O visconde partido ao meio


partir do momento em que todos souberam que a outra metade do visconde



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CALVINO, Ítalo. O Visconde Partido ao Meio

partir do momento em que todos souberam que a outra metade do visconde
tinha voltado, tão boa quanto a primeira era má, a vida em Terralba ficou muito
diferente.
De manhã, eu acompanhava o dr. Trelawney em sua ronda de visitas aos doentes;
porque o doutor recomeçara pouco a pouco a praticar a medicina e se dera conta de
quantos males sofria a nossa gente, cuja fibra as longas carestias dos tempos idos
tinham minado, males que nunca haviam sido tratados antes.
Andávamos pelos campos e víamos os sinais de que meu tio nos tinha precedido.
Meu tio, o bom, quero dizer, que todas as manhãs percorria também o circuito não
só dos doentes, mas igualmente dos pobres, dos velhos, de todos os que precisassem
de socorro.
No pomar de Bacciccia, o pé de romã tinha os frutos maduros embrulhados num
pano. Entendemos que Bacciccia estava com dor de dente. Meu tio havia amarrado
as romãs para que não se abrissem e soltassem os grãos agora que o mal impedia o
proprietário de sair para colhê-las; mas também como sinal para o dr. Trelawney,
para que passasse a visitar o doente e levasse o boticão.
O prior Cecco tinha um girassol no terraço, tão fraco que nem florescia mais.
Naquela manhã encontramos três galinhas amarradas ali, na sacada, comendo a todo
o vapor e descarregando esterco branco no vaso de girassol. Entendemos que o prior
devia estar com diarreia. Meu tio havia amarrado as galinhas para nutrir o girassol,
mas também para avisar o dr. Trelawney daquele caso urgente.
Na escadaria da velha Giromina vimos uma fileira de escargots que subiam pela
porta: daqueles bons para comer cozidos. Era um presente que meu tio trouxera do
bosque para Giromina, mas também um sinal de que a doença do coração da pobre
velha havia piorado e que o doutor devia entrar devagar para não assustá-la.
Todos esses sinais de comunicação eram usados pelo bom Medardo para não
alarmar os doentes com um pedido muito brusco dos cuidados do doutor, mas
também para que Trelawney tivesse logo uma ideia do que se tratava, e assim
vencesse a sua timidez de entrar nas casas alheias e se aproximar dos doentes cujos
males ignorava.
De repente, pelo vale corria o alarme:
— O Mesquinho! Está vindo o Mesquinho!
Era a metade mesquinha de meu tio que fora vista cavalgando nas paragens. Então
todos corriam para esconder-se, e antes dos outros o dr. Trelawney, e eu atrás.


Passávamos diante da casa de Giromina e na escadaria havia uma trilha de
escargots esmagados, feita de baba e lascas de conchas.
— Já passou por aqui! Vamos embora!
No terraço do prior Cecco, as galinhas estavam amarradas na cerca onde secavam
os tomates e bicavam toda aquela maravilha.
— Vamos embora!
No pomar de Bacciccia, as romãs estavam todas arrebentadas no chão e dos ramos
pendiam as pontas dos panos vazios.
— Vamos embora!
Assim, entre caridade e terror decorriam as nossas vidas. O Bom (como era
chamada a metade esquerda de meu tio, em contraposição ao Mesquinho, que era a
outra) era então tido como santo. Os aleijados, os pobres, as mulheres traídas, todos
os que tinham um pesar, corriam até ele. Poderia ter se aproveitado e se tornado ele
o visconde. Ao contrário, continuava como vagabundo, circulando meio enrolado
em seu manto negro, apoiado na muleta, com a meia branca e azul cheia de
remendos, fazendo o bem tanto a quem lhe pedia quanto a quem o expulsava com
maus modos. E não havia ovelha que quebrasse a perna num mata-burro, nem
bebedor que levasse faca para a taberna, nem esposa adúltera que corresse noite alta
atrás do amante, que não o vissem aparecer por ali como caído do céu, negro e seco
e com o sorriso doce, para socorrer, para dar bons conselhos, para prevenir
violências e pecados.
Pamela continuava no bosque. Construíra um balanço entre dois pinheiros, depois
um mais sólido para a cabra e outro mais leve para a pata e passava as horas
balançando junto com seus animais. Mas a uma certa hora, correndo entre os
pinheiros, chegava o Bom, com um pacote amarrado nas costas. Eram roupas para
lavar e remendar que ele recolhia entre os mendigos, os órfãos e os doentes sozinhos
no mundo; e entregava tudo a Pamela, permitindo que também ela fizesse o bem.
Pamela, que se aborrecia de ficar sempre no bosque, lavava a roupa no riacho e ele a
ajudava. Depois ela estendia tudo para secar nas cordas dos balanços e o Bom,
sentado numa pedra, lia Jerusalém libertada em voz alta.
Pamela não ligava nem um pouco para a leitura e ficava deitada de bruços na
grama, catando piolhos (pois vivendo no bosque pegara uma boa quantidade de
bichinhos), coçando-se com uma planta chamada picão, bocejando, chutando pedras
pelos ares com os pés descalços e protegendo as pernas, que eram rosadas e
rechonchudas na medida justa. O Bom, sem erguer os olhos do livro, continuava a
recitar uma oitava depois da outra, com a intenção de enobrecer os costumes da
moça tão rústica.
Mas ela, que não acompanhava o fio da história e se aborrecia, quieta quieta
incitou a cabra a lamber a meia-cara do Bom e a pata a deitar-se em cima do livro. O
Bom deu um pulo para trás e levantou o livro, que se fechou; e justamente naquele


instante o Mesquinho saiu a galope de trás das árvores, brandindo uma foice dirigida
contra o Bom. A lâmina da foice encontrou o livro e o talhou de comprido em duas
metades. A parte da costura ficou na mão do Bom e a parte do corte se espalhou em
mil meias páginas pelos ares. O Mesquinho desapareceu a galope; sem dúvida
tentara decepar a meia-cabeça do Bom, mas os dois animais haviam aparecido na
hora certa. As páginas de Tasso com as margens brancas e os versos cortados ao
meio voaram ao vento e pousaram nos ramos dos pinheiros, nas plantas e na água
das torrentes. Da beira de um morro, Pamela observava aquele esvoaçar branco e
dizia:
— Que lindo!
Algumas meias-folhas chegaram até a estradinha por onde passávamos o dr.
Trelawney e eu. O doutor pegou uma no ar, virou-a e revirou-a, tentou decifrar
aqueles versos sem nexo e sacudiu a cabeça:
— Não dá para entender nada… Sst… sst…
A fama do Bom chegara também aos huguenotes, e o velho Ezequiel várias vezes
fora visto parado no patamar mais alto da vinha amarela, observando o pedregoso
caminho de mulas que subia do vale.
— Pai — disse-lhe um dos filhos —, vejo-o olhar para o vale como se esperasse a
chegada de alguém.
— Esperar é próprio do homem — respondeu Ezequiel —, e do homem justo,
esperar com confiança; do injusto, com medo.
— É o Capenga-da-Outra-Perna que está esperando, pai?
— Ouviu falar dele?
— No vale, só se fala do Manco-Canhoto. Acha que virá até aqui?
— Se nossa terra é de gente que vive no bem, e ele vive no bem, não há razão
para que não venha.
— O caminho das mulas é íngreme para quem tiver de subi-lo com uma muleta.
— Já houve um Ímpio que encontrou um cavalo para subir até nós.
Ouvindo Ezequiel falar, os outros huguenotes se reuniram ao redor dele, saindo
de trás das videiras. E ao escutar a referência ao visconde, estremeceram em silêncio.
— Pai nosso, Ezequiel — disseram —, quando veio o Magro, naquela noite, e o
raio incendiou meio carvalho, o senhor disse que um dia seríamos visitados por um
viajante melhor.
Ezequiel assentiu abaixando a barba até o peito.
— Pai, este de quem agora se falava é um aleijado igual e oposto ao outro, tanto
no corpo quanto na alma: piedoso como o outro era cruel. Será o visitante
previamente anunciado por suas palavras?


— Cada viajante de qualquer estrada pode sê-lo — disse Ezequiel —, portanto,
também ele.
— Então todos esperamos que o seja — disseram os hu-guenotes.
A mulher de Ezequiel vinha à frente com o olhar fixo diante de si, empurrando um
carrinho de mão com ramos secos de videira.
— Esperamos sempre alguma coisa boa — disse —, porém, mesmo que aqueles
que mancam por estas nossas colinas sejam apenas pobres mutilados de guerra, de
bom ou mau coração, todos os dias temos de continuar a agir segundo a justiça e a
cultivar nossos campos.
— Isso já sabemos — responderam os huguenotes —, dissemos algo que
signifique o contrário?
— Bem, se estamos todos de acordo — disse a mulher —, podemos todos voltar à
enxada e aos forcados.
— Peste e carestia! — explodiu Ezequiel. — Quem lhes disse para interromper o
trabalho?
Os huguenotes se espalharam entre as vinhas para pegar os instrumentos
abandonados nos sulcos, mas naquele momento Esaú, que ao ver seu pai distraído
subira na figueira para comer as primícias, gritou:
— Lá na subida! Quem está chegando montado numa mula?
De fato, uma mula vinha subindo com um meio-homem amarrado na albarda. Era
o Bom, que tinha comprado aquela velha mula esfolada quando estavam a ponto de
afogá-la no rio, pois se achava tão estropiada que nem valia a pena mandá-la para o
matadouro.
“Peso a metade de um homem, se tanto”, disse consigo mesmo, “e a mula velha
ainda pode me aguentar. E tendo também eu minha montaria, posso ir mais longe e
fazer o bem.” Assim, como primeira viagem, vinha visitar os huguenotes.
Os huguenotes o receberam perfilados e imóveis, cantando um salmo. Depois o
velho aproximou-se e o cumprimentou como um irmão. O Bom, tendo apeado da
mula, respondeu de maneira cerimoniosa aos cumprimentos, beijou a mão da
mulher de Ezequiel, que permaneceu dura e carrancuda, perguntou pela saúde de
todos, estendeu a mão para acariciar a cabeça hirsuta de Esaú, que retrocedeu,
interessou-se pelos problemas de cada um, pediu que contassem a história das
perseguições deles, comovendo-se e criticando. Naturalmente, falaram disso sem
insistir sobre a controvérsia religiosa, como se fosse uma sequela de desgraças
imputáveis à maldade humana em geral. Medardo passou por cima do fato de que as
perseguições vinham da parte da Igreja à qual ele pertencia, e os huguenotes por seu
lado não embarcaram em afirmações de fé, também por temor de dizer coisas
teologicamente erradas. Assim terminaram em vagos discursos caridosos,
desaprovando qualquer violência e qualquer excesso. Todos de acordo, mas no
conjunto foi tudo meio frio.


Depois o Bom visitou o campo, lamentou as magras colheitas e ficou contente de
saber que pelo menos tinham tido uma boa seara de centeio.
— Por quanto estão vendendo? — perguntou-lhes.
— Três escudos a libra — disse Ezequiel.
— Três escudos a libra? Mas os pobres de Terralba estão morrendo de fome,
amigos, e não podem nem comprar um punhado de centeio. Talvez vocês não
saibam que o granizo destruiu as colheitas de centeio, no vale, e vocês são os únicos
que podem retirar tantas famílias da fome.
— Sabemos sim — disse Ezequiel —, justamente por isso podemos vender bem…
— Mas pensem na caridade que seria para aqueles pobres coitados, se vocês
reduzissem o preço do centeio… Pensem no bem que poderiam fazer…
O velho Ezequiel parou diante do Bom com os braços cruzados e todos os
huguenotes o imitaram.
— Fazer caridade, irmão — disse —, não significa perder nos preços.
O Bom andava pelos campos e via velhos huguenotes esqueléticos arando a terra
sob o sol.
— Está com mau aspecto — disse a um velho com a barba tão comprida que ele
lhe jogava terra em cima —, talvez não esteja se sentindo bem.
— Como pode se sentir bem uma pessoa que trabalha durante dez horas aos
setenta anos com uma sopa de nabos na barriga?
— É meu primo Adamo — disse Ezequiel —, um trabalhador excepcional.
— Mas o senhor deve descansar e alimentar-se, velho como é! — estava dizendo o
Bom, mas Ezequiel o arrastou bruscamente.
— Aqui todos ganhamos o pão muito duramente, irmão — disse em tom que não
admitia réplica.
Antes, mal desmontara da mula, o Bom queria amarrar ele mesmo o animal, e
havia pedido um saco de forragem para que este se recuperasse da subida. Ezequiel
e sua mulher tinham se olhado, pois segundo eles para uma mula daquelas bastava
um punhado de chicória selvagem; mas estavam na hora mais calorosa da acolhida
ao hóspede e tinham mandado servir a forragem. Agora, porém, repensando no
caso, o velho Ezequiel não podia admitir que aquela carcaça de mula comesse a
pouca forragem que tinham, e sem se fazer ouvir pelo hóspede, chamou Esaú e lhe
disse:
— Esaú, vá de mansinho até a mula, tire a forragem dela e sirva-lhe qualquer outra
coisa.
— Um cozido para a asma?
— Sabugos de milho, cascas de grão-de-bico, o que quiser.


Esaú foi, retirou o saco da mula e levou um coice que o fez caminhar manco por
algum tempo. Para vingar-se, escondeu a forragem restante para vendê-la por sua
conta, e disse que a mula já tinha comido tudo.
Hora do pôr do sol. O Bom estava com os huguenotes em meio aos campos e não
sabiam mais o que conversar.
— Visitante, ainda temos uma boa hora de trabalho pela frente — disse a mulher
de Ezequiel.
— Então me despeço.
— Boa sorte, visitante.
E o bom Medardo foi embora em sua mula.
— Um pobre mutilado de guerra — disse a mulher depois que ele saiu. —
Quantos existem nesta região, coitados!
— Coitados, de verdade — concordaram todos os familiares.
— Peste e carestia! — berrava o velho Ezequiel rodando pelos campos, de punhos
erguidos diante dos trabalhos malfeitos e dos estragos da seca. — Peste e carestia!


9
F
requentemente, eu ia de manhã à oficina de Pedroprego para ver as máquinas
que o engenhoso mestre andava construindo. O carpinteiro vivia com angústias e
remorsos cada vez maiores, desde que o Bom viera visitá-lo de noite e recriminara o
triste fim de suas invenções, e o havia instigado a construir mecanismos movidos
pela bondade e não pela sede de sevícias.
— Então que máquina devo construir, mestre Medardo? — perguntava
Pedroprego.
— Já lhe explico: poderia, por exemplo… — E o Bom começava a descrever-lhe a
máquina que teria encomendado se fosse visconde no lugar da outra metade, e
enriquecia a explicação traçando desenhos confusos.
A princípio, pareceu a Pedroprego que essa máquina devia ser um órgão, um
gigantesco órgão cujas teclas tocassem músicas dulcíssimas, e já se dispunha a
procurar a madeira adequada para os tubos, quando de uma outra conversa com o
Bom voltou com as ideias mais confusas, pois parecia que ele queria passar farinha
em vez de ar pelos tubos. Em resumo, devia ser um órgão mas também um moinho,
que moesse para os pobres, e também, se possível, um forno para fazer fogaças. A
cada dia, o Bom aperfeiçoava sua ideia e enchia de desenhos papéis e mais papéis,
mas Pedroprego não lograva acompanhá-lo: porque o tal órgão-moinho-forno devia
poder puxar água dos poços economizando cansaço aos burros, e deslocar-se sobre
rodas para atender às diversas aldeias, e também nos dias de festas levantar voo e
pegar, com redes em todas as direções, borboletas.
E o carpinteiro era assaltado pela dúvida sobre se construir máquinas boas não
estaria além das possibilidades humanas, ao passo que as únicas que de fato podiam
funcionar com eficácia e exatidão seriam os patíbulos e as torturas. Com efeito, assim
que o Mesquinho expunha a Pedroprego a ideia de um novo mecanismo, logo vinha
à mente do mestre o modo para realizá-lo e se punha a trabalhar, e cada detalhe lhe
parecia insubstituível e perfeito, e o instrumento acabado uma obra-prima de técnica
e engenho.
O mestre se angustiava:
— Quem sabe esteja em minha alma esta maldade que só me deixa produzir
máquinas cruéis? — Entretanto, continuava a inventar, com zelo e habilidade, novos
tormentos.
Certo dia, vi que trabalhava num estranho patíbulo, no qual uma forca branca
emoldurava uma parede de madeira negra, e a corda, também branca, deslizava por
dois buracos na parede, justamente no ponto do laço corrediço.


— Que máquina é esta, mestre? — perguntei-lhe.
— Uma forca para enforcar de perfil — disse.
— E para quem a construiu?
— Para um homem que só condena e é condenado. Com meia cabeça condena a
si mesmo à pena capital e com a outra metade entra no nó corrediço e exala o último
suspiro. Gostaria que as duas se confundissem.
Compreendi que o Mesquinho, sentindo crescer a popularidade da metade boa de
si mesmo, decidira acabar com ela o mais breve possível.
De fato, chamou os esbirros e disse:
— Um vagabundo ordinário há muito tempo infesta nosso território semeando a
cizânia. Até amanhã, capturem o agitador e tragam-no para morrer.
— Assim será, senhor — disseram os esbirros, e foram embora. Zarolho como era,
o Mesquinho não percebeu que ao responder haviam piscado o olho uns para os
outros.
É preciso saber que uma conspiração palaciana fora tramada naqueles dias e dela
faziam parte inclusive os esbirros. Tratava-se de aprisionar e suprimir o atual meio-
visconde e entregar o castelo e o título à outra metade. Esta, porém, de nada sabia. E
à noite, no paiol onde morava, acordou cercado pelos esbirros.
— Não tenha medo — disse o chefe dos esbirros —, o visconde nos ordenou que
o matássemos, mas nós, cansados de sua cruel tirania, decidimos acabar com ele e
pôr o senhor no lugar dele.
— O que estou ouvindo? E já o fizeram? Digo: o visconde, já o trucidaram?
— Não, mas vamos fazê-lo sem dúvida ainda esta manhã.
— Ah, graças aos céus! Não, não se manchem com mais sangue, pois muito já
correu. Que bem poderia advir de um senhorio que nasce do crime?
— Não há problema: nós o trancamos na torre e podemos ficar tranquilos.
— Não levantem a mão contra ele nem contra ninguém, aviso a vocês! Também a
mim faz mal a prepotência do visconde: mas não existe outro remédio exceto dar-lhe
bons exemplos, mostrando-nos gentis e virtuosos a ele.
— Então devemos matar o senhor.
— Nada disso! Já lhes disse que não devem matar ninguém.
— Então, o que faremos? Se não acabamos com o visconde, temos de obedecer a
ele.
— Peguem esta ampola. Contém alguns gramas, os últimos que me restam, do
unguento com o qual os eremitas me trataram e que até hoje foi precioso para mim
quando, com as mudanças do tempo, me dói a cicatriz desmesurada. Levem-na ao
visconde e só lhe digam isto: é o presente de alguém que sabe o que significa ter as


veias que terminam numa tampa.
Os esbirros foram até o visconde com a ampola e ele os condenou ao patíbulo.
Para salvar os esbirros, os outros conjurados decidiram sublevar-se. Desajeitados,
revelaram a trama da revolta, que foi sufocada em sangue. O Bom levou flores aos
túmulos e consolou viúvas e órfãos.
Quem jamais se deixou comover com a bondade do Bom foi a velha Sebastiana.
Em meio às suas empresas zelosas, o Bom se detinha com frequência na cabana da
ama e a visitava, sempre gentil e pressuroso. E todas as vezes ela se punha a fazer-
lhe um sermão. Talvez por causa de seu amor materno não diferenciado, talvez
porque a velhice começasse a ofuscar-lhe os pensamentos, a ama não ligava muito
para a separação de Medardo em duas metades: brigava com uma das metades pelos
erros da outra, dava a uma conselhos que só poderiam ser seguidos pela outra, e
assim por diante.
— E por que cortou a cabeça do galo da avó Bigin, coitadinha, que só tinha
aquele? Grande como é, apronta cada uma…
— Mas por que está me dizendo isso? Sabe que não fui eu…
— Essa é boa! Então vamos escutar: quem foi?
— Eu. Mas…
— Ah! Está vendo?
— Mas não eu que…
— Eh, por estar velha pensa que fiquei também caduca? Quando ouço contar
alguma malandragem logo percebo que é uma das suas. E digo comigo mesma: seria
capaz de jurar que aí tem o dedo de Medardo…
— Mas sempre se engana…!
— Enganar-me, eu?… Vocês, jovens, dizem a nós, velhos, que nos enganamos… E
vocês? Você deu de presente sua muleta ao velho Isidoro…
— Sim, nesse caso fui eu…
— E ainda conta vantagem? Servia-lhe para dar pancadas na mulher, coitada…
— Ele me disse que não conseguia andar por causa da gota…
— Fingia… E você correndo lhe oferece a muleta… Acaba de quebrá-la nas costas
da mulher e você anda se apoiando numa forquilha… Cabeça oca, não passa disso! E
sempre foi assim! E quando você embebedou o touro de Bernardo com aguardente?
— Esse não era eu…
— Como não? Se todos dizem: é sempre ele, o visconde!
As visitas frequentes do Bom a Prado do Cogumelo eram motivadas, além de sua
dedicação filial à Sebastiana, pelo fato de que naquele período ele se dedicava a
socorrer os pobres leprosos. Imunizado contra o contágio (sempre, parece, pelos


tratamentos misteriosos dos eremitas), rodava pela aldeia informando-se
minuciosamente sobre as necessidades de cada um, e não lhes dando trégua
enquanto não se desdobrasse por eles de todas as maneiras. Muitas vezes, no dorso
de sua mula, servia de mensageiro entre Prado do Cogumelo e a casinhola do dr.
Trelawney, pedindo conselhos e remédios. Não que o doutor agora tivesse coragem
para aproximar-se dos leprosos, mas parece que começava, com o bom Medardo
como intermediário, a interessar-se por eles.
Porém, as intenções de meu tio iam mais longe: não se propusera apenas a curar
os corpos dos leprosos, mas também suas almas. E andava sempre entre eles
pregando moral, metendo o nariz nos negócios deles, escandalizando-se e fazendo
sermões. Os leprosos não o suportavam. Os tempos beatos e licenciosos de Prado do
Cogumelo tinham acabado. Com aquela exígua figura rígida numa perna só, vestida
de negro, cerimoniosa e distribuindo regras, ninguém podia fazer o que lhe apetecia
sem ser recriminado em praça pública, suscitando malignidade e despeito. Até a
música, à força de ouvi-la ser recriminada como fútil, lasciva e não inspirada em bons
sentimentos, acabou provocando aversão, e os estranhos instrumentos deles se
cobriram de pó. As mulheres leprosas, sem o desafogo das farras, viram-se de
repente sozinhas diante da doença, e passavam as noites chorando e se
desesperando.
— Das duas metades a boa é pior que a mesquinha — começavam a comentar em
Prado do Cogumelo.
Mas não era somente entre os leprosos que a admiração pelo Bom começava a
diluir-se.
— Ainda bem que a bala do canhão só o dividiu em dois — diziam todos —, se o
cortasse em três quem sabe o que nos tocaria ver pela frente.
Os huguenotes agora faziam turnos para se proteger também dele, que já perdera
todo o respeito por eles e vinha a qualquer hora espiar quantos sacos havia nos
celeiros e fazer pregações contra os preços demasiado altos e depois ia comentar por
toda parte, estragando os negócios.
Assim passavam os dias em Terralba, e os nossos sentimentos se tornavam
incolores e obtusos, pois nos sentíamos como perdidos entre maldades e virtudes
igualmente desumanas.


10
N
ão há noite de lua em que nos espíritos selvagens as ideias perversas não se
enrosquem como ninhos de serpentes e em que os espíritos caridosos não se abram
em lírios de renúncia e dedicação. Assim, entre os precipícios de Terralba, as duas
metades de Medardo vagavam atormentadas por ímpetos opostos.
Tendo cada um tomado a própria decisão, de manhã se puseram a executá-las.
A mãe de Pamela, indo buscar água, caiu numa armadilha e foi parar dentro do
poço. Pendurada por uma corda, berrava: “Socorro!” quando viu na boca do poço,
contra o céu, o perfil do Mesquinho, que lhe disse:
— Só queria falar com a senhora. Eis o que pensei: junto com sua filha Pamela se
vê com frequência um vagabundo partido ao meio. Deve obrigá-lo a casar-se com
ela: agora já a comprometeu e se é um fidalgo deve remediar. Assim pensei; não me
peça para lhe explicar mais nada.
O pai de Pamela levava ao lagar de azeite um saco de azeitonas de sua oliveira,
mas o saco tinha um furo, e uma esteira de azeitonas o seguia pelo caminho.
Sentindo a carga leve, o pai tirou o saco das costas e percebeu que estava quase
vazio. Mas viu que atrás chegava o Bom: recolhia as azeitonas uma a uma e as punha
no manto.
— Seguia-o para conversar e tive a sorte de salvar-lhe as azeitonas. Eis o que me
vai pelo coração. Há tempos penso que a infelicidade alheia que pretendo socorrer
talvez seja alimentada pela minha presença. Vou embora de Terralba. Mas só se
minha partida der paz a duas pessoas: a sua filha, que dorme numa gruta enquanto
lhe toca um nobre destino, e à minha infeliz parte direita, que não deve permanecer
tão sozinha. Pamela e o visconde devem unir-se pelo matrimônio.
Pamela estava domesticando um esquilo quando encontrou sua mãe, que fingia
procurar pinhas.
— Pamela — disse a mãe —, chegou a hora daquele vagabundo conhecido como
o Bom se casar com você.
— De onde vem essa ideia? — disse Pamela.
— Ele a comprometeu, com ele você há de casar. É tão gentil que se lhe falar
assim não se negará a fazê-lo.
— Mas como pôs essa ideia na cabeça?
— Quieta; se soubesse quem me disse isso não faria tantas perguntas: o
Mesquinho em pessoa falou comigo, o nosso ilustríssimo visconde!


— Desgraça! — disse Pamela, deixando cair o esquilo do colo —, quem sabe qual
armadilha quer preparar.
Dali a pouco, estava aprendendo a assobiar com uma folha de capim entre as
mãos quando encontrou o pai, que fingia procurar lenha.
— Pamela — disse o pai —, é hora de dizer sim ao visconde Mesquinho, com a
condição de que se casem na igreja.
— É ideia sua ou alguém lhe disse isso?
— Não lhe agrada tornar-se viscondessa?
— Responda ao que lhe perguntei.
— Bem; imagine que foi dito pela alma mais bem-intencionada que existe: o
vagabundo a quem chamamos de o Bom.
— Ah, aquele ali não tem mais o que fazer! Vão ver o que vou aprontar!
* * *
Andando em seu cavalo magro pelo matagal, o Mesquinho refletia sobre seu
estratagema: se Pamela se casava com o Bom, perante a lei era esposa de Medardo di
Terralba, ou seja, era sua mulher. Fortalecido com este direito, o Mesquinho poderia
facilmente tomá-la do rival, tão condescendente e pouco combativo.
Mas se encontra com Pamela, que lhe diz:
Visconde, decidi que, se quiser, nos casamos.
— Você e quem? — indaga o visconde.
— Eu e o senhor, e vou para o castelo e serei a viscondessa.
O Mesquinho não esperava por essa, e pensou: “Agora é inútil montar toda a
comédia de fazê-la casar-se com minha outra metade: caso com ela e está tudo
resolvido”.
Assim, disse:
— Tudo bem.
E Pamela:
— Acerte os detalhes com meu pai.
Pouco depois, Pamela encontrou o Bom montado na mula.
— Medardo — disse ela —, entendi que estou apaixonada por você e se quiser me
fazer feliz deve pedir a minha mão em casamento.
O coitado, que pelo bem dela aceitara aquela grande renúncia, ficou boquiaberto.
“Mas se está feliz de casar comigo, não posso mais fazê-la casar-se com o outro”,
pensou, e disse:
— Querida, vou correndo preparar tudo para a cerimônia.


— Acerte os detalhes com minha mãe, não se esqueça — disse ela.
Terralba inteira ficou em sobressalto, quando se soube que Pamela ia casar.
Alguns diziam que se casava com um, os demais diziam que se casava com o outro.
Parece que os pais dela faziam de propósito para confundir as ideias. O que era certo
é que no castelo estavam lustrando e enfeitando tudo como para uma grande festa. E
o visconde mandara fazer uma roupa de veludo negro com a manga e a perna bem
bufantes. Mas também o vagabundo mandara escovar a pobre mula e remendar o
cotovelo e o joelho. Enfim, na igreja, poliram todos os candelabros.
Pamela declarou que só deixaria o bosque na hora do cortejo nupcial. Eu cuidava
das encomendas para o enxoval. Ela fez um vestido branco com véu e a cauda muito
comprida, e cinto e grinalda com espigas de lavanda. Como ainda estavam sobrando
alguns metros de véu, fez uma roupa de noiva para a cabra e outra para a pata, e
correu para o bosque, seguida pelos animais, até que o véu se rasgasse todo entre os
ramos e a cauda juntasse todas as agulhas de pinheiro e as cascas de castanha que
secavam pelos caminhos.
Mas na noite anterior ao matrimônio estava pensativa e um pouco amedrontada.
Sentada numa pequena colina sem árvores, com a cauda enrolada nos pés, a grinalda
de lavanda enviesada, apoiava o queixo numa das mãos e olhava os bosques ao
redor suspirando.
Eu estava sempre com ela, pois devia servir de pajem, junto com Esaú, que,
todavia, não dava as caras.
— Com quem vai casar, Pamela? — perguntei-lhe.
— Não sei — disse ela —, não sei nem mesmo o que vai acontecer. Vai dar certo
ou vai dar tudo errado?
Dos bosques agora se erguia, ora uma espécie de grito gutural, ora um suspiro.
Eram os dois pretendentes partidos ao meio que, tomados pela excitação da véspera,
erravam pelas quebradas e precipícios do bosque, envoltos nos mantos negros, um
no magro cavalo e o outro na mula meio esfolada, e mugiam e suspiravam ambos
tomados por suas fantasias ansiosas. E o cavalo saltava por barrancos e quebradas, a
mula trepava por encostas e aclives, sem que nunca os dois cavaleiros se
encontrassem.
Até que, ao amanhecer, o cavalo esporeado num galope rolou por um
despenhadeiro; e o Mesquinho não pôde chegar a tempo para as núpcias. Ao
contrário, a mula ia devagar e sempre, e o Bom chegou pontualmente à igreja, justo
quando entrava a noiva com a cauda carregada por mim e por Esaú, que vinha se
arrastando.
Ao ver chegar como noivo só o Bom, que se apoiava em sua muleta, a multidão
ficou um tanto decepcionada. Mas o matrimônio foi regularmente celebrado, os
noivos disseram sim e trocaram alianças, e o padre disse:
— Medardo di Terralba e Pamela Marcolfi, eu uno vocês pelos laços do


matrimônio.
Nesse instante, do fundo da nave, apoiando-se à muleta, entrou o visconde, com a
roupa nova de veludo, toda bufante, encharcado e rasgado. E disse:
— Medardo di Terralba sou eu e Pamela é minha mulher.
O Bom saltou na frente dele.
— Não, o Medardo que se casou com Pamela fui eu.
O Mesquinho jogou a muleta fora e pôs a mão na espada. Ao Bom só restava fazer
o mesmo.
— Em guarda!
O Mesquinho lançou-se num ataque cerrado, o Bom fechou-se na defesa, mas
ambos já estavam rolando pelo chão.
Convieram que era impossível duelar equilibrando-se numa perna só. Era preciso
adiar o duelo para poder prepará-lo melhor.
— E sabem o que vou fazer? — disse Pamela —, volto para o bosque.
E saiu correndo da igreja, sem pajens que lhe segurassem a cauda. Na ponte
encontrou a cabra e a pata, que a esperavam e se juntaram a ela trotando.
O duelo foi marcado para o amanhecer no Prado das Freiras. Mestre Pedroprego
inventou uma espécie de perna de compasso que, fixa na cintura dos partidos ao
meio, lhes permitia permanecer retos e deslocar-se e até inclinar o corpo para a
frente e para trás, mantendo a ponta fixa no chão para se firmarem. O leproso
Galateo que, antes da doença, fora um gentil-homem, funcionou como juiz de armas;
os padrinhos do Mesquinho foram o pai de Pamela e o chefe dos esbirros; os
padrinhos do Bom foram dois huguenotes. O dr. Trelawney garantiu a assistência, e
veio com um fardo de gaze e um garrafão de bálsamo, como se tivesse de tratar de
um batalhão. Sorte minha que, tendo de ajudá-lo a carregar aquilo tudo, pude assistir
à disputa.
O amanhecer tendia para o verde; no prado, os dois magros antagonistas negros
estavam firmes com a espada em riste. O leproso soprou o chifre: era o sinal; o céu
vibrou feito uma membrana repuxada, os esquilos nas tocas afundaram as garras no
húmus, as pegas sem tirar a cabeça de sob as asas arrancaram uma pena da axila
provocando dores, e a boca da minhoca mordeu o próprio rabo, e a víbora se picou
com seus colmilhos, e a vespa rompeu o ferrão na pedra, e cada coisa se voltava
contra si mesma, a geada das poças se congelava, os líquens se petrificavam e as
pedras viravam líquen, a folha seca se fazia terra, e a goma espessa e dura matava as
árvores sem piedade. Assim, o homem se arrojava contra si mesmo, com ambas as
mãos armadas de uma espada.
Uma vez mais Pedroprego fizera obra de mestre: os compassos desenhavam
círculos no prado e os esgrimistas lançavam-se em ataques enfurecidos e lenhosos,
em paradas e em fintas. Mas não se tocavam. Em cada investida de fundo, a ponta da


espada parecia dirigir-se rumo ao manto esvoaçante do adversário, cada um parecia
obstinado em atacar o outro na parte em que não havia nada, isto é, na parte onde
ele próprio deveria estar. Certamente, se no lugar de meios-duelistas fossem duelistas
inteiros, teriam se ferido sabem-se lá quantas vezes. O Mesquinho se batia com
ferocidade raivosa, mas não conseguia nunca levar seus ataques onde de fato estava
o seu inimigo; o Bom tinha a mestria correta dos canhotos, mas não fazia nada além
de crivar o manto do visconde.
A certa altura, encontraram-se punho de espada com punho de espada: as pontas
de compasso estavam enterradas no solo como escavadeiras. O Mesquinho libertou-
se de repente e já estava perdendo o equilíbrio e rolando pelo chão, quando
conseguiu dar uma estocada terrível, não exatamente no adversário, mas quase: uma
estocada paralela à linha que interrompia o corpo do Bom, e tão próxima dela que
não deu para entender logo se era mais para cá ou mais para lá. Mas logo vimos o
corpo sob o manto avermelhar-se de sangue da cabeça até a junção da perna e não
houve mais dúvidas. O Bom agachou-se, mas ao cair, num último movimento amplo
e quase piedoso, abateu a espada também ele muitíssimo perto do rival, da cabeça
ao abdômen, entre o ponto em que o corpo do Mesquinho não existia e o ponto em
que começava a existir. Agora também o corpo do Mesquinho jorrava sangue pela
enorme ruptura: as estocadas de um e do outro tinham rompido de novo todas as
veias e reaberto as feridas que os tinham dividido, em suas duas fatias. Agora jaziam
revirados, e os sangues que já tinham sido um só voltavam a misturar-se pelo prado.
Inteiramente tomado por essa visão horrenda, não havia prestado atenção em
Trelawney, quando percebi que o doutor dava saltos de alegria com suas pernas de
grilo, batendo palmas e gritando:
— Está salvo! Está salvo! Agora deixem comigo.
Depois de meia hora levamos de maca para o castelo um único ferido. O
Mesquinho e o Bom estavam vendados estreitamente juntos; o doutor tivera o
cuidado de combinar todas as vísceras e artérias de ambas as partes, e depois com
um quilômetro de curativos os unira tão intimamente que parecia, mais que um
ferido, um antigo morto embalsamado.
Meu tio foi velado dias e noites entre a vida e a morte. Certa manhã, observando
aquele rosto que uma linha vermelha atravessava da testa até o queixo, continuando
depois pescoço abaixo, foi a ama Sebastiana quem disse:
— Pronto: mexeu-se.
De fato, os traços do rosto de meu tio estavam sendo percorridos por um frêmito,
e o doutor chorou de alegria ao ver que passava de uma bochecha para outra.
Por fim, Medardo abriu os olhos, os lábios; de início, tinha a expressão
transtornada: um olho estava contraído e o outro suplicante, a testa enrugada e
serena, um canto da boca sorria e o outro rangia os dentes. Pouco a pouco, foi
ficando simétrico.


O dr. Trelawney disse:
— Agora está curado.
E Pamela exclamou:
— Finalmente terei um marido com todos os seus atributos.
Assim, meu tio Medardo voltou a ser um homem inteiro, nem mau nem bom, uma
mistura de maldade e bondade, isto é, aparentemente igual ao que era antes de se
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