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O Verme
“Os animais têm muitas vantagens sobre os homens” - Vai dizer Voltaire. Mas Aldo diria
mais. Diria que não somente os animais, também as plantas e os vermes têm vantagens
sobre os homens. Aos últimos ele ainda atribuiria um caráter nefasto, pois são os
encarregados da missão de corroer e desintegrar toda a nossa carne. Diferente de Brás,
não dedicou a nenhum verme suas memórias. Dele receberam apenas repugnância. Por ele
foram amaldiçoados infindáveis vezes! Malditos sejam os vermes!
Que Horas São?
_ Que horas são? - Pensou consigo enquanto tateava em busca do celular. Não sabia por
quanto tempo havia dormido. Era comum perder a noção do horário. Comum também era o
fato de explorar sempre os extremos do sono: a ausência e o excesso. Estava melhor. Mais
regulado. Sentia até mesmo algumas pontadas de um sentimento que, de forma incerta,
chamava de felicidade. Não era felicidade. Aldo não conhecia essa palavra. E se um dia
conhecesse, deixaria passar batido. O desconhecido era logo excluído de sua vida.
_ Que horas são? - Perguntou de novo, porém em voz alta desta vez.
Bang! Bang! Bang! - Brincou o Verme ao sair de seu esconderijo, fingindo reproduzir as
badaladas de um relógio.
_ Você! - A voz embargada de nostalgia ao reencontrar um velho amigo de infância. Fazia
tempo desde a última vez. Mas sabia que o sumiço não seria permanente. O Verme estava
sempre ali, alojado em algum canto da cabeça de Aldo. E sempre de forma inesperada,
despontava sua cabeça branca e molenga através da orelha de seu hospedeiro e trazia
consigo velhos conhecidos. _ Três horas? - Ainda questionou.
_ Três badaladas, três horas. - Respondeu. Calmo e seco.
_ Mas é tarde ou manhã? - O quarto estava completamente escuro. Não era possível
enxergar nem se quer um palmo na frente do nariz.
_ Para você isso já não importa. Aqui parece sempre noite.
_ De fato.
_ Por que não volta para a cama? Não há muito para se fazer agora.
_ Eu tenho muita coisa para fazer. Hoje é um dia importante.
_ Você nem ao menos sabe que dia é hoje, meu caro Aldo. Você não sabe se é tarde, ou
se é dia. Não sabe também como identificar se algo é importante, ou não. Do que você
sabe? - Neste instante o Verme parecia flutuar na escuridão. Os olhos cansados do rapaz
brincavam com sua percepção e dava ao parasita uma aparência fantasmagórica e uma
proporção dez vezes maior do que a de um verme comum.
_ Não sou mais o mesmo que era quando nos vimos pela última vez. Eu mudei.
_ Não mudou. - Zombou a criatura. - Continua doce e bondoso. Ainda se preocupa com os
problemas dos outros. Persiste em dar o máximo de si em tudo o que faz. É por isso que
gosto de você. São essas as características que me atrelam ao seu ser.
_ Eu sou o mesmo. - Admitiu, sentindo o peito pesar. - Acho que voltarei a dormir.
_ É o melhor que você poderia fazer.
_ Você voltará para dentro?


_ Não. - O Verme bocejava como se também sentisse sono. - Prefiro deitar em seu peito
por enquanto. Vou fazer companhia.
Não pense que Aldo era dado a relacionar-se com qualquer verme alheio não. Mais que
um verme, aquele era um velho amigo. Um amigo que ganhou ainda na infância, quando a
separação de seus pais e a morte de seu avô o atingiu de uma só vez. Naquela época o
Verme era mais dócil. Vinha vez ou outra e cochichava coisas que, na maioria das vezes,
tinham a ver com culpa e insuficiência. Mas era melhor um companheiro hostil que
companheiro nenhum. Por isso, mesmo depois de tanto tempo, aquela aparição gerou algo
em ambos. Não alegria, pois Aldo não sabia o que era alegria. Arrisco a dizer que era
familiaridade o nome do sentimento.

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