O verme docx



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A Refeição Matinal
Dormiu por muito tempo. Acordou apenas com as batidas na porta. Virgília, a mãe, queria
saber se tudo estava bem. Aldo sabia que era mais uma vistoria para saber se ele ainda
continuava vivo. Presumiu que era manhã.
_ Saia e venha tomar café comigo. - Era mesmo manhã.
_ Não sinto fome. - “Não sinto nada” pensou em tom confessional.
_ Você precisa comer, filho. Também estou com saudades de conversar com você. - A
pobre mulher estava mais sozinha que nunca. Sofria uma pressão interna enorme, sempre
correndo para checar como estava o filho, sempre o obrigando a deixar a porta do quarto
aberta, sempre fazendo o máximo para mantê-lo são, lúcido, mas ela mesma já não estava
sã.
_ Vou tomar banho e desço então. - Aguardou por alguns minutos. O suficiente para ter
certeza de que ela já não estava atrás da porta entreaberta e saiu da cama. Jogou a
coberta toda embolada no chão e caçou pelo quarto a toalha mais seca que pôde encontrar.
Despiu-se ali mesmo, deixando as roupas aninhadas no chão. No banheiro encarou seu
reflexo. Barba por fazer, cabelo por cortar, as costelas expostas sob a pele. Pura pele. Pele
e osso. Os olhos estavam fundos, opacos, olhos de quem já estava morto há muito tempo.
Os lábios rachados, moles, grossos. Pareciam um par de crias do Verme. Estava cheirando
mal. Azedo. Não lembrava quando havia tomado banho pela última vez. Que dia era? Que
horas eram? Nunca sabia situar o tempo. Já tinha se acostumado com o fato de estar
perdido. O único caminho plausível e que conhecia para sair dali era o que levava até a
cova. Sete palmos abaixo da terra. Talvez fosse uma boa ideia antecipar a viagem.
O Banquete
O Verme se fartou. Provou todas as extremidades de Aldo. Era exatamente o que
desejava: um banquete. Conseguiu sem muito esforço. A refeição sempre acontecia às
escuras. Nem uma velazinha para iluminar. O escuro era habitat natural daquele ser
asqueroso. Não precisava enxergar o corpo do garoto.
_ Vou descer. - Pensou de imediato o hospedeiro. - Hoje me sinto melhor. - Nada disse o
hóspede. Não relutou, afinal estava satisfeito. Por enquanto.
Aldo sentiu o cheiro de café fresco vindo da cozinha. Sabia que era manhã antes mesmo
de ver os raios de sol que entravam pelas janelas de vidro do cômodo. Sentia que dentro de
si também irradiava luz. Fraca. A chama de um fósforo. Mas o suficiente para dissipar um


pouco daquela escuridão. Passou por trás da mesa, que estava arrumada minuciosamente
para a primeira refeição do dia, e foi pousar um beijo na bochecha corada e enrugada de
sua mãe.
_ Olha quem está bem hoje!
_ Tão raro quanto um trevo de quatro folhas. - Ousou brincar.
_ Dias assim sinto cumprir meu papel de mãe. - Aldo sabia das dificuldades da mãe.
Conhecia o sofrimento que gerava. Sentia culpa e repulsa. Não suportava saber que era o
causador de lágrimas e noites mal dormidas. Mesmo que se esforçasse ao máximo,
algumas vezes encontrava a mulher jogada no sofá, minguada, com lenços e mais lenços
espalhados pelo chão. Sempre dormindo. Dormia depois de tanto chorar, supunha. Nesses
momentos odiava o Verme. Odiava tudo o que vinha dele.
_ Você cumpre. Desde que ele nos deixou você tem sido tudo. Tem cumprido tudo. Eu é
que não consigo ser quem a senhora precisa.
_ Eu apenas preciso que você seja quem era antes: um garoto feliz e alegre.
_ Exato! Eu não consigo ser quem a senhora precisa. Primeiro porque a felicidade é um
ideal inatingível para mim. Segundo pelo fato de que alegria é um antigo estranho do qual já
não lembro informação alguma. - Tentou lembrar da última vez em que havia se sentido
feliz. - Não dá para se querer por perto alguém, ou algo com o qual já não temos elo.
_ Está falando desses sentimentos ou do seu pai? - A mãe tostava um pão na frigideira em
manteiga bem quente. O líquido quente parecia o mesmo que escorria das dobras do
Verme.
_ Estou falando de tudo o que faz parte do meu passado. - Deu de ombros.
_ Eu faço parte do seu passado.
_ Mas também é meu presente. Meu agora e a única coisa boa que tenho em meio a essa
podridão toda. - Sentaram-se para comer. Um olhava para o outro em momentos
alternados, brincavam de autópsia, tentando entender desde quando e porque não existia
vida ocupando aqueles corpos. Embora a expressão cadavérica da mãe fosse muito mais
bonita que a do filho.
_ Espero que sempre me veja assim. Que eu sempre seja algo bom no qual possa se
agarrar. - Ela chorava mais uma vez. Aldo nada disse. Sentiu ânsia. Sentiu o peito doer,
como se alguém pegasse um prego e, com o auxílio de um martelo, desse golpes certeiros
que aos poucos perfuravam a pele. Correu para o quarto antes que o vômito vencesse.

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