O príncipe de Cachoeiro



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O Príncipe de Cachoeiro
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O Príncipe de Cachoeiro

Um fanático por Maquiavel na cidade de Rubem Braga

por Mariana Filgueiras




Em 1960, quando tinha 12 anos de idade, o pequeno Higner Mansur fugiu de casa, em Guaçuí, no interior do Espírito Santo, para ir a um comício do político Tenório Cavalcanti, o Homem da Capa Preta. Tenório lançava sua candidatura ao governo do Rio e falaria no coreto de Varre-Sai, município do lado fluminense na divisa entre os estados. Mas o que o menino queria mesmo era ver se ele carregava uma submetralhadora consigo, a “Lurdinha”, conforme os boatos da época davam conta.

Voltou de lá fascinado. Não só pela Lurdinha, que de fato existia, e era um modelo MP-40 de sotaque alemão, mas também pelo discurso do homem. Pediu ao pai para levá-lo ao comício do então prefeito Ademar de Barros. Foi também a um de João Goulart, só não se lembra com quem. Na mesma época, conseguiu até um autógrafo do gaúcho Fernando Ferrari, que fazia campanha para vice-presidente da República. Tinha tomado gosto pela coisa.

Não foi surpresa quando o recém-formado advogado Higner Mansur, aos 23 anos, foi nomeado chefe de gabinete do prefeito de Cachoeiro de Itapemirim, cidade natal do cantor Roberto Carlos e do escritor Rubem Braga. Uma experiência frustrante. “Comecei a perceber que, mesmo num governo decente, é impossível administrar a coisa pública como se todos fossem santos. Não são”, diz o advogado, aos 65 anos, no apartamento de Cachoeiro em que vive até hoje, sentado diante das duas coleções que cultiva com afinco: a de passarinhos de madeira pintados à mão, que manda vir de Minas Gerais; e a de livros sobre O Príncipe, o clássico escrito por Nicolau Maquiavel em 1513.

 

esiludido com a política (ainda experimentaria a vereança, em 1995), Higner foi procurar seu remédio bebendo mais do veneno. Comprou num sebo a coleção Os Pensadores, da Editora Abril. O volume do pensador florentino o impressionou mais do que a alemã Lurdinha.

“Tudo o que ele dizia encaixava com perfeição em 1995 e ainda hoje, em 2013. Por exemplo: ‘É necessário a um príncipe, se quiser manter-se, aprender a poder não ser bom e a valer-se ou não disso, segundo a necessidade.’” Atrás de óculos quadrados e um jeito meio bonachão, Higner Mansur se deleita com o realismo maquiavélico. “Quem não está na política não sabe disso e acha que é irreal”, explicou, ressalvando logo que “Maquiavel não defende isso, só fala a verdade. E tanto é verdade que, quanto mais o político mente, mais se dá bem”, arrematou.

Desde então, o advogado coleciona tudo o que pode a respeito do livro: glossários, dicionários, biografias, ensaios, paródias, audiolivros, quadrinhos. São quase 150 volumes dedicados ao assunto. Só de traduções do original, tem 53. A biblioteca maquiavélica já ocupa um terço da estante da sala, para desespero da mulher de Higner, Maria Elvira, professora de português. “Qualquer dia vou dizer: Maquiavel ou eu”, ameaça, em tom de brincadeira.

O livreiro de Cachoeiro de Itapemirim separa tudo que lhe chega às mãos sobre o pensador italiano. Os amigos não podem voltar da Europa sem fuçar os bouquinistes locais. No último mês, Maria Elvira foi visitar um filho que mora em São Francisco, nos Estados Unidos. Só pôs os pés em casa ao mostrar a edição em inglês que garimpara por lá.

“Quando me assentei no Poder Legislativo, com mandato mais longo, e tinha de sobreviver politicamente, tive que me acostumar com essas verdades escondidas. Não aprendi: quando me recandidatei, oito anos depois, perdi. Na prática do poder vi que não aprendera a lição; mas me conformo. Maquiavel também não aprendeu as suas lições, ao menos para a sua própria vida política”, comparou Higner, lembrando que nestes 500 anos a obra jamais deixou de ser relançada. O pensador italiano ocupou um cargo importante na República florentina no começo do século XIV – foi secretário da segunda chancelaria –, mas seu conhecimento dos meandros do poder não impediu que fosse preso e acusado de conspiração por adversários políticos.

A coleção foi ganhando corpo por uma cisma. Higner notou que muita gente se referia a Maquiavel como o autor da frase “Os fins justificam os meios”, embora ele jamais tivesse encontrado tal assertiva. Para provar que o autor fora mal interpretado, e que a frase era mais uma da lista das jamais ditas (a exemplo da famosa “Se não tem pão, que comam brioches!”, atribuída a Maria Antonieta), passou a comprar compulsivamente todas as traduções e edições do clássico.

“Onde muitos acham que está ‘Os fins justificam os meios’, no capítulo XVIII, está: ‘Nas ações de todos os homens, principalmente dos príncipes, onde não há tribunal para recorrer, o que importa é o êxito bom ou mau’”, disse Higner, citando uma tradução do começo dos anos 70. “Na verdade, se os fins justificam os meios, como as pessoas passaram a ler, não é porque Maquiavel quis, ele apenas diz que é assim que o vulgo e os beneficiados querem”, justifica Higner.



As lições d’O Príncipe são discutidas avidamente no grupo que Higner criou no Facebook sobre a obra, que já conta com 237 participantes. A página inclui discussões fervorosas sobre quem foi o melhor biógrafo do italiano, montagens criadas com seu retrato, trechos de seus escritos destacados em cores vivas e artigos científicos – o “Secretário Florentino” ficaria tocado com tanta dedicação. Diante do computador ligado, Higner dispara uma citação: “Conhece teu inimigo e conhece-te a ti mesmo, se tiveres 100 combates a travar, 100 vezes serás vitorioso.”

Não é Maquiavel, há de se perceber pelo estilo, mas Sun Tzu, em A Arte da Guerra, livro que tem despertado sua curiosidade ultimamente. Higner já comprou sua primeira dezena de traduções raras, para aflição de Maria Elvira.
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