O tratado de Petrópolis: interiorização do conflito de fronteiras



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Brasília a. 42 n. 166 abr./jun. 2005

135

panhol Luiz Galvez Rodrigues de Arias.

Depois de alertar o então Governador ama-

zonense Ramalho Júnior sobre o teor de um

acordo diplomático que assegurava o apoio

militar dos Estados Unidos da América

(EUA) à Bolívia

2

, em caso de guerra com o



Brasil pelo domínio do Acre, ele partiu de

Manaus — sob o patrocínio daquele governo

— rumo à localidade de Puerto Alonso, re-

batizada de Porto Acre.

Ali, Galvez hastearia a bandeira acrea-

na — símbolo patriótico que traz as fortes

cores do pavilhão nacional — e proclama-

ria a criação do Estado Independente do

Acre.

3

Em resposta, as autoridades federais bra-



sileiras — avocando o disposto no Tratado

de Ayacucho — reconheceram tratar-se de

invasão territorial à Bolívia e enviaram tro-

pas e uma flotilha da Marinha para que fos-

se defenestrada a “República do Acre”. No

dia 15 de março de 1900, data da rendição

dos autodeclarados acreanos, o Cônsul

Eduardo Otaviano foi indicado formalmen-

te pelo Governo brasileiro para promover a

transição política, passando o controle da

região à Bolívia.

Houve, ainda, mais um episódio de in-

surreição, conhecido como a “República dos

Poetas”, não menos importante para a com-

preensão do processo de anexação das ter-

ras acreanas ao Brasil. Esse episódio teve

início no raiar do século XX, com a decisão

da Bolívia de enviar uma pequena missão

militar para ocupar a região. Impedida de

avançar pelos brasileiros, a missão não foi

além de Porto Acre. Entrementes, Silvério

Néri — à frente do Governo do Amazonas,

em substituição a Ramalho Júnior, com o

firme propósito de alargar as fronteiras es-

taduais — financiou uma nova expedição

armada em apoio à resistência brasileira no

local.

A Expedição Floriano Peixoto — desig-



nação oficial — era chefiada pelo jornalista

Orlando Correa Lopes, que liderava boêmios

e profissionais liberais de Manaus sem ne-

nhum treinamento militar. Ela proclamou a

Segunda República do Acre, que seria pre-

sidida pelo Coronel Rodrigo de Carvalho,

mas que teve destino idêntico ao de sua pre-

decessora, graças à fragorosa derrota sofri-

da diante do exército boliviano, em 29 de

dezembro de 1900. Com isso, as terras per-

maneciam bolivianas.

O tráfego das embarcações comerciais,

rio acima e abaixo, dava o tom de normali-

dade a esse quadro político, e a arrecadação

das receitas alfandegárias por parte da Bo-

lívia ocorria sem maiores embaraços.

Por essa época, como ressalta Bandeira

(2000, p. 153), com base nos próprios regis-

tros estatísticos do governo norte-america-

no, sessenta mil brasileiros habitavam o

Acre e as importações de goma elástica do

Brasil, que em 1879 e 1889 atingiram o valor

de US$ 3.296.766 e US$ 7.569.005, respecti-

vamente, já alcançavam a cifra de US$

16.999.345 em 1900, elevando Belém e Ma-

naus à condição de importantes centros para

o comércio exterior.

A queda persistente dos preços do café a

partir de então fez com que os políticos e

empresários nacionais passassem a se inte-

ressar pelos acontecimentos no Acre.

2.2. 

Bolivian Syndicate: Pomo da Discórdia

No início do século XX, soube-se da exis-

tência de um acordo militar entre norte-ame-

ricanos e bolivianos envolvendo a região em

análise. Apesar da negação peremptória do

acordo por ambas as partes, o inequívoco

estreitamento das relações entre esses dois

países levantou preocupações do Governo

brasileiro, que se revelaram bastante proce-

dentes.

De fato, em 1901, a Bolívia — presidida

pelo General José Manuel Pando e visivel-

mente ansiosa por se livrar dos problemas

com a administração das terras considera-

das acreanas pelos brasileiros — concordou

em arrendá-las a um sindicato de capitalis-

tas majoritariamente norte-americanos e in-

gleses, o  Bolivian Syndicate. Tratava-se de

uma espécie de companhia colonial privile-

giada, uma chartered company, nos moldes


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