ObservaçÕes sobre tiana, a primeira princesa negra da disney



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bonvivant, a personagem não é o “solucionador de problemas”, disposto a salvar a mocinha de 

todas as formas possíveis. Ao contrário, é retratado como "causador de problemas", um "anti-

herói", um “boa vida” charlatão. 

Apoiando-nos em Pillar (2011, p.132) podemos dizer que cenas como esta manifestam 

propósitos moralizantes que podem vir a orientar o comportamento das crianças. São produtos 

midiáticos como desenhos,  filmes, brinquedos  derivados  “[...] de publicações e filmes  –  dos 

estúdios Disney, por exemplo – que reforçam clichês em relação à classe social, etnia, gênero, 

etc.”.Consideramos que no filme A princesa e o sapo, ao contrário dos príncipes brancos, os 

negros não são confiáveis. 

Clichês relativos à classe sociais, sexualidades, gêneros e raças podem ser percebidos 

também em outra cena quando Tiana organiza o espaço que futuramente será seu restaurante. 

Eudora,  sua  mãe,  a  aconselha  a  se  preocupar  menos  com  o  trabalho  e  mais  com  sua  vida 

amorosa: “É isso que eu quero para você. Que conheça seu príncipe encantado, dance com ele 

e que sejam sempre felizes” (figura 6).  

 

Figura 6:Tiana e sua mãe dentro do salão. 




 

 

 



Fonte: Print Screen, 13’37’’, A princesa e o Sapo (2009). 

 

Esses  discursos  legitimam  os  clichês  também  evidenciados  em  outros  filmes  e 



animações  da  Disney  (PILLAR,  2011;  SABAT,  2003).  Em  sua  fala,  a  mãe  enfatiza  a 

importância  da  figura  do  homem,  reforçando  o  discurso  de  que,  para  ser  feliz,  a  mulher 

precisa encontrar seu “príncipe encantado” e se casar com ele

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. Como se não houvesse outra 



possibilidade  de  realização  para  uma  mulher.  As  frases  ditas  pela  mãe  demonstra  a 

"naturalidade"  das  relações  heterossexuais,  legitimando-a  como  normatividade  (SABAT, 

2003).  

Sem  dar  ouvidos  à  mãe,  Tiana  canta  e  imagina  como  será  bem  sucedida  quando  o 

restaurante  for  inaugurado.  Diferentes  das  demais  personagens  protagonistas  da  Disney, 

Tianna  parece  não  ser  obcecada  por  romances,  beijos  e  casamentos.  Para  Cechin  (2014, 

p.143)  Tiana  "[...]  é  determinada,  independente  e  forte.  O  trabalho  duro  como  a  melhor 

maneira  de  alcançar  seus  objetivos  é  seu  lema.”  Em  nossa  análise,  tais  características  são 

interessantes por não reduzir a felicidade e a realização feminina à união com um homem e ao 

casamento.  O  comportamento  de  Tiana,  seu  comprometimento  com  o  trabalho  e  com  sua 

profissão  servem  como  referência  para  meninos  e  meninas  no  que  tange  às  muitas 

possibilidades de realização pessoal e de "finais felizes".       

No entanto, chama-nos a atenção a projeção que Tiana têm sobre seu futuro e sonhos. 

Em  suas  idealizações,  Tiana  está  vestida  totalmente  de  branco  (figura  7).  Além  disso,  do 

conjunto  de  funcionários/as  –  34  no total  –,  apenas  dois  não  são  negros.  Os  únicos  braUma 

garçonete e um sommelier são brancos/as e usam trajes claros. Todos os outros funcionários 

são negros e usam trajes escuros (figura 8). 

                                                           

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 Esse discurso tem seu ápice na última cena do filme, quando Tiana e Naveen, após terem se casado, dançam na 



sacada do restaurante em que trabalham. 


 

 

 



Figura 7: Sonho de Tiana. 

 

Fonte: Print Screen, 14’12’’, A princesa e o Sapo (2009). 



 

 

 



 

 

 



 

Figura 8: Os funcionários e funcionárias do sonho de Tiana. 

 

Fonte: Print Screen, 14’18’’, A princesa e o Sapo (2009). 



 

Em nossa análise, estereótipos raciais e de classe são percebidos na projeção utópicas 

que  Tiana  faz  de  seu  restaurante.  É  como  se  o  "restaurante  ideal"  tivesse  que  ser  repleto  de 

funcionários e funcionárias negros/as vestidos com roupas escuras, servindo pessoas brancas. 

Enquanto  que  ela,  proprietária,  usa  a  cor  branca–  cor  que  reforça  sua  posição  privilegiada. 



 

 

Neste  caso,  há  uma  polarização  que  relaciona  a  cor  branca  com  a  riqueza  e  o  poder  e  a  cor 



preta  com  a  submissão  e  a  servidão.  Conforme  Farina,  Perez  e  Bastos  (2006)  a  cultura 

ocidental  emprega  à  cor  branca  significados  como  pureza,  neutralidade,  castidade,  limpeza, 

leveza  e  santidade,  ao  mesmo  tempo  que  atribuí  à  cor  preta  aspectos  como  sofrimento, 

tristeza,  pessimismo  e  desgraça.  Além  disso,  as  cores  branco  e  preto  podem  significar, 

respectivamente, bem e mal

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.  



Mais adiante, Tiana desempenha um comportamento diferente do demonstrado então. 

Desde  o  início  da  história,  Tiana  aparenta  ser  honesta,  ingênua,  inocente,  focada  em  seu 

trabalho e incorruptível. Não apresenta comportamentos gananciosos e egoístas - ao contrário 

disso, demonstra preocupação e solidariedade com as demais personagens do filme.  

No entanto, quando encontra o príncipe Naveen transformado em sapo e barganha seu 

beijo  (figura  9),  Tiana  -diferente  das  protagonistas  brancas  da  Disney-  exibe  seus  desejos 

próprios,  seu  interesse  e  sua  ambição.  Dizemos  isso  pois  Tiana  só  aceita  beijar  o  príncipe-

sapo quando passa a ter conhecimento de que ele pertence a uma família rica, disposta a dar-

lhe uma recompensa. 

 

 



Figuras 9: Tiana beija Naveen. 

 

Fonte: Print Screen, 00’28’51’’, A princesa e o Sapo (2009). 



 

Em  análise  de  outros  filmes  e  desenhos  animados  da  Disney,  Giroux  (2001,  p.103) 

destaca  que  “Os  papéis  destinados  às  mulheres  e  às  pessoas  de  cor,  junto  com  as  idéias 

                                                           

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 Os autores e a autora demonstram os reflexos e fortalecimento de tais significações em  frases de uso comum 



como "De repente a situação ficou preta". 


 

 

referindo-se  a  uma  rígida  visão  dos  valores  familiares,  [...]  precisam  ser  combatidos  e 



transformados”. Em nossa análise não é isso o que ocorre no filme A princesa e o sapo(2009), 

pois,  além  dos  aspectos  que  mencionamos  anteriormente,  a  partir  da  cena  do  beijo,  Tiana  é 

representada  como  uma  rã.  Dos  noventa  e  sete  minutos  de  duração  do  filme,  em  sessenta  e 

oito, Tiana, a primeira protagonista negra das animações Disney, é representada verde, como 

rã. 

O  fato  de  a  personagem  principal  passar  aproximadamente  69%  do  filme  como  rã, 



desvia o foco da questão da negritude de Tiana. Os estereótipos raciais dão lugar ao discurso 

sobre a “beleza interior”, corporificada no casal de sapos. Concordamos com Cechin (2014, p. 

140) quando alerta que o discurso sobre “beleza interior” é sempre diretamente relacionado a 

“[...]  corpos  disformes,  fora  dos  padrões  estabelecidos,  [que]  devem  compensar  esses 

desajustes com certa candura, ingenuidade, bondade e ‘beleza interna’”. Enquanto rã e sapo, 

Tiana e Naveen são personagens disformes e, para que não sejam julgados como vilã e vilão 

por causa de seus erros, interesses e egoísmo, precisam transparecer a bondade, o sofrimento e 

o amor. E é pelo amor que as personagens se redimem e voltam a ser belas e felizes.  

Diferentemente  dos  demais  filmes  da  Disney  em  que  os  protagonistas  se  casam  e 

“vivem felizes para sempre”, em A princesa e o sapo (2009), mesmo após o casamento, Tiana 

e  Naveen  continuam  trabalhando  para  se  sustentar  e,  inclusive,  são  ele  e  ela  que  realizam  a 

reforma  de  seu  restaurante  (figura  10).  Será  que  nos  "finais  felizes"  dos  filmes  cujas 

personagens principais são brancas, os serviços  manuais, que exigem desgaste físico, seriam 

realizados por elas? Consideramos que não por acaso, a narrativa do filme A princesa e o sapo 

(2009)  indica  com  naturalidade  que  o  casal  precisa  continuar  a  trabalhar  e  a  servir  para  ser 

bem sucedido. 

 

 

Figuras 10: Tiana e Naveen depois de se casarem vão trabalhar na reforma do futuro restaurante. 



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