O verme docx



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A Decisão
A cada situação de conflito que ocorria dentro de casa, Aldo sentia o Verme assumir cada
vez mais o domínio de sua mente. Não havia mais a necessidade de estar fora para que
pudesse falar ou coagir o garoto. E ele falava cada vez mais alto, em ritmo cada vez mais
recorrente. Tentava a todo custo fazer com que o pobre rapaz perdesse as rédeas de sua
própria vida. Não que Aldo fosse um ótimo condutor, mas ainda era a sua vida. Ainda era
responsabilidade dele decidir que rumo as coisas tomariam. Porém o Verme não estava
disposto a deixar isso acontecer.
_ Você sabe o que ela pretende fazer! - Assim começava sua ladainha matinal. - Ela está
planejando algo. Impossível que não veja, seu idiota!
_ Não. Não. Ela não seria capaz de nada contra mim! - Levava as mãos até os ouvidos,
tentando abafar o som, mas não adiantava. Não há como abafar sons que vêm de dentro.
Do mesmo jeito que não dá para se matar o que está incrustado em nossas entranhas.
_ Você é muito burro! Eu deveria ter abandonado você faz tempo. Do mesmo jeito que seu
pai fez. É nojento fazer parte de um ser tão medíocre.
_ O que há com você? Por que ficou tão agressivo?
_ Estou tentando protegê-lo! Sua mãe pretende fazer algo. Você ouviu o que ela disse
outro dia! - Aos poucos o parasita foi se manifestando em cima da cama. Nunca havia
estado tão grande, tão gordo, tão nojento e asqueroso. Um odor de podridão saía de sua
boca. Os dentes mais afiados que nunca. Um muco verde, de cheiro nauseante escorria de


suas diversas dobras. Ele encarava Aldo de forma repugnante, como se o menino é que
fosse um verme, um parasita, um ser que tentava se alimentar das sobras de uma vida que
há muito havia se passado.
_”...se o único jeito disso acabar for a dor da morte, estou pronta. Aldo sabe que essa hora
vai chegar!” - Repetiu Aldo. Seus ombros pesavam.
_ Exato! Ela está pronta para acabar com a sua vida. Acredite, eu, no lugar dela, também
iria querer dar um fim em você! Na verdade, - Levantou metade do corpo e jogou sobre o
ombro do hospedeiro, seus rostos colados um no outro, a boca a poucos centímetros do
ouvido de Aldo. Proximidade típica de quando o amante deseja compartilhar aos sussurros
algo vital a seu amor. - ela aguentou mais tempo do que eu aguentaria. Você me enoja!
_ Mamãe não seria capaz. Eu não me conformo!
_ Ela já deve ter começado a dar um jeito em você!
_ Cale a boca! Cale a boca! - Passou a dar tapas na cabeça na tentativa de fazer com que
o parasita se calasse. De nada adiantou. - Você não sabe do que está falando!
_ Não sei? Olha para mim!
_ Não! Suma daqui!
_ Você acha mera coincidência ter começado a passar mal após as refeições depois de ter
escutado o que escutou?
_ Apenas estou desacostumado a comer. - Argumentou. - Passei muito tempo sem me
alimentar. É normal.
_ Normal é essa sua ignorância! Por que não quer ver? Você é a única coisa que a prende
nessa vida miserável.
_ Ela me ama!
_ O que você sabe sobre amor? - Chorar não ajudava em nada, mas Aldo não conseguia
evitar. Queria o fim daquela dor. Era impossível conseguir respirar direito com aquela
pressão sobre o peito. Tudo girava como um enorme carrossel. O escuro fazia com que
seus olhos ardessem mais que fogo e algo embrulhava em seu estômago. Não conseguia
se mexer e o som de sua respiração o deixava ainda mais desesperado, pois percebia,
através dela, que estava cada vez mais perto de perder o controle. Lembrou da lâmina no
banheiro, da faca na cozinha, da tesoura dentro da gaveta de sua escrivaninha. Passagens
que poderiam levá-lo para fora daquele emaranhado de maus sentimentos.
_ Ela me ama! - Disse mais para si que para o Verme.
_ Você herdou a fraqueza de seu pai. Herdou a mediocridade dos homens. Quem poderia
amar alguém assim, se nem mesmo seu pai pôde? Seus amigos...onde estão? Cadê esse
amor que você julga conhecer. Alicia? - Nunca conseguiu se declarar, pois quando
finalmente havia encontrado coragem, a garota surgiu de romance com um tal Júlio, um
desses atores em ascensão. Era engraçado, pois agora o próprio Aldo encenava a vida. -
Essa, com certeza, não ensinou nada sobre amor. Ninguém consegue amar você! Sua mãe
tentou, não nego, mas até mesmo ela viu que isso é impossível! Então pergunto mais uma
vez, o que você sabe sobre amor?
_ Preciso dormir!
_ Mas não vai! O que você realmente precisa é pensar em tudo o que eu disse.
_ Não! E daí se ela pretende fazer algo contra mim? Quais motivos tenho para continuar
aqui? Ninguém me ama. Não foi você mesmo que disse? Por que alguém medíocre e
asqueroso deveria continuar vivendo? Diga, - Pausou, se colocando cara a cara com o
Verme. - por quê? - Nem mesmo um Verme tão astuto quanto aquele pôde prever a


armadilha que havia preparado para si mesmo. Precisava pensar em algo. Precisava do
garoto com vida. Afinal, um corpo vivo alimenta por mais tempo que um corpo morto. Sua
única saída era o medo.
_ Você já sentiu a dor da morte, Aldo? - Resolveu conduzir a reflexão por essa via. - Teve
a experiência do ar deixando os pulmões, o oxigênio faltando cada vez mais em seu
cérebro e o coração pulsando cada vez mais fraco na tentativa inútil de bombear o sangue?
Você acha esse nosso breu interno denso? Difícil de lidar? Não faz ideia de como a
escuridão da morte é bem pior. E não, não há filmezinho com retrospectiva sobre seus
momentos por aqui. Pelo contrário, o que há é o esquecimento, o vazio e a dor. A dor mais
aguda que possa imaginar. - Quem visse aquela cena dos dois seres conversando, poderia
perceber garoto e Verme dividindo partes do mesmo sentimento, ao mesmo tempo em que
o sanguessuga se esforçava para ter cada vez mais domínio sobre o corpo de Aldo. - Você
quer morrer na esperança de encontrar paz e conforto? Pois saiba que é mais fácil
conquistar isso ainda em vida. Os sentimentos no pós-morte são imutáveis. E esse é o
verdadeiro inferno: sentir sempre a mesma coisa, estar paralisado no mesmo lugar. Agora
pergunto: você está preparado para sentir essa dor?
_ Você a sentiu? - Não havia sentido, mas conseguia imaginar bem a situação. Aquilo
gerava medo. Sem o menino vivo, quanto tempo o parasita sobreviveria?
_ Estive perto de sentir. Foi o suficiente para saber que é algo que não gostaria de passar
novamente. O suficiente para não desejar isso a ninguém, muito menos ao meu melhor
amigo!
_ Eu sou seu melhor amigo? - Não se engane. O Verme nutria somente uma vontade: a
sobrevivência. Teria dito e feito qualquer coisa para que Aldo fosse convencido. Era assim
que ele jogava sempre. Uma pitada de medo e outra de apego, na mesma medida.
_ Meu único, para ser sincero.
_ Desculpa! Sinto muito por ter sido egoísta e não ter pensado em você.
_ Quero apenas seu bem, meu caro! Enquanto você estiver aqui, podemos tentar
solucionar as coisas.
_ O que você quer que eu faça, Verme? O que espera de mim?
_ Espero que entenda que por mais triste que se sinta, você não precisa morrer para que
isso passe.
_ Não?
_ Não. - Aquela seria a jogada final. - Já sua mãe…

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