O visconde partido ao meio


partos eram trabalho para parteiras e não para médicos, caso contrário, quem sabe



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CALVINO, Ítalo. O Visconde Partido ao Meio

partos eram trabalho para parteiras e não para médicos, caso contrário, quem sabe
como enfrentaria a tarefa.
Meu tio teve a ideia dos incêndios. Durante a noite, de repente, ardia um celeiro


de camponeses miseráveis ou uma árvore boa para lenha ou então um bosque
inteiro. Aí ficávamos até de manhã passando baldes d’água de mão em mão para
apagar as chamas. As vítimas eram sempre pobres que tinham discutido com o
visconde por causa de alguma de suas sentenças cada vez mais severas e injustas ou
de tributos que havia duplicado. Não satisfeito de incendiar os bens, começou a pôr
fogo nas casas: parecia que se aproximava à noite e depois escapava a cavalo; mas
nunca ninguém conseguia apanhá-lo em flagrante. Certa vez morreram dois velhos;
depois, um rapaz ficou com o crânio esfolado. Crescia entre os camponeses o ódio
contra ele. Seus inimigos mais obstinados eram as famílias de religião huguenote que
moravam em Col Gerbido; lá, os homens montavam guarda, fazendo turnos a noite
inteira para prevenir incêndios.
Sem nenhuma razão plausível, certa noite foi até as casas de Prado do Cogumelo,
que tinham teto de palha, e jogou contra elas alcatrão e fogo. Os leprosos têm a
capacidade de não sentir dor quando queimados e, caso apanhados pelas chamas
durante o sono, certamente não teriam mais despertado. Porém, afastando-se a
cavalo, o visconde ouviu se elevar da aldeia a cavatina de um violino: os moradores
de Prado do Cogumelo estavam acordados, distraídos em seus divertimentos.
Chamuscaram-se todos, mas não sentiram dores e se divertiram ao modo deles. Logo
apagaram o incêndio; mesmo as casas, talvez por estarem igualmente infectadas de
lepra, sofreram poucos danos com as chamas.
A maldade de Medardo voltou-se também contra seu próprio bem: o castelo. O
fogo elevou-se da ala em que dormiam os servos e se espalhou entre urros altíssimos
de quem havia ficado prisioneiro, enquanto o visconde foi visto cavalgando pelo
campo. Tratava-se de um atentado contra a vida de sua ama e mãe substituta,
Sebastiana. Com a obstinação autoritária que as mulheres pretendem manter sobre
aqueles que viram pequenos, Sebastiana não deixava de recriminar cada novo
malefício do visconde, mesmo quando todos se convenceram de que sua natureza
estava voltada para uma crueldade irreparável, insana. Sebastiana foi retirada em
mau estado dos cômodos carbonizados e teve de ficar de cama vários dias, para
curar as queimaduras.
Uma noite, a porta do quarto em que jazia se abriu e o visconde lhe apareceu ao
lado da cama.
— Que são estas marcas em seu rosto, ama? — disse Medardo, apontando para as
queimaduras.
Marcas de seus pecados, filho — disse a velha, serena.
— Sua pele está manchada e retorcida; qual é o problema, ama?
— Um mal que não é nada, meu filho, comparado ao que lhe tocará no inferno, se
não se arrepender.
— É melhor que se restabeleça logo: não gostaria que soubessem por aí desse mal
que a…


— Não estou à procura de marido, para me preocupar com meu corpo. A
consciência tranquila é suficiente para mim. Tomara você pudesse dizer o mesmo.
— Todavia, seu marido a espera, para levá-la junto com ele, não sabia?
— Não deboche da velhice, filho, você que teve a juventude prejudicada.
— Não estou brincando. Escute, ama: aí está seu noivo tocando sob a sua janela…
Sebastiana apurou o ouvido e ouviu o som do chifre do leproso fora do castelo.
No dia seguinte, Medardo mandou chamar o dr. Trelawney.
— Manchas suspeitas apareceram não se sabe como no rosto de uma nossa velha
criada — disse ao doutor. — Todos receamos que seja lepra. Doutor, confiamos nas
luzes de sua sapiência.
Trelawney inclinou-se gaguejando:
— É meu dever, milorde… sempre às suas ordens, milorde…
Virou-se, saiu, raspou-se do castelo, levando junto um barrilzinho de vinho

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