O visconde partido ao meio



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CALVINO, Ítalo. O Visconde Partido ao Meio
O VISCONDE PARTIDO AO MEIO


1
H
avia uma guerra contra os turcos. O visconde Medardo di Terralba, meu tio,
cavalgava pelas planícies da Boêmia rumo ao acampamento dos cristãos.
Acompanhava-o um escudeiro chamado Curzio.
As cegonhas voavam baixo, em bandos brancos, atravessando o ar opaco e
parado.
— Por que tantas cegonhas? — perguntou Medardo a Curzio —, para onde estão
voando?
Meu tio acabava de chegar, se alistara havia pouco, para agradar a alguns duques,
nossos vizinhos, empenhados naquela guerra. Munira-se de um cavalo e de um
escudeiro no último castelo em mãos cristãs, e ia apresentar-se ao quartel imperial.
— Estão voando para os campos de batalha — disse o escudeiro, sombrio. — Vão
nos acompanhar por todo o caminho.
O visconde Medardo ficara sabendo que naquelas terras o voo das cegonhas é
sinal de boa sorte; e queria mostrar-se alegre por vê-las. Mas, a contragosto, sentia-se
inquieto.
— O que pode atrair as pernaltas aos campos de batalha, Curzio? — perguntou.
— Agora, também elas comem carne humana — respondeu o escudeiro —, desde
que a carestia tornou os campos áridos e a estiagem secou os rios. Onde há
cadáveres, as cegonhas, os flamingos e os grous substituíram os corvos e os abutres.
Meu tio se achava então na primeira juventude: a idade em que os sentimentos se
misturam todos num ímpeto confuso, ainda não separados em bem e mal; a idade
em que cada experiência nova, também macabra e desumana, é toda trepidante e
efervescente de amor pela vida.
— E os corvos? E os abutres? — perguntou. — E as aves de rapina? Onde foram
parar? — Estava pálido, mas seus olhos cintilavam.
O escudeiro era um soldado de pele escura, bigodudo, que nunca erguia os olhos.
— À força de comer as vítimas da peste, a peste os atacou também. — E apontou
com a lança certas moitas escuras que a um olhar mais atento se revelavam não de
plantas, mas de penas e pés ressecados de aves de rapina.
— Assim, nem dá para saber quem morreu antes, se a ave ou o homem, e quem se
lançou sobre o outro para esganá-lo — disse Curzio.
Para fugir da peste que exterminava as populações, famílias inteiras tinham se


encaminhado para os campos, e a agonia havia golpeado a todos ali. Em montes de
carcaças, espalhadas pela planície árida, viam-se corpos de homens e mulheres, nus,
desfigurados pelas marcas da peste e, coisa a princípio inexplicável, penugentos:
como se daqueles braços macilentos e costelas tivessem crescido penas pretas e asas.
Eram as carcaças de abutres misturadas com as sobras deles.
O terreno já ia mostrando sinais de batalhas. A marcha se tornara mais lenta
porque os dois cavalos topavam nos restos e lombadas.
— O que está acontecendo com nossos cavalos? — perguntou Medardo ao
escudeiro.
— Senhor — respondeu ele —, nada desagrada tanto aos cavalos quanto o fedor
das próprias tripas.
A faixa de planície que atravessavam achava-se de fato cheia de carcaças equinas,
algumas para cima, com os cascos voltados para o céu, outras de bruços, com o
focinho enfiado na terra.
— Por que tantos cavalos caídos neste ponto, Curzio? — perguntou Medardo.
— Quando o cavalo sente que está sendo atingido na barriga — explicou Curzio
—, trata de segurar as vísceras. Alguns apoiam a pança no chão, outros se viram de
costas para que elas não caiam. Mas a morte não tarda a ceifá-los do mesmo jeito.
— Quer dizer que são sobretudo os cavalos que morrem nesta guerra?
— As cimitarras turcas parecem feitas de propósito para rasgar-lhes o ventre com
um só golpe. Mais adiante verá os corpos dos homens. Primeiro caem os cavalos e
depois os cavaleiros. Pronto, lá está o campo.
Nos limites do horizonte elevavam-se os pináculos das tendas mais altas, os
estandartes do exército imperial e a fumaça.
Continuando a galopar, viram que os caídos da última batalha tinham sido quase
todos removidos e enterrados. Só se viam alguns membros dispersos, especialmente
dedos, apoiados nos restolhos.
— De vez em quando há um dedo indicando o caminho — disse meu tio
Medardo. — Que significa?
— Deus os perdoe: os vivos cortam os dedos dos mortos para arrancar-lhes os
anéis.
— Quem vem lá? — disse uma sentinela com capote coberto de mofo e musgo
como a casca de uma árvore exposta à tramontana.
— Viva a sagrada coroa imperial! — gritou Curzio.
— E que morra o sultão! — replicou a sentinela. — Mas, por favor, quando
chegarem ao comando, digam-lhes para mudar logo o turno, pois começo a deitar
raízes!


Agora os cavalos corriam para escapar da nuvem de moscas que circundava o
campo, zumbindo pelas montanhas de excrementos.
— De muitos valentes — observou Curzio — o esterco de ontem ainda está no
chão, e eles já chegaram ao céu. — E benzeu-se.
Na entrada do acampamento, costearam uma fila de baldaquins, sob os quais
mulheres de cabelos encaracolados e corpulentas, com longos vestidos de brocado e
os seios nus, acolheram-nos com gritos e risadas.
— São os pavilhões das cortesãs — disse Curzio. — Nenhum exército possui
outras tão lindas.
Meu tio já cavalgava com o rosto virado para trás, observando-as.
— Cuidado, senhor — acrescentou o escudeiro —, andam tão sujas e empestadas
que nem os turcos as aceitariam como presas de um saque. Além de carregadas de
chatos, percevejos e carrapatos, agora até os escorpiões e os lagartos fazem ninhos
sobre elas.
Passaram diante das baterias do campo. À noite, os artilheiros cozinhavam o
rancho de água e nabos no bronze das espingardas e dos canhões, abrasado dos
intensos disparos da jornada.
Chegavam carroças cheias de terra e os artilheiros a peneiravam.
— A pólvora está ficando escassa — explicou Curzio —, mas a terra onde as
batalhas aconteceram está tão impregnada que, insistindo-se, dá para recuperar
algumas cargas.
Depois vinham as instalações da cavalaria, onde, entre as moscas, os veterinários
trabalhavam sem parar remendando a pele dos quadrúpedes com costuras, faixas e
emplastos de alcatrão fervente, todos relinchando e escoiceando, inclusive os
doutores.
As tendas da infantaria seguiam-se por um grande trecho. O sol se punha e diante
de cada tenda os soldados estavam sentados com os pés imersos em tinas de água
morna. Sendo comuns os alarmes repentinos de dia e de noite, mesmo na hora do
pedilúvio continuavam a segurar o capacete e a lança. Em tendas mais altas e
montadas em forma de quiosque, os oficiais punham talco nas axilas e se
refrescavam com leques de rendas.
— Não fazem isso por frescura — disse Curzio —, ao contrário: querem mostrar
que se acham completamente à vontade em meio à dureza da vida militar.
O visconde de Terralba foi logo conduzido à presença do imperador. Em seu
pavilhão cheio de tapeçarias e troféus, o soberano estudava nos mapas os planos de
futuras batalhas. As mesas estavam cobertas de mapas abertos, e o imperador
espetava neles alfinetes, retirando-os de uma almofada própria que um dos
marechais lhe estendia. Os mapas já estavam tão carregados de alfinetes que não se
entendia mais nada, e para ler alguma coisa precisavam tirar os alfinetes e voltar a


recolocá-los. Nesse tira e põe, para ficar com as mãos livres, tanto o imperador
quanto os marechais mantinham os alfinetes entre os lábios e só podiam falar por
meio de ganidos.
Ao ver o jovem que se inclinava diante dele, o soberano emitiu um ganido
interrogativo e tirou depressa os alfinetes da boca.
— Um cavaleiro recém-chegado da Itália, majestade — apresentaram-no —, o
visconde de Terralba, de uma das mais nobres famílias da região de Gênova.
— Que seja logo nomeado tenente.
Meu tio bateu as esporas, ficando em sentido, enquanto o imperador fazia um
amplo gesto real e todos os mapas se enrolavam sobre si mesmos e caíam.
Naquela noite, embora cansado, Medardo tardou a dormir. Andava para a frente e
para trás perto da tenda, e ouvia os apelos das sentinelas, os cavalos relinchando e a
fala entrecortada de soldados durante o sono. Observava no céu as estrelas da
Boêmia, pensava na nova patente, na batalha do dia seguinte e na pátria distante, na
música dos caniços dentro d’água. No coração não guardava nem nostalgia, nem
dúvidas, nem apreensão. Para ele as coisas ainda eram inteiras e indiscutíveis, e
assim era ele próprio. Se tivesse podido prever a terrível sorte que o aguardava,
talvez também a tivesse considerado natural e acabada, mesmo em toda a sua dor.
Estendia o olhar até o limite do horizonte noturno, onde sabia que se localizava o
campo dos inimigos, e com os braços cruzados apertava as costas com as mãos,
contente por ter certeza ao mesmo tempo de realidades longínquas e diferentes, e da
própria presença no meio delas. Sentia o sangue daquela guerra cruel, disseminado
por mil córregos sobre a terra, chegar até ele; e se deixava tocar, sem experimentar
raiva nem piedade.


2
A
batalha começou pontualmente às dez da manhã. Do alto da sela, o lugar-
tenente Medardo contemplava a dimensão das forças cristãs, prontas para o ataque, e
erguia o rosto seguindo o vento da Boêmia, que levantava um cheiro de muitas
cascas, lembrando uma eira poeirenta.
— Não, não vire para trás, senhor — exclamou Curzio, que, tendo recebido a
patente de sargento, estava a seu lado. E, para justificar a frase peremptória,
acrescentou, de mansinho: — Dizem que dá azar, antes do combate.
Na verdade, não queria que o visconde desanimasse ao se dar conta de que o
exército cristão praticamente consistia naquela fileira alinhada e que as forças de
apoio não passavam de alguns esquadrões de cavalaria que mal se aguentavam em
pé.
Mas meu tio olhava bem longe, para a nuvem que se aproximava no horizonte, e
pensava: “Pronto, aquela nuvem são os turcos, os verdadeiros turcos, e estes ao meu
lado, cuspindo tabaco, são os veteranos da cristandade, e este ribombar que agora
ressoa é o ataque, o primeiro ataque de minha vida, e este estrondo e o tremor, o
bólide que se enfia na terra observado com enorme tédio pelos veteranos e pelos
cavalos é uma bala de canhão, a primeira bala inimiga que encontro. Espero que não
chegue o dia em que deverei dizer: ‘E esta é a última’”.
De espada em punho, saiu a galopar planície afora, de olho no estandarte
imperial, que aparecia e desaparecia no meio da fumaça, enquanto os canhonaços
amigos rolavam pelo céu acima de sua cabeça, e os inimigos já abriam brechas no
lado cristão, provocando imprevistas nuvens de terra. Pensava: “Hei de ver os turcos!
Hei de ver os turcos!”. Nada atrai mais os homens do que ter inimigos e depois
verificar se são exatamente como os imaginavam.
E os viu, os turcos. Vinham dois justamente daquele lado. Com os cavalos
encapotados, o pequeno escudo redondo, as roupas listradas de negro e açafrão. E o
turbante, a cara cor de ocre e os bigodes iguais aos de um tipo que, em Terralba, era
chamado de Elmir, o Turco. Um deles morreu e o outro matou um terceiro. Mas
estavam se aproximando sabem-se lá quantos e se combatia com arma branca. Ver
dois turcos era como ver todos. Também eles eram militares, e todas aquelas coisas
eram equipamentos do exército. As caras eram morenas e duras como as dos
camponeses. Medardo, para o que lhe interessava, já os tinha visto; podia voltar para
casa em Terralba a tempo para a migração das codornas. Porém, havia se alistado
para a guerra. Por isso corria, desviando os golpes das cimitarras, até que encontrou
um turco baixo, a pé, e o matou. Vendo como se fazia, foi procurar um alto, a cavalo,
e se deu mal. Porque eram os pequenos os mais perigosos. Andavam até debaixo


dos cavalos, com aquelas cimitarras, e os esquartejavam.
O cavalo de Medardo parou com as pernas abertas.
— O que está fazendo? — disse o visconde.
Curzio acercou-se apontando para baixo:
— Veja ali.
Já estava com as vísceras todas para fora. O pobre animal olhou para cima, para o
patrão, depois baixou a cabeça como se quisesse roer os intestinos, mas era só um
impulso de heroísmo: desmaiou e depois morreu. Medardo di Terralba estava
condoído.
— Pegue o meu cavalo, tenente — disse Curzio, mas não conseguiu detê-lo
porque caiu da sela, ferido por uma flecha turca, e o cavalo saiu a galope.
— Curzio! — gritou o visconde, e se achegou ao escudeiro que gemia no chão.
— Não pense em mim, senhor — falou o escudeiro. — Só espero que no hospital
ainda haja aguardente. Cada ferido tem direito a uma boa dose.
Meu tio Medardo lançou-se na peleja. Os rumos da batalha eram incertos. Naquela
confusão, parecia que os cristãos é que venceriam. Com certeza, tinham rompido as
fileiras turcas e cercado determinadas posições. Meu tio, com outros valentes,
lançara-se até o alcance das baterias inimigas, e os turcos deslocavam-nas para
manter os cristãos debaixo de fogo. Dois artilheiros turcos faziam circular um canhão
com rodas. Lentos como eram, barbudos, encapotados até os pés, pareciam dois
astrônomos. Meu tio disse:
— Agora chego lá e tomo conta deles.
Entusiasta e inexperiente, não sabia que só podemos nos aproximar de canhões
lateralmente ou do lado da culatra. Saltou na frente da boca de fogo, de espada em
punho, e imaginava assustar os dois astrônomos. Ao contrário, mandaram-lhe um
canhonaço em pleno peito. Medardo di Terralba saltou pelos ares.
À noite, período de trégua, duas carroças iam recolhendo os corpos dos cristãos
pelo campo de batalha. Uma era para os feridos e a outra para os mortos. A primeira
seleção era feita ali mesmo. “Eu pego este, você pega aquele.” Aquele em que ainda
parecia existir algo para salvar, era jogado na carroça dos feridos; aquele de que só
havia pedaços e farrapos, na carroça dos mortos, para ter sepultura abençoada;
aquele que já não era nem mesmo um cadáver, ficava como carniça para as
cegonhas. Naqueles dias, diante das perdas crescentes, fora determinado que era
melhor carregar mais feridos. Assim, os restos de Medardo foram considerados um
ferido e postos na carroça apropriada.
A segunda seleção era feita no hospital. Depois das batalhas, o hospital militar
proporcionava uma visão ainda mais atroz do que as próprias batalhas. No chão
ficava aquela longa fila de macas com seus desgraçados em cima e ao redor
agitavam-se os doutores, fazendo malabarismos com pinças, serras, agulhas, dedos


amputados e rolos de linhas para pontos. De morto em morto, faziam de tudo para
que cada cadáver tornasse a viver. Serra aqui, costura ali, tapa buraco, reviravam
veias como se fossem luvas e as recolocavam em seus lugares, com mais enchimento
de barbante do que sangue, porém remendadas e fechadas. Quando um paciente
morria, tudo o que estivesse em boas condições servia para recuperar os membros
de outro, e assim por diante. A coisa que mais atrapalhava eram os intestinos: uma
vez desenrolados, não havia meio de recolocá-los.
Erguido o lençol, o corpo do visconde mostrou-se terrivelmente mutilado. Faltava-
lhe um braço e uma perna, e não só, tudo o que havia de tórax e abdômen entre
aquele braço e aquela perna fora arrancado, pulverizado pelo canhonaço recebido
em cheio. Da cabeça sobravam um olho, uma orelha, uma bochecha, meio nariz,
meia boca, meio queixo e meia testa: da outra metade só restava um mingau. Em
suma, salvara-se apenas metade, a parte direita, que aliás se conservara
perfeitamente, sem nem sequer um arranhão, excluindo aquela enorme rasgadura
que a separara da parte esquerda estraçalhada.
Os médicos: todos contentes. “Uh, que maravilha de caso!” Se não morresse logo,
até podiam tentar salvá-lo. E todos o rodearam, enquanto os pobres soldados com
uma flecha no braço morriam de septicemia. Costuraram, adaptaram, amassaram:
sabe-se lá o que fizeram. O resultado foi que no dia seguinte meu tio abriu o único
olho, a meia-boca, dilatou a narina e respirou. A dura fibra dos Terralba resistira.
Agora estava vivo e partido ao meio.


3
Q
uando meu tio regressou a Terralba, eu tinha sete ou oito anos. Era tarde, já
escuro; outubro; o céu estava nublado. Durante o dia tínhamos trabalhado na
vindima e através das videiras enfileiradas víamos aproximarem-se no mar cinzento
as velas de um navio que trazia bandeira imperial. A cada navio que se avistava
então, dizia-se: “Este é mestre Medardo que volta”, não porque estivéssemos
impacientes de que regressasse, mas para ter alguma coisa que esperar. Daquela vez
adivinháramos: tivemos a confirmação à noite, quando um jovem chamado Fiorfiero,
amassando a uva no alto da tina, gritou: “Oh, lá embaixo”; estava quase escuro e
vimos, no fundo do vale, uma fileira de tochas acender-se pelo caminho das mulas; e
depois, quando passou pela ponte, distinguimos uma liteira transportada nos
ombros. Não havia dúvidas: era o visconde que voltava da guerra.
A novidade se espalhou pelos vales; no pátio do castelo reuniram-se todos:
familiares, criadagem, vindimadores, pastores, homens de armas. Só faltava o pai de
Medardo, o velho visconde Aiolfo, vovô, que havia um bom tempo não descia nem
mesmo até o pátio. Cansado das lides do mundo, renunciara às prerrogativas do
título em favor do único filho homem, antes que este partisse para a guerra. Agora a
sua paixão pelas aves, que criava no interior do castelo, num grande viveiro, acabara,
por se tornar mais exclusiva: o velho carregara a própria cama para o viveiro e se
trancara lá dentro, não saindo nem de dia nem de noite. Entregavam-lhe as refeições
junto com a comida das aves através das grades do viveiro, e Aiolfo dividia tudo com
aquelas criaturas. E passava as horas acariciando o dorso dos faisões, das rolinhas, à
espera do filho que voltaria da guerra.
No pátio de nosso castelo, eu nunca tinha visto tanta gente: já passara o tempo, do
qual só ouvira falar, das festas e das guerras entre vizinhos. E pela primeira vez me
dei conta de como as paredes e as torres estavam arruinadas, e o pátio, onde
costumavam dar capim para as cabras e encher o cocho para os porcos, enlameado.
Todos, esperando, discutiam como o visconde Medardo voltaria; havia tempos
chegara a notícia dos ferimentos graves que ele recebera dos turcos, mas ninguém
sabia ainda claramente se estava mutilado, doente ou apenas marcado pelas
cicatrizes: e agora a visão da liteira nos preparava para o pior.
E eis que a liteira foi posta no chão, e no meio da sombra escura deu para ver o
brilho de uma pupila. A velha ama Sebastiana tentou aproximar-se, mas da sombra
elevou-se um vigoroso gesto de rechaço em mão espalmada. Depois se viu o corpo
na liteira agitar-se num esforço quebrado e convulso, e diante de nossos olhos
Medardo di Terralba saltou de pé, apoiando-se numa muleta. Um manto negro com
capuz descia-lhe da cabeça até o chão; do lado direito estava enviesado para trás,


descobrindo metade do rosto e do corpo apoiado na muleta, enquanto à esquerda
parecia estar tudo oculto e envolto nas abas e nas dobras daquela ampla vestimenta.
Ficou nos observando, nós todos em volta dele, sem que ninguém dissesse uma
palavra; mas quem sabe se com aquele olho fixo não nos olhava de jeito nenhum, só
queria afastar-nos dele.
Um sopro de vento veio do mar e um ramo quebrado no alto de uma figueira
soltou um gemido. O manto de meu tio ondulou e o vento o inflou, estendendo-o
como uma vela, e poderíamos dizer que lhe atravessava o corpo, ou melhor, que tal
corpo nem existia, e o manto estava vazio como o de um fantasma. Depois, olhando
melhor, vimos que aderia como a um mastro de bandeira e o mastro era o ombro, o
braço, o flanco, a perna, tudo o que dele se apoiava na muleta: e o resto não existia.
As cabras observavam o visconde com seu olhar fixo e inexpressivo, cada uma em
posição diferente mas todas juntas, com os dorsos arrumados num estranho desenho
de ângulos retos. Os porcos, mais sensíveis e ágeis, grunhiram e saíram correndo
dando-se barrigadas, e então nem nós pudemos mais esconder nosso espanto.
— Meu filho! — gritou a ama Sebastiana, e levantou os braços. — Infeliz!
Meu tio, contrariado por ter provocado tamanha impressão em nós, avançou a
ponta da muleta no chão e com um movimento comedido dirigiu-se para a entrada
do castelo. Mas nos degraus do portão estavam sentados de pernas cruzadas os
carregadores da liteira, grandalhões seminus, com brincos de ouro e cabeça raspada
em que sobressaíam topetes ou rabos de cavalo. Levantaram-se, e um de trança, que
parecia o chefe, disse:
— Esperamos o pagamento, señor.
— Quanto? — perguntou Medardo, e poderíamos dizer que sorria.
O homem de trança disse:
— Sabe qual é o preço para o transporte de um homem em liteira…
Meu tio tirou uma bolsa do cinturão e jogou-a tilintante aos pés do carregador.
Este sentiu-lhe o peso rapidamente e exclamou:
— Mas isso é muito menos que o combinado, señor !
Medardo, enquanto o vento lhe erguia a ponta do manto, disse:
— A metade.
Ultrapassou o portão e dando pulinhos com seu único pé subiu os degraus, entrou
pela grande porta escancarada que dava para o interior do castelo, batendo com a
muleta empurrou os dois pesados batentes, que se fecharam com estrondo, e por
fim, como a portinhola ficara aberta, fechou-a, desaparecendo de nossos olhares.
Continuamos a ouvir as batidas alternadas lá dentro, do pé e da muleta, que no
corredor se dirigiam para a ala do castelo em que ficavam seus aposentos privados, e
também de lá ouvimos um bater e trancar portas.


Parado atrás da grade do viveiro, seu pai o esperava. Medardo nem tinha passado
para cumprimentá-lo: fechara-se sozinho em seus aposentos e não queria apresentar-
se ou responder nem à ama Sebastiana, que ficou um bom tempo batendo à porta e
compadecendo-se dele.
A velha Sebastiana era uma mulherona toda de negro, incluindo o véu, com o
rosto rosado sem nenhuma ruga, exceto aquela que por pouco não lhe ocultava os
olhos; dera leite a todos os jovens da família Terralba e fora para a cama com todos
os mais velhos e fechara os olhos de todos os mortos. Agora ia e vinha pelas celas
dos dois presos, e não sabia como ajudá-los.
No dia seguinte, visto que Medardo continuava a não dar sinal de vida, retomamos
a vindima, mas faltava alegria, e nas vinhas só se falava do seu destino, não porque
gostássemos tanto dele, mas por ser um tema atraente e obscuro. Só a ama
Sebastiana ficou no castelo, prestando atenção em cada rumor.
Mas o velho Aiolfo, como se previsse que o filho voltaria tão triste e arredio, havia
tempos adestrara um de seus animais preferidos, uma pega, para voar até a ala do
castelo em que ficavam os aposentos de Medardo, então vazios, e para entrar pela
janelinha de seu quarto. Naquela manhã, o velho abriu a portinhola para a ave,
seguiu seu voo até a janela do filho, em seguida voltou a distribuir alimento para as
pegas e toutinegras, imitando suas vozes.
Pouco depois, ouviu o baque de um objeto jogado contra as cortinas. Debruçou-se
do lado de fora e no beiral jazia sua ave predileta. O velho recolheu-a com as mãos
unidas e viu que uma asa se rompera como se tivessem tentado arrancá-la, uma pata
estava partida como se tivesse sido garroteada por dois dedos e um olho tinha sido
arrancado. O velho apertou o pássaro contra o peito e começou a chorar.
Foi para a cama no mesmo dia, e os empregados do lado de lá da grade do viveiro
viram que estava muito mal. Mas ninguém pôde tratar dele, pois se encerrara ali e
escondera as chaves. Ao redor de seu leito as aves voavam. Desde que se deitara,
tinham começado a esvoaçar e não queriam pousar nem parar de bater as asas.
Na manhã seguinte, a ama, encostando o rosto no viveiro, viu que o visconde
Aiolfo estava morto. As aves estavam todas pousadas sobre a cama, como num
tronco flutuando no meio do mar.


4
D
epois da morte do pai, Medardo começou a sair do castelo. Uma vez mais foi a
ama Sebastiana quem primeiro se deu conta, certa manhã, vendo as portas
escancaradas e os aposentos desertos. Um grupo de servos foi deslocado para o
campo para seguir a pista do visconde. Os servos corriam e passaram sob uma
pereira que tinham visto, na noite anterior, carregada de frutos temporãos ainda
ácidos.
— Olhem lá em cima — disse um deles.
Viram as peras que pendiam contra o céu da manhã e ao vê-las ficaram
horrorizados. Porque não estavam inteiras, eram várias metades de pera cortadas ao
comprido e cada uma presa ao próprio talo: todavia, de cada pera só restava a
metade direita (ou esquerda, conforme de onde se olhasse, mas estavam todas do
mesmo lado) e a outra metade desaparecera, cortada ou talvez mordida.
— O visconde passou por aqui! — gritaram os servos. Certamente, depois de ficar
trancado em jejum tantos dias, naquela noite sentira fome e subira na primeira árvore
para comer peras.
Caminhando, os servos encontraram numa pedra meia rã que pulava, graças à
resistência das rãs, ainda viva.
— Estamos no bom caminho! — E prosseguiram.
Perderam-se, pois não avistaram entre as folhas meio melão e tiveram de voltar
atrás até encontrá-lo.
Assim, dos campos passaram para o bosque e viram um cogumelo cortado ao
meio, um porcino, depois um outro, um boleto vermelho venenoso, e andando pelo
mato continuaram encontrando, de vez em quando, aqueles cogumelos que
despontavam da terra com meio talo e abriam só meia cobertura. Pareciam cortados
com talho preciso, e da outra metade não se encontrava nem um único esporo. Eram
cogumelos de todo tipo, esclerodermas, amanitas, agáricos; e os venenosos
apareciam em número quase igual ao dos comestíveis.
Seguindo essas pistas dispersas, os servos chegaram ao prado conhecido como
Prado das Freiras, onde havia um charco no meio do capinzal. Luzes da aurora, e à
beira d’água a figura exígua de Medardo, envolta no manto negro, espelhava-se na
água, onde boiavam cogumelos brancos ou amarelos que ele arrancara e agora
estavam espalhados naquela superfície transparente. Na água, os cogumelos
pareciam inteiros, e o visconde os observava: e também os servos se esconderam na
outra margem e não ousaram dizer nada, fixando igualmente os cogumelos


flutuantes, até que se deram conta de que eram todos bons para comer. E os
venenosos? Se não os tinha jogado no charco, o que fizera com eles? Os servos
correram de novo para o bosque. Nem precisaram ir longe, pois no caminho
encontraram um menino com um cesto; dentro deste estavam todas aquelas metades
de cogumelos venenosos.
Aquele menino era eu. Brincava sozinho no escuro ao redor do Prado das Freiras,
dando sustos em mim mesmo ao sair de repente de trás das árvores, quando
encontrei meu tio, que saltava sobre seu pé pelo prado ao luar, com um cesto
pendurado no braço.
— Oi, tio! — gritei: era a primeira vez que conseguia cumprimentá-lo.
Pareceu muito contente de me ver.
— Estou procurando cogumelos — me explicou.
— Conseguiu alguma coisa?
— Olhe — disse meu tio, e nos sentamos à beira do charco. Ele escolhia os
cogumelos e jogava alguns na água, deixando outros no cesto.
— Pegue — disse, me entregando o cesto com os cogumelos escolhidos por ele.
— Pode fritar.
Gostaria de ter lhe perguntado por que no cesto só havia a metade de cada
cogumelo; mas percebi que a pergunta teria sido pouco respeitosa, e corri depois de
agradecer. Ia fritá-los quando encontrei o pessoal da criadagem e fiquei sabendo que
eram todos venenosos.
A ama Sebastiana, quando lhe contaram a história, disse:
— Só voltou a metade malvada de Medardo. Quem sabe o que acontecerá durante
o processo.
Estava marcado para aquele dia um processo contra uma quadrilha presa no dia
anterior pelos guardas do castelo. Os bandidos eram gente dali mesmo e por isso o
visconde é que tinha de julgá-los. Começou o julgamento e Medardo estava todo
torto na cadeira e roía as unhas. Chegaram os bandidos amarrados: o chefe da
quadrilha era o jovem Fiorfiero, que fora o primeiro a avistar a liteira enquanto
amassava a uva. Entrou a parte lesada e eram cavaleiros toscanos que, a caminho da
Provença, passavam por nossos bosques quando Fiorfiero e sua quadrilha caíram em
cima deles e os roubaram. Fiorfiero se defendeu dizendo que andavam caçando em
nossas terras, e ele os detivera e desarmara justamente por pensar que fossem
caçadores, dado que os guardas não os vigiavam. É preciso dizer que naquele tempo
os ataques de bandidos eram uma atividade muito comum, razão pela qual a lei era
clemente. E ademais, nossas terras eram particularmente favoráveis à bandidagem, e
assim, inclusive alguns membros de nossa família, em especial nos tempos agitados,
se uniam às quadrilhas. Da caça ilegal nem falo, era o delito mais leve que se podia
imaginar.


Mas as apreensões de Sebastiana tinham fundamento. Medardo condenou
Fiorfiero e toda a sua quadrilha a morrerem na forca, culpados de rapina. Mas, como
as vítimas eram por sua vez caçadores ilegais, condenou-as igualmente à forca. E
para punir os guardas, que intervieram tarde demais e que não souberam prevenir os
crimes dos caçadores nem os dos bandidos, decretou que eles também fossem
enforcados.
Eram umas vinte pessoas no total. Essa cruel sentença provocou consternação e
dor em todos nós, não tanto pelos fidalgos toscanos, que ninguém conhecia, mas
pelos bandidos e pelos guardas, que eram gente querida. Mestre Pedroprego,
albardeiro e carpinteiro, foi encarregado de construir a forca: era um trabalhador
sério e inteligente, que se empenhava com firmeza em toda obra. Com grande dor,
porque dois dos condenados eram parentes dele, construiu uma forca ramificada
feito uma árvore, cujas cordas subiam juntas acionadas por um único guindaste; era
uma engrenagem tão grande e engenhosa que dava para enforcar de uma só vez
mais gente que o grupo condenado, tanto que o visconde aproveitou para enforcar
dez gatos alternando com dois réus. Os cadáveres mirrados e as carcaças de gato
balançaram durante três dias e no início ninguém aguentava olhar para eles. Mas
logo nos demos conta da visão imponente que ofereciam, e até o nosso julgamento
se dividia em sentimentos díspares, a ponto de causar desagrado a decisão de retirá-
los e desmontar a grande máquina.


5
A
queles eram tempos felizes para mim, sempre andando pelos bosques com o dr.
Trelawney à procura de conchas de animais marinhos petrificados. O dr. Trelawney
era inglês: aparecera em nossas costas depois de um naufrágio, montado num barril
de bordeaux. Fora médico de bordo a vida inteira e participara de viagens longas e
perigosas, incluindo as realizadas com o famoso capitão Cook, mas jamais vira nada
do mundo, pois estava sempre trancado jogando vinte e um. Tendo naufragado em
nosso território, logo aderira ao vinho cancarone, o mais áspero e granulado da
região, e não conseguia mais passar sem ele, a ponto de carregar sempre um cantil
bem cheio. Ficara em Terralba, tornando-se o nosso médico, porém não se
preocupava com os doentes, e sim com suas descobertas científicas, que o
mantinham ocupado — e eu junto — pelos campos e matas dia e noite. Primeiro foi
uma doença dos grilos, quase imperceptível, que só se verificava num grilo entre mil
e este não sofria nenhum dano; e o dr. Trelawney queria identificar todos os grilos
afetados e encontrar o tratamento adequado. E mais os indícios de que nossas terras
haviam sido cobertas pelo mar; e então íamos carregando pedregulhos e pederneiras
que o doutor dizia terem sido, antigamente, peixes. Por fim, a última de suas grandes
paixões: os fogos-fátuos. Queria descobrir o modo de agarrá-los e conservá-los, e
com esse escopo passávamos as noites vagando em nosso cemitério, esperando que
entre as tumbas de terra e de capim se acendesse algum daqueles vagos clarões, e
então tratávamos de atraí-lo, de fazê-lo correr atrás de nós e capturá-lo, sem que se
apagasse, em recipientes que experimentávamos de tempos em tempos: sacolas,
frascos, garrafões, pequenos braseiros, coadores. O dr. Trelawney tinha ido morar
numa casinhola perto do cemitério, que um dia abrigara o coveiro, naqueles tempos
de fausto e guerras em que era conveniente ter um homem para fazer só aquele
trabalho. Lá o doutor havia instalado o laboratório, com ampolas de todo tipo para
engarrafar os fogos-fátuos e retículas similares às de pesca para prendê-los; e
alambiques e crisóis em que ele investigava como das terras dos cemitérios e dos
miasmas dos cadáveres nasciam aquelas pálidas chamas. Mas não era homem de
ficar muito tempo absorto em seus estudos: logo desistia, saía e íamos juntos em
busca de novos fenômenos da natureza.
Eu era livre como o ar, pois não tinha pais e não integrava a categoria dos servos
nem a dos patrões. Fazia parte da família dos Terralba só por reconhecimento tardio,
mas não assinava o nome deles e ninguém se via obrigado a educar-me. Minha
pobre mãe era filha do visconde Aiolfo e irmã mais velha de Medardo, porém havia
manchado a honra da família fugindo com um caçador ilegal que acabou sendo meu
pai. Eu tinha nascido na cabana do caçador, nos terrenos áridos do bosque; e pouco
depois meu pai foi morto numa briga e a pelagra liquidou minha mãe naquela mísera


cabana. Fui então acolhido no castelo porque meu avô Aiolfo teve pena, e cresci
graças aos cuidados da grande ama Sebastiana. Lembro que quando Medardo ainda
era jovem e eu bem pequeno, às vezes me deixava participar de suas brincadeiras
como se tivéssemos a mesma condição; depois a distância cresceu junto conosco e
eu permaneci do lado da criadagem. Então no dr. Trelawney descobri um
companheiro como nunca tinha tido.
O doutor tinha sessenta anos, mas era da minha altura; mostrava um rosto
enrugado feito uma castanha seca, sob o tricórnio e a peruca; as pernas, que as
polainas cobriam até a metade da coxa, pareciam mais longas, desproporcionais
como as de um grilo, inclusive por causa das longas passadas que dava; e vestia uma
casaca cor de rolinha debruada de vermelho, usando por cima, a tiracolo, o cantil
com vinho cancarone.
A paixão dele pelos fogos-fátuos nos conduzia a longas marchas noturnas para
alcançar os cemitérios das aldeias vizinhas, onde às vezes dava para ver chamas mais
bonitas em cor e grandeza que as do nosso cemitério abandonado. Mas ai de nós se
tais manobras fossem descobertas pelos aldeões: confundidos com ladrões
sacrílegos, certa vez fomos seguidos durante vários quilômetros por um grupo de
homens armados com foices e tridentes.
Andávamos por lugares escorregadios e com torrentes; eu e o dr. Trelawney
pulávamos feito raios pelas rochas, mas sentíamos os aldeões furiosos aproximando-
se atrás de nós. Num ponto chamado Salto della Ghigna, um mata-burro atravessava
um abismo muito profundo. Em vez de saltar o obstáculo, eu e o doutor nos
escondemos num degrau de pedra à beira do abismo, bem a tempo, pois os aldeões
estavam em nossos calcanhares. Não nos viram, e aos gritos: “Onde estão aqueles
bastardos?”, passaram correndo pelo mata-burro. Um baque, e berrando foram
engolidos pela torrente que corria lá no fundo.
O susto pela nossa sorte se transformou em alívio para mim e Trelawney por causa
do risco evitado e de novo em susto pelo final terrível de nossos perseguidores. Só
nos atrevemos a observar no escuro onde os aldeões tinham desaparecido. Erguendo
os olhos vimos os restos do mata-burro: os troncos ainda estavam firmes, só que
tinham quebrado no meio, como se tivessem sido serrados; de nenhum outro jeito
podíamos explicar como aquela madeira grossa havia cedido com um corte assim
preciso.
— Aí tem a mão de alguém que eu conheço — disse o dr. Trelawney, e também
eu já entendera.
De fato, ouviu-se um rápido bater de cascos e na orla do barranco apareceram um
cavalo e um cavaleiro meio coberto por um manto negro. Era o visconde Medardo
que, com seu gélido sorriso triangular, contemplava o resultado trágico da cilada,
imprevista talvez até para ele mesmo: certamente pretendia matar nós dois; acabou
por salvar-nos a vida. Trêmulos, o vimos correr naquele cavalo magro que saltava
pelas rochas como se fosse filho de uma cabra.


Naquele tempo, meu tio andava sempre a cavalo: encomendara ao albardeiro
Pedroprego uma sela especial com um estribo no qual se equilibrava por meio de
correias, enquanto o outro levava um contrapeso. Ao lado da sela, uma espada e
uma muleta iam penduradas. E assim o visconde cavalgava com um chapéu
emplumado e de abas largas, cuja metade sumia debaixo de uma ponta do manto
sempre esvoaçante. Onde se ouvia o barulho dos cascos de seu cavalo, todos fugiam
mais rápido do que quando passava Galateo, o leproso, e escondiam as crianças e os
animais, e temiam pelas plantas, pois a maldade do visconde não poupava ninguém
e podia desencadear-se de um momento para outro nas ações mais imprevistas e
incompreensíveis.
Jamais adoecera e assim nunca havia precisado dos tratamentos do dr. Trelawney;
mas num caso semelhante não sei como o doutor teria se saído, ele que fazia de tudo
para evitar meu tio e para nem sequer ouvir falar dele. Quando lhe falavam do
visconde e de sua crueldade, o dr. Trelawney sacudia a cabeça e enrugava os lábios
murmurando: “Oh, oh, oh!… Sst, sst, sst!”, como quando lhe contavam uma história
inconveniente. E, para mudar de conversa, começava a relatar as viagens do capitão
Cook. Certa vez tentei perguntar-lhe como, na opinião dele, meu tio conseguia viver
tão mutilado, mas o inglês não soube me dizer nada além daquele: “Oh, oh, oh!…
Sst, sst, sst!”. Parecia que, do ponto de vista da medicina, o caso de meu tio não
suscitava nenhum interesse no doutor; mas eu começava a pensar que ele havia se
tornado médico só por imposição familiar ou conveniência, e que tal ciência
absolutamente não lhe importava. Talvez a sua carreira de médico de bordo tivesse
existido somente pela habilidade no jogo de vinte e um, motivo por que os mais
famosos navegantes, o capitão Cook em primeiro lugar, disputavam-no como
parceiro de jogo.
Uma noite, o dr. Trelawney caçava fogos-fátuos com a rede em nosso velho
cemitério, quando viu pela frente Medardo di Terralba, que deixava seu cavalo pastar
em cima dos túmulos. O doutor estava muito confuso e receoso, mas o visconde se
aproximou e indagou com a pronúncia assaz defeituosa de sua boca partida ao meio:
— Procura borboletas noturnas, doutor?
— Oh, milorde — respondeu o doutor com um fio de voz —, oh, oh, não
exatamente borboletas, milorde… Fogos-fátuos, sabe, fogos-fátuos…
— Ah, os fogos-fátuos. Muitas vezes também eu me perguntei sobre a origem
deles.
— Há tempos, modestamente, isso é objeto de meus estudos, milorde… — disse
Trelawney, meio encorajado por aquele tom benévolo.
Medardo contorceu num meio-sorriso a sua meia-cara angulosa, com a pele
esticada como uma caveira.
— Enquanto estudioso o senhor merece alguma contribuição — disse-lhe. — Pena
que este cemitério, abandonado como anda, não seja um bom campo para os fogos-
fátuos. Mas prometo que amanhã mesmo providenciarei para ajudá-lo no que me for


possível.
O dia seguinte era a data marcada para a administração da justiça, e o visconde
condenou à morte uma dezena de camponeses, porque, segundo suas contas, não
haviam entregado toda a parte da colheita que deviam ao castelo. Os mortos foram
sepultados na terra das fossas comuns e o cemitério produziu a cada noite montes de
fogos. O dr. Trelawney estava muito assustado com aquela ajuda, embora a
considerasse bastante útil para os seus estudos.
Nessa trágica conjuntura, mestre Pedroprego havia aperfeiçoado bem a sua arte de
construir forcas. Tinham se tornado verdadeiras obras-primas de carpintaria e de
mecânica, e não só as forcas, mas também os cavaletes, os guindastes e os demais
instrumentos de tortura com os quais o visconde Medardo arrancava as confissões
dos acusados. Eu ia frequentemente à oficina de Pedroprego, pois era um grande
prazer vê-lo trabalhar com tanta habilidade e paixão. Mas uma aflição pesava sempre
no coração do albardeiro. O que ele construía eram patíbulos para inocentes. “Como
posso”, pensava, “aceitar construir algo tão engenhoso mas que tem um objetivo
diferente? E quais poderão ser os novos mecanismos que construirei com mais boa
vontade?” Mas não obtendo respostas para tais questões, tratava de expulsá-las da
mente, esforçando-se em fazer as instalações mais bonitas e engenhosas que podia.
— Tem de esquecer o fim para o qual servirão — dizia também a mim. — Olhe-os
só como mecanismos. Vê como são bonitos?
Eu olhava para aquelas arquiteturas de traves, aquele sobe e desce de cordas,
aquelas ligações de guindastes e de roldanas, e me esforçava para não ver em cima
delas os corpos dilacerados, porém quanto mais me esforçava mais era obrigado a
pensar, e dizia a Pedroprego:
— Como posso?
— E eu então, rapaz — replicava ele —, como eu posso?
Mas apesar de aflições e medos, aquele período tinha a sua parte de alegria. A
hora mais bonita chegava quando o sol estava alto e o mar de ouro, e as galinhas,
posto o ovo, cantavam, e pelas vielas se ouvia o toque do chifre do leproso. Ele
passava todas as manhãs pedindo a contribuição para os seus companheiros de
desventura. Chamava-se Galateo e carregava no pescoço um chifre de caça cujo
toque advertia de longe de sua chegada. As mulheres ouviam o chifre e punham no
canto da mureta ovos, abobrinhas ou tomates, e às vezes um pequeno coelho já
limpo; e depois fugiam para se esconder levando as crianças, porque ninguém deve
permanecer nas ruas por onde passa o leproso: a lepra pega de longe e até vê-lo era
perigoso. Precedido pelos toques agudos do chifre, Galateo vinha devagar pelos
becos desertos, com o grande cajado nas mãos, e a roupa comprida toda rasgada que
arrastava pelo chão. Tinha cabelos compridos, amarelados, parecendo estopa e um
rosto branco arredondado, já meio carcomido pela lepra. Recolhia as ofertas, enfiava-
as na cesta de vime e lançava agradecimentos para as casas dos camponeses
escondidos, com sua voz melosa, misturando sempre alguma alusão maligna ou para


fazer rir.
Naquela época, nas regiões próximas do mar, a lepra era um mal difuso, e havia
perto de nós uma pequena aldeia, Prado do Cogumelo, habitada apenas por
leprosos, aos quais devíamos dar contribuições, que eram justamente recolhidas por
Galateo. Quando alguém do litoral ou do campo era atingido pela lepra, deixava
parentes e amigos e ia para Prado do Cogumelo passar o resto da vida esperando ser
devorado pelo mal. Falava-se de grandes festas que acolhiam os recém-chegados: de
longe ouviam-se subir sons e cantos das casas dos leprosos até a noite.
Diziam muitas coisas de Prado do Cogumelo, embora ninguém entre os saudáveis
jamais tivesse ido lá; mas todos concordavam em dizer que lá a vida era uma
perpétua diversão. Antes de se tornar asilo de leprosos a aldeia fora um covil de
prostitutas para onde iam marinheiros de todas as raças e religiões: e parecia que as
mulheres ainda conservavam os costumes licenciosos daqueles tempos. Os leprosos
não plantavam, exceto uma vinha de uva vermelha cujo vinho os mantinha em
estado de leve embriaguez o ano inteiro. A grande ocupação dos leprosos era tocar
instrumentos estranhos inventados por eles, harpas com sininhos pendurados nas
cordas, e cantar em falsete, e pintar ovos com pinceladas coloridas como se fosse
sempre Páscoa. Assim, rodopiando com músicas dulcíssimas, com guirlandas de
jasmim ao redor das faces desfiguradas, esqueciam a convivência humana da qual a
doença os afastara.
Nenhum de nossos médicos jamais se responsabilizara pelos leprosos, mas
quando Trelawney se estabeleceu entre nós, esperava-se que ele quisesse dedicar a
sua ciência à cura daquela praga em nossas terras. Também eu, da minha forma
infantil, partilhava tais esperanças: havia tempos sentia uma grande vontade de ir até
Prado do Cogumelo e assistir às festas dos leprosos; e se o doutor se dedicasse a
experimentar seus remédios com aqueles desgraçados, talvez me permitisse algumas
vezes acompanhá-lo até o interior da aldeia. Mas nada disso aconteceu: mal ouvia o
chifre de Galateo, o dr. Trelawney fugia correndo, temendo o contágio mais do que
ninguém. Algumas vezes tentei interrogá-lo sobre a natureza daquela doença, mas
ele deu respostas evasivas e fragmentadas, como se bastasse a palavra lepra para
perturbá-lo.
No fundo, não sei por que insistíamos em considerá-lo um médico: pelos animais,
em especial os menores, pelas pedras, pelos fenômenos naturais se interessava
muito, mas os seres humanos e suas doenças o enchiam de repugnância e desânimo.
Tinha aversão a sangue, só tocava os doentes com a ponta dos dedos, e diante dos
casos graves tapava o nariz com um lenço de seda molhado em vinagre. Pudico
como uma donzela, enrubescia ao ver um corpo nu; e se fosse uma mulher, ele
mantinha os olhos baixos e gaguejava; mulheres, em suas longas viagens pelos
oceanos, parece que nunca havia conhecido. Por sorte, nessa época, entre nós os
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