Elaborado com base em DUBY, G. Atlas historique. Paris: Larousse, 1987.

A aliança entre a Igreja e a monarquia franca

A aliança entre o trono e o altar permitiu, de um lado, a expansão do reino franco. De outro lado, auxiliou a Igreja de Roma na difusão da ortodoxia contra o paganismo e o arianismo. Outros reinos acabaram por seguir o mesmo caminho traçado pelos francos. Os visigodos adotaram oficialmente o cristianismo de Roma em 589. Os anglo-saxões fariam o mesmo a partir do final do século VI. Os lombardos, somente a partir do século VII. Nesse contexto, ocorreu uma concentração crescente da cultura escrita por parte do clero (no latim clerus; clerc, em francês, letrado, e clerk, em inglês, copista). Além deles, uma massa de iletrados cada vez mais distantes das técnicas
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de leitura e influenciados pelas culturas germânicas e célticas: os leigos.

Assim, enquanto se aprofundava o processo de ruralização e de enfraquecimento das cidades (iniciado em torno do século III, no começo da crise do Império Romano), havia uma ampliação numérica dos camponeses. Ao mesmo tempo, nas cidades e nas instituições da Igreja ocorria um movimento de preservação da cultura greco-romana, com a reprodução de cópias de escritos clássicos e a elaboração de comentários, obras didáticas e de síntese.

A educação antiga desaparecia lentamente. A partir do século VI, a cultura escrita tornara-se um privilégio das famílias aristocráticas e surgiram escolas episcopais voltadas para a formação dos religiosos.

O resultado desses movimentos foi a ampliação da distância cultural e social. De um lado, uma elite clerical letrada que assumia poderes políticos e religiosos. De outro, uma imensa camada de camponeses e também de guerreiros iletrados que acreditavam em diversos deuses e nos poderes mágicos da natureza. O paganismo, apesar das conversões oficiais, estava apenas superficialmente encoberto.

No entanto, a aproximação dos reis germânicos com as autoridades de Roma permitiu à Igreja realizar um esforço evangelizador em duas direções: o combate direto às práticas pagãs e a incorporação de elementos do paganismo aos rituais cristãos.

O pagão era identificado como um camponês rude que nutria uma série de superstições. Para combater suas crenças, o clero procurou destruir seus templos e ídolos e proibir festividades e jogos identificados com o paganismo.

A luta contra a herança pagã se dava, por exemplo, em relação à morte. Os cemitérios ficavam afastados das povoações e os túmulos eram cobertos de arbustos espinhosos para impedir que os cadáveres viessem atormentar os vivos. Além disso, acreditava-se que os mortos precisavam ser apaziguados de tempos em tempos, o que se fazia mediante grandes banquetes funerários, nos quais as famílias dos falecidos ofereciam comidas, cantos e danças.

Condenando severamente essas celebrações, o clero procurou controlar os rituais fúnebres. Em consequência, cemitérios passaram a existir dentro das aldeias e depois nas cidades, ao redor das igrejas. Sepultados em campo santo, os mortos ficariam em paz, não havendo mais razão para a angústia dos vivos nem para práticas reprováveis. Em lugar das oferendas aos mortos, missas e orações orientadas pelo clero.

Em outros casos, procurou-se mudar os significados de algumas práticas religiosas. Toleravam-se amuletos, desde que tivessem uma cruz. Cristianizavam-se elementos do culto pagão: em lugar dos deuses, os santos cristãos passavam a conferir sacralidade a árvores, montanhas e rios. No lugar de templos não cristãos, erguiam-se igrejas tidas como "sermões de pedras" para converter e advertir os pagãos.





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