O mínimo que se exige de um historiador é que seja capaz de reflectir sobre a história da sua



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história social por oposição a uma abordagem

idealista.

O caso português

A fragilidade da reflexão pedagógica – e da

constituição de uma ciência da educação – no sé-

culo XIX português explica, em parte, a pobreza

das investigações históricas no domínio educa-

tivo. Contrariamente a outros países, não há um

esforço de teorização, que, cruzando a filosofia e

a história, procure dar sentido à emergência de

um pensamento científico em educação. Sem

ignorar os trabalhos de José Augusto Coelho

(1891-1893) e, mais tarde, de José de Sousa

(1890) ou de Manuel Ferreira-Deusdado (1892),

é um facto que os textos pedagógicos se limitam

a um esforço de vulgarização, nomeadamente

para consumo dos alunos das escolas normais,

não traduzindo uma produção teórica original. É

nesta mesma linha que se situam os poucos

manuais de História da Educação então publica-

dos (Afreixo, 1883; Cirne Júnior, 1881), o que

explica a ausência de obras inovadoras sinteti-

zando as ideias dos grandes educadores univer-

sais.


Os trabalhos mais importantes, sobretudo por-

que estabelecem um cânone histórico que vai

prevalecer durante várias décadas, são produzi-

dos por D. António da Costa: A instrução nacio-



nal (1870),  História da instrução popular em

Portugal (1871) e Auroras da instrução pela ini-

ciativa particular (1884). Trata-se de uma histó-

ria celebratória, que descreve a educação como

uma marcha de progresso civilizacional. Centra-

das na realidade educativa portuguesa, as obras

de D. António da Costa inserem-se na tradição

oitocentista de uma história escrita pelos pró-

prios reformadores, inevitavelmente solidária (e

legitimadora) de certas políticas educativas no

quadro mais vasto da edificação de um sistema

estatal de ensino. 

Os trabalhos de Adolfo Coelho (1883, 1895,

1900) revelam uma maior problematização crí-

tica, na esteira de um conjunto de autores ale-

mães que influenciaram o seu pensamento. A ar-

ticulação de uma reflexão histórica com um es-

forço de teorização pedagógica aproxima os es-

critos de Adolfo Coelho da tradição académica

que fomentou o estudo da ciência da educação

nas Universidades europeias da 2.ª metade do

século XIX.

A publicação de fontes e de documentos, no

contexto de uma história erudita e positivista, é a

terceira tradição que merece ser mencionada. Na

área do ensino, e sem esquecer a História da



Universidade de Coimbra de Teófilo Braga

(1892-1902), a obra de José Silvestre Ribeiro

(1871-1892) constitui a referência principal. No

entanto, e sem pôr em causa a importância desta

actividade, é evidente que o seu objectivo é

mais constituir uma memória (registo de factos)

do que produzir uma interpretação histórica.

Estas três tradições recortam bem certas mo-

dalidades de história da educação que se produ-

zem na Europa do século XIX. Verifica-se, no

entanto, a ausência do que é a tradição dominan-

te nesta altura: a história das ideias. O conjunto

das obras publicadas revela a fragilidade da in-

425



vestigação histórica levada a cabo, ainda que

este período tenha sido um dos mais importantes

da pedagogia em Portugal. 

Apesar das mudanças políticas do princípio

do século XX e do peso crescente dos fenóme-

nos educativos na sociedade portuguesa, a Histó-

ria da Educação não conheceu um desenvolvi-

mento muito significativo. No essencial, manti-

veram-se as tradições anteriormente identifica-

das, verificando-se mesmo um certo declínio da

reflexão histórica e filosófica na construção da

ciência pedagógica, em favor de uma presença

mais forte das perspectivas psicológicas e socio-

lógicas. 

A análise das obras publicadas até à II Guerra

Mundial revela a exiguidade da investigação

especificamente dedicada à história da educação

e do ensino, ainda que certas áreas afins tenham

conhecido algum desenvolvimento: estou a pen-

sar numa «história erudita» que se preocupou,

por exemplo, com as universidades e as ciências,

com certas instituições locais ou com aspectos

da vida religiosa. 

Em termos globais editam-se cerca de uma

centena de textos entre 1900 e 1940, de qualida-

de muito desigual e, o que é mais revelador, sem

que nenhum destes autores se considere essen-

cialmente como um «historiador da educação»

4

.

A investigação histórico-educativa baseada em



fontes e em interpretações originais é bastante li-

mitada. Num certo sentido, tudo se resume a um

esforço de «divulgação pedagógica» ou de

«compilação documental»: no primeiro caso,

trata-se quase sempre de materiais didácticos

para uso dos alunos-mestres; no segundo caso,

estamos perante um trabalho de erudito que é

fundamentalmente distinto do trabalho de histo-

riador.

Em Portugal, o esforço de renovação da His-

tória da Educação inicia-se nos anos 70, ainda

que só a partir de meados dos anos 80 comece a

emergir uma comunidade científica com alguma

pujança e originalidade. Neste sentido, é impor-

tante referir, em primeiro lugar, a acção de Joa-

quim Ferreira Gomes que, através de uma série

impressionante de investigações pioneiras, le-

vanta um conjunto desconhecido de fontes

5

e

abre novas temáticas de investigação (formação



de professores, educação infantil, ensino profis-

sional, obrigatoriedade escolar, etc.). Um outro

contributo relevante é dado pelo «grupo da Gul-

benkian» que, no quadro das actividades do

Centro de Investigação Pedagógica, produz um

conjunto de trabalhos de qualidade; apesar de

não ter tido uma acção muito inovadora

6

, nem do



ponto de vista temático, nem do ponto de vista

metodológico, este grupo encontra-se na génese

de uma história contemporânea do sistema de

ensino e das políticas educativas. O terceiro

contributo vem das correntes sociológicas, com

destaque para a tese de doutoramento de Maria

Filomena Mónica (1978) que, através de um

enquadramento conceptual e de uma abordagem

metodológica originais, traz para a historiografia

portuguesa as perspectivas de investigação em

voga na Europa e nos Estados Unidos da Améri-

ca nos anos 60/anos 70.

Estes três contributos continuam a manifestar-

se nos anos 80, década que tem como aspectos

mais marcantes o esforço de renovação temática,

de diversificação metodológica e de consolida-

ção de uma comunidade científica em História

da Educação

7

.

A renovação temática exprime-se através da



426

4

É evidente que os trabalhos de Alfredo Filipe de



Matos (1907), de Alves dos Santos (1908, 1913) ou de

António Ferrão (1915), para além dos manuais de Al-

berto Pimentel Filho (1919) e de Sílvio Pélico Filho

(1923), não podem ser ignorados; por maioria de razão

devem ser destacadas as obras de Manuel A. Ferreira-

-Deusdado (1909), os primeiros escritos de Joaquim

de Carvalho e o projecto parcialmente concretizado de

uma Enciclopédia Pedagógica com inúmeras entradas

históricas sob a direcção de Adolfo Lima (1936).

5

A este nível é justo salientar também a obra de An-



tónio Alberto Banha de Andrade, nomeadamente no

que se refere à identificação dos fundos de arquivos

para a história da educação no século XVIII e no

princípio do século XIX.

6

É necessário, no entanto, ressalvar o trabalho de



José Salvado Sampaio que, através do recurso a fontes

estatísticas, abriu a História da Educação à influência

das metodologias quantitativas.

7

A este propósito é útil consultar as bibliografias



dos textos apresentados nas seguintes reuniões cien-

tíficas: 1.º e 2.º Encontro de História da Educação em

Portugal (1987 e 1996); 1.º e 2.º Encontro Ibérico de

História da Educação (1992 e 1995); 15.º Congresso

Internacional de História da Educação (1993); 1.º

Congresso Luso-Brasileiro de História da Educação

(1996).



escolha de objectos de estudo que, até então, não

tinham sido trabalhados de forma sistemática; de

uma forma geral, eles abrangem o espectro das

preocupações trazidas pela «nova» história da

educação. A diversificação metodológica é outro

aspecto importante, que começou a tornar-se

mais evidente no final dos anos 80; os historia-

dores da educação foram adoptando, progressi-

vamente, novas estratégias de pesquisa, tanto se-

riais e quantitativas (bem patentes nos estudos

sobre a alfabetização) como qualitativas (história

oral, análise de conteúdo, etc.). A terceira evolu-

ção digna de menção diz respeito aos esforços de

consolidação de uma comunidade científica,

bem patentes na realização de diversos encontros

nacionais e internacionais e na fundação, em

1989, da Secção de História da Educação da




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