O verso e o Reverso da Medalha em Lincoln de Gore Vidal


Parte da polémica com aqueles que Vidal denomina



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Parte da polémica com aqueles que Vidal denomina 

«hagiógrafos» prende-se com o facto de, no processo de 

transformação da personalidade histórica em personagem romanesca, 

o escritor privilegiar, sobretudo, as opiniões que as personagens 

historicamente atestadas tinham de Lincoln. O Presidente é, dessa 

forma, no romance, encarado sob três ópticas diferentes: a política, a 

familiar e a pública. No que diz respeito à perspectiva política, 

destacam-se os comentários de John Hay, um dos secretários 

particulares do Presidente; William Seward, Secretário de Estado; e 

Salmon Chase, primeiro Secretário do Tesouro do governo de 

Lincoln.  A óptica familiar é garantida pelas opiniões de Mary Todd 

Lincoln, mulher do Presidente, e, embora com menos relevo, por 

Robert Lincoln, filho do estadista. Embora não pertencente à família, 

é possível incluir, neste segundo grupo de personagens, o nome de 

William Herndon que trabalhou durante muitos anos com Lincoln, 

                                                 

2

 Sobre os diferentes tipos de modelizações, ver Wladimir Krysinski (1981). 



3

 Sobre o interesse de Gore Vidal pelo romance histórico no quadro da sua 

ficção histórica voltada para a reconfiguração da memória da nação, ver o posfácio do 

romance Burr e o ensaio «Narratives of a Golden Age» (Gore Vidal, 1993 f). Sobre 



Lincoln, considerar os seguintes ensaios vidalianos: «First Note on Abraham 

Lincoln», «Lincoln, Lincoln, and the Priests of Academe», «Last Note on Lincoln» e 

«Lincoln». Os três primeiros podem ser encontrados no volume United States.  Essays 

1952-1992 (Gore Vidal, 1993 c, d, e).  O último encontra-se em Screening History 

(Gore Vidal, 1993 a [1992]: 71-107).  Para além destes, há que recordar o posfácio de 



Lincoln.  Sobre os historiadores como hagiógrafos, ver Gore Vidal (1993 d: 674).  

Sobre o romance Lincoln, ver também Joyce Carol Oates (1984: 1-3); Owen Edwards 

(1985: 33-42); Harold Bloom (1984) em Jay Parini (1992 a: 221-229); Jay Parini 

(1992 b: 1- 30); Donald Pease (1992: 247-277); e Susan Baker & Curtis Gibson 

(1997: 83-101).  



ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS

 

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constituindo-se, dessa forma, numa importante fonte sobre o passado 

do político. Quanto à perspectiva pública, aqui encarada como 

correspondente à imagem pública que era projectada pelo Presidente, 

durante a Guerra Civil, no ambiente hostil de Washington D.C., há 

que considerar David Herold. Se é verdade que Herold não conviveu 

de perto com Lincoln e que não existem muitos dados históricos sobre 

o jovem, na economia da narrativa, Herold é um dos observadores 

privilegiados dos movimentos dos habitantes, funcionários e visitantes 

da Casa Branca, pelo que é oportuno levar em conta as suas opiniões 

sobre o Presidente. 

Uma das novidades na elaboração do Lincoln romanesco reside 

no facto de Vidal ter prestado especial atenção às fontes que foram 

esquecidas ou simplesmente não consideradas pelos historiadores por 

não serem, na opinião deste últimos, credíveis. Refiro-me aos casos 

dos relatos de William Herndon e David Herold. Vidal insinua, por 

exemplo e com base em Herndon, que os estados de demência de 

Mary Todd Lincoln, bem como a morte prematura de alguns dos seus 

filhos podiam estar associados à sífilis que Lincoln havia contraído 

quando jovem. É através de Herold, por outro lado, que Vidal aborda 

um detalhe da vida íntima do Presidente, ao fazer referência aos seus 

problemas de obstipação, que o obrigavam a utilizar um laxante. Tais 

aspectos foram, aos olhos dos historiadores e biógrafos de Lincoln, 

considerados como depreciativos e mesmo ofensivos, mas, na 

verdade, devem ser encarados como estratégias de trivialização da 

história e caracterização da personalidade histórica como um ser 

humano como outro qualquer. 

Concentrando a atenção nas personagens que observam Lincoln 

sob uma óptica política, importante é destacar que «Honest Abe» é 

inicialmente visto como um político aparentemente ingénuo e mesmo 

inofensivo, que poderia, à partida, ser facilmente manipulável. Mesmo 

que a caracterização do protagonista seja paulatina, tendo em conta 

que os acontecimentos relacionados com a Guerra Civil a determinam, 

Lincoln é, desde o início do romance, caracterizado como alguém 

capaz de surpreender até os políticos mais avisados e experientes, 

como é o caso de William Seward. Lincoln, na verdade, é apresentado 

como alguém que, apesar do ar descuidado e despreocupado com a 

sua aparência, estava sempre atento à projecção da sua imagem junto 

da opinião pública. O que Vidal começa por sugerir, através da 

recriação, logo no início do romance, de uma conversa entre Elihu 

Washburne e o Secretário de Estado é que o «Tycoon» foi, ao longo 

da sua carreira, preparando cuidadosamente o seu percurso rumo à 



O VERSO E O REVERSO DA MEDALHA EM LINCOLN DE GORE VIDAL

  259


Casa Branca, sendo ele próprio, juntamente com os seus 

colaboradores mais próximos, os principais mentores da edificação do 

mito do self-made man que, devido à sua honestidade e perseverança, 

venceu no mundo da política. A este propósito, não é gratuita a 

insistência de Vidal em recorrer às opiniões de John Hay que, após a 

morte de Lincoln, celebrizou-se por ter escrito uma biografia sobre o 

Presidente, juntamente com o seu colega John Nicolay. É Hay quem 

revela como Lincoln foi um dos primeiros políticos a dar-se conta da 

eficácia da fotografia como meio de propaganda política e divulgação 

da imagem. O já mencionado William Seward, por outro lado, cedo 

desiste de pensar em manipular Lincoln, compreendendo que a atitude 

de «Honest Abe» de não ter, ao longo da Guerra Civil, uma política de 

guerra definida e coerente, constituía-se numa estratégia inteligente 

para justificar a concentração dos poderes nas mãos do Presidente e 

«Commander-in-Chief» das Forças Armadas, o que, em alguma 

medida, abria o caminho para o desrespeito da Constituição e para a 

suspensão de alguns dos direitos dos cidadãos. 

É preferencialmente através da rivalidade com Salmon Chase que 

a faceta autocrática do governo de Lincoln é salientada, como atesta o 

episódio em que Chase tenta manipular politicamente os senadores 

para tentar restringir os poderes de Lincoln num momento em que a 

Guerra Civil parecia não atingir o seu termo. Vidal explora com 

detalhes, em várias páginas do romance, a maquinação de Chase, de 

forma a revelar os dotes de génio político de Lincoln, caracterizando-o 

como sendo capaz de contornar as acusações de infracção dos limites 

impostos pela Constituição, bem como de neutralizar os seus rivais 

políticos. Mais do que isso, Vidal caracteriza Lincoln como um 

político com uma ambição desmedida, o que me leva a pensar num 

dos ensaios vidalianos, em que o escritor recorda as palavras de 

William Herndon, segundo o qual, a ambição de Lincoln «was a little 

engine that knew no rest» (Gore Vidal, 1993 i: 666). 

É o mesmo Herndon que chama a atenção de Vidal para um 

discurso que Lincoln proferiu em 1838, no Springfield Lyceum, vinte 

e três anos antes de instalar-se na Casa Branca. Sendo o discurso uma 

fonte histórica inquestionável, importa compreender como ele 

informou decisivamente a modelização do Lincoln romanesco, pelo 

que transcrevo o seguinte passo do ensaio vidaliano:  

 

This speech is indeed a key to Lincoln’s character, for it is here that he 



speaks of the nature of ambition and how, in a republic that was already 

founded, a tyrant might be tempted to reorder the state in his own image.  At 

the end Lincoln himself did just that.  There is a kind of terrible Miltonian 



ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS

 

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majesty in his address to the doubtless puzzled young men of the Springfield 

Lyceum.  In effect, their twenty-nine-year-old contemporary was saying that, 

for the ambitious man, it is better to reign in hell than serve in Heaven. (Gore 

Vidal, 1993 l: 706). 

 

O comentário não ficcional de Vidal pode ser cruzado com o 



posfácio de Lincoln, no qual o autor se indaga sobre o que pode ser 

considerado verdadeiro no volume publicado em 1984. Tendo em 

conta a opacidade do protagonista do romance e a sobreposição de 

diferentes imagens de Lincoln de acordo com as várias opiniões das 

personagens, torna-se oportuno reter na memória não só a alocução no 

Springfield Lyceum, como também os demais discursos de Lincoln, 

que são engenhosamente incorporados no tecido romanesco. Defendo 

que, ao chamar a atenção para os artifícios retóricos presentes nos 

discursos, Vidal sublinha alguns dos seus sentidos ideológicos, o que 

acaba por tornar mais verosímeis as opiniões das personagens sobre 

«Father Abraham». 

A alocução de Lincoln em 1838 é um elemento-chave na 

narrativa vidaliana, na medida em que duas das suas linhas de força 

são utilizadas por Vidal na modelização da personagem. Trata-se da 

tentação que um tirano tem de recriar, à sua imagem, uma república 

fundada por outros e da crença de que é melhor reinar no inferno do 

que servir no paraíso. O comentário não ficcional de Vidal insinua, 

dessa forma, que Lincoln agiu, ao longo dos seus dois mandatos, 

como um tirano, sugerindo o romance que o cuidado do político com a 

sua imagem, antes de chegar à Casa Branca, evidenciava que ele já 

havia cedido à tentação de tentar recriar a República segundo a sua 

imagem, o que pode explicar o porquê de a ameaça de fragmentação 

do país não o assustar muito. Para se transformar num novo pai 

fundador da nação, Lincoln precisava garantir a manutenção da União, 

o que podia ser conseguido através de uma compromisso com o diabo 

(ou seja, a Guerra Civil, a violência fratricida, a destruição, o sangue 

derramado). O preço a pagar seria a sua própria morte, o que justifica 

a recorrência com que a personagem refere a luta pela União como um 

destino

4



Para além de ser decalcada do confronto de opiniões das várias 

personagens do romance, a modelização ficcional do Lincoln 

vidaliano releva da interpretação que o narrador e as outras 

                                                 

4

 A este propósito, considere-se a conversa de Lincoln com Seward sobre o seu 



discurso inaugural, quando o Presidente afirma que acredita no destino e na sua 

necessidade: «I believe in this Union. That is my fate, I suppose.  And my necessity.». 

(Cf. Gore Vidal, 1984: 46. O itálico é do autor.) 



O VERSO E O REVERSO DA MEDALHA EM LINCOLN DE GORE VIDAL

  261


personagens fazem dos discursos do Presidente. Sendo os discursos 

documentos históricos, o romance questiona a representação pública 

da memória ao utilizá-los para conjecturar sobre os reais motivos que 

movem Lincoln. Motivos que começam a ser engenhosamente 

desvelados, na economia da narrativa, quando Vidal recria o 

reencontro do Presidente com um antigo rival político, Stephen 

Douglas

5

. É Douglas quem recorda o discurso de Lincoln no 



Springfield Lyceum para desvelar a estratégia do político na sua 

tentativa de recriação da República, estratégia que tira partido da 

Guerra Civil e do carácter ambíguo da Constituição que concede ao 

Presidente da República poderes semelhantes aos de um tirano: 

 

“War has come, Mr. President.” 



(...)  “Yes, it has come.” 

“So now you have your chance to re-create the republic”. 

Lincoln was startled.  “What do you mean by that?” 

“Well, when I was getting ready for our last set of debates, I rummaged 

around and found a copy of an old speech you gave to the Young Men’s 

Lyceum in Springfield.” 

“My God, Judge, I was a boy when I gave that talk.” 

“You were twenty-eight, at which age Alexander the Great had been 

remarkably active.  You mentioned him, too. And Julius Caesar. And 

Napoleon, I believe.” 

“As tyrants, yes, but...” 

“As tyrants, yes.” Douglas was inexorable. (...)  “You said that the 

founders of the republic had got all the glory that there was and that those who 

come after can never be anything except mere holders of office, and that this 

was not enough to satisfy ‘the family of the lion, or the tribe of the eagle.’” 

Lincoln stared down at Douglas.  (...) 

“Your lion and your eagle cannot endure the notion of following the 

footsteps of any predecessor, or of anyone at all.  Your great man ‘thirsts and 

burns for distinction; and, if possible, he will have it, whether at the expense 

of emancipating slaves, or enslaving free men.’ I learned a lot of that speech, 

just in case.” (Gore Vidal, 1984: 111 e 112) 

 

Na esteira do próprio Gore Vidal que afirmou, num outro 



comentário não ficcional, que o Lincoln real podia ser encontrado nos 

seus escritos (Gore Vidal, 1993 i: 664), concentro a minha atenção em 

três dos seus discursos para demonstrar como Vidal selecciona 

algumas das suas partes e as incorpora no romance para revelar a 

                                                 

5

 Sobre os debates entre Abraham Lincoln e Stephen Douglas na corrida ao 



Senado, ver, dentre outros, Albert Beveridge (1928); Archer Shaw (1950); Harry Jaffa 

(1971) em Morton Frisch & Richard Stevens (ed.) (1971: 125-143); Paul Angle 

(1947); e Stefan Lorant (1954).   

  



ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS

 

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argúcia do advogado que interpreta a Constituição em benefício 

próprio, a fim de dar suporte às suas decisões políticas, tornando 

possível o seu desejo de recriar a União. Se os discursos seleccionados 

correspondem a momentos distintos nos últimos anos de vida do 

político, leio-os de forma articulada a fim de compor a imagem de um 

tirano em construção. Para tal, prestarei especial atenção, para além do 

conteúdo dos textos em si, à eventual discussão prévia dos discursos, 

bem como à descrição minuciosa sobre a maneira como as alocuções 

são feitas, através das reacções do Presidente e dos seus ouvintes. 

O primeiro discurso é o discurso inaugural de Lincoln, em 1861, 

às vésperas da Guerra Civil, quando o Presidente formaliza a sua 

tomada de posse. Nesse discurso, Lincoln transforma a União na sua 

causa, tratando-a como uma questão legal, já que, segundo ele, 

«[p]erpetuity is implied, if not expressed, in the fundamental law of all 

national governments. It is safe to assert that no government proper, 

ever had a provision in its organic law for its own termination.» (Gore 

Vidal, 1984: 44). É a propósito da discussão deste discurso com 

Seward que o escritor retoma o tópico da fragilidade da Constituição, 

que já havia sido problematizado no romance Burr. O que a discussão 

sobre a real existência de um sentimento de pertença à nação, perante 

a ameaça de desintegração da União, faz é questionar o modelo de 

democracia que a Constituição inspirou em outras nações que lutavam 

pela sua liberdade política. O que torna a separação dos estados 

possível é a ambiguidade do texto da Constituição. O romance sugere 

que Lincoln está ciente, ao assumir o seu posto de Presidente, de que 

sem um sentimento e um compromisso de pertença à União, a 

república estará sempre em perigo. Isto explica a preocupação do 

Presidente eleito de, no seu discurso inaugural, esclarecer os motivos 

que justificavam a inevitável Guerra Civil. 

Vidal recupera o discurso ao mesmo tempo que recorda as 

posições contraditórias assumidas por Lincoln, antes de ele chegar à 

Casa Branca, tendo em conta que alguns estados do sul reivindicaram 

a separação da União com medo de que o político, ao tomar posse, 

abolisse a escravatura e prejudicasse os interesses económicos das 

elites. É preciso não esquecer que, na altura da posse de Lincoln, era 

corrente a ideia de que a causa da Guerra Civil era a polémica em 

torno da escravatura. Ao frisar que Lincoln, no seu discurso inaugural, 

sublinha que a questão da escravatura é secundária, sendo antes 

crucial, para a sobrevivência da República, evitar a separação dos 

estados, Vidal traz à discussão a inconstância das posições defendidas 

por Lincoln quanto à escravatura antes e depois de ocupar a Casa 



O VERSO E O REVERSO DA MEDALHA EM LINCOLN DE GORE VIDAL

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Branca, consoante os interesses em jogo e o público que o ouvia. 

Vidal enriquece esta discussão e desconstrói o mito de que Lincoln era 

um defensor da liberdade dos negros ao recordar que, no decorrer da 

Guerra Civil, aquando da discussão sobre a Proclamação da 

Emancipação, Lincoln era movido não pelo desejo de abolir ou 

restringir a escravatura em território nacional, mas sim pela 

necessidade de preservar a União em função dos imperativos de 

ordem militar. O mito do «Great Emancipator» é definitivamente 

deitado abaixo quando Vidal insinua que Lincoln julgava os negros 

inferiores aos brancos, o que é ilustrado pelo contestado projecto de 

enviar os negros para algumas colónias da América Central ou ainda 

de volta para a África, fazendo, dessa forma, cessar os conflitos que 

opunham brancos e negros. 

A recuperação do primeiro discurso inaugural serve também a 

Vidal para mostrar como a astúcia do Lincoln advogado era utilizada 

pelo político na interpretação e no consequente uso abusivo dos 

poderes que lhe eram concedidos pela Constituição. Vidal ilustra 

como, na sua primeira alocução como Presidente, Lincoln evoca a sua 

responsabilidade de preservar, proteger e defender a Constituição dos 

Estados Unidos, perante o compromisso de um juramento registado no 

céu. Para tal, Vidal lança mão das conversas entre Hay e Lincoln e 

também dos pensamentos do primeiro para mostrar como este será o 

argumento retórico que será ideologicamente utilizado para justificar, 

sempre que necessário, os poderes de Lincoln como Presidente e 

«Commander-in-Chief» das Forças Armadas. O romance insinua o 

paradoxo da utilização do argumento do juramento para justificar os 

actos tirânicos de um Presidente, quando a sua principal 

responsabilidade seria justamente a de lutar contra a tirania. As 

violações do texto constitucional, dentre as quais, se destaca a 

suspensão do habeas corpus são, dessa forma, ancoradas na situação 

excepcional de guerra e da necessidade urgente de travar o inimigo a 

fim de evitar a desintegração da União. Delas releva, no entanto, a 

habilidade do advogado e do génio político que tinha a percepção de 

que o seu governo, ao garantir a integração da União, poderia ser um 

ponto de viragem na consolidação dos Estados Unidos como uma 

nação coesa e poderosa, o que é assinalado por Vidal em outros 

romances da American Chronicle, na medida em que Lincoln serve de 

grande modelo inspirador a outros presidentes da República. 

O segundo discurso que Vidal particulariza é o da curta e célebre 

alocução que o Presidente proferiu em Gettysburg, através do qual, 

Vidal sugere que Lincoln, já cansado de tanta violência, num 



ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS

 

264



momento crítico da Guerra, tenta responsabilizar, num campo de 

morte, os vivos pelo destino da nação, independentemente do lado que 

defendiam. Vidal sugere como Lincoln engenhosamente se converte 

num novo pai fundador da nação, ao defender, através da evocação do 

modelo de democracia criado pelos «Founding Fathers», a 

necessidade de fazer a nação renascer, o que me faz escutar o eco do 

já referido discurso proferido no Springfield Lyceum:  

 

“It is for us, the living, (...), to be dedicated, here, to the unfinished work 



that they have thus far so nobly carried on.  It is rather for us to be here 

dedicated to the great task remaining before us; that from these honored dead 

we take increased devotion to that cause to which they here gave...”  (...)  “the 

last full measure of devotion; that we here highly resolve,” (...), “that these 

dead shall not have died in vain; that the nation shall”, (...), “under God” (...)  

“have a new birth of freedom, and that government of the people, by the 

people, for the people, shall not perish from the earth.” (Gore Vidal, 1984: 

490) 


 

O terceiro exercício de citação que Vidal realiza está relacionado 

com a incorporação de algumas partes do segundo discurso inaugural 

de Lincoln na economia da narrativa. Pelo facto de ter sido proferido 

já no fim da Guerra Civil e de Lincoln o ter abertamente considerado 

o seu testamento político, a análise do seu conteúdo merece especial 

atenção, já que Vidal tira dele partido para sugerir como o político foi 

construindo o mito em torno da sua figura. Quais as estratégias 

utilizadas por Lincoln? Inicialmente, a comparação entre os seus dois 

discursos inaugurais, que se justifica pela alteração do quadro político 

da nação. Na época de alocução do segundo discurso inaugural, o país 

estava marcado pelo fim da Guerra Civil, o que fazia com que a 

atmosfera vivida fosse um misto de tensão, alívio e muita ansiedade 

em face do que poderia acontecer num período de reconstrução. Dessa 

forma, é compreensível que, no início de um segundo mandato, numa 

cidade dividida como Washington D.C., cuja maioria da população era 

a favor da secessão, Lincoln tentasse justificar a Guerra Civil, 

ilibando-se de qualquer culpa pelo conflito sangrento, tendo em conta 

a necessidade de salvar a integridade da União. Contrariamente ao 

primeiro discurso inaugural, este é um discurso em que abundam as 

referências religiosas, o que pode ser lido como uma tentativa de 

transformar a discussão sobre a Guerra Civil numa questão de cunho 

político, moral e religioso. As noções de culpa e de pecado são 

claramente introduzidas nas reflexões sobre a Guerra Civil, como se 

qualquer tentativa de fragmentar a nação pudesse ser lida como uma 

grave ofensa a Deus. 




O VERSO E O REVERSO DA MEDALHA EM LINCOLN DE GORE VIDAL

  265


No segundo discurso inaugural, importa reflectir sobre o porquê 

de Vidal apenas recuperar alguns excertos do texto original

6

, já que 



Vidal opta por não referir as partes em que Lincoln menciona a 

escravatura nos Estados Unidos. Defendo que Vidal modelizou 

ficcionalmente o Lincoln romanesco como uma figura tutelar da 

história americana por lutar pela coesão da União e não pela abolição 

da escravatura. Na releitura vidaliana do discurso do Presidente, 

interessa ao escritor conjecturar sobre os motivos obscuros que 

condicionaram a actuação de «Honest Abe». Encarando Vidal Lincoln 

como o homem que tentou, a todo o custo, recriar a União, na sua 

tentativa de obter um protagonismo histórico equivalente ao dos 

«Founding Fathers», a discussão sobre a escravatura perde em 

importância, mesmo que o Presidente, nesse discurso, a ela se refira 

através de uma linguagem pejada de referências religiosas como uma 

ofensa a Deus, o que, por sua vez, pode justificar, em alguma medida

o tom conciliatório assumido pelo Presidente. A este propósito, 

transcrevo o seguinte passo do discurso integralmente aproveitado por 

Vidal: 


 

“With malice toward none, with charity for all, with firmness in the 

right, as God gives us to see the right, let us strive on to finish the war we are 

in, to bind up the nation’s wounds, to care for him who shall have borne the 

battle and for his widow and his orphan 

− to do all which may achieve and 

cherish a just and a lasting peace among ourselves and with all nations.” (Gore 

Vidal, 1984: 621) 

 

III. 

Parto do tom conciliatório do excerto transcrito para especular 

sobre o facto de Lincoln, no seu segundo discurso inaugural, ao 

contrário do que seria esperado, não apresentar medidas concretas 

para a reconstrução da nação quando tudo levava a crer que os 

Confederados seriam derrotados. Retomo, com base no discurso que 

foi proferido no Springfield Lyceum, a sugestão de que Lincoln 

desejava se converter num novo pai fundador da nação. Tendo em 

conta que o segundo discurso inaugural nada deixa antever quanto ao 

futuro mais imediato na nação, defendo a hipótese de que Vidal tirou 

partido desta indefinição para insinuar que Lincoln, em alguma 

medida, estava à espera da sua morte, pelo que não era oportuno 

propor medidas que seriam, com certeza, controversas. Tal hipótese 

radica no facto de o Presidente considerar este discurso como o seu 

                                                 

6

 O segundo discurso inaugural de Lincoln encontra-se na The Norton Anthology 






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