O visconde partido ao meio



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CALVINO, Ítalo. O Visconde Partido ao Meio
cancarone, e desapareceu nos bosques. Não foi visto durante uma semana. Quando
voltou, a ama Sebastiana fora mandada à aldeia dos leprosos.
Deixara o castelo ao anoitecer, vestida de negro e com o rosto coberto, levando no
braço um embrulho com suas coisas. Sabia que sua sorte estava definida: devia tomar
o rumo de Prado do Cogumelo. Deixou o quarto em que fora confinada até então, e
não havia ninguém nos corredores nem nas escadas. Desceu, atravessou o pátio, saiu
campo afora: tudo deserto, à sua passagem todos se retiravam e se escondiam. Ouviu
um chifre de caça modular um chamado em surdina, em duas notas: pouco adiante
no caminho estava Galateo, que erguia para o céu a boca de seu instrumento. A ama
movimentou-se com passos lentos; a estrada ia na direção do pôr do sol; Galateo a
precedia com boa distância, parando de vez em quando como se contemplasse os
zangões que zumbiam entre as folhas, levantava o chifre e obtinha um triste acorde;
a ama olhava as hortas e as margens que estava abandonando, sentia por trás das
sebes a presença das pessoas que se afastavam dela, e recomeçava a andar. Sozinha,
seguindo Galateo de longe, chegou a Prado do Cogumelo, e os portões da aldeia se
fecharam atrás dela, enquanto as harpas e os violinos começaram a soar.
O dr. Trelawney me decepcionara completamente. Não ter levantado um dedo
para impedir que a velha Sebastiana fosse condenada ao leprosário — mesmo
sabendo que suas manchas não eram de lepra — era um sinal de vilania e senti pela
primeira vez certa aversão pelo doutor. Convém acrescentar que, ao fugir para o
bosque, não me levou junto, mesmo sabendo quanto lhe teria sido útil como caçador
de esquilos e catador de framboesas. Agora, sair com ele em busca de fogos-fátuos já
não me agradava como antes, e muitas vezes andava sozinho, à procura de novas
companhias.
As pessoas que mais me atraíam agora eram os huguenotes que moravam em Col
Gerbido. Era gente que fugira da França, onde o rei mandava cortar em pedaços


todos os que seguissem a religião deles. Na travessia das montanhas haviam perdido
seus livros e objetos sacros, e agora não tinham mais nem Bíblia para ler, nem missa
para celebrar, nem hinos para cantar, nem orações para recitar. Desconfiados como
todos os que sofreram perseguições e que vivem no meio de gente que professa
outra fé, não tinham aceitado receber nenhum livro religioso, nem ouvir conselhos
sobre o modo de celebrar seus cultos. Se alguém vinha procurá-los declarando-se um
irmão huguenote, temiam que fosse um emissário do papa disfarçado e se
encerravam no silêncio. Assim, puseram-se a cultivar as duras terras de Col Gerbido e
se extenuavam a trabalhar, homens e mulheres, da madrugada até depois do pôr do
sol, na esperança de que a graça os iluminasse. Pouco entendidos no que era
pecado, para não enganar-se multiplicavam as proibições e tinham se reduzido a
observar um ao outro com olhos severos, vigiando se algum mínimo gesto traía uma
intenção culposa. Lembrando confusamente as disputas da Igreja deles, abstinham-se
de nomear Deus e qualquer outra expressão religiosa, com medo de falar de um
modo sacrílego. Assim, não seguiam nenhuma regra de culto, e provavelmente nem
ousavam formular pensamentos sobre questões de fé, mesmo conservando uma
gravidade absorta como se pensassem sempre nisso. Ao contrário, as regras de sua
agricultura fatigante com o tempo haviam adquirido um valor similar ao dos
mandamentos, caso dos hábitos de parcimônia a que eram obrigados e das virtudes
domésticas das mulheres.
Constituíam uma grande família cheia de netos e noras, todos altos e calejados, e
trabalhavam a terra sempre vestidos para festa, de negro e abotoados, os homens
com o chapéu de abas largas e caídas e as mulheres com toucas brancas. Os homens
usavam barbas compridas e andavam sempre com a espingarda a tiracolo, mas dizia-
se que nenhum deles jamais havia disparado, exceto nos pássaros, pois isso era
proibido pelos mandamentos.
Dos planaltos calcáreos onde com muito esforço crescia alguma mísera videira e
um trigo raquítico, erguia-se a voz do velho Ezequiel que berrava sem cessar de
punhos erguidos para o céu, tremendo com a branca barba caprina, girando os olhos
sob o chapéu em forma de funil: “Peste e carestia! Peste e carestia!”, e gritando com
os parentes encurvados pelo trabalho: “Vamos com essa enxada, Giona! Arranca o
capim, Susanna! Tobia, espalha o estrume!”, e disparava mil ordens e recriminações
com o enfado de quem se dirige a um bando de ineptos e esbanjadores, e cada vez,
depois de ter gritado as mil coisas que deviam fazer para que o campo não se
estragasse, punha-se a executá-las ele também, expulsando os outros e sempre
berrando: “Peste e carestia!”.
Sua mulher, ao contrário, não gritava nunca, e parecia, diferentemente dos outros,
segura de uma religião secreta, estabelecida nos mínimos detalhes, mas sobre a qual
não conversava com ninguém. Bastava-lhe observar fixamente, com seus olhos de
grandes pupilas, e dizer, com os lábios cerrados: “Mas tem certeza, irmã Rachele? Mas
tem certeza, irmão Aronne?”, para que os raros sorrisos desaparecessem das bocas
dos familiares e as expressões se tornassem graves e atentas.


Uma noite, cheguei a Col Gerbido enquanto os huguenotes estavam pregando.
Não que pronunciassem palavras e estivessem de mãos dadas ou ajoelhados;
estavam enfileirados na vinha, os homens de um lado e as mulheres do outro e, no
fundo, o velho Ezequiel com a barba no peito. Olhavam direto para a frente, com as
mãos fechadas pendendo dos longos braços nodosos, mas embora parecessem
absortos não perdiam o conhecimento daquilo que os circundava, e Tobia estendeu
uma das mãos e retirou uma lagarta, de uma videira, Rachele com a sola de pregos
esmagou uma lesma, e o próprio Ezequiel tirou de repente o chapéu para espantar
os pássaros que atacavam o trigo.
A seguir entoaram um salmo. Não se lembravam das palavras mas somente da ária,
e nem esta sabiam bem, e muitas vezes alguém desafinava ou talvez todos
desafinassem sempre, mas não desistiam, e acabada uma estrofe começavam outra,
sempre sem pronunciar as palavras.
Senti me puxarem pela manga e era o pequeno Esaú fazendo sinal para que eu
ficasse quieto e o seguisse. Esaú tinha a mesma idade que eu; era o último filho do
velho Ezequiel; dos parentes só tinha a expressão do rosto dura e tensa, mas com um
fundo de malícia marota. Andando de quatro pela vinha nos afastamos, enquanto ele
me dizia:
— Ainda vão demorar mais meia hora; haja paciência! Venha ver a minha caverna.
A caverna de Esaú era secreta. Ele se escondia lá para que os seus não o
encontrassem e não o mandassem pastorear cabras ou tirar as lesmas das verduras.
Ali passava dias inteiros sem fazer nada, enquanto o pai o procurava aos berros pelos
campos.
Esaú tinha uma provisão de tabaco e, pendurados na parede, guardava dois
cachimbos compridos de louça. Encheu um e queria que eu fumasse. Ensinou-me a
acender e lançava grandes baforadas com uma avidez que eu nunca tinha visto num
jovem. Era a primeira vez que eu fumava. Para me deixar à vontade, Esaú pegou uma
garrafa de aguardente e me serviu um copo que me fez tossir e revirar as tripas. Ele a
bebia como se fosse água.
— Para me embebedar é preciso uma boa quantidade — disse.
— Onde conseguiu todas estas coisas que tem aqui? — perguntei-lhe.
Esaú fez um gesto de quem raspa com os dedos:
— Roubei.
Tornara-se o chefe de um bando de rapazes católicos que saqueavam os campos
das redondezas; e não só limpavam as árvores frutíferas, mas também entravam nas
casas e nos galinheiros. E xingavam mais alto e mais vezes até do que mestre
Pedroprego: conheciam todos os palavrões católicos, e huguenotes e os trocavam
entre eles.
— Mas cometo também vários outros pecados — me explicou —, presto
testemunhos falsos, me esqueço de aguar os feijões, não respeito pai e mãe, volto


para casa tarde da noite. Agora quero cometer todos os pecados possíveis; mesmo
aqueles que ainda não sou suficientemente adulto para entender.
— Todos os pecados? — disse-lhe eu. — Mesmo matar?
Deu de ombros:
— Matar agora não me convém e não me interessa.
— Meu tio mata e manda matar por prazer, dizem — comentei eu, para ter alguma
coisa minha para contrapor a Esaú.
Ele cuspiu.
— Um prazer de imbecis — disse.
Depois trovejou e começou a chover.
— Vão procurar por você em casa — disse a Esaú. Ninguém nunca procurava por
mim, mas percebia que outros rapazes eram sempre procurados pelos pais,
especialmente quando o tempo estava ruim, e pensei que fosse uma coisa
importante.
— Vamos esperar aqui a chuva passar — disse Esaú —, e enquanto isso vamos
jogar dados.
Pegou os dados e uma pilha de notas. Dinheiro eu não tinha, por isso apostei
assobios, facas e atiradeiras — e perdi tudo.
— Não desanime — me disse por fim Esaú. — Sabe, eu trapaceio.
Lá fora: trovões, relâmpagos e chuva sem parar. A gruta de Esaú começou a alagar-
se. Ele pôs o tabaco e as outras coisas a salvo e disse:
— Vamos ter dilúvio a noite inteira: é melhor correr e nos proteger em casa.
Estávamos encharcados e cheios de lama quando chegamos à casa do velho
Ezequiel. Os huguenotes estavam sentados ao redor da mesa, à luz de uma
lamparina, e tentavam lembrar-se de algum episódio da Bíblia, tratando de contá-lo
como algo que pareciam ter lido um dia, com significado e verdade incertos.
— Peste e carestia! — gritou Ezequiel dando um soco na mesa, que apagou a
lamparina, quando seu filho Esaú apareceu comigo no vão da porta.
Comecei a bater os dentes. Esaú deu de ombros. Do lado de fora parecia que os
trovões e relâmpagos descarregavam sobre Col Gerbido. Enquanto reacendiam a
lamparina, o velho com os punhos cerrados enumerava os pecados do filho como os
mais nefandos que um ser humano tivesse cometido, mas só conhecia parte deles. A
mãe concordava muda, e todos os demais filhos e genros e noras e netos ouviam
com o queixo no peito e o rosto escondido entre as mãos. Esaú, maçã na mão,
mordiscava como se a briga não fosse com ele. Eu, entre os relâmpagos e a voz de
Ezequiel, tremia feito um caniço.
A gritaria foi interrompida pela volta dos homens que faziam a guarda, com sacos


no lugar de capuzes, todos ensopados. Os huguenotes faziam turnos a noite inteira,
armados de escopetas, foices e garfos de feno para prevenir as incursões traiçoeiras
do visconde, já inimigo declarado deles.
— Pai! Ezequiel! — disseram aqueles huguenotes. — É uma noite de lobos. Na
certa o Capenga não vai aparecer. Podemos nos abrigar em casa, pai?
— Aí fora não há sinais do Manco? — perguntou Ezequiel.
— Não, pai, exceto o cheiro de queimado que os raios deixam. Esta não é noite
para o Aleijão.
— Então, fiquem em casa e troquem de roupa. Que a tempestade traga paz para o
Arrebentado e para nós.
Capenga, Manco, Aleijão, Arrebentado eram alguns dos apelidos com que os
huguenotes indicavam meu tio; nunca os ouvi pronunciar seu verdadeiro nome.
Ostentavam nas conversas uma espécie de intimidade com o visconde, como se o
conhecessem muito bem, como se ele fosse um velho inimigo. Diziam entre eles
frases breves seguidas de piscadelas e risadinhas: “Eh, eh, o Manco… Assim mesmo,
o Meio-Surdo…”, como se todas as loucuras tenebrosas de Medardo fossem claras e
previsíveis para eles.
Assim estavam falando, quando na tempestade se ouviu um soco na porta.
— Quem bate com um tempo destes? — disse Ezequiel. — Rápido, abram.
Abriram e no umbral estava o visconde rígido na única perna, enrolado em seu
manto negro gotejante, com o chapéu de plumas encharcado.
— Amarrei meu cavalo na estrebaria de vocês — disse. — Rogo que me deem
hospitalidade também. A noite está feia para um viajante.
Todos olharam para Ezequiel. Eu tinha me escondido debaixo da mesa, para que
meu tio não descobrisse que frequentava aquela casa inimiga.
— Sente-se próximo do fogo — disse Ezequiel. — Nesta casa o hóspede é sempre
bem-vindo.
Perto do umbral havia um monte de lençóis usados para estender sob as árvores
na colheita de azeitonas; Medardo deitou-se sobre eles e adormeceu.
No escuro, os huguenotes se juntaram ao redor de Ezequiel.
— Pai, agora nós o temos em nossas mãos, o Capenga! — cochicharam. — Vamos
deixá-lo fugir? Devemos permitir que pratique outros crimes contra os inocentes?
Ezequiel, não chegou a hora de pagar suas culpas, o Abúndeo?
O velho ergueu o punho em direção ao teto:
— Peste e carestia! — gritou, se é possível dizer que grita quem fala sem emitir
quase nenhum som, mas com toda a sua força. — Em nossa casa, nenhum hóspede
jamais foi maltratado. Vou montar guarda eu próprio para proteger o sono dele.


E com a espingarda a tiracolo plantou-se ao lado do visconde reclinado. O olho de
Medardo se abriu.
— O que faz aqui, mestre Ezequiel?
— Protejo o seu sono, hóspede. Muitos o odeiam.
— Sei disso — disse o visconde —, não durmo no castelo porque receio que os
servos me matem durante o sono.
— Tampouco gostamos do senhor em minha casa, mestre Medardo. Mas esta noite
será respeitado.
O visconde ficou em silêncio, depois disse:
— Ezequiel, quero converter-me à religião de vocês.
O velho não disse nada.
— Estou cercado por gente não confiável — continuou Medardo. — Gostaria de
me livrar deles todos e chamar os huguenotes para o castelo. O senhor, mestre
Ezequiel, será o meu ministro. Vou declarar Terralba território huguenote e
começarei a guerra contra os príncipes católicos. O senhor e seus familiares serão os
chefes. Está de acordo, Ezequiel? Pode me converter?
O velho estava duro, imóvel com o peito grande atravessado pela correia do fuzil.
— Esqueci coisas demais da nossa religião — disse — para que possa ousar
converter alguém. Permanecerei em minhas terras segundo minha consciência. O
senhor nas suas com a sua.
O visconde ergueu-se sobre o cotovelo.
— Sabe, Ezequiel, que ainda não informei a Inquisição sobre a presença de
hereges em meu território? E que suas cabeças mandadas de presente ao nosso bispo
me permitiriam voltar imediatamente às boas graças da cúria?
— Nossas cabeças ainda estão coladas em nossos pescoços, senhor — disse o
velho —, mas existe algo que é ainda mais difícil de nos arrancar.
Medardo ficou de pé num salto e abriu a porta.
— Dormirei mais tranquilo debaixo daquele carvalho do que em casa de inimigos.
— E foi embora debaixo de chuva.
O velho chamou os outros:
— Filhos, estava escrito que primeiro viesse o Capenga visitar-nos. Agora ele se
foi; o caminho de nossa casa está livre; não se desesperem, filhos: talvez um dia
passe um viajante melhor.
Todos os huguenotes barbudos e as mulheres com toucas inclinaram a cabeça.
— E mesmo que não venha ninguém — acrescentou a mulher de Ezequiel —,
permaneceremos em nosso lugar.


Naquele momento, um raio riscou o céu, e o trovão fez tremer as telhas e as
pedras das paredes. Tobia gritou:
— O raio caiu no carvalho! Está queimando!
Correram para fora com as lanternas, e viram a grande árvore carbonizada pela
metade, do alto da copa às raízes, e a outra metade estava intacta. Distante sob a
chuva, ouviram os cascos de um cavalo e com um relâmpago viram a figura coberta
do magro cavaleiro.
— Você nos salvou, pai — disseram os huguenotes. — Obrigado, Ezequiel.
O céu clareava no levante trazendo a aurora.
Esaú me chamou de lado:
— Diga se não são tontos — me disse baixo —, veja o que aproveitei para fazer.
— E mostrou a mão cheia de objetos brilhantes. — Todas as tachas de ouro da sela,
peguei tudo enquanto o cavalo estava amarrado na estrebaria. Diga se não são tontos
em não pensar nisso.
Esse jeito de agir de Esaú não me agradava, e o de seus parentes me inibia. Preferi
então ficar só e ir até a praia pegar moluscos e caçar caranguejos. Enquanto tentava
desentocar um filhote de caranguejo na ponta de um rochedo, vi na água calma
debaixo de mim espelhar-se uma lâmina acima de minha cabeça, e caí no mar com o
susto.
— Segure aqui — disse meu tio, pois fora ele quem se aproximara às minhas
costas. E queria que me firmasse na espada, do lado da lâmina.
— Não, dou um jeito sozinho — respondi, e me pendurei num contraforte que um
braço d’água separava do resto do rochedo.
— Está procurando caranguejos? — disse Medardo —, estou atrás de polvos. — E
me mostrou sua presa.
Eram grandes polvos marrons e brancos. Estavam cortados em dois com um golpe
de espada, mas continuavam a mover os tentáculos.
— Que se pudesse partir ao meio toda coisa inteira — disse meu tio, de bruços no
rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo —, que todos pudessem
sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram
naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e só havia a casca. Se
você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas
além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e
do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa. E você
há de querer que tudo seja partido ao meio e talhado segundo sua imagem, pois a
beleza, sapiência e justiça existem só no que é composto de pedaços.
— Ah, ah — dizia eu —, que monte de caranguejos aqui! — E fingia interesse
apenas por minha caça, para manter-me distante da espada de meu tio.


Não voltei para a margem enquanto ele não se afastou com seus polvos. Mas o eco
das palavras dele continuava a me perturbar e não encontrava sossego para essa sua
fúria de dividir tudo ao meio. Para qualquer lado que me virasse, Trelawney,
Pedroprego, os huguenotes, os leprosos, todos se encontravam sob o signo do
homem partido ao meio, era ele o patrão a quem servíamos e do qual não
conseguíamos nos livrar.


6
A
fivelado na sela de seu cavalo saltador, Medardo di Terralba subia e descia
desde cedo pelos barrancos, e se debruçava para o vale perscrutando com olho de
ave de rapina. Assim viu a pequena pastora Pamela em meio a um prado junto com
suas cabras.
O visconde disse consigo mesmo: “Acontece que entre os meus sentimentos
intensos não tenho nada que corresponda àquilo que os inteiros chamam de amor. E
se para eles um sentimento tão idiota possui tanta importância, o que para mim
poderá corresponder a isso, certamente será magnífico e terrível”. E decidiu
apaixonar-se por Pamela, que, gorduchinha e descalça, com um simples vestidinho
rosa, estava de bruços na grama, cochilando, falando com as cabras e cheirando
flores.
Mas os pensamentos que ele formulara friamente não devem nos induzir a
enganos. Ao ver Pamela, Medardo sentira um vago movimento do sangue, e havia
recorrido àqueles argumentos com uma espécie de pressa assustada.
No caminho de volta, ao meio-dia, Pamela viu que todas as margaridas do prado
tinham só a metade das pétalas e a outra metade do miolo fora desfolhada. “Ai de
mim”, disse consigo mesma, “de todas as moças do vale, tinha de acontecer logo
comigo!” Havia entendido que o visconde se apaixonara por ela. Colheu todas as
meias-margaridas, levou-as para casa e as pôs entre as páginas do missal.
À tarde, foi ao Prado das Freiras para alimentar os patos e fazê-los nadar no
pântano. O prado estava coberto de umbelíferas brancas, mas também elas tiveram a
sorte das margaridas, como se parte de cada corimbo tivesse sido cortado com uma
tesourada. “Ai de mim”, disse consigo mesma, “é justamente a mim que ele deseja!”,
e juntou num maço as flores divididas para colocá-las na moldura do espelho da
cômoda.
Depois não pensou mais no caso, amarrou a trança em volta da cabeça, tirou o
vestido e tomou banho na lagoa junto com os patos.
À noite, regressando a sua casa, os prados estavam cheios de dentes-de-leão
também conhecidos como “soprões”. E Pamela viu que tinham perdido as penugens
só de um lado, como se alguém tivesse deitado no chão soprando de banda ou só
com meia boca. Pamela colheu algumas daquelas meias-esferas brancas, soprou-as e
sua penugem macia voou longe. “Ai de mim”, disse consigo mesma, “é mesmo
comigo. Como vai acabar isso?”
A casa de Pamela era tão pequena que depois de ter feito as cabras entrarem no
primeiro andar e os patos no térreo não cabia mais ninguém. Tudo em torno estava


cercado de abelhas, pois também cuidavam de colmeias. E debaixo da terra estava
cheio de formigueiros: bastava pôr uma das mãos em qualquer lugar para retirá-la
negra e formigando. Sendo assim, a mãe de Pamela dormia no paiol, o pai dormia
num barril vazio, e Pamela numa rede suspensa entre uma figueira e uma oliveira.
Pamela se deteve no umbral. Havia uma borboleta morta. Uma asa e metade do
corpo tinham sido esmagadas por uma pedra. Pamela deu um grito e chamou o pai e
a mãe.
— Quem esteve aqui? — disse Pamela.
— Há pouco passou o nosso visconde — disseram o pai e a mãe —, disse que
estava atrás de uma borboleta que o havia picado.
— Desde quando as borboletas picam alguém? — disse Pamela.
— Bah, nós também queríamos saber.
— A verdade é — disse Pamela — que o visconde se apaixonou por mim e
devemos estar preparados para o pior.
— Ah, ah, não deixe que lhe suba à cabeça, não exagere — responderam os
velhos, como sempre os velhos costumam responder, quando não são os jovens que
respondem assim.
No dia seguinte, quando chegou à pedra onde costumava sentar-se pastoreando as
cabras, Pamela deu um berro. Restos horrendos enfeavam a pedra: eram a metade de
um morcego e a metade de uma medusa, uma pingando sangue negro e a outra,
matéria viscosa, uma com a asa aberta e a outra com as moles franjas gelatinosas. A
pastora percebeu que era uma mensagem. Significava: encontro hoje à noite na
praia. Pamela tomou coragem e foi.
Junto ao mar, sentou-se nas pedras e ficou escutando o sussurro da onda branca.
A seguir, um tropel sobre as pedras e Medardo galopava pela margem. Deteve-se,
tirou a fivela, apeou.
— Pamela, eu decidi apaixonar-me por você — disse ele.
— E é por isso — empertigou-se ela — que destrói todas as criaturas da natureza?
— Pamela — suspirou o visconde —, não temos nenhuma outra linguagem para
nos comunicar senão esta. Cada encontro de duas criaturas no mundo é uma
dilaceração. Venha comigo, conheço esse mal e você há de estar mais segura do que
com qualquer outro; porque faço o mal como todos, mas, diferentemente dos outros,
tenho a mão firme.
— E vai me estraçalhar como as margaridas ou as medusas?
— Não sei o que vou fazer com você. Certamente, tê-la comigo me tornará
possível coisas que nem imagino. Vou levá-la para o castelo e encerrá-la ali e
nenhum outro há de vê-la e teremos meses e anos para entender o que deveremos
fazer e inventar sempre novos modos para estar juntos.


Pamela estava deitada no cascalho e Medardo se ajoelhara ao lado dela. Ao falar,
gesticulava envolvendo-a com a mão, mas sem tocá-la.
— Bem: tenho de saber antes o que vai fazer comigo. Seria uma boa ideia me dar
uma amostra agora para eu decidir se vou ou não para o castelo.
O visconde lentamente aproximou da bochecha de Pamela a sua mão fina e
adunca. A mão tremia e não dava para entender se ensaiava uma carícia ou um
arranhão. Mas ele não chegara a tocá-la, quando retraiu a mão de repente e se
levantou.
— É no castelo que a desejo — disse içando-se até o cavalo —, vou preparar a
torre onde você há de morar. Dou-lhe mais um dia para pensar e depois terá de
chegar a uma decisão.
E dizendo isso esporeou o animal pela praia afora.
No dia seguinte, Pamela subiu como de hábito na amoreira para colher as
frutinhas e ouviu gemer e espojar-se entre os galhos. Por pouco não caiu do susto.
Num ramo alto estava amarrado um galo pelas asas, e grandes lagartas azuis e
cabeludas o devoravam: um ninho de processionárias, insetos terríveis que vivem
nos pinheiros, fora colocado bem na sua crista.
Na certa era outra das terríveis mensagens do visconde. E Pamela interpretou: “Ao
amanhecer nos vemos no bosque”.
Com a desculpa de encher um saco de pinhas, Pamela subiu até o bosque, e
Medardo saiu de trás de um tronco apoiado em sua muleta.
— Então — perguntou a Pamela —, resolveu vir para o castelo?
Pamela estava recostada sobre as agulhas de pinheiro.
— Resolvi não ir — disse virando-se de leve. — Se me quiser, venha me encontrar
aqui no bosque.
— Há de vir para o castelo. A torre onde vai morar está pronta e será todinha sua.
— O senhor quer me manter prisioneira lá e depois talvez me torrar num incêndio
ou fazer os ratos me roerem. Não, não. Já lhe disse: serei sua se quiser, mas aqui nas
agulhas de pinheiro.
O visconde estava de cócoras junto à cabeça dela. Tinha uma agulha de pinheiro
na mão; aproximou-a do pescoço da moça e passou-a em sua pele. Pamela sentiu
arrepios, mas aguentou firme. Via o rosto do visconde inclinado sobre ela, aquele
perfil que continuava a ser um perfil mesmo visto de frente e aquelas meias-bandas
de dentes abertas num sorriso em forma de tesoura. Medardo apertou a agulha de
pinheiro na mão e quebrou-a. Ergueu-se.
— É trancada no castelo que a desejo, trancada no castelo!
Pamela percebeu que podia arriscar-se, e balançava no ar os pés descalços
enquanto dizia:


— Aqui no bosque, não digo que não; fechada, nem morta.
— Encontrarei um jeito de arrastá-la! — disse Medardo pondo a mão no dorso do
cavalo que tinha se aproximado como se passasse ali por acaso. Subiu na sela e
arrancou pelos atalhos da floresta.
Naquela noite Pamela dormiu em sua rede pendurada entre a oliveira e a figueira,
e de manhã, que horror! encontrou no colo uma pequena carcaça sangrando. Era um
meio-esquilo, cortado como de hábito em sentido longitudinal, mas com a pele
intacta.
— Ai de mim, pobre de mim — disse aos pais —, este visconde não me deixa em
paz.
O pai e a mãe passaram de mão em mão a carcaça do esquilo.
— Contudo — disse o pai —, deixou a cauda inteira. Quem sabe não é um bom
sinal…
— E se estivesse começando a ficar bom… — disse a mãe.
— Sempre corta tudo em dois — disse o pai —, mas o que o esquilo tem de mais
bonito, a cauda, ele respeita…
— Esta mensagem talvez queira dizer — comentou a mãe — que tudo o que você
tiver de bonito ele há de respeitar…
Pamela pôs as mãos na cabeça.
— O que tenho de ouvir de vocês, pai e mãe! Estão escondendo alguma coisa de
mim: o visconde falou com vocês…
— Falar não — disse o pai —, mas mandou dizer que pretende nos visitar e que
vai se interessar por nossas misérias.
— Pai, se ele vier conversar, tire a tampa das colmeias e mande as abelhas para
cima dele.
— Filha, talvez mestre Medardo esteja melhorando… — disse a velha.
— Mãe, se ele vier falar com vocês, amarrem-no em cima do formigueiro e
deixem-no lá.
Naquela noite, o paiol onde dormia a mãe pegou fogo e o barril onde dormia o pai
foi quebrado. De manhã, os dois velhotes contemplavam os restos do desastre
quando apareceu o visconde.
— Lamento tê-los assustado esta noite — disse —, mas não sabia como entrar no
assunto. O fato é que sua filha Pamela me agrada e gostaria de levá-la para o castelo.
Por isso peço-lhes formalmente que me deem sua mão. A vida dela vai mudar e a de
vocês também.
— Imagine se nós não ficaríamos contentes, senhor! — disse o velhote. — Mas se
soubesse o temperamento que tem minha filha! Veja só: disse para jogá-lo contra as


abelhas das colmeias…
— Imagine, senhor… — disse a mãe —, sugeriu amarrá-lo ao formigueiro…
Sorte que Pamela voltou cedo para casa nesse dia. Encontrou o pai e a mãe
amarrados e amordaçados, ele na colmeia, ela no formigueiro. Mais sorte ainda: as
abelhas conheciam o velho e as formigas tinham mais o que fazer além de picar a
velha. Assim pôde salvar os dois.
— Viram como o visconde ficou bonzinho? — disse Pamela.
Mas os dois velhotes andavam matutando alguma coisa. E no dia seguinte
amarraram Pamela e a prenderam em casa com os animais; e foram ao castelo dizer
ao visconde que se quisesse a filha deles podia mandar buscá-la, pois estavam
dispostos a entregá-la.
Mas Pamela sabia conversar com seus animais. Dando bicadas, os patos a
libertaram das cordas, e com chifradas as cabras arrebentaram a porta. Pamela
correu, levou junto a cabra e a pata preferidas, e foi viver no bosque. Estava numa
gruta conhecida só por ela e por um menino que lhe levava alimentos e notícias.
Esse menino era eu. Com Pamela no bosque a vida era bela. Levava-lhe fruta,
queijo e peixes fritos e ela em troca me oferecia algumas xícaras de leite de cabra e
alguns ovos de pata. Quando ela tomava banho nos pântanos e nos riachos eu
montava guarda para que ninguém a visse.
Meu tio passava às vezes pelo bosque, mas se mantinha ao largo, mesmo
manifestando a sua presença nos tristes modos que lhe eram próprios. Às vezes, um
rolar de pedras tocava Pamela e seus animais; em outras ocasiões, um tronco de
pinheiro ao qual ela se apoiava cedia, minado na base por golpes de machadinha; às
vezes ainda, uma nascente se descobria poluída por restos de animais mortos.
Meu tio havia começado a caçar, com uma besta que ele conseguia manobrar com
o único braço. Mas se tornara ainda mais fechado e magro, como se novas penas
roessem aquele seu resto de corpo.
Certo dia, o dr. Trelawney andava comigo pelos campos quando o visconde veio
ao nosso encontro a cavalo e quase o atropelou, fazendo-o cair. O cavalo tinha
parado com o casco no peito do inglês, e meu tio disse:
— Explique-me o senhor, doutor: tenho a sensação de que a perna que não
possuo está cansada de tanto caminhar. O que isso pode significar?
Trelawney confundiu-se e gaguejou como de hábito, e o visconde saiu disparado.
Mas a pergunta deve ter impressionado o doutor, que se pôs a refletir, segurando a
cabeça com as mãos. Nunca tinha visto nele tanto interesse por uma questão de
medicina humana.


7
A
o redor de Prado do Cogumelo cresciam moitas de hortelã-pimenta e sebes de
alecrim, e não se entendia se eram silvestres ou eram canteiros de uma horta de
temperos. Eu caminhava com o peito cheio de um perfume adocicado, procurando o
caminho para encontrar a velha Sebastiana.
Desde que Sebastiana desaparecera pelo caminho que conduzia à aldeia dos
leprosos, lembrava-me com maior frequência de que era órfão. Angustiava-me por
não saber mais nada sobre ela; pedia notícias a Galateo, gritando trepado numa
árvore quando ele passava; mas Galateo era inimigo das crianças, que às vezes
atiravam nele lagartixas vivas de cima das árvores, e dava respostas zombeteiras e
incompreensíveis, com sua voz melosa e sonora. E agora, à curiosidade de entrar em
Prado do Cogumelo somava-se a de rever a grande ama, e eu circulava sem descanso
entre as moitas perfumadas.
De repente, de uma moita de tomilho ergueu-se uma figura vestida de claro, com
um chapéu de palha, e caminhou na direção da aldeia. Era um velho leproso, e eu
pretendia perguntar-lhe sobre a ama, e acercando-me o suficiente para me fazer
ouvir, mas sem gritar, disse:
— Ei, senhor leproso!
Mas naquele momento, talvez despertado por minhas palavras, justamente perto
de mim uma outra figura sentou-se e estendeu as pernas. Trazia, o rosto todo
escamoso feito uma casca seca, e uma barba branca e rarefeita, que parecia lã. Pegou
um assobio no bolso e soprou na minha direção, como se estivesse me provocando.
Então me dei conta de que a tarde de sol estava repleta de leprosos deitados,
escondidos nas moitas, e agora se levantavam devagar com seus roupões claros, e
caminhavam à contraluz rumo a Prado do Cogumelo, levando nas mãos
instrumentos musicais ou de jardinagem, e com eles faziam barulho. Retrocedera
para afastar-me daquele homem barbudo, mas quase acabei em cima de uma leprosa
sem nariz que se penteava entre os ramos de um loureiro, e embora saltasse pelo
bosque, esbarrava apenas contra outros leprosos e me dava conta de que os passos
que podia dar eram apenas na direção de Prado do Cogumelo, cujos tetos de palha
enfeitados com fileiras de pipas já estavam próximos, ao pé da primeira curva.
Os leprosos só me dirigiam atenção de vez em quando, com piscadelas e acordes
de sanfona, mas me parecia que era eu quem estava no meio da marcha deles e eles
me acompanhavam a Prado do Cogumelo como um animal capturado. Na aldeia, as
paredes das casas eram pintadas de lilás e de uma janela uma mulher meio
desgrenhada, com manchas lilases no rosto e no peito, tocadora de lira, gritou:


— Os jardineiros voltaram! — E tocou a lira.
Outras mulheres debruçaram-se nas janelas e nos mirantes, cantando:
— Bem-vindos, jardineiros!
Tratava de manter-me no meio daquela ruazinha e não encostar em ninguém; mas
me encontrei numa espécie de encruzilhada, cercado de leprosos, homens e
mulheres sentados nos portais de suas casas, com roupas compridas rasgadas e
desbotadas sob as quais transpareciam feridas e vergonhas, e nos cabelos, flores de
pilriteiro e anêmonas.
Os leprosos apresentavam um concertino que ousaria considerar em minha
homenagem. Alguns inclinavam os violinos na minha direção com movimentos
exagerados do arco, outros, assim que olhava para eles, imitavam rãs, outros me
mostravam estranhas marionetes que subiam e desciam num barbante. O concertino
era feito de muitos e disparatados gestos e sons, mas havia uma espécie de estribilho
que repetiam de vez em quando: “O pintinho sem manchas foi atrás de amoras e se
manchou”.
— Procuro a minha ama — falei alto —, a velha Sebastiana: sabem onde está?
Explodiram em risadas, com aquele seu ar esperto e maligno.
— Sebastiana! — gritei. — Sebastiana! Onde você está?
— Aqui, menino — disse um leproso —, bom menino. — E apontou uma porta.
A porta se abriu e apareceu uma mulher morena, talvez moura, seminua e tatuada,
enfeitada com rabos de pipa, que iniciou uma dança licenciosa. Não entendi bem o
que sucedeu a seguir: homens e mulheres se lançaram uns sobre os outros e
começaram o que depois fiquei sabendo que era uma orgia.
Tornei-me miudinho miudinho quando de repente a grande velha Sebastiana abriu
espaço naquele grupo.
— Porcalhões horríveis — disse. — Ao menos um mínimo de consideração por
uma alma inocente.
Pegou-me pela mão e me levou embora enquanto eles cantavam: “O pintinho sem
manchas foi atrás de amoras e se manchou!”.
Sebastiana vestia uma roupa violeta-clara, com corte quase monacal e já algumas
manchas deturpavam a sua bochecha sem rugas. Eu estava contente por ter
reencontrado a ama, porém desesperado porque me pegara pela mão e certamente
me passara a lepra. Falei-lhe disso.
— Não tenha medo — respondeu Sebastiana —, meu pai era um pirata e meu avô
um eremita. Sei as propriedades de todas as ervas, contra as doenças tanto nossas
quanto mouras. Eles se esfregam com orégano e malva; eu, ao contrário, quieta
quieta, com a borragem e o agrião preparo certos cozidos que não me deixarão
pegar a lepra enquanto viver.


— E estas manchas que traz no rosto, ama? — perguntei, muito aliviado mas ainda
não inteiramente convencido.
— Colofônio. Para fazê-los pensar que também tenho lepra. Vem aqui que lhe dou
uma das minhas tisanas quentes quentes, porque para andar neste lugar a prudência
nunca é demais.
Tinha me levado até a casa dela, uma cabaninha meio escondida, limpa, com
roupas estendidas; e conversamos.
— E Medardo? E Medardo? — me perguntava ela, e todas as vezes que eu tentava
falar me interrompia — Ah, que patife! Ah, que malandrinho! Apaixonado! Ah, pobre
moça! E aqui, e aqui, não imagina! Se soubesse tudo o que desperdiçam! Coisas que
tiramos da boca para dar a Galateo, e aqui sabe o que fazem? Esse Galateo é um belo
espertalhão, sabe? Má pessoa, e não é o único! As coisas que fazem durante a noite! E
de dia, então! E essas mulheres, sem-vergonha assim nunca tinha visto! Se ao menos
soubessem arrumar as coisas, mas nem isso! Bagunceiras e esfarrapadas! Oh, já lhes
disse na cara… E elas, sabe o que me responderam, essas tralhas?
Muito contente com a visita à ama, no dia seguinte fui pescar enguias.
Pus o anzol numa lagoa formada pelo rio e enquanto esperava adormeci. Não sei
quanto durou meu sono; um ruído me acordou. Abri os olhos e vi sobre a mão
aberta acima de minha cabeça uma peluda aranha vermelha. Virei-me e era meu tio
com seu manto negro.
Pulei assustado, mas naquele momento a aranha picou a mão de meu tio e
desapareceu rapidamente. Meu tio levou a mão aos lábios, chupou de leve a ferida e
disse:
— Você dormia e vi uma aranha venenosa descer para seu pescoço vindo daquele
ramo. Meti a mão na frente e ela me picou.
Não acreditei numa palavra sequer: por três vezes no mínimo atentara contra
minha vida, usando meios parecidos. Mas agora aquela aranha o havia picado de
fato e a mão dele já estava inchando.
— Você é meu sobrinho — disse Medardo.
— Sim — respondi um pouco surpreso, pois era a primeira vez que demonstrava
me reconhecer.
— Reconheci-o logo — disse ele. E acrescentou: — Ah, aranha! Tenho uma só
mão e você quer envenená-la! De qualquer modo, melhor que tenha tocado a minha
mão em vez do pescoço deste jovem.
Que me lembrasse, meu tio nunca tinha me falado assim. A dúvida de que
estivesse dizendo a verdade e de repente pudesse ter ficado bom me passou pela
cabeça, mas logo a afastei: fingimentos e armadilhas eram habituais nele.
Certamente, parecia muito mudado, com uma expressão não mais tensa e cruel
porém abatida e aflita, talvez pelo medo e a dor da picada. Mas era também a roupa


empoeirada e com corte um pouco diferente do costumeiro que dava essa
impressão: seu manto negro estava meio esfarrapado, com folhas secas e ouriços de
castanha grudados nas pontas; mesmo a roupa não era do veludo negro de sempre,
mas de um fustão pelado em alguns pontos e desbotado, e a perna não estava mais
coberta pela comprida bota de couro, e sim por uma meia de lã com listras azuis e
brancas.
Para demonstrar que não me interessava por ele, fui olhar se por acaso alguma
enguia tinha mordido meu anzol. Nem sombra de enguias, mas vi que no anzol
brilhava um anel de ouro com um diamante. Puxei-o e na pedra havia o brasão dos
Terralba.
O visconde me seguia com o olhar e disse:
— Não se espante. Passando por aqui, vi uma enguia debater-se presa no anzol e
me deu tanta pena que a soltei; depois, pensando no prejuízo que meu gesto dera ao
pescador, quis repará-lo com meu anel, última coisa de valor que me resta.
Eu tinha ficado de boca aberta. E Medardo continuou:
— Ainda não sabia que o pescador era você. Depois encontrei-o adormecido no
capim e o prazer de vê-lo imediatamente se transformou em apreensão por causa
daquela aranha que descia sobre você. O resto já sabe. — E dizendo isso olhou triste
para a mão inchada e roxa.
Quem sabe tudo não passasse de uma sequência de enganos cruéis; mas eu
pensava como seria bom uma imprevista conversão dos sentimentos dele e quanta
alegria também para Sebastiana, Pamela e todos os que sofriam com a sua crueldade.
— Tio — disse a Medardo —, espere aqui por mim. Vou correndo falar com
Sebastiana, que conhece todas as ervas, e peço uma que cure as picadas de aranhas.
— A ama Sebastiana… — disse o visconde, deitado com a mão no peito. — Afinal
como está?
Não me atrevi a dizer-lhe que Sebastiana não tinha pegado lepra e me limitei a
comentar:
— Hã, mais ou menos. Estou indo. — E saí correndo, querendo mais que tudo
perguntar a Sebastiana o que achava desses estranhos fenômenos.
Encontrei-a em sua casinha. Estava ansioso pela corrida e pela impaciência, e lhe
fiz um relato meio confuso, mas a velha se interessou mais pela picada do que pelas
boas ações de Medardo.
— Uma aranha vermelha, é? Sim, sim, conheço a erva certa… Inchou o braço de
um lenhador, uma vez… Tornou-se bom, está dizendo? Bem, que posso lhe dizer,
sempre foi assim, é preciso saber como tratar com ele… Mas onde enfiei aquela erva?
Basta fazer um emplasto. Um malandro desde pequeno, Medardo… Aqui está a erva,
tinha guardado um saquinho. Todavia, sempre assim: quando se machucava vinha
chorar com a ama… A picada é profunda?


— Está com a mão esquerda assim de inchada — disse.
— Ah, ah, menino… — riu a ama. — A esquerda… E onde é que mestre Medardo
tem a esquerda? Deixou toda a metade esquerda do corpo lá na Boêmia com aqueles
turcos, que o diabo os carregue…
— Tem razão — respondi —, contudo… ele estava daquele lado, eu aqui, a mão
virada assim… Como pode ser?
— Já não distingue mais a direita da esquerda? — disse a ama. — E olhe que
aprendeu quando tinha cinco anos…
Eu já não entendia mais. Na certa Sebastiana tinha razão, porém me lembrava de
tudo ao contrário.
— Então, bom menino, leve esta erva para ele — disse a ama, e saí correndo.
Cheguei esbaforido ao riacho, mas meu tio não estava mais lá. Olhei para todos os
lados: havia sumido com sua mão inchada e envenenada.
Anoitecia e eu circulava entre as oliveiras. E de repente o vejo, envolto no manto
negro, de pé numa das margens apoiado num tronco. Estava de costas e observava o
mar. Senti o medo tomar conta de mim outra vez e, com dificuldade, com um fio de
voz, consegui dizer:
— Aqui está a erva para a picada…
O meio-rosto se virou de repente, contraído numa careta feroz.
— Que erva, que picada? — gritou.
— A erva, para curar… — disse eu. Pronto, a expressão doce de antes
desaparecera, fora só um momento passageiro; agora talvez estivesse voltando
lentamente, num sorriso tenso, mas se via bem que era fingimento.
— Sim… muito bem… deixe-a no oco daquele tronco… pego mais tarde… —
disse.
Obedeci e meti a mão no buraco. Era um ninho de vespas. Voaram todas para
cima de mim. Comecei a correr seguido pelo enxame, e me atirei no riacho. Nadei
debaixo d’água e consegui afastar as vespas. Levantando a cabeça, ouvi a risada
maldosa do visconde, que se afastava.
Mais uma vez conseguira nos enganar. Mas eu não estava entendendo muitas
coisas, e fui conversar com o dr. Trelawney. O inglês se achava na sua casinhola de
coveiro, à luz de uma lanterna, inclinado sobre um livro de anatomia humana, coisa
rara.
— Doutor — perguntei-lhe —, já aconteceu de um homem picado por uma aranha
vermelha escapar incólume?
— Aranha vermelha, você disse? — O doutor deu um pulo. — Quem mais foi
picado pela aranha vermelha?


— O visconde, meu tio — disse eu —, e já lhe tinha levado a erva da ama,
quando, de bom que parecia ter se tornado, voltou a ser mau e recusou o meu
socorro.
— Agorinha tratei o visconde da picada de uma aranha vermelha na mão — disse
Trelawney.
— E diga, doutor: pareceu-lhe bom ou mau?
E o doutor me contou como as coisas tinham acontecido.
Depois de eu ter deixado o visconde deitado na grama com a mão inchada, o dr.
Trelawney passara por lá. Vislumbra o visconde, e como sempre cheio de medo,
trata de esconder-se entre as árvores. Mas Medardo ouvira os passos, se levanta e
grita:
— Ei, quem está aí?
O inglês pensa: “Se descobre que sou eu que estou me escondendo, quem sabe o
que poderá armar contra mim!”, e foge para não ser reconhecido. Mas tropeça e cai
na lagoa formada pelo riacho. Mesmo tendo passado a vida em navios, o dr.
Trelawney não sabe nadar, se debate no laguinho e pede socorro. Então o visconde
diz:
— Espere por mim!
Vai até a margem, desce na água mantendo-se pendurado, com a mão dolorida,
numa raiz externa de árvore, estica-se até que seu pé possa ser agarrado pelo doutor.
Comprido e fino como é, serve-lhe de corda para que possa alcançar a outra
margem.
— Eis-me a salvo e gaguejo: — “Oh, oh, milorde… obrigado, de verdade,
milorde… como posso…”, e lhe espirro na cara, porque peguei um resfriado.
— Saúde! — diz Medardo —, mas é melhor cobrir-se, por favor. — E lhe coloca
seu manto nas costas.
O doutor se defende, mais confuso que nunca. E o visconde lhe diz:
— Pegue, é seu.
Então Trelawney nota a mão inchada de Medardo.
— Que bicho o picou?
— Uma aranha vermelha.
— Deixe-me cuidar do senhor, milorde.
E o leva a sua casinha de coveiro, onde trata da mão com remédios e faixas.
Entretanto, o visconde conversa com ele cheio de generosidade e cortesia.
Despedem-se com a promessa de se reverem logo e reforçar a amizade.
— Doutor! — disse eu, depois de ouvir o relato dele. — O visconde de quem o
senhor tratou, voltou em seguida à sua loucura cruel e atirou um vespeiro em cima


de mim.
— Não aquele de quem cuidei — disse o doutor e piscou um olho.
— O que quer dizer, doutor?
— Logo há de saber. Agora não diga nada a ninguém. E deixe-me estudar, pois
tempos agitados se aproximam.
E o dr. Trelawney não se preocupou mais comigo: mergulhou de novo em sua
insólita leitura do tratado de anatomia humana. Devia ter algum projeto na cabeça, e
durante os dias que se seguiram permaneceu reticente e absorto.
Mas começavam a chegar notícias de várias fontes sobre uma natureza dupla de
Medardo. Crianças perdidas no bosque, cheias de medo, eram abordadas pelo
homem de muleta, que as conduzia para casa pela mão e lhes oferecia figos e
bolinhos fritos; viúvas pobres eram ajudadas por ele a carregar lenha; cães picados
por cobras eram tratados, presentes misteriosos eram encontrados pelos pobres nos
parapeitos e nos portais, árvores frutíferas arrancadas pelo vento eram replantadas e
fixadas em seus canteiros antes que os proprietários pusessem o nariz fora da porta.
Porém, ao mesmo tempo as aparições do visconde meio enrolado no manto negro
assinalavam acontecimentos terríveis: crianças sequestradas eram encontradas
prisioneiras em grutas obstruídas por pedras; avalanches de troncos e rochas rolavam
em cima das velhotas; abóboras maduras eram despedaçadas por pura maldade.
Fazia tempo que a besta do visconde só golpeava as andorinhas; e não para matá-
las, mas para feri-las e aleijá-las. Contudo, agora podiam ser vistas no céu andorinhas
com as patas enfaixadas e amarradas com gravetos de apoio ou com as asas coladas
e com curativos; havia um bando de andorinhas assim ataviadas que voavam com
prudência todas juntas, feito convalescentes de um hospital de passarinhos, e
inverossimilmente dizia-se que o próprio Medardo era o médico.
Certa vez, um temporal apanhou Pamela num lugar distante e não cultivado, com
sua cabra e a pata. Sabia que por perto havia uma gruta, embora pequena, uma
cavidade apenas esboçada na rocha, e para lá se dirigiu. Viu que dali saía uma bota
gasta e remendada, e dentro estava encolhido o meio-corpo envolto no manto negro.
Tentou fugir, mas o visconde percebeu que era ela e saindo sob a chuva
tamborilante lhe disse:
— Abrigue-se aqui, moça, venha.
— Não, pois não consigo me cobrir — disse Pamela —, porque aí só cabe um, e o
senhor quer que eu fique espremida.
— Não tenha medo — disse o visconde. — Ficarei de fora e você poderá ficar à
vontade, junto com a sua cabra e a pata.
— Cabra e pata também podem apanhar um pouco d’água.
— Vai ver que protegeremos também elas.


Pamela, que ouvira falar de estranhos acessos de bondade do visconde, pensou:
“Vamos ver”, e se encolheu na gruta, apertando-se contra os animais. O visconde, de
pé ali em frente, segurava o manto como uma tenda para que nem a pata nem a
cabra se molhassem. Pamela observou a mão dele segurando o manto, concentrou-
se um momento, começou a olhar para as próprias mãos, comparou uma com a
outra, e depois explodiu numa grande risada.
— Estou contente de que você esteja alegre, moça — disse o visconde —, mas por
que está rindo, posso perguntar?
— Estou rindo porque entendi o que anda enlouquecendo os meus conterrâneos.
— O quê?
— Que o senhor é um pouco bom e um pouco mau. Agora tudo é natural.
— E por quê?
— Porque me dei conta de que o senhor é a outra metade. O visconde que mora
no castelo, o mau, é uma das metades. E o senhor é a outra metade, que se
acreditava perdida na guerra e agora regressou. E é uma metade boa.
— Gentileza sua. Obrigado.
— Oh, é isso mesmo, não é para elogiá-lo.
Assim, eis a história de Medardo, conforme Pamela a escutou naquela noite. Não
era verdade que a bala de canhão tinha esmigalhado parte de seu corpo: ele fora
dividido em duas metades; uma foi encontrada pelos catadores de feridos do
exército; a outra ficou enterrada sob uma pirâmide de restos cristãos e turcos e não
foi vista. No coração da noite, passaram pelo campo dois eremitas, não se sabe bem
se fiéis à religião justa ou nigromantes, os quais, como acontece com alguns nas
guerras, acabaram vivendo nas terras desertas entre os dois campos e talvez, agora se
comenta, tentassem abraçar juntas a Trindade cristã e o Alá de Maomé. Em sua
piedade bizarra, os eremitas, tendo encontrado o corpo dividido de Medardo,
levaram-no para sua espelunca e ali, com bálsamos e unguentos por eles preparados,
tinham-no medicado e salvado. Assim que recuperou as forças, o ferido despedira-se
dos salvadores e, andando com sua muleta, percorrera durante meses e anos as
nações cristãs para voltar ao seu castelo, maravilhando as pessoas ao longo do
caminho com seus atos de bondade.
Depois de ter contado sua história a Pamela, o meio-visconde bom quis que a
pequena pastora contasse a sua. E Pamela explicou como o Medardo mau a
perseguia e como havia fugido de casa e vagava pelos bosques.
Diante do relato de Pamela, o Medardo bom se comoveu e dividiu a sua piedade
entre a virtude perseguida da pastora, a tristeza sem conforto do Medardo mau, e a
solidão dos pobres pais da moça.
— Aquela dupla! — disse Pamela. — Meus pais são dois velhos tratantes. Não vale
a pena compadecer-se deles.


— Oh, pense neles, Pamela, como devem estar tristes neste momento em sua
velha casa, sem ninguém que se ocupe deles e faça os trabalhos dos campos e da
estrebaria.
— Queria que a estrebaria desabasse na cabeça deles! — disse Pamela. — Começo
a ver que o senhor é manso demais e em vez de discutir com sua metade por tudo o
que ela apronta de errado, até parece que sente pena também dele.
— E como não sentir? Eu, que sei o que significa ser metade de um homem, não
posso deixar de sofrer por ele.
— Mas o senhor é diferente; meio maluco o senhor também, mas bom.
Então o bom Medardo disse:
— Ó Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e
coisa no mundo a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletude.
Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e
feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar
menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desarraigado, mas você também, e
todos. Mas, agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela
com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender
a sofrer com os males de cada um e a tratar dos seus tratando dos deles.
— Isso é muito bonito — disse Pamela —, mas já estou numa bela trapalhada, com
seu outro pedaço, que se apaixonou por mim e não se sabe o que pretende fazer
comigo.
Meu tio deixou cair o manto porque o temporal havia passado.
— Também eu estou apaixonado por você, Pamela.
Pamela pulou fora da gruta:
— Que alegria! Lá está o arco-íris e encontrei um novo namorado. Partido ao meio
também este, mas pelo menos de bom coração.
Andavam sob ramos que ainda gotejavam em caminhos cheios de lama. A meia-
boca do visconde se arqueava num sorriso doce, incompleto.
— E então, o que fazemos? — disse Pamela.
— Acho melhor ir para junto de seus pais, coitados, ajudá-los um pouco nos
trabalhos.
— Se tem vontade, vai você — disse Pamela.
— Sim, tenho vontade, querida — respondeu o visconde.
— Fico por aqui — disse Pamela, e parou com a pata e a cabra.
— Fazer boas ações juntos é a única maneira de nos amarmos.
— Pena. Pensei que houvesse outras maneiras.


— Adeus, querida. Vou trazer torta de maçã para você. — E afastou-se pelo
caminho com toques de muleta.
— Que me diz, cabra? Que me diz, patinha? — fez Pamela, sozinha com seus
animais. — Só gente desse tipo havia de aparecer para mim?


8
A
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