O guarani e Iracema



Baixar 381.31 Kb.
Página8/19
Encontro17.03.2020
Tamanho381.31 Kb.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   19
Admirando aquela moça morena, lânguida e voluptuosa, o espírito apegava-se à terra;

esquecia o anjo pela mulher;

A personagem de D. Isabel é de uma relevância simbólica muito importante isto porque D. Isabel é mestiça, mas o seu perfil psicológico é muito próximo do de D. Lauriana, isto é, imbuído de “todos os prejuízos de fidalguia”80. O que Alencar quer dizer com esta referência é como podemos constatar do significado da palavra prejuízo, é que D. Lauriana fazia uma representação supersticiosa, preconceituosa e prejudicial81 do índio, algo que D. Isabel também fazia por imitação:

“— Ora, Cecília, como queres que se trate um selvagem que tem a pele escura e o sangue vermelho? Tua mãe não diz que um índio é um animal como um cavalo ou um cão?”82

E logo de seguida a referência feita por D. Isabel permite compreender que ela é mestiça, e que ela recebe um tratamento diferente por essa razão:

“— Sei que tu não pensas assim, Cecília; e que o teu bom coração não olha a cor do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que não percebo o desdém com que me tratam?

Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, e te respeitam como devem.

Isabel abanou tristemente a cabeça.

Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesma tens visto se eu tenho razão.

Ora, um momento de zanga de minha mãe...

E um momento bem longo, Cecília! respondeu a moça com um sorriso amargo.

Mas escuta, disse Cecília passando o braço pela cintura de sua prima e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãe é uma senhora muito severa mesmo para comigo.

Não te canses, prima; isto só serve para provar-me ainda mais o que já te confessei: nesta casa só tu me amas, os mais me desprezam.”83



Alencar na própria representação de D. Isabel incluiu o tratamento menos favorável que esta recebia em comparação com Ceci:

“— Pois bem, replicou Cecília, eu te amarei por todos; não te pedi já que me tratasses como irmã?

Sim! e isto me causou um prazer, que tu não imaginas. Se eu fosse tua irmã!...

E por que não hás de sê-lo? Quero que o sejas!

Para ti, que para ele...

Este ele foi murmurado dentro d´alma.”84

Ou mais à frente:

“— Vamos a ver que lindas coisas eles nos trazem!

Nos trazem? repetiu Isabel carregando sobre a palavra com um tom de melancolia.

Nos trazem, sim; porque eu encomendei um fio de pérolas para ti.”85



Ou ainda noutra passagem, onde se vê claramente que Ceci era tratada com filha e D. Isabel como alguém inferior:

Cecília ofereceu a fronte ao beijo de seu pai e de sua mãe, e fez uma graciosa mesura a seu irmão e a Álvaro.



Isabel tocou com os lábios a mão de seu tio, e curvou-se em face de D. Lauriana para receber uma bênção lançada com a dignidade e altivez de um abade.”86

Alencar referiu ainda o desejo de D. Isabel de ser branca ao contrário de Ceci que deseja ter uma pele mais morena:

“…Sabes que eu tenho inveja do teu moreninho, prima?

E eu daria a minha vida para ter a tua alvura, Cecília…”

D. Isabel era vista como uma desgraçada por ser mestiça:

Isabel era desgraçada desde a infância(…)87

Sabeis o que eu sou; uma pobre órfã que perdeu sua mãe muito cedo, e não conheceu seu pai. Tenho vivido da compaixão alheia; não me queixo, mas sofro. Filha de duas raças inimigas devia amar a ambas; entretanto minha mãe desgraçada fez-me odiar a uma, o desdém com que me tratam fez-me desprezar a outra.”88

Isabel é ainda no amor representada de uma forma interessante, ela ama, porém, não ama com a intensidade de Peri, ela ama de uma forma romântica, mas sem se exceder, ou até quase sem se expressar:

Isabel, a pobre menina, fitava sobre Álvaro os seus grandes olhos negros, cheios de amargura e de tristeza; sua alma parecia coar-se naquele raio luminoso e ir curvar-se aos pés do moço.”89



E mais à frente Alencar diz na obra:



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   19


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal