O imperador no Exílio



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02 de dezembro de 2013

Academia Cearense de Letras

Sessão Solene de homenagem ao

Centenário da Estátua de D. Pedro II o Magnânimo

Relançamento de O Imperador no Exílio, do Conde de Affonso Celso

Excelência, Senhor Presidente da Academia Cearense de Letras, Dr. José Augusto Bezerra;

Alteza Imperial e Real, D. Antonio João de Orleans e Bragança e Wittelsbach, Príncipe do Brasil;

Altezas Reais, D. Fernando Diniz de Orleans e Bragança e Wittelsbach e D. Maria da Graça de Orleans e Bragança e Baere de Araújo, Príncipes de Orleans-e-Bragança;

Excelência, Senhora Juíza Dra. Maria Odele de Paula Pessoa, neta do Presidente da Comissão Executiva do Ceará, Dr. Francisco Barbosa de Paula Pessoa, na pessoa de quem eu cumprimento todos os descendentes das ilustres famílias que erigiram a estátua de D. Pedro II em Fortaleza;

Senhora Secretária Municipal Adjunta de Cultura de Fortaleza, Paola Braga;

Senhora Representante do Instituto Cultural D. Isabel I a Redentora em Fortaleza, Professora Maria Adelaide Flexa Daltro Barreto;

Senhor Acadêmico Vicente de Alencar;

Senhora Jornalista Lêda Maria Souto, representando a Associação das Escritoras...........;

Demais ilustres autoridades presentes;

Senhoras e Senhores:

Boa noite!

O ano de 2013 significa para nós, cultores da História, a ciência – ou conhecimento, ou arte, como queiram – à qual Cícero apelidou “mestra da Vida”, particularmente da História do Brasil, a celebração de algumas efemérides muito estimadas:

250 anos do nascimento e 175 anos da morte de José Bonifácio (1763-1838)


215 anos do nascimento de D. Pedro I do Brasil (1798-1834)
175 anos do nascimento e 115 anos da morte de André Rebouças (1838-1898)
170 anos do nascimento do Visconde de Taunay (1843-1899)
170 anos do nascimento e 115 anos da morte de Antonio Bento (1843-1898)
160 anos do nascimento de José do Patrocínio (1853-1905)
125 anos da Lei do Império do Brasil, de número 3.353, de 13 de maio de 1888 - a LEI ÁUREA
100 anos da morte de Aluísio de Azevedo (1857-1913)
120 anos do nascimento e 60 anos da morte de Jorge de Lima (1893-1953)
100 anos do nascimento de Vinicius de Moraes (1913-1980)
75 anos da morte do Conde de Affonso Celso (1860-1938)

120 anos da publicação de O IMPERADOR NO EXÍLIO (1893)


100 anos da inauguração da estátua de D. Pedro II em Fortaleza (1913)

Sobre os 125 anos da assinatura da Lei Áurea e de tudo que o acontecimento histórico envolveu nosso Instituto tem reverberado em todo o ano de 2013.

O movimento social, intelectual e cultural que nosso Instituto representa é o neoabolicionismo. Em um simpósio, em 2005, no Memorial Vargas, na Glória, Rio de Janeiro, expusemos aquilo que para nós constitui o resgate histórico-cultural e a retomada social do maior dos movimentos que a sociedade brasileira do Oitocentos conheceu: o abolicionismo. Ele deita raízes, como elucidam as efemérides que acabamos de elencar, em tempos muito anteriores à década romântica e gloriosa de 1880. O neoabolicionismo é, para nós, uma espécie de psicanálise da Nação brasileira.

Nossos “pais fundadores” (José Bonifácio de Andrada e Silva em primeiro lugar, depois o bragantino D. Pedro I, sua mulher, a habsbúrgica D. Leopoldina, príncipes absolutistas convertidos ao patriotismo semi-liberal dos chefes emancipacionistas brasileiros, o Padre Feijó, o Brigadeiro Lima e Silva, ambos mais tarde regentes do Império, Caetano Pinto de Miranda Montenegro, mais tarde Marquês de Vila Real da Praia Grande, e tantos outros) idealizaram o Brasil como a antiga colônia lusa da América que poderia se tornar um grande país e uma terra de possibilidades e riquezas, se mantivesse sua unidade territorial e garantisse a formação de um Povo. Sobretudo José Bonifácio enxergou que esse Povo, que na Independência sequer possuía o gentílico de brasileiro, mas sim o de “brasílico”, esse Povo somente existiria se a escravidão herdada das estruturas coloniais fosse gradativamente extinta e desse lugar a uma sociedade de homens livres e trabalhadores. Seria, como previu Bonifácio, fatalmente uma civilização, a brasileira, mestiça e riquíssima em diversidade e criatividade.

Infelizmente, grande parte dos projetos de José Bonifácio para o Brasil foram engavetados pelos que o sucederam enquanto ministros de Estado do novo Império do Brasil, nascido em 1822 e confirmado pelos tratados de independência em 1825.

Disso decorre que a escravidão tenha se tornado não somente uma faceta da história de nossa edificação nacional. A escravidão foi a marca mais expressiva, mais nociva, mais tortuosa, mais sinistra, de nosso state building, para usar termo caro aos internacionalistas.

Mas sempre houve vozes dissonantes ao escravagismo feroz da maior parte dos governantes do Poder Executivo e do Poder Legislativo do Império do Brasil. Nunca compuseram maioria, é certo, mas sempre existiram. A esses liberais que eram coerentes com a matriz de suas ideias, ou seja, o culto à liberdade, deve-se a origem do movimento abolicionista do Brasil.

Recentemente, por ocasião do 13 de Maio de 2013, pudemos apresentar, tanto no Museu Imperial de Petrópolis, quanto no Instituto Histórico de Petrópolis, nosso ideário neoabolicionista e aquilo a que ele visa: o resgate da vida e da obra dos abolicionistas brasileiros, tanto os que precederam ao movimento dos anos 1880, quanto os que mais atuaram nele.

Temos dito que há diversos abolicionismos: o católico, o maçônico, o espiritista, o republicano, o monarquista, o positivista, o livre-pensador etc. Com efeito, conforme demonstram os escritos de André Rebouças e Joaquim Nabuco, somente para ficarmos com os dois maiores líderes, não é nada simples compreender o guarda-chuvas de pensamento que foi o Movimento Abolicionista do Brasil. Uma coisa, somente, é certa: todos labutavam por um país diverso daquele que existia. Não se queria mais a escravidão, o atraso, a barbárie, a dura realidade de um homem ser dono de outro.

Nosso amigo Prof. Eduardo Silva, da Fundação Casa de Ruy Barbosa, tem resgatado o movimento do Quilombo do Leblon e das camélias da liberdade, dentro de uma ótica culturalista, e agora está se propondo a fazer um resgate mais enfático do abolicionismo feminino: quem foram e como atuaram nesse movimento libertário a Baronesa de Loreto, a Baronesa de Muritiba, a Condessa de Estrela, nobres abolicionistas amicíssimas da Princesa Imperial, mas também aquelas que estavam mais à margem, como Madame Seixas, mulher “não-oficial” do Sr. José Seixas Magalhães, proprietário da produção de camélias no Leblon.

Necessário o resgate cada vez maior e mais produtivo sobre André Rebouças, cuja biografia, clássica e minudenciada, jamais se publicou. Rebouças é o grande organizador, o grande patrocinador da Confederação Abolicionista, o grande líder por detrás de tudo, que por sua timidez e verve fraca, se comparada à de Nabuco, passou por líder menor do movimento durante todas essas décadas. Uma injustiça histórica que deve ser e será reparada com os trabalhos vindouros.

Uma prosopografia dos grandes abolicionistas urge: quem foram e como atuaram Luiz Gama e Antonio Bento (paulistas), os irmãos Bulhões (goianos), os Lacerda (fluminenses), José Mariano e D. Olegarinha Carneiro da Cunha (pernambucanos), os baianos, os sulistas, e, óbvio, os da Corte – Nabuco, Rebouças, Taunay, Affonso Celso Jr., Rodolpho Dantas...

Estando aqui, nestas plagas cearenses, que muito justamente, muito afetivamente são chamadas de Terra da Luz, não por causa de paisagens ensolaradas, mas precisamente pelo abolicionismo pujante e estrondoso que aqui floresceu, é absolutamente necessário revivescer a memória dos abolicionistas locais. Como enfrentaram o escravagismo Francisco José do Nascimento – o Chico da Mathilde, o Dragão do Mar –, Maria Thomásia Figueira Lima, João Cordeiro, Pedro Artur de Vasconcellos, Carlos Augusto Peixoto de Alencar, Isaac Correia do Amaral, a família Albano de Aratanha e tantos outros.

O 13 de Maio de 1888 é o grande divisor de águas da história do Brasil e da história biográfica daquela a quem já dedicamos boa parte de nossas pesquisas: D. Isabel a Redentora. Necessaríssimo estudá-lo, esmiuçá-lo, revisitá-lo!

Para nós, do IDII, a figura da própria D. Isabel permanece envolta em nebulosidades historiográficas. Nega-se a ela biografias volumosas, como tiveram seu pai, seu avô e seu bisavô. Por que isso? Nabuco lhe garante, em Minha Formação, a mesma altura, mesma honorabilidade e mesma grandiosidade que a de seus predecessores. Terá a ver com o gênero da Princesa? Com o fato de ser mulher? Claro que sim...

Mas não só isso: mulher “paradoxal”, D. Isabel conseguia ser ultramontana e abolicionista; conservadora em matéria de moral e costumes, mas liberal nas tendências políticas, em se tratando de Brasil; constitucionalista, mas favorável à precedência que o Poder Moderador concedia ao papel do monarca na Constituição de 1824. Monarquista, mas não de todo contrária à figura de Ramiz Galvão e Benjamin Constant como professores de seus filhos.

A excelsa filha de D. Pedro II saiu à mãe em muitos quesitos, mormente na religiosidade conservadora e rural, mas saiu ao pai no amor pela cultura universal, pela filosofia, pela arte, pela música, pela ciência química. Estava longe de ser uma feminista, mas era bastante favorável à dignificação social da mulher.

Os documentos históricos revelam muito. Não somente de manobras políticas necessárias a todo chefe de poder. Mas também das idas e vindas, dos avanços e recuos a que o abolicionismo estava submetido.

Como sabemos, no domingo áureo de 13 de maio de 1888, o Brasil, enquanto Nação, e o Povo Brasileiro, enquanto entidade nacional, finalmente puderam nascer. Antes disso havia o Estado, com o território continental e a língua portuguesa falada aqui, como fatores unificatórios, mas não havia o Povo Brasileiro. Não havia, sobretudo do ponto de vista jurídico e legal, nacionalidade brasileira para quase 1 milhão de pessoas, que foram os escravos libertos e tornados cidadãos com a Lei de número 3353. Isto é seríssimo, e bem ignorado, infelizmente, por muitos cientistas sociais, que insistem em não estudar o pós-Abolição.

Daí a necessidade do neoabolicionismo. Daí que ele guarde relação não somente com a escravidão de africanos no Brasil, mas com a escravidão indígena, que foi enorme, com o patriarcalismo colonial recessivo em nossa hereditariedade, com o ruralismo atávico de grande parte das classes dirigentes brasileiras, ainda que muitas das antigas aristocracias rurais da Colônia e do Império tenham fenecido quase que por completo.

A grande causa do Brasil e dos brasileiros de boa-vontade tem de ser a Educação. Eis a obra inacabada, interrompida, que os grandes abolicionistas, os famosos e os não célebres, não puderem concluir.

Como parte das comemorações pelo centenário da estátua do Imperador que governou o Brasil por meio século, durante o Oitocentos brasileiro, e que morreu banido e exilado da pátria, homenageamos a memória de todos esses homens e mulheres que citamos e, sobretudo, a memória do grande Conde de Affonso Celso, autor de O Imperador no exílio, que agora os senhores têm em mãos. Trata-se o livro, ele mesmo, de uma memória. A crônica dos acontecimentos posteriores à Proclamação da República no Brasil e ao desterro da família imperante. É uma memória de momentos tristíssimos de nossa história. Alguns são lúgubres, até. Mas há também as passagens saborosas, como aquela em que Affonso Celso narra um jantar em que D. Pedro II diz que conversaria até com o diabo, se este se pusesse a palestrar sobre revoluções. Passagem jocosa que Affonso Celso faz questão de inserir e que mostra a jovialidade do alquebrado ancião que era D. Pedro naquela ocasião e, ao mesmo tempo, mostra que D. Isabel, a ultracatólica, não era fanática religiosa, como sempre se lhe acusou... Com efeito, o fanatismo religioso é uma psicopatologia e D. Isabel não sofria desse mal.

Em nome do Instituto que leva o nome e guarda a memória desta pequena grande mulher – ela não era alta, em estatura física – agradecemos viva e enfaticamente à Academia Cearense de Letras e a todas as altas entidades do Estado do Ceará pela acolhida, pela parceria, pela colaboração estreita e dedicada.

Repitamos, com Affonso Celso: viva o Brasil!



Bruno da Silva Antunes de Cerqueira

Gestor do IDII


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