O verso e o Reverso da Medalha em Lincoln de Gore Vidal



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MÁTHESIS 14 2005 255-268 

 

 

 

O Verso e o Reverso da Medalha 

em Lincoln de Gore Vidal 

 

A



DRIANA 

A

LVES DE 



P

AULA 


M

ARTINS


 

 

 



 

RESUMO 

 

No romance histórico Lincoln, publicado em 1984, Gore Vidal 



refina a sua política de representação de reconstrução da memória da 

nação, através da revisão da historiografia de Abraham Lincoln. Neste 

ensaio, examino como Vidal revisita o mito criado pelo discurso 

histórico e analiso as implicações ideológicas deste processo de 

reescrita no que diz respeito às metamorfoses da política norte-

americana. 

 

 

ABSTRACT 



 

In  Lincoln, a historical novel published in 1984, Gore Vidal 

refines his politics of representation that focuses on the reconstruction 

of national memory through the revision of Abraham Lincoln’s 

historiography. In this essay I examine how Vidal revisits the myth 

created by the historical discourse. Moreover, I analyse the ideological 

implications of this rewriting process as far as the American political 

metamorphoses are concerned. 

 

 

 



«Os fios são os mesmos e o bordado é outro: 

essa é a estratégia devoradora do texto contemporâneo.» 

 

(Teresa Cristina Cerdeira, O Avesso do Bordado



 

 

I. 

No quadro da ficção histórica de Gore Vidal sobre a revisão da 

história política dos Estados Unidos, Lincoln (1984) foi o romance 

mais controverso em termos de impacto junto do público leitor. A sua 

publicação reacendeu o rastilho de pólvora que, sobretudo, nos dois 

últimos séculos, opõe os historiadores e os romancistas interessados 



ADRIANA ALVES DE PAULA MARTINS

 

256



pela matéria histórica, fazendo reavivar a discussão sobre o carácter 

de artefacto e de verdade das representações histórica e ficcional. 

Dando continuidade à política de representação centrada na 

reconstrução da memória da nação, através da revisão da 

historiografia das grandes personalidades históricas, como já tinha 

demonstrado, em 1973, com a publicação de Burr, Gore Vidal, no 

romance publicado em 1984, concentra a sua atenção numa das 

figuras mais emblemáticas da história americana: Abraham Lincoln. 

Tirando partido do facto de Lincoln ter sido, ao contrário do que 

acontecera com Aaron Burr, imortalizado positivamente pelo discurso 

histórico como um herói político que teve a coragem de preservar a 

União e de lidar com a delicada problemática da escravatura, Vidal 

reavalia, através do modelo do romance histórico

1

, o momento mais 



crítico da história dos Estados Unidos: o da Guerra Civil. 

Ao construir a sua narrativa ficcional sobre os principais 

episódios que marcaram este evento histórico e as reacções das 

diferentes personagens, sejam elas historicamente atestadas ou não, 

aos mesmos, Vidal redimensiona o papel e o lugar de Lincoln na 

história da democracia ao encarar o Presidente como o arquitecto de 

uma nova ideia de nação. Por outras palavras, no seu romance, Vidal 

considera os mandatos de Lincoln como um novo momento fundador 

da nação, tendo em mente que o Presidente tentou reinventar a União. 

O meu objectivo, neste trabalho, é, num primeiro momento, 

justamente examinar como Vidal revisita o mito criado pelo discurso 

histórico para redizê-lo de uma outra maneira. Num segundo 

momento, pretendo analisar as implicações ideológicas deste processo 

de reescrita no que diz respeito às metamorfoses da política norte-

-americana. Para tal, encaro o romance como uma espécie de medalha, 

em que são confrontadas diferentes facetas da personalidade de 

Lincoln, ou seja, a faceta da personalidade histórica que foi mitificada 

pela historiografia oficial e a faceta do homem comum que ascendeu 

ao cargo mais importante dos Estados Unidos, aspecto que a ficção 

vem iluminar. Confronto que só é possível em função da articulação 

entre um refinado processo de modelização ficcional da personalidade 

histórica e um elaborado exercício de citação dos discursos de 

Lincoln, o que permite ao escritor especular, através do romance 

histórico, sobre as possíveis razões que, por um lado, justificaram o 

percurso político de Lincoln e que, por outro e em certa medida, 

levaram à ocorrência da Guerra Civil.  

 

                                                 



1

 Sobre os modelos da ficção histórica vidaliana, ver Adriana Martins (2002).  




O VERSO E O REVERSO DA MEDALHA EM LINCOLN DE GORE VIDAL

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II. 

O processo de modelização ficcional do Lincoln romanesco 

assenta sobre a elaboração de um político opaco que não descortina os 

seus pensamentos, o que faz com que a personagem esteja 

permanentemente envolta numa atmosfera de mistério, que só é 

desfeita quando, em raras ocasiões, o protagonista do romance 

comenta os seus próprios sonhos. Tal modelização, mais do que 

referencial, é ideológica

2

, já que Lincoln é dado a conhecer ao leitor 



de forma sempre provisória, tendo por base os comentários das demais 

personagens sobre a personalidade do político. É através desse tipo de 

caracterização que Vidal começa a desconstruir a faceta mítica que 

alguns historiadores e biógrafos elaboraram da figura histórica, o que 

foi abertamente criticado por Vidal em vários ensaios, já que o 

romancista os considerava como uma espécie de hagiógrafos

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