O sistema de grupo sangüíneo Rh



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Filosofia e História da Biologia

, v. 2, p. 85-101, 2007. 

O sistema de grupo sanguíneo Rh 

Caroline Belotto Batisteti 

João José Caluzi 

Elaine Sandra Nabuco de Araújo 

Sérgio Guardiano Lima 

 

Resumo:  A  descoberta  do  sistema  de  grupos  sanguíneos  ABO  por  Karl  Landestei-



ner, em 1900, não foi a chave completa para a questões relacionadas às reações hemo-

líticas transfusionais. A  solução para esse problema aguardaria a descoberta do fator 

Rh, ocorrida em 1937, por Wiener e Landsteiner, sendo essa importante também para 

elucidar a causa da doença hemolítica peri-natal. O novo fator de sangue foi nomeado 

fator  Rh,  pela  maneira  como  foi  descoberto:  utilizou-se  coelhos  imunizados  com 

hemácias do macaco Rhesus, produzindo então um soro anti-Rhesus. Como os anti-

corpos são produzidos especificamente contra determinado antígeno, estudos mostra-

ram  que  o  anti-Rh  originalmente  observado  é  diferente  do  anti-Rh  humano.  Desse 

modo, embora a utilização do termo fator anti-Rh para humanos seja de uso habitual, 

ela não é adequada, visto que, esse termo foi cunhado tendo em vista o fator anti Rh 

do macaco Rhesus. Além do conteúdo histórico, o presente estudo apresenta os resul-

tados de uma análise, realizada em livros didáticos, que aponta inconsistências acerca 

do conteúdo referente aos sistemas de grupos sanguíneos.

 

 



Palavras-chave:

 

sistema de grupos sanguíneos; fator Rh; Landsteiner, Karl



  

The Rh blood group system 

Abstract: The discovery of ABO blood group  system by  Karl Landesteiner in 1900 

was  not  the  complete  key  for  the  related  issues  concerning  hemolytic  transfusion,

 

whose solution was not found until the discovery of Rh factor. It happened in 1937, 



by Weiner and Landesteiner. The Rh factor discovery also was important to elucidate 

the  cause  for  the  hemolytic  perinatal  disease.  Such  discovery  was  called  Rh  factor 

because of the way was identified: It was used immunized rabbits with red cells from 

Rhesus  monkey,  which  led  to  the  production  of  an  anti-Rhesus  serum.  Once  the 

antibodies  are  produced  against  specific  antigen,  the  original  assessed  anti-Rh  is  dif-

ferent from the human Rh.  In this  way, although  human anti-Rh term is commonly 

used, it was ill-suited, once it was coined in relation the monkey anti-Rh. Besides that 

historical  content,  this  study  presents  the  results  of  an  analysis  in  textbooks  that 

points out inconsistencies about the content related to blood group systems. 

Keywords: blood group system; Rh factor; Landesteiner, Karl 




 

Filosofia e História da Biologia

, v. 2, p. 85-101, 2007.

 

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O sistema de grupo sangüíneo 



Rh

 

Caroline Belotto Batisteti 



∗∗



 

João José Caluzi

∗∗

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∗∗

  



Elaine Sandra Nabuco de Araújo

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Sérgio Guardiano Lima

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INTRODUÇÃO 

Desde a década de 1960, tem-se discutido o processo de incorporação 

da  história  e  filosofia  da  ciência  no  ensino  de  ciência.  Configura-se  nessa 

proposta, a idéia de divulgar não apenas conhecimentos científicos passa-

dos ou ainda de entender como os cientistas trabalham mas, sobretudo, de 

compreender como se dá a construção do conhecimento científico (Araú-

jo, Caluzi & Caldeira, 2006).  

                                                      

 Estudante do curso de Graduação em Licenciatura  Plena em Ciências  Biológicas, Facul-



dade  de  Ciências,  Universidade  Estadual  Paulista  –  Campus  Bauru.  Programa  de  Pós-

Graduação  em  Educação  Para  a  Ciência.  Av:  Luiz  Edmundo  Carrijo  Coube,  14-01,  CEP 

17033-360. Bauru, SP. E-mail: carolbatisteti@fc.unesp.br  

∗∗

  Departamento  de  Física  da  Faculdade  de  Ciências;  Programa  de  Pós-Graduação  em 



Educação Para a Ciência, Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista – Campus 

Bauru.  Av:  Luiz  Edmundo  Carrijo  Coube,  14-01,  CEP  17033-360,  Bauru,  SP.  E-mail: 

caluzi@fc.unesp.br  

∗∗∗


  Pesquisadora  do  Centro  de  Divulgação  e  Memória  da  Ciência  e  Tecnologia;  bolsista 

PRODOC/CAPES; Programa de Pós-Graduação em Educação Para a Ciência; Faculdade 

de  Ciências,  Universidade  Estadual  Paulista  –  Campus  Bauru.  Av:  Luiz  Edmundo  Carrijo 

Coube, 14-01, 17033-360. Bauru, São Paulo. E-mail: centro@fc.unesp.br  

∗∗∗∗

  Estudante  de  Mestrado  no  Programa  de  Pós-Graduação  do  Programa  de  Educação 



Para  a  Ciência,  Faculdade  de  Ciências,  Universidade  Estadual  Paulista  –  Campus  Bauru; 

Bolsista CAPES. Av: Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01, CEP 17033-360. Bauru, SP. E-

mail: sergioglima@fc.unesp.br  



 

 86 


A abordagem histórica possibilita a desmistificação da ciência, ou seja, o 

entendimento da ciência não como uma atividade neutra, isenta de interes-

ses, feitas por gênios que apresentam idéias acabadas de forma inesperada, 

mas  sim,  como  uma  construção  humana,  que  se  modifica  ao  longo  do 

tempo  e  que  em  geral,  os  conhecimentos  científicos,  não  são  frutos  de 

descobertas pessoais e sim de grupos de pesquisadores que são influencia-

dos  pelos  métodos  e  concepções  científicas  vigentes  numa  determinada 

época.  O  estudo  de  episódios  históricos  pode  sugerir  que  o  processo  de 

construção  do  conhecimento  é  lento  e  gradual  e  que os  conceitos  desen-

volvem-se por meio de etapas decorridas de longos períodos, até chegarem 

àqueles aceitos atualmente (Martins, 1998). 

No  caso  dos  sistemas  dos  grupos  sangüíneos,  realizamos  uma  análise 

em  quatro  livros  didáticos  do  Ensino  Básico,  sendo  que  um  deles  está 

indicado  no  Guia  de  Livros  Didáticos  do  Programa  Nacional  do  Livro 

Didático  2008  (Gewandsznajder,  2004)  e  os  demais  títulos  foram  reco-

mendados  pelo  Programa  Nacional  do  Livro  para  o  Ensino  Médio  2007 

(Linhares & Gewandsznajer, 2004a; idem, 2004b; Paulino, 2006). Os livros 

didáticos são divididos em capítulos e secções de acordo com as disciplinas 

relacionadas à Biologia, isto é, citologia, evolução, genética, ecologia e as-

sim  por  diante.  Percebemos  que  em  três  dos  quatro  livros  analisados,  a 

discussão sobre a proposta dos grupos sangüíneos está presente no capítu-

lo referente à genética, mais especificamente ao conteúdo alelos múltiplos. 

A determinação do sistema de grupos sangüíneos resultou de estudos para 

o esclarecimento da estrutura e propriedades protéicas, envolvendo apenas 

conhecimentos  imunológicos  sobre  as  reações  antígeno-anticorpo.  Em 

momento  algum  houve  a  utilização  de  ferramentas  genéticas,  já  que  no 

período  de  1900,  os  trabalhos  de  Mendel  estavam  ainda  sendo  “redesco-

bertos”, com a sistematização da nomenclatura que hoje é empregada pela 

genética. A forma de apresentação do conteúdo nos livros didáticos anali-

sados  pode  conduzir  os  alunos  a  relacionarem  o  grupo  sangüíneo  ABO 

somente ao genótipo, deixando de enfatizar o fenótipo e as características 

imunológicas envolvidas, o que, na realidade, levou ao esclarecimento dos 

quatro grupos sangüíneos (A, B, AB e O).  

Um  dos  livros  didáticos  analisados  atribuiu  a  Karl  Landsteiner  (1868-

1943),  médico  e  biólogo  austríaco  a  proposta  do  grupo  sangüíneo  AB. 

Porém,  foram  os  médicos  Alfred  Von  DeCastello  (1872-1960)  e  Adriano 

Sturli  (1873-1964),  auxiliares  de  Landsteiner,  que  sugeriram  esse  grupo. 

Além de problemas históricos, identificamos erros conceituais. Três livros 

investigados apresentaram a idéia que indivíduos do grupo O são conside-



 

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rados doadores universais, baseados no fato que os indivíduos do grupo O 

possuem  hemácias  que  não  contêm  antígenos  A  ou  B;  e  indivíduos  do 

grupo  AB  considerados  receptores  universais,  baseados  no  fato  de  que 

indivíduos do grupo AB não possuem anticorpo anti-A e anti-B no plasma. 

Afirmar que indivíduos do grupo O e AB são respectivamente, doadores e 

receptores universais, está do ponto de vista imunológico, incorreto, carac-

terizando um erro conceitual, já que um indivíduo que recebe sangue total 

(hemácias  +  plasma)  de  um  doador  tipo  O,  também  está  recebendo  anti-

corpos anti-A e anti-B, que em alto título podem desencadear uma reação 

de  aglutinação  quando  o  receptor  for  do  tipo  sangüíneo  A  ou  B,  pois  os 

anticorpos do doador reagirão com os antígenos correspondentes presen-

tes  nas  hemácias  do receptor.  Pensando  de  maneira  semelhante  podemos 

explicar  porque  um  indivíduo  do  grupo  AB  não  pode  ser  considerado 

receptor universal.  

A constatação de lacunas históricas e erros conceituais nos livros didá-

ticos  nos  motivou  a  investigar  a  história  dos  grupos  sangüíneos.  No  pre-

sente trabalho, a partir da análise dos fatos históricos referentes às etapas 

de  construção  dos  conhecimentos  e  conceitos  relacionados  às  práticas 

transfusionais,  buscamos  verificar,  como  Alexander  Solomon  Wiener 

(1907-1976), médico americano e Karl Landsteiner propuseram a existên-

cia de um novo fator sangüíneo: o fator Rh, responsável por graves reações 

transfusionais.  

PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS TRANSFUSIONAIS 



A  primeira  transfusão  sanguínea  direta  é  atribuída  a  Richard  Lower 

(1631-1691),  médico  britânico,  sendo  realizada  em  animais  na  cidade  de 

Oxford  em  fevereiro  de  1665  (Donovan,  2004).  Em  seu  Tractatus  de corde, 

ele escreveu:  

Inicialmente tentei transferir o sangue da veia jugular de um animal para a 

veia  jugular  de  um  segundo  por  meio  de  tubos  entre  eles;  mas  vendo  o 

sangue coagular no tubo e obstruir sua própria passagem devido ao movi-

mento lento do sangue venoso, então comecei a tentar uma outra maneira 

e, guiado pela sua própria natureza, eu finalmente estipulei transferir o san-

gue  da  artéria  de  um  animal  para  a  veia  de  um  segundo;  e  por  este  novo 

dispositivo estender a circulação do sangue além dos limites prescritos

1



                                                      

1

  M.  R.  S.  Maluf,  em  seu  artigo  “History  of  blood  transfusion”,  comentou:  “A  primeira 



 


 

 88 


Estando prontos os cães e feitas outras preparações necessárias, eu selecio-

nei um cão do tamanho médio, abri sua veia jugular, e retirei o sangue, até 

seus  gemidos  e  esforços  cessarem  e  as  convulsões  não  estarem  distantes. 

Então,  para  compensar  a  grande  perda  de  sangue  deste  cão,  eu  introduzi 

nele o sangue da artéria cervical de um mastim, razoavelmente grande, que 

foi preso ao seu lado, até que ele por seu nervosismo demonstrou estar so-

brecarregado do sangue recebido. Coloquei uma ligadura na artéria da qual 

o  sangue  estava  passando,  e  retirei  o  sangue  novamente  do  cão  receptor. 

Isto foi repetido sucessivas vezes, até que não houvesse mais sangue ou vi-

da em dois mastins razoavelmente grandes (o sangue de ambos foi recebi-

do pelo cão menor). Neste meio tempo, o sangue tinha sido repetidamente 

retirado  deste  animal  menor  e  havia  sido  injetada  nele  uma  quantidade  e-

quivalente,  imaginei,  ao  peso  de  seu  corpo  inteiro.  Uma  vez  que  sua  veia 

jugular  foi  costurada  e  as  correntes  desamarradas,  pulou  prontamente  da 

mesa  e,  aparentemente  distraído  de  seus  ferimentos,  começou  logo  a  de-

monstrar afeto pelo seu mestre e a rolar na grama para se limpar do sangue 

(Lower [1669], apud Maluf, 1954, p. 62). 

Segundo  Richard  Lower,  não  ocorreram  alterações  nas  características 

ou  no  comportamento  dos  cães,  o  que  incentivou  a  realização  de  novos 

procedimentos  transfusionais  entre  animais  da  mesma  espécie,  em  que 

danos  fatais  eram  raros.  Entretanto,  percebeu-se  que  transfusões  entre 

espécies diferentes freqüentemente causavam a morte (Schwarz & Dorner, 

2003).  Jean  Baptiste Denis (1625?-1704), médico  francês  em  sua  primeira 

tentativa de transfusão em um homem, realizada em Paris em 1667, trans-

feriu cerca de 300 ml de sangue da artéria carótida de um carneiro para a 

veia de um homem. Seu argumento para utilização de sangue de animais, 

ao invés de sangue humano, foi que aquele estaria menos contaminado por 

paixões e vícios (Brown, 1948; Guerrini, 1989).  

Como  obteve  sucesso,  novas  tentativas  foram  realizadas,  até  que  o 

quarto paciente morreu com supostos sintomas de reação hemolítica. Este 

paciente já havia recebido uma transfusão, a princípio bem sucedida; mas 

após a segunda, seu braço tornou-se quente, o pulso róseo, com queixas de 

dor  pelo  corpo,  até  que  após  alguns  dias  a  urina  tornou-se  escura,  adqui-

rindo de fato a cor preta. Esses sintomas eram consistentes com a reação 

hemolítica, provavelmente provocada pela isoimunização

2

 do paciente pelo 



                                                                                                                      

tentativa de transfusão direta de veia para veia falhou porque nenhuma bomba foi interpos-

ta no circuito exterior” (Maluf, 1954, p. 62). 

2

 Imunização entre indivíduos de uma mesma espécie. 




 

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sangue  de  carneiro  dado  na  primeira  transfusão.  O  parlamento  francês,  a 

Royal  Society

  e  a  igreja  católica  proibiram  as  transfusões  sanguíneas,  e  este 

processo foi banido da prática médica por cerca de 150 anos (Schwarz & 

Dorner, 2003).  

No século XIX, o obstetra britânico James Blundell (1791-1878) parece 

ter  sido  o  primeiro  a  executar  transfusões  utilizando  doadores  humanos. 

Ele  empregou  este  processo  em  casos  de  hemorragia  pós-parto,  obtendo 

bons  resultados.  Outros  médicos  e  estudiosos  ainda utilizavam  sangue  de 

carneiro para realização de transfusões (Wiener, 1952; idem, 1969). A causa 

dos  danos  das  reações  transfusionais  devido  ao  uso  de  sangue  animal  foi 

explicada  em  1875,  quando  o  fisiologista  alemão  Leonard  Landois  (1837-

1902) e o médico patologista alemão Emil Ponfick (1844-1913) mostraram 

que o soro humano destrói ou aglutina hemácias de mamíferos inferiores. 

A  habilidade  do  soro  de  uma  espécie  em  reagir  como  hemácias  de  outra 

espécie  foi  descrita  devido  à  presença  de  anticorpos  naturais  no  soro  de-

signados heterohemolisinas ou  heteroaglutininas.  Segundo  o  médico  imu-

nologista  belga  Jules  Jean  Baptiste  Vicent  Bordet  (1870-1961),  estes  anti-

 

Figura 1.



 Ilustração  holandesa que mostra dois médicos realizando transfusão 

de  sangue  diretamente  de  um  cão  para  um  homem.  Prancha  11,  in: 

SCHULTES,  Johannes.  Armamentarium  chirurgicum.  Amsterdam,  Johannes  von 

Someren, 1671.

 



 

 90 


corpos aumentam em título após isoimunização, explicando então que os 

danos seriam resultados de repetidas transfusões do sangue animal para o 

mesmo paciente (Wiener, 1969).  

O SISTEMA 



ABO

 

Em torno de 1900, Landsteiner estava envolvido em pesquisas com uti-



lização do uso potencial de anticorpos para elucidação da estrutura e carac-

terísticas protéicas. Encontrou-se evidências favoráveis de que os anticor-

pos poderiam neutralizar os efeitos de algumas enzimas. Foram realizados 

experimentos  que  indicavam  que  grupos  ativos  de  enzimas  podiam  ser 

encontrados  em  coágulos.  O  médico  alemão  Emil  Freiherr  von  Dungern 

(1867-1961)  esforçou-se  para  utilizar  os  efeitos  anti-enzimáticos  do  soro 

pela imunização de animais com vários micróbios, mostrando que os soros 

resultantes tinham um efeito específico contra as enzimas bacterianas que 

ele havia introduzido nos animais. Entretanto, estes experimentos envolvi-

am  apenas  um  “sorodiagnóstico”

3

  de  bactérias  (Landsteiner,  1900,  apud 



Hughes-Jones & Gardner, 2002, p. 892).  

Em 1931 Landsteiner recebe o Prêmio Nobel, e a respeito do assunto 

acima citado declara que “o objetivo primário foi a caracterização química 

das proteínas”, sendo evidente que para tanto não poderiam ser utilizados 

métodos  bioquímicos  convencionais  e  conhecidos.  Além  disso,  Landstei-

ner  continua,  “a  aplicação  dos  reagentes  sorológicos  conduziu  a  uma  im-

portante  descoberta  na  química  das  proteínas,  ou  seja,  que  proteínas  em 

vários animais e plantas são diferentes e são específicas para cada espécie” 

(Landsteiner, 1931, apud Hughes-Jones & Gardner, 2002, p. 892). 

A partir das observações sobre a ação dos anticorpos, Landsteiner pro-

pôs a seguinte questão: “será que indivíduos dentro de uma espécie apre-

sentam diferenças, mesmo que presumivelmente mais leves?” (Landsteiner, 

1900,  apud  Hughes-Jones  &  Gardner,  2002,  p.  892).  Foi  esta  especulação 

que o levou a iniciar os experimentos que o levaram a descoberta do siste-

ma de grupos sangüíneos ABO (Landsteiner, 1901). 

Assim, Karl Landsteiner misturou o soro de alguns indivíduos com as 

hemácias de outros para fazer um teste de aglutinação, com a finalidade de 

buscar diferenças individuais no sangue humano. Percebeu que, em alguns 

                                                      

3

  Diagnóstico  de  doença  baseado  na  reação  antígeno-anticorpo  no  soro  sangüíneo.  No 



contexto, sorodiagnóstico refere-se a anticorpos produzidos contra as bactérias em estudo. 


 

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casos,  ocorriam  aglutinações  muito  bem  sinalizadas,  enquanto  que  em 

outros, elas não ocorriam. De acordo com os resultados demonstrados na 

Tabela 1, encontrou três padrões sangüíneos, que nomeou A, B e O (zero). 

O grupo AB, foi descoberto em 1902, pelos médicos Alfred Von DeCas-

tello e Adriano Sturli, como já mencionado anteriormente. Assim, as isoa-

glutinações  e  os  grupos  sangüíneos  foram  apontados  como  a  provável 

causa  para  reações  hemolíticas  transfusionais,  quando  doadores  humanos 

ainda eram utilizados (Wiener, 1952; Wiener, 1969). 

 

Tabela 1. 



Testes originais de Landsteiner com seis homens aparentemente saudá-

veis (Landsteiner, 1901).

 

Hemácias dos integrantes do labo-



ratório

 

Soro dos in-



tegrantes do 

laboratório

 































 6* 





*Este indivíduo era o próprio Karl Landsteiner. Interessante notar que ele perten-

cia ao grupo O. 

 

Landsteiner resumiu seus achados como descrito a seguir: 



Os soros na maioria dos casos poderiam ser separados dentro de três gru-

pos.  Em  muitos  casos  os  soros  do  grupo  A  reagem  com  corpúsculos  de 

outro grupo, B, mas não com grupo A; enquanto que o corpúsculo A é a-

fetado da mesma maneira pelo soro B. Os soros do terceiro grupo (C) aglu-

tinam corpúsculos de A e B, mas o corpúsculo C não é afetado pelo soro 

de A e B. Neste discurso, pode-se dizer que nestes casos pelo menos dois 

tipos  diferentes  de  aglutininas  estão  presentes:  um  em  A,  outro  em  B  e 

ambos juntos em C. Naturalmente os corpúsculos devem ser considerados 

insensíveis para as aglutininas que estão presentes no mesmo soro. [A aglu-

tinação acima mencionada] ocorria mesmo com uma gota de sangue a qual 

eu sequei em um pedaço de tecido e dissolvi 14 dias mais tarde [...] Final-

mente eu quero mencionar que as observações explicam as mutáveis con-

seqüências das transfusões sanguíneas em humanos. (Landsteiner, 1901, p. 

30) 



 

 92 


Após a descoberta, Landsteiner procurou conhecer a natureza e as cau-

sas da especificidade das reações imunológicas. Segundo Wiener (1969), a 

combinação  antígeno-anticorpo  pode  ser  explicada  por  meio  da  analogia 

chave-fechadura,  criada  pelo  químico  alemão  Hermann  Emil  Fischer 

(1852-1919), em 1894. Ela foi introduzida na teoria imunológica pelo mé-

dico alemão Paul Ehrlich (1854-1915) de modo que, no soro de indivíduos 

do grupo O, não existem somente as chaves anti-A e anti-B, que se encai-

xam nas respectivas “fechaduras” dos antígenos eritrocitários A e B. Existe 

também uma “chave mestre”, de estrutura rudimentar, reativa para células, 

contendo  um  ou  outro  antígeno  (aglutinogênio).  Assim,  Wiener  utilizou 

dois aglutinogênios (A e B) com três isoaglutininas correspondentes (anti-

A

, anti-B e anti-C), ao invés de apenas duas (anti-A e anti-B), como Lands-



teiner  presumiu  para  explicar  as  reações  dos  quatro  grupos  sangüíneos 

adequadamente. 

Com  a  proposta  do  sistema  ABO  as  transfusões  tornaram-se  procedi-

mentos comuns. Contudo, mesmo utilizando doadores ABO compatíveis, 

em  alguns  casos,  ocorriam  reações  hemolíticas  transfusionais,  impulsio-

nando o surgimento de novas hipóteses e teorias.  

PROBLEMAS TRANSFUSIONAIS INTRAGRUPO 



A introdução na medicina clínica transfusional de testes para identifica-

ção  dos  grupos  sangüíneos  ABO  em  doadores  possibilitou  salvar  muitas 

vidas.  Tão  preciso  era  o  resultado  que  muitos  médicos  obtinham,  que  se 

atribuiu como condição única necessária para realização de transfusão, que 

o  receptor  e  o  doador  pertencessem  ao  mesmo  grupo  sangüíneo  ABO,  e 

então reações transfusionais graves não deveriam ocorrer (Wiener, 1969).  

Em 1921, o médico norte-americano Lester Unger (1888-1974) parece 

ter sido o primeiro a apontar a possibilidade de reações transfusionais in-

tragrupo.  Ele  classificou  as  isoaglutininas

4

  em  duas  categorias,  nomeadas 



isoaglutininas  major,  que  seriam  aquelas  que  definiram  os  quatro  grupos 

sangüíneos, e aglutininas minor, que seriam aquelas que ocorrem raramente 

e as responsáveis por incompatibilidade sanguínea intragrupo. Unger insis-

tiu  que  após  um  doador  de  grupo  sangüíneo  ABO  apropriado  ter  sido 

encontrado, testes adicionais deveriam ser feitos para se analisar se o soro 

                                                      

4

 Um anticorpo normalmente presente no soro de um indivíduo e que causa aglutinação nas 



hemácias de outro indivíduo da mesma espécie. 


 

Filosofia e História da Biologia

, v. 2, p. 85-101, 2007.

 

93 



do receptor não aglutinava com as hemácias do respectivo doador (Wiener, 

1969). Em 1922, noticiou a ocorrência de pequenos aglomerados de células 

em testes cruzados com sangues compatíveis, alertando para uma provável 

reação, caso a transfusão ocorresse. Desse modo, Karl Landsteiner, Philip 

Levine  (1900-1987)  e  M.  L  Janes  estudaram  alguns  soros  pós-

transfusionais de pacientes que apresentavam essas aglutinações nos testes 

prévios, e encontraram uma isoaglutinina irregular, que não estava relacionada 

ao grupo ABO

. Eles concluíram que os pacientes que receberam transfusões 

prévias sem reações, tornavam-se sensibilizados  devido  à  presença  de  um 

antígeno no sangue do doador, mas ausente no sangue do receptor (Wie-

ner, 1952).  

Um segundo método de isosensibilização

5

, envolvendo as células do fe-



to, foi sugerido por Philip Levine e Rufus E. Stetson (1886-1967) a partir 

de  um  caso  único  envolvendo  uma  mulher  que  havia  dado  a  luz  a  uma 

criança  morta,  mas  que  não  havia  recebido  nenhuma  transfusão  anterior-

mente. Durante a década de quarenta do século vinte, o processo tranfusi-

onal  tornou-se rotineiro, devido  ao surgimento  de muitos  bancos  de san-

gue. De acordo com Wiener (1969), os problemas com reações hemolíticas 

transfusionais intragrupo não poderiam ser ignorados. Contudo, uma solu-

ção para estes problemas somente foi possível a proposta do fator Rh. 

O FATOR 


RH

 

Em 1937, Landsteiner e Wiener realizaram um estudo acerca da evolu-



ção  dos  aglutinogênios  M  e  N  em  gorilas,  orangotangos,  chimpanzés  e 

pequenos  macacos.  Wiener  estava  especialmente  curioso  e  intrigado  com 

os  relatos  conflitantes  que  perduravam  na  literatura:  alguns  afirmavam  a 

presença  de  antígeno  M  nas  hemácias  de  macacos  Rhesus  e  outros  relata-

vam a ausência desse antígeno nesses animais. Para resolver este problema 

Wiener  e  Landsteiner  utilizaram  uma  técnica  já  anteriormente  empregada 

para a produção de soro anti-A. 

Previamente descobrimos que o soro anti-A poderia ser produzido pela in-

jeção de sangue de carneiro em coelhos. Ocorreu-nos que com a continui-

dade desta linha de pesquisa, isto é, a injeção de sangue animal em coelho, 

                                                      

5

  Sensibilização  de  um  indivíduo  por  antígenos  presentes  em  outro  indivíduo  da  mesma 



espécie. 


 

 94 


seria  possível  a  obtenção  de  anti-soro  para  aglutinogênio,  até  aqui  desco-

nhecido no sangue humano. (Wiener, 1952, p. 374) 

Baseados em demonstrações das propriedades dos aglutinogênios M no 

sangue de macacos, Landsteiner e Wiener (1937) empenharam-se na tenta-

tiva de produzir soro anti-M pela imunização de coelhos com sangue rhe-

sus, e encontraram que um potente soro imune anti-M poderia ser obtido 

desta maneira. Percebeu-se que neste caminho era possível a obtenção de 

tipos de soros imunes específicos contra fatores sangüíneos humanos ainda 

desconhecidos, desde que estes fatores estivessem presentes no sangue do 

macaco (Wiener, 1943). Realmente, Wiener e Landsteiner tiveram sucesso 

na  obtenção  do  soro  imune  anti-rhesus,  injetando  hemácias  de  macacos 

rhesus em coelhos. Perceberam que estes coelhos sensibilizados respondi-

am, havendo produção de soro com corpos imunes. Retiraram desse soro 

adquirido, os anticorpos M e N e o colocaram em contato com hemácias 

de  macacos  Rhesus,  esperando  que  nenhuma  reação  ocorresse,  já  que  o 

anticorpo  que  desencadeava  as  reações  (anti-M)  não  estava  mais  presente 

no  soro.  De  forma  inesperada,  quando  misturaram  os  soros  obtidos  dos 

coelhos com hemácias de humanos selecionados de forma aleatória, obti-

veram  um  reagente  que  era  capaz  de  aglutinar  com  hemácias  de  85%  de 

caucasianos, independentemente do grupo ABO e dos fatores M e N (Wi-

ener,  1969).  Estes  indivíduos  foram  chamados  Rh  positivo.  Sendo  assim, 

este  mesmo  soro  não  resultava  em  aglutinação  com  15%  de  caucasianos, 

que  foram  chamados  Rh  negativo.  A  característica  presente  nas  hemácias 

que  determinava  a  aglutinação  das  células  foi  denominada  fator  Rh,  ou 

aglutinogênio  Rh,  devido  à  maneira  como  foi  descoberto,  ou  seja,  com 

utilização de hemácias de macacos Rhesus (Unger, 1945).  

É  importante  considerarmos  a  especificidade  definida  dos  anticorpos 

contra  seus  respectivos  antígenos,  e  então  podemos  perceber  que  o  anti-

corpo  originalmente  observado,  produzido  contra  antígenos  Rh  presente 

nas hemácias de macaco Rhesus, é diferente do anticorpo produzido con-

tra os antígenos Rh presentes nas hemácias humanas, que acabou por rece-

ber essa nomeação (Rh) pelo uso habitual, sendo na verdade indevida (Wi-

ener, 1969; Scott, 2004). Os anticorpos produzidos pelos coelhos contra os 

antígenos presentes nas hemácias do macaco Rhesus foram então nomea-

dos  anti-LW  em  homenagem  a  Landsteiner  e  Wiener  (Scott,  2004).  Em 

Landsteiner & Wiener (1940) podemos encontrar um exemplo das reações 

que os conduziram à existência do fator Rh, demonstrado na Tabela 2. 

 



 

Filosofia e História da Biologia

, v. 2, p. 85-101, 2007.

 

95 



Tabela 2. 

Soro imune para sangue Rhesus, absorvido com hemácias do indivíduo 

quatro.  O  soro  adsorvido  ainda  aglutina  a  maioria  das  hemácias  humanas,  inde-

pendentemente do tipo M, N ou MN (Landsteiner & Wiener, 1940). 

Sangue (todos grupo 0) 

Tipo M 


 

Tipo N 


 

Tipo MN 




 



 



10 



Soro imune absorvido* 



 



+    + 



*  Sinal  positivo  (+)  indica  ocorrência  de  aglutinação.  Zero  (0)  indica  ausência  de 



aglutinação. 

 

A Tabela 3 apresenta a relação do fator Rh com as reações hemolíticas 



transfusionais.  Por  meio  dela,  podemos  observar  que  quando  o  soro  de 

pacientes com sangue do tipo M, N ou MN era colocado em contato com 

hemácias do grupo O selecionadas aleatoriamente e quando o soro imune 

anti-rhesus absorvido (soro com ausência dos anticorpos M e N) era colo-

cado em contato com estas mesmas hemácias os resultados obtidos eram 

similares, ou seja, aquelas hemácias que deram reações positivas em relação 

ao  soro  dos  pacientes também  apresentaram o  mesmo resultado  em rela-

ção  ao  soro  imune  anti-rhesus  absorvido.  Isto  mostra  que,  essas  reações 

hemolíticas transfusionais eram realmente causadas pelo fator Rh, que uma 

vez presente, desencadeava a produção de anticorpos anti-Rh, causando as 

reações transfusionais. Assim, a sensibilização pelo fator Rh foi considera-

da a causa da grande maioria das reações transfusionais intragrupo e a cha-

ve do mistério da eritroblastose fetal

6

 (ver Wiener, 1969).  



Diferentemente do que ocorre com os fatores A e B, a aglutinina anti-

Rh

,  que  reage  com  as  células  Rh  positivas,  não  é  herdada.  Sua  formação 



ocorre  após  a  imunização  ativa  ou  passiva.  O  mecanismo  de  aquisição  é 

semelhante àquele pelo qual Landsteiner e Wiener produziram estas agluti-

ninas em coelhos, pela injeção de hemácias Rhesus, onde a base do proces-

so é o contato (Unger, 1945). Segundo Unger (1945) as aglutininas anti-Rh 

podem ser produzidas de duas maneiras: a primeira ocorre através de repe-

tidas  transfusões  sanguíneas,  onde  o  paciente  Rh-negativo  recebe  sangue 

                                                      

6

 Doença ocasionada pela incompatibilidade do sistema Rh entre mãe e feto. Ocorre quan-



do o sangue fetal Rh positivo entra em contato com o sangue materno Rh negativo, desen-

cadeando a produção de anticorpos anti-Rh pela mãe.  




 

 96 


positivo

 

 



 

 

 




 

Filosofia e História da Biologia

, v. 2, p. 85-101, 2007.

 

97 



Rh

-positivo, o que pode resultar no processo de sensibilização. Para ele, a 

sensibilização ocorre em aproximadamente um em quarenta casos, ou seja, 

não seriam necessariamente todos os indivíduos Rh-negativo que recebem 

sangue  Rh-positivo  afetados.  O  segundo  modo  pelo  qual  aglutininas  anti-

Rh

  podem  ser  produzidas,  envolve  um  mecanismo  de  imunização  ativa 



durante a gravidez, que resulta na eritroblastose fetal. 

Anteriormente a descoberta do fator Rh, embora a causa da eritroblas-

tose fetal fosse desconhecida, já era sabido que mães de crianças possivel-

mente  eritroblásticas  apresentavam  uma  incidência  maior  de  abortos  es-

pontâneos em relação à incidência normal, e suspeitou-se de um mecanis-

mo  que  operaria  antecipadamente  ainda  durante  o  período  fetal  (Levine, 

1943, p. 71).  

Em 90% dos casos de eritroblastose fetal o sangue da mãe não se aglu-

tina quando em contato com um soro anti-Rh, mostrando que o sangue da 

mãe é Rh-negativo. Este valor é contrastante com a incidência de 15% de 

indivíduos  Rh-negativo  na  população  geral.  Neste  volumoso  grupo  de 

mulheres  Rh-negativo,  como  condição  para  ocorrência  de  eritroblastose 

fetal,  100%  dos  homens  (maridos)  e  crianças  afetadas são  Rh-positivo. O 

mecanismo pelo qual a doença é gerada inclui a penetração de uma quanti-

dade suficiente de sangue Rh-positivo do feto na circulação sanguínea ma-

terna Rh-negativo, estimulando a mãe a produzir anticorpos anti-Rh (Levi-

ne, 1943, p. 71). 

Levine (1943) e seus colaboradores mostraram que durante a gravidez, 

se os anticorpos anti-Rh produzidos por uma mãe sensibilizada atravessa-

rem as barreiras placentárias e penetrarem na circulação do feto, este será 

afetado (pois suas hemácias contêm o antígeno Rh, em que os anticorpos 

irão  se  ligar  e  desencadear  reações)  podendo  ocorrer  reações  hemolíticas 

intra-uterinas, aborto espontâneo, ou após o nascimento a criança poderá 

mostrar  alguns  sintomas  da  doença,  de  acordo  com  a  gravidade.  Com  a 

análise dos dados obtidos acerca da eritroblastose fetal, Unger (1945) afir-

ma que neste caso, se a criança necessitar de transfusão, deve somente ser 

administrado sangue  Rh  negativo,  mesmo  a  criança  sendo  Rh  positivo.  O 

motivo  para  este  procedimento,  diante  dos  fatos  apresentados  pelas  pes-

quisas de Levine e Unger, é claro e simples: a criança tendo recebido aglu-

tininas  anti-Rh  de  sua  mãe,  hemolizará  não  somente  seu  próprio  sangue, 

mas  também  aquele  recebido  de  um  doador  Rh-positivo,  que  contém  o 

aglutinogênio Rh em que as aglutininas presentes no soro da criança irão se 

ligar desencadeando reações imunológicas.  



 

 98 


Nesse caso, o pai não deverá ser o doador de sangue para a criança, por 

ser Rh positivo, e nem a mãe, uma vez que, o sangue dela contém as aglu-

tininas  anti-Rh.  Quando  existem  as  condições  para  ocorrência  da  eritro-

blastose fetal, a sensibilização da mãe parece ser resultado da primeira gra-

videz, mas o primeiro filho usualmente é normal. Durante a segunda gra-

videz  e  as  subseqüentes,  os  resultados  dessa sensibilização  tornam-se  evi-

dentes,  aumentando  em  severidade  a  cada  gravidez  sucessiva  (Unger, 

1945).  


Unger  (1945,  p.  689)  propôs  a  seguinte  pergunta:  “Uma  vez  que  uma 

mulher é sensibilizada, inevitavelmente ela será incapaz de gerar uma crian-

ça  normal?”  Ele  respondeu  a  esta  questão  com  base  na  herança  genética 

mendeliana.  Ele  afirmou  que  a  presença  do  fator  Rh  é  condicionada  por 

um par de genes, denominados de R (dominante) e r (recessivo) que segre-

gam-se  de  acordo  com  a  primeira  lei  de  Mendel.  Assim,  o  indivíduo  Rh 

positivo  possui o  genótipo RR ou Rr  e  o  indivíduo Rh  negativo  possui  o 

genótipo rr. Um casal, cuja mulher é Rh negativa (genótipo rr) e o marido é 

Rh

  positivo  (genótipo  RR),  todos  seus  filhos  serão  Rh  positivo  (genótipo 



Rr

). Quando o marido é portador do genótipo Rr e a mulher é portadora 

do genótipo rr, a probabilidade de nascer uma criança com genótipo rr é de 

50%.  


Tendo em vista a hereditariedade do fator Rh, salientamos a importân-

cia  dos  exames  sangüíneos  pré-nupciais  para  predizer  a  possibilidade  de 

ocorrência da eritroblastose fetal. 

Até meados da década de quarenta, podemos perceber pelos artigos a-

nalisados nesse estudo, que não se conhecia o modo de anular a sensibili-

zação  causada  pelo  fator  Rh  fetal  em  mães  Rh  negativo.  De  acordo  com 

Unger  (1945),  a  infusão  de  sangue  Rh  negativo  em  igual  quantidade  ao 

sangue Rh positivo recebido pelo paciente era até então uma tentativa utili-

zada.  Uma  outra  forma,  segundo  Unger,  constava  da  recomendação  de 

uma  dieta  contendo  alta  quantidade  de  vitamina  antiescorbútica,  pois  se 

acreditava  que  esta  reduzia  a  permeabilidade  da  placenta,  prevenindo  a 

passagem  de  aglutininas  anti-Rh  da  mãe  para  a  criança.  Unger  (1945)  cita 

também a utilização de uma vacina tifóide, com o argumento de que quan-

do um indivíduo é exposto simultaneamente a dois antígenos eles compe-

tem um com o outro para produção de anticorpos. Aquele que estimular a 

produção de anticorpos mais facilmente é bem sucedido, enquanto o outro 

falha. Assim, desde que a vacina tifóide produza facilmente anticorpos e o 

fator Rh encontre maior dificuldade, a esperança é que o fator Rh entre em 

competição  com  a  vacina  tifóide  e  a  última  obtenha  sucesso,  e  então  as 



 

Filosofia e História da Biologia

, v. 2, p. 85-101, 2007.

 

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aglutininas  anti-Rh  não  serão  produzidas  no  sangue  da  mãe  e  a  criança 

apresentará desenvolvimento normal. Para Unger,  

O melhor caminho para se evitar o desenvolvimento de aglutininas anti-Rh 

é prevenir aqueles que são suscetíveis a exposição do fator Rh. Para seguir 

esta  conclusão  lógica  –  uma  mulher  Rh-negativa  deveria casar-se  somente 

com  um  homem  Rh-negativo.  Mas,  é  claro,  isto  é  impraticável.  (Unger, 

1945, p. 689) 

O mesmo princípio utilizado no caso da eritroblastose fetal aplica-se às 

repetidas transfusões, em que, para se evitar o desenvolvimento de agluti-

ninas anti-Rh, somente sangue Rh-negativo deve ser dado aos pacientes Rh-

negativo.  Mas,  como  Unger  (1945)  esclareceu,  seguindo-se  esta  regra,  em 

muitos casos a vida do paciente pode ser colocada em risco, já que a dis-

ponibilidade de sangue Rh-negativo é menor. Se um paciente Rh-negativo 

foi sabidamente exposto ao antígeno Rh e não demonstrou nenhuma mani-

festação de significado clínico, este pode ser considerado um indivíduo que 

não é facilmente sensibilizado, provavelmente podendo receber sangue Rh-

positivo.  Entretanto,  a  sensibilização  pode  estar  presente  e  seus  efeitos 

serem manifestados posteriormente.  

CONCLUSÕES   



Com  este  estudo  histórico, percebemos  que  as  idéias  que  nortearam  a 

proposta do fator Rh não estavam prontas ou surgiram de forma repentina, 

mas foram resultados de um acúmulo de conhecimentos acerca da estrutu-

ra protéica, das individualidades sorológicas e das reações envolvidas entre 

antígenos  e  anticorpos.  O  conhecimento  da  causa  das  reações  transfusio-

nais intragrupo não surgiu de forma inesperada e não foi fruto de produ-

ção  de  único  indivíduo,  mas  passou  por  dificuldades  e tentativas,  em  que 

houve a construção de conceitos, que foram desenvolvidos de modo gra-

dual  e  lento,  apresentando muitas  mudanças  e  contando  com  a  participa-

ção de vários indivíduos ao longo de vários anos.  

De  modo  geral,  autores  de  livros  didáticos  têm  dificuldades  de  acesso 

às fontes primárias, pois estas se encontram na maioria das vezes em bibli-

otecas universitárias no Brasil e no exterior. Além disso, temos que consi-

derar as barreiras da língua, pois dependendo do período, as fontes primá-

rias  estão  em  latim. Outro aspecto  a ser ressaltado  é  a inviabilidade  de  a-

profundar historicamente todos os conceitos apresentados nos livros didá-

ticos.  



 

 100 


Uma observação que demonstra a carência de fontes de consulta confi-

áveis  para  os  autores  de  livros  didáticos  é  que  certos  erros  históricos  e 

conceituais  são  coincidentes  nas  diversas  coleções.  Por  exemplo,  livros 

didáticos de física trazem um relato sobre o experimento da torre de Pisa 

realizado  por  Galileu.  Fontes  históricas  apontam  que  este  experimento 

nunca foi realizado. Outro exemplo é o discutido por este trabalho. Uma 

maneira de minimizar as distorções e equívocos históricos, seria uma cola-

boração entre historiadores da ciência e pesquisadores em ensino de ciên-

cia, para a produção e disponibilização de materiais de divulgação científica 

aos  autores  de  livros  didáticos  e  também  aos  professores.  Para  estes  últi-

mos, o material de apoio teria dois aspectos relevantes: alertá-los sobre as 

distorções históricas mais comuns e a preservação da autonomia, uma vez 

que  poderão  escolher  os  temas  a  serem  aprofundados  historicamente  em 

sala  de  aula  para  discutir  os  aspectos  da  ciência  apontados  no  primeiro 

parágrafo desta conclusão.  

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