O museu Nacional de Imigração e Colonização de Joinville: etnização e exclusão o caso da erva-mate Elaine



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1.  Introdução 

 

 

 

O  Museu  Nacional  de  Imigração  e  Colonização,  localizado  na  cidade  de  Joinville, 



nordeste de Santa Catarina, comemorou em novembro de 2012, 50 anos de exposições abertas 

ao público.  

Por  meio  da  lei  nº  3.188,  de  2  de  Julho  de  1957,  o  então  Presidente  da  Republica 

Juscelino  Kubitschek  autorizou  “a  adquirir,  o  edifício  existente  naquela  cidade,”

1

  o  Palácio 



dos  Príncipes,  antiga  sede  administrativa  da  Colônia  Dona  Francisca,  transformando  este 

espaço  na  sede  do  Museu.  Essa  mesma  lei  publicada  no  Diário  Oficial  de  02  de  Julho  de 

1957, possui 05 artigos, definindo quais as funções, programas de estudos, e indicando quais 

os objetos a serem recolhidos, sendo que esses deveriam remeter a imigração e colonização do 

Sul do Brasil. 

 

Com  a  intenção  de  salientar  os  objetivos  do  Museu  Nacional  de  Imigração  e 



Colonização  e  apontar  as  diretrizes  de  estudos  e  exposições,  à  lei  aponta  as  seguintes 

condições: 

Art.1º  é  criado  na  cidade  de  Joinville,  estado  de  Santa  Catarina,  o  Museu 

Nacional de Imigração, para recolhimento de todos os objetos que recordem 

a imigração no sul do país e também os documentos e publicações atinentes 

à mesma; 

Art. 2º o Ministério da Educação e Cultura criará ali as secções necessárias à 

conservação  e  exposição  daqueles  objetos  e  à  elaboração  e  divulgação  de 

estudos  sociológicos,  históricos,  etnográficos  e  etnológicos  com  base  no 

material recolhido.

2

 

 



 

 

Com  base  em  fragmentos  da  legislação  acima  descrita,  podemos  ter  uma  noção 



mínima dos objetivos gerais da criação do MNIC, e quais as intenções e propostas para seus 

espaços expositivos: "[...] recolhimento de todos os objetos que recordem a imigração no Sul 

do País  e também  os documentos  e publicações  atinentes à mesma." Seguidamente de:  "[...] 

elaboração  e  divulgação  de  estudos  sociológicos,  históricos,  etnográficos  e  etnológicos  com 

base no material recolhido”.  

 

A  fim  de  concretizar  o  que  fora  estabelecido  por  lei  federal  em  1957,  em  26  de 



novembro  de  1961,  a  Prefeitura  Municipal  de  Joinville,  assinou  um  “Convênio  para  a 

                                                 

1

 Lei n.º 3.188, de 2 de julho de 1957, Art. 3º. 



2

 Lei n.º 3.188, de 2 de julho de 1957, Art. 1º e Art. 2º. 




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O Museu Nacional de Imigração e Colonização de Joinville: etnização e exclusão - o caso da erva-mate - Elaine 



Cristina Machado e André Rosa da Costa Corrêa 

 

 



Revista Santa Catarina em História - Florianópolis - UFSC – Brasil ISSN 1984-3968, v.8, n.1, 2014. 

 

 



organização, instalação e funcionamento” do MNIC com o Ministério da Cultura assumindo 

algumas  obrigações.  Entre  as  obrigações  que  couberam  à  prefeitura  consta  a  abertura  do 

Museu,  que  fora  viabilizada  com  a  ajuda  de  uma  comissão  composta  por  pessoas  ligadas  a 

grandes  empresários  da  cidade,  denominados  “Amigos  do  Museu  Nacional  de  Imigração  e 

Colonização”.  

Esta  comissão,  juntamente  com  a  Prefeitura  de  Joinville,  começou  a  adquirir  os 

objetos  que  comporiam  o  acervo  do  museu.  Selecionando  o  que  celebraria,  qual  passado 

deveria ser lembrado, e julgando os interesses pertinentes aos visitantes e à comunidade. 

 

O  Museu  possui  um  casarão  destinado  à  visitação,  dividido  em  três  pisos  com 



exposições  permanentes.  Este  casarão  fora  tombado  a  partir  de  1939,  pelo  SPHAN3,  hoje 

IPHAN,  com  uma  politica  de  preservação  de  todos  os  espaços  que  guardavam  a  memória 

nacional, na esteira da preservação do patrimônio material: bens de “pedra e cal”.  

 

 Composto,  ainda,  por  mais  três  espaços  expositivos,  localizados  aos  fundos  do 



casarão.  Entre  esses  espaços  expositivos,  estão  o  Galpão  de  Tecnologia  Patrimonial,  onde 

ficam os engenhos que comunicam os saberes e fazeres do imigrante ou do colono; o Galpão 

de  Transportes,  onde  ficam  as  carroças,  carroções,  e  os  carros  fúnebres;  e  a  casa  Enxaimel, 

definida  como  a  casa  do  colono,  o  que  sugere  algumas  questões  interessantes,  mas  que  não 

pretendemos aprofundar aqui. 

 

 O  casarão,  construído  para  ser  a  residência  de  Frederico  Brüestlein



4

  e  centro 

administrativo da colônia, possui objetos de uma classe  abastada e devidamente distinta das 

demais áreas de visitação. Adentrando ao casarão, logo no térreo, onde se localiza atualmente 

a recepção do Museu, o visitante se deslumbra com móveis que pertenceram ao proprietário. 

São móveis de acabamento refinado e de um alto padrão social. Com efeito, os outros objetos 

expostos  tanto  nos  espaços  seguintes,  quanto  nos  andares  superiores  pertenceram  a  famílias 

de grande poder político, de origens germânicas, reconhecidas por suas posses e de imigrantes 

que  constituíram  os  quadros  sociais  mais  influentes  da  cidade.  Ou  seja,  a  classe  dominante, 

                                                 

3

  Serviço  do  Patrimônio  Histórico  e  Artístico  Nacional (SPHAN)  criado  em  13  de  janeiro  de 1937 e 



regulamentado  pelo  Decreto-Lei  nº  25  no  dia  30  de  novembro  do  mesmo  ano,  poucos  dias  após  o  golpe  que 

instituiu  o Estado  Novo.  Atualmente  este  órgão  denomina-se  IPHAN  –  Instituto  do  Patrimônio  Histórico  e 

Artístico Nacional. 

O casarão, construído entre 1867-1870, para ser a sede administrativa da então Colônia Dona Francisca, era a 



casa do superintendente, Frederico Brüestlein, onde hoje fica a sede do MNIC. Mais informações pesquisar em: 

FICKER,  Carlos.  História  de  Joinville  -  Crônica  da  Colônia  Dona  Francisca.  3ª  ed.,  editora  Letra  d‟água, 

2008. 



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O Museu Nacional de Imigração e Colonização de Joinville: etnização e exclusão - o caso da erva-mate - Elaine 



Cristina Machado e André Rosa da Costa Corrêa 

 

 



Revista Santa Catarina em História - Florianópolis - UFSC – Brasil ISSN 1984-3968, v.8, n.1, 2014. 

 

 



em  sua  grande  maioria  alemã,  ou  teuto-brasileira,  com  grande  destaque  na  sociedade  e  no 

cenário político de Joinville. 

 

Saindo do casarão e se encaminhando para a parte dos fundos do Museu, o visitante se 



dirige  ao  galpão  de  tecnologia

5

,  onde  encontramos  os  saberes  e  fazeres  do  colono.  Os 



engenhos,  que  também  seriam  objetos  de  distinção  social,  para  quem  os  possuíam  dentro 

daquele  círculo  em  que  havia  a  necessidade  de  se  produzir  alimentos  agregados  de  outro 

valor.  Entre  esses  engenhos  de  farinha,  de  cana-de-açúcar,  de  milho,  engenho  de  erva-mate, 

ainda há uma canoa de  pesca, um  alambique  de  cachaça,  e outros objetos  do cotidiano e do 

trabalho braçal que enaltecem o discurso do “mito fundador” da cidade. Contudo, relegado a 

um lugar secundário dentro da museografia apresentada.  

 

Um  pouco  mais  adiante  encontramos  outro  espaço,  denominado  como  Galpão  de 



Transportes. Em exposição, estão os transportes da antiga colônia. São carroças de transportes 

de colonos, para vender a sua produção na cidade, carro de noivos, carros fúnebres, charretes, 

carrinhos  de  mão  para  carregar  madeira  e  pedras  para  construções  e  um  carroção.  Esse 

carroção,  identificado  como  São  Bentowagen  remete  ao  transporte  de  cargas,  especialmente 

ao transporte de erva-mate do planalto norte catarinense. 

 

E  a  casa  Enxaimel,  com  características  europeias



6

,  de  madeiras  encaixadas,  dando 

sustentação,  como  uma  armação,  e  preenchidas,  com  tijolos,  pedras,  ou  barro,  entre  os 

espaços vazios.  

 

O  Museu  durante  quase  meio  século  dirigiu  esforços  na  construção  de  um  espaço 



etnizado e propício para  a turistificação, não que museus não devam investir na apropriação 

de seu patrimônio por turistas, a questão é que este espaço se tornou uma espécie de parque de 

diversões  a  espera  de  turistas  ocasionais,  seduzidos  por  um  discurso  que  desse  conta  de 

explicar toda a história da cidade. 

 

 Seguindo então as discussões propostas por Foucault



7

 em que a história dos espaços 

tem  grande  importância  para  se  entender  a  história  dos  poderes,  podemos  perceber  que  tais 

interrogações  se  estendem,  também,  para  um  espaço  como  o  MNIC?  Podemos  também 

                                                 

No  momento  da  realização  desta  pesquisa  o  galpão  de  tecnologia  estava  interditado,  com  o  telhado 



comprometido. 

6

 Para quem se interessar sobre as casas “enxaimel”, Ver: IMHOF, Afonso. Arquitetura e Imigração Germânica: 



os enxaiméis na História, etnicidade e veracidade. Blumenau em cadernos-Tomo XLII-n. 1/2-janeiro/fevereiro – 

2001.  


7

 FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder.  p.318-343. 




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Cristina Machado e André Rosa da Costa Corrêa 

 

 



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inquirir  sobre  a  forma  como  os  acervos  estão  distribuídos  dentro  do  MNIC?  Considerando 

que o MNIC foi eleito pelo poder público municipal como o principal espaço de memória da 

cidade,  sendo  também  um  campo  de  disputas  políticas,  de  poderes  e  discursos  sobre 

esquecimentos e memórias a serem lembradas. Segundo sublinha Foucault,  

 

Seria  preciso  fazer  uma  „história  dos espaços‟-  que  seria  ao  mesmo  tempo 



uma  „história  dos  poderes‟-  que  estudasse  desde  as  grandes  estratégias  da 

geopolítica até as pequenas táticas do habitat, da arquitetura institucional, da 

sala  de  aula,  ou  da  organização  hospitalar,  passando  pelas  implantações 

econômico-políticas.

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