Oficina de história: volume 1


Kouros. Mármore, c. 590-580 a.C



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Kouros. Mármore, c. 590-580 a.C.

A referência é egípcia: maciço e cúbico, silhueta delgada de ombros largos, punhos cerrados, perna esquerda adiantada, rótula acentuada e tratamento formalista do cabelo. É a mais antiga estátua humana de vulto redondo (técnica de escultura de três dimensões), em tamanho natural, de pedra, em pé e sem qualquer apoio. O escultor separou os braços do torso e as duas pernas, suprimiu todo o material desnecessário (exceto a ligação dos punhos com as coxas) e superou a referência egípcia dando movimento à pedra inerte. Não se trata de diferença técnica, mas de intenção artística. Ao libertá-la da pedra, dotou a estátua de um espírito totalmente diferente das estátuas egípcias. Esse tipo de representação é denominada Kouros (homem jovem) ou Koré (mulher jovem). Tais figuras foram largamente produzidas no Período Arcaico. A ausência de diferenciação é a característica essencial dessas figuras. Não são deuses/deusas, nem homens/mulheres, mas um tipo ideal de perfeição física.

Lentamente, as comunidades gentílicas foram se desagregando. O crescimento demográfico e a escassez de terras férteis são considerados os principais elementos transformadores do convívio entre os gregos. Disputas envolvendo terras cultiváveis motivaram o surgimento de mecanismos de controle sobre a população marginalizada.

Genos de uma mesma região, já próximos culturalmente, foram se organizando para a defesa das terras férteis. Essa união produziria lentas modificações políticas e econômicas. As alianças levaram ao enfraquecimento do pater familias e ao fortalecimento de um chefe militar supremo, o basileu. A fragilização do pater abriu espaço para a divisão das terras e o surgimento da propriedade privada nas mãos dos bem-nascidos: os eupátridas.

É nesse contexto que, após o século VIII a.C., a vida urbana renasceu. A escrita voltava a ganhar espaço, utilizando agora os caracteres mais aperfeiçoados dos fenícios.

O PERÍODO ARCAICO (VIII-V A.C.)

As cidades-Estado gregas, denominadas póleis (no singular, pólis) desenvolveram-se de forma diversa e espalharam-se pela região dos Balcãs e ilhas adjacentes. Cada pólis constituía-se em uma instituição política independente, como um pequeno Estado soberano, que articulava o espaço urbano e a área rural próxima.

Os laços de parentesco dos diversos clãs e tribos integrantes de uma pólis, remanescentes do Período Homérico, mantinham-se como referências e remetiam a uma ancestralidade comum, em geral lendária ou mítica. Mas, o conjunto desses diversos níveis de solidariedade passou a ser conhecido como demos (povo), ao mesmo tempo, território e população por ele ocupado, que estabelecia uma outra fronteira, mais jurídica que espacial, entre os naturais da cidade e os estrangeiros, desprovidos de direitos.

Com isso, operava-se uma alteração decisiva em relação à vida social que se desenvolvera no período Creto-Micênico (e até mesmo considerando-se as pequenas cidades daquele período). Se naquela altura o palácio era o centro da vida social, a partir do século VIII a.C. seriam as praças das assembleias, as ágoras, os lugares de decisões e a partir das quais se organizavam a vida social.

A ágora era uma praça pública, um lugar de reuniões antes de ser a praça do mercado. Nela se dava o exercício da política, da disputa, da competição, do convencimento. Como afirmou Jean-Pierre Vernant, onde a política tomava a forma de agón, de combate, de jogo.

O novo poder da palavra

Esse novo quadro urbano provocou uma alteração cultural. A palavra, anteriormente marcada pelos rituais e pelas narrativas dos aedos, passou a ser instrumento político, do debate e da discussão. Significativamente, a palavra foi vinculada a uma divindade, Peithó, deusa da persuasão e da sedução.

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A argumentação necessária ao convencimento nos debates exigia o desenvolvimento da racionalidade e da retórica. A política grega era, essencialmente, o exercício da linguagem e da reflexão.

Isso não significa que os gregos tivessem abandonado suas crenças religiosas, seus rituais, seus santuários e seus deuses. As dimensões do sagrado coexistiam com as práticas políticas. Mas, se compararmos com o papel que as crenças tiveram no Egito e na Mesopotâmia, levando até mesmo à divinização de seus dirigentes, podemos perceber a redução de sua importância na cultura grega.

Caminhos diferentes marcaram os dois exemplos mais importantes de póleis gregas: Esparta e Atenas. De todas as cidades-Estado, esta última foi a que desenvolveu mais intensamente a relação entre a palavra, o conhecimento e a política, como veremos mais à frente.

No entanto, um traço foi praticamente comum às cidades-Estado gregas. A escravidão, ou seja, a sujeição de seres humanos à condição de propriedade de pessoas ou da pólis, foi uma das características marcantes do mundo grego.



AS PÓLEIS GREGAS (750-338 a.C.)

MÁRIO YOSHIDA

Fonte: Elaborado com base em Atlas histórico. São Paulo: Encyclopaedia Britannica do Brasil, 1989.

Os Jogos Olímpicos

A cada quatro anos eram organizados jogos para homenagear Zeus, o mais importante dos deuses dos gregos. O lugar dessas competições era a cidade de Olímpia, numa referência à morada dos deuses na alta montanha sagrada. Há várias lendas que tratam da origem dos Jogos

Olímpicos. Uma delas afirma que Atlios, filho de Zeus, teria instituído os jogos em memória de seu pai. Nesses primeiros tempos, as competições denominavam-se atla e seus participantes seriam os atletas.

A primeira Olimpíada da Antiguidade de que se tem registro seguro ocorreu em 776 a.C. Apenas duas cidades enviaram seus representantes. Nos jogos seguintes, em 772 a.C., um jovem, após vencer uma corrida, subiu no monte onde se encontrava o templo de Hermes, deus da velocidade, e depositou o prêmio de sua vitória: a coroa de louros. A partir de então, cada vez mais cidades integravam-se às competições enviando seus atletas. E os jogos passaram a ser disputados em sete dias. No início, disputavam-se apenas provas de corrida simples. Posteriormente, foram incluídas a corrida com armas, a luta (pugilato), o pentatlo (corrida, luta, arremesso de dardo, de disco e de peso) e as corridas de cavalo, biga e quadriga.

A semana dos Jogos era um período de trégua geral na Grécia Antiga. Simbolizava o esplendor da força humana e o desenvolvimento do corpo com os valores do espírito. E um momento mágico de aproximação com os deuses.

Tensões sociais e a colonização grega

Durante o Período Arcaico, a economia estava baseada nas atividades agrícolas e no pastoreio. As escassas terras férteis eram controladas pelos chefes de clãs, que haviam reduzido o poder dos reis na maioria das póleis gregas.

Esses chefes constituíam aristocracias (em grego, governo dos melhores), e consideravam-se descendentes dos heróis míticos. Na prática, os aristocratas possuíam as melhores terras e controlavam os poderes político e judiciário nas diversas cidades-Estado.

As insatisfações entre os desfavorecidos desembocaram em dois movimentos fundamentais. Ao longo do Período Arcaico, verificaram-se intensas lutas políticas por reformas sociais e jurídicas, com o objetivo de garantir a ampliação da participação nas decisões e a distribuição de terras. Paralelamente, entre 750 e 550 a.C., organizaram-se migrações de gregos em grupos que se aventuravam pelo Mar Mediterrâneo em busca de terras onde pudessem se estabelecer.

A colonização grega, como essa migração ficou conhecida, garantiu por meio da conquista a expansão da cultura helênica pelo Mediterrâneo e a fundação de diversas outras pequenas cidades-Estado independentes.

Em seu processo de expansão, os gregos estabeleceram-se no Sul da Península Itálica e na Sicília (região que denominaram de Magna Grécia), na Córsega, no Sul

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da Gália (atual França), na costa mediterrânea da Península Ibérica e ao Norte do continente africano. Também espalharam-se pela costa da Ásia Menor e estabeleceram colônias no litoral do Mar Negro.

A expansão grega estimulou as atividades mercantis e artesanais e levou ao crescimento do seu poderio naval. Com isso, internamente, comerciantes enriquecidos passavam também a pressionar os aristocratas exigindo reformas políticas. Do ponto de vista externo, os gregos começaram a rivalizar com os fenícios que controlavam boa parte do comércio no Mediterrâneo (como vimos no capítulo anterior).

Em particular, Cartago, cidade fenícia que se tornou autônoma em 650 a.C. e estabeleceu pequenas feitorias (entrepostos fortificados) no litoral africano e no sul da Península Itálica.

Aos confrontos com os cartagineses somaram-se também os enfrentamentos com os etruscos, estabelecidos na Península Itálica. A expansão grega acirrou as disputas pelo controle do comércio mediterrâneo.

GREGOS E FENÍCIOS (SÉCULOS VI-IV a.C.)



MÁRIO YOSHIDA

Fonte: Elaborado com base em BLACK, J. (Org.). World history atlas. London: Dorling Kindersley, 2008.

Esparta


De acordo com a mitologia, Lacedêmon, filho de Zeus, casou-se com Esparta, filha do rio Eurotas. Lacedêmon transmitiu seu nome aos seus descendentes, os lacedemônios, e definiu a denominação da capital de seu reino com o nome de sua esposa, Esparta. Lacedêmon era também conhecido como Lácon e, a região dominada por seus descendentes, como Lacônia.

Esparta estava localizada na Lacônia, em torno do rio Eurotas, que formava um vale de terras férteis que favoreciam as atividades agrícolas. O litoral da Lacônia, no entanto, não era favorável ao embarque e desembarque de navios, devido a seus penhascos e pântanos. As condições geográficas favoreciam o isolamento dos espartanos.

Descendentes dos dórios, os espartanos submeteram os messênios e toda a região da Lacônia, transformando a população conquistada em hilotas (aprisionados), que deviam aos espartanos uma parte da produção extraída de suas terras. Há historiadores que definem oshilotas como escravos. Mais preciso, porém, é considerar sua condição social próxima da servidão, por não se constituírem plenamente como propriedade.

Além dos hilotas, que se dedicavam às atividades agrícolas e pastoris, na sociedade espartana havia também os periecos. Eram estrangeiros livres que tinham direitos políticos limitados, deviam prestar serviço militar a Esparta, ocupavam-se das atividades mercantis e habitavam as terras das periferias da cidade.

A partir das conquistas foi se consolidando o caráter militar de Esparta. Os cidadãos espartanos não se prestavam a atividades manuais e dedicavam-se integralmente ao treino para a guerra. Desde os sete anos, os meninos recebiam treinamento militar, que consistia em viver em acampamentos, praticar exercícios, participar de competições e suportar provações físicas.

O rígido controle disciplinar e o baixo estímulo às atividades intelectuais não permitiram que em Esparta a palavra se desenvolvesse como um instrumento da política. As decisões coletivas eram tomadas em assembleias de guerreiros com mais de trinta anos, controladas pela Gerúsia, o conselho dos mais velhos (veja infográfico à p. 74).

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ESTRUTURA POLÍTICA E SOCIAL DE ESPARTA (SÉCULO VII a.C.)



A+ COMUNICAÇÃO

MUSEU BRITÂNICO, LONDRES, INGLATERRA

Fonte: Elaborado com base em KINDER, H.; HILGEMANN, W. Atlas histórico mundial. Madrid: Akal, 2006.

Apenas após completar trinta anos o espartano tornava-se um cidadão pleno. Além de participar das assembleias podia pernoitar em sua própria casa. Até então, permanecia nos acampamentos militares coletivos. Supõe-se que, após a vitória sobre os messênios no século VIII a.C., tenha havido uma divisão de terras que conferia uma certa igualdade social entre os espartanos, que se autodefiniam como homoioi (os iguais).

O vocabulário reduzido da imensa maioria dos espartanos ficaria registrado na palavra laconismo, derivada da região da Lacônia, por eles dominada.

Atenas

De acordo com a mitologia, Zeus engoliu sua primeira esposa, Métis, ainda grávida. Isso ocorreu porque as previsões de Urano e de Geia indicavam que Métis daria à luz uma filha, cuja descendência arrebataria o poder de Zeus.



Meses depois, Zeus passou a ter dores de cabeça insuportáveis e ordenou ao deus Hefesto que lhe abrisse o crânio com um machado, de onde saiu a deusa Atena, armada com uma lança. Nascida da cabeça de Zeus, Atena era considerada a deusa da sabedoria, do conhecimento, das artes e da estratégia militar.

Conhecida como a Grande Mãe em diversas partes da Grécia, tornou-se a protetora da cidade de Atenas, que vigiava instalada no Partenon, templo construído na Acrópole, a parte mais alta da cidade.

Atenas constituiu-se em uma das maiores cidades-Estado da Grécia com cerca de 2.600 km2 , contrastando com a maioria. Para se ter uma ideia, na pequena Ilha de Ceos, de 173 km2 , havia quatro póleis.

Estabelecida em uma região de terras pouco férteis, desde a época micênica, sua produção agrícola estava baseada em oliveiras e vinhas. No litoral de seu território havia o porto de Pireu, que contribuiu para o desenvolvimento de suas atividades marítimas e mercantis.

Em torno do século VIII a.C., o poder em Atenas era exercido por um pequeno grupo de aristocratas, detentores das melhores terras, que havia substituído a monarquia por uma oligarquia (governo de poucos). Os aristocratas deliberavam sobre a guerra e a administração da cidade, dividiam entre si os cargos públicos e aplicavam a justiça, a partir de leis costumeiras que não possuíam registro escrito. Tal situação dava margem a manipulações e interpretações de acordo com os interesses desses aristocratas.

O desenvolvimento econômico de Atenas, marcado pelas atividades mercantis e marítimas, possibilitou o enriquecimento de comerciantes que não tinham direito a participação nas decisões políticas da cidade no século VII a.C.

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