O mínimo que se exige de um historiador é que seja capaz de reflectir sobre a história da sua


Análise Psicológica  (1996), 4 (XIV): 417-434



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Análise Psicológica  (1996), 4 (XIV): 417-434

História da educação: Percursos de uma

disciplina (*)

ANTÓNIO NÓVOA (**)

(*) Este texto, baseado no relatório História da Edu-



cação que apresentei em 1994 no âmbito das provas

de agregação na Universidade de Lisboa, insere-se

numa reflexão teórica e metodológica mais vasta, a

qual deu origem à produção de vários ensaios, nomea-

damente: «On History, History of Education, and

History of Colonial Education» (1995), «Profession-

nalisation des enseignants et Sciences de l´Education»

(em publicação na revista Paedagogica Historica), «A

Educação Nacional (1930-1974): Análise histórica e

historiográfica» (conferência proferida no 2.º Encon-



tro Ibérico de História de Educação, Zamora, 1995),

«Histoire de l´Education: regards de l´Amérique»

(em publicação na revista Histoire de l´Education).

(**) Professor Catedrático, Faculdade de Psicologia

e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.



talvez melhor do que qualquer outra, a impor-

tância da História da Educação como disciplina

fundadora das Ciências da Educação. A citação

em epígrafe lembra a formulação kantiana: «A

teoria sem a história é vazia; a história sem a teo-

ria é cega.»

Nanine Charbonnel demonstrou que, no final

do século XIX, a invenção da Pedagogia como

Ciência da Educação teve como elemento estru-

turante a descoberta de uma história prévia, sus-

ceptível de legitimar os novos grupos e ambições

de cientificidade: «Pedagogia e História da

Pedagogia sustentam-se mutuamente; somos le-

vados a crer que a primeira existe porque a se-

gunda partiu à procura das suas origens» (1988,

p. 127).


As ciências humanas são históricas, por na-

tureza, tanto pelos seus objectos como pelos

seus modos de conhecimento (Matalon, 1992).

Por isso, a história é consubstancial à própria

constituição destas ciências. Os homens que no

final do século XIX se bateram pela afirmação

científica e institucional da Ciência da Educação

perceberam-no claramente. E escreveram, uma e

outra vez, que o ensino da pedagogia não podia

deixar de ser, simultaneamente, teórico, histórico

e prático.

Ao dar-se um passado, a primeira geração da



pedagogia científica procurou consolidar a disci-

plina no seio da comunidade académica e uni-

versitária. O jogo de poderes consagrava não só

um novo tipo de conhecimento, mas também os

homens que eram supostos produzi-lo e difundi-

-lo. Até então, a pedagogia era vista, sobretudo,

pelo prisma da prática, das técnicas e dos méto-

dos de ensino. A partir de meados do século

XIX, no entanto, as perspectivas teóricas adqui-

rem novas dimensões: primeiro, por via de um

pensamento histórico e, também, de um esforço

de reflexão comparada; mais tarde, através do

recurso às ciências psicológicas e sociológicas.

Mas, na mesma altura em que os diversos paí-

ses se pedagogizam – para utilizar uma expres-

são de Félix Pécaut (1882) – nascem os ataques

a esta pseudo-ciência, estéril e inútil. Ferdinand

Brunetière faz-se eco de dizeres em voga: «Que-

remos acima de tudo professores que se dedi-

quem a professar, e que não liguem nenhuma à

pedagogia» (1895, p. 8). Como escreveu Daniel

Hameline (1993), torna-se moda troçar dos peda-

gogos. É um dever. Uma cruzada, quase.

A História da Educação vive uma situação

idêntica. Os ataques crescem na proporção di-

recta da sua influência institucional. Desde mea-

dos do século XIX que, pela voz de Théodore

Barrau, se denuncia esta «ciência laboriosamente

inútil» que dá pelo nome de história da pedago-




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