O órgão da Sé de Aveiro. Um ponto de vista Texto de Domingos Peixoto. Organista e professor, aposentado



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O Órgão da Sé de Aveiro. Um ponto de vista

Texto de Domingos Peixoto. Organista e professor, aposentado

Foi já oficialmente divulgada a adjudicação da construção de um órgão para a Igreja paroquial da Glória-Catedral de Aveiro, a coincidir com a comemoração dos 75 anos do restauro da Diocese (1938-2013). Parece-me, pois, oportuno referir alguns dados relativos a um instrumento musical que tem muitos séculos de história, uma presença de destaque na liturgia católica latina e um relevante papel na cultura ocidental.

A Igreja é uma comunidade construída na riqueza da diversidade de povos espalhados pelos vários continentes, cada um deles com a sua história, as suas tradições e a sua cultura, desenvolvidas no convívio com outros valores e confissões religiosas. Vou confinar-me à realidade portuguesa, também ela marcada, ontem e hoje, por dramáticas situações sociais, realidade que, apesar de tudo, nos permitiu continuar a escrever notáveis páginas da nossa cultura, nomeadamente no campo da arte sacra.

1.- No agradecimento aos músicos que participaram num pontifical na Sé de Aveiro, o nosso Bispo – D António Francisco – proferiu uma frase cheia de simplicidade, mas que resume a importância da arte na liturgia: “Onde está a beleza, aí está Deus”. A Igreja encarou sempre a arte, nas suas diversas formas – arquitetura, escultura, pintura, talha dourada, literatura, música -, como um instrumento de evangelização, como um caminho para Deus, como uma expressão da dignidade requerida no culto e louvor ao Altíssimo. Ainda há relativamente pouco tempo, numa reunião de responsáveis de escolas diocesanas de música sacra, ouvíamos da boca de D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, uma chamada de atenção para a importância da evangelização através da beleza – a Via pulchritudinis.

2.- Quanto à música, ela foi sempre uma linguagem privilegiada na liturgia, quer na pureza austera da oração cantada – o canto gregoriano – e na fina teia contrapontística da polifonia, quer através do som dos instrumentos, separadamente ou associados à voz humana. Por isso, os documentos da Igreja, ontem e hoje, fazem constantes recomendações quanto à formação musical nos seminários e casas religiosas, bem como à implementação de escolas de música sacra para formar músicos devidamente habilitados, sob o ponto de vista musical e litúrgico, para os cargos que desempenham na celebração. E, folheando as páginas da história da Igreja e da arte em geral, ou visitando espaços culturais diversos, deparamo-nos com o testemunho de uma permanente exigência de dignidade e beleza no templo e na ação litúrgica.

Concretamente, no que diz respeito aos órgãos de tubos, encontramos verdadeiras obras-primas, tanto na estrutura e decoração, como na sonoridade. E não precisamos de sair de Portugal, nem mesmo de Aveiro, onde existem, em diferente estado de conservação, instrumentos construídos desde 1753.

3.- Graças ao seu desenvolvimento e diversidade tímbrica, o órgão de tubos integrou-se na música litúrgica, não só como utensílio para acompanhar as vozes, mas igualmente como um solista para o qual os compositores escreveram abundante e notável repertório. Ele pode ser um valioso auxiliar da expressão do sentimento humano, tanto nos momentos de maior recolhimento, como nos de júbilo e aclamação. Daí a importância que adquiriu nas nossas igrejas, como que delas fazendo parte integrante. Embora os textos sejam sobejamente conhecidos, seja-me permitido citar, a título de exemplo, uma passagem da Constituição apostólica Sacrossanctum Concilium. “Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos, instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimónias do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito para Deus” (nº 120). Referências idênticas se encontram na generalidade dos documentos relativos à música sacra.

Vindo a um passado menos distante, em 2006, por ocasião da bênção e inauguração do órgão de uma igreja de Ratisbona (Alemanha), o Papa Bento XVI proferiu as seguintes palavras: “Desde sempre que o órgão vem sendo justamente qualificado como o rei dos instrumentos musicais, porque resume todos os sons da criação e dá ressonância à plenitude dos sentimentos humanos. Além disso, transcendendo, como toda a música de qualidade, a esfera simplesmente humana, apela ao divino [....] As múltiplas possibilidades do órgão lembram, de algum modo, a imensidade e a magnificência de Deus”. (Bento XVI, 13 de setembro de 2006).

4. Os custos de um órgão de tubos assustam, de facto, se não for tida em conta a sua importância na liturgia e na cultura, ou se ele for considerado supérfluo. Tal avaliação não acontece na generalidade das igrejas dos países da Europa ocidental, nem aconteceu nas igrejas conventuais e nos principais templos portugueses (não apenas nas catedrais e colegiadas). As convulsões político-sociais de 1834 e 1910 tiveram consequências desastrosas em matéria de órgãos de tubos, abrindo caminho para o abandono, degradação e destruição de um elevadíssimo número. Como consequência, hoje somos levados a considerar exceção o que de facto era regra também nas igrejas portuguesas, incluindo as de Aveiro.

Sem negar a necessidade de uma acurada ponderação dos custos, é igualmente necessário não perder de vista o respeito pelo espaço sagrado e a dignidade da ação litúrgica. De outro modo, certamente que deixaríamos, por exemplo, de construir igrejas – templos dignos e duradouros, verdadeiras obras de arte – substituindo-as por um vulgar prefabricado, incomparavelmente mais barato.

Além disso, quando falamos da construção de um órgão de tubos, não nos referimos a décadas de vida, mas a séculos; esta secular longevidade só é encurtada se o instrumento não tiver o devido uso e manutenção. Não falamos, pois, apenas do imediato, mas do médio e longo prazo; e só à luz desta durabilidade podemos compreender os seus custos.

5.- Há ainda um outro aspecto a considerar. O órgão de tubos não é apenas um instrumento litúrgico, mas, igualmente, um instrumento de cultura. A qualidade da sua construção e potencialidades sonoras atraem geralmente à igreja, não apenas os paroquianos, mas também um público diversificado, apreciador do vastíssimo repertório que muitos dos génios criadores da história da música lhe dedicaram; por isso, a sua construção costuma despertar a atenção dos responsáveis pela cultura. Noutras aquisições semelhantes, nomeadamente no Porto (Sé e Igrejas da Conceição e da Lapa), Leiria e Beja (Sé) e Vagos (Igreja Matriz), diversas instituições públicas e privadas deram a sua contribuição. Trata-se de uma obra que demora mais de um ano, o que permite a sensibilização desses organismos, para que os custos não recaiam exclusivamente sobre a comunidade paroquial.

6.- Reparar o órgão histórico? Trata-se, efetivamente, de um restauro, também ele com encargos muito significativos, razão pela qual foi inscrito no projeto “Rota das Catedrais”. Quanto a este ponto, há duas observações a ter em conta. Em primeiro lugar, o contexto religioso para que foram construídos este e muitos outros instrumentos, habitualmente designados “ibéricos”, é bem diferente do pós-conciliar; eles foram concebidos para tocar a solo ou acompanhar pequenos grupos de cantores, não propriamente uma assembleia. Não quer isto dizer que eles não possam continuar a servir a liturgia, como, aliás, acontece com a sua maioria; temos um exemplo em Aveiro, na Igreja da Misericórdia. Porém, o caso da Igreja da Glória é diferente, pelo facto do espaço do templo ter sido substancialmente aumentado nas obras de 1976, tornando o volume deste instrumento – concebido para a igreja conventual dos Padres Dominicanos – insuficiente para o espaço actual.

Em segundo lugar, no que diz respeito ao repertório organístico, a sua estrutura – sem pedaleira e com timbres muito próprios – não permite a interpretação de um número importantíssimo de obras da época barroca, romântica e moderna. Reveste-se de grande importância a presença, no coração da cidade e da diocese, de um órgão moderno que possa servir a liturgia e, ao mesmo tempo, a cultura da comunidade, possibilitando a apresentação do chamado “repertório para grande órgão”.

7.- Adaptar o órgão histórico às necessidades atuais? Isso significaria destruir as suas características, o que não é admissível em termos de tratamento de uma obra de arte com esta importância e antiguidade. Mas o seu restauro, logo que estejam reunidas as condições para o fazer, permitir-lhe-á desempenhar um relevante papel, tanto na liturgia – eventual órgão de coro -, como na parte cultural, através da apresentação do repertório adequado à sua constituição, ou em diálogo com o novo, na apresentação de um vasto repertório concebido para dois órgãos.



8.- Um órgão usado, em 2ª mão? É verdade que têm entrado em Portugal diversos instrumentos usados, provenientes de igrejas de outros países. Há alguns casos em que se conseguiu um razoável enquadramento arquitectónico e uma sonoridade adaptada às dimensões e características do templo. No entanto, trata-se de um implante arriscado, cujos resultados nem sempre são satisfatórios. Por isso, as catedrais portuguesas (Lisboa – 1964, Porto – 1985, Beja – 1996 e Leiria – 1997) optaram pela construção de um instrumento novo, enquadrado, sob o ponto de vista arquitectónico e acústico, na obra de arte que é a sede de uma diocese. E foi também essa a escolha de diversas igrejas paroquiais, algumas bem perto de nós: Vagos (2005), Aradas (1993) e Oliveira do Bairro (1988).

Sem ignorar as dificuldades económicas, outras igrejas paroquiais e sedes de diocese foram capazes de olhar para o futuro e desencadear um amplo movimento de colaboração, que permitiu dotar os templos de um notável instrumento para a liturgia e para a cultura. Os 75 anos do restauro da Diocese de Aveiro são uma boa oportunidade para colocarmos o desafio: se outros conseguiram, por que não havemos também de conseguir?


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