O guarani e Iracema



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O ROMANTISMO NO BRASIL


Para compreender o Romantismo no Brasil temos que apresentar os traços do Romantismo em geral. Romantismo significa o movimento que surge nos princípios do século XIX, que surge como uma reação contra uma visão restrita e elitista da arte, isto é, o Romantismo recusa que a literatura seja só para reis, aristocratas ou intelectuais. O Romantismo dá espaço à emoção e ao sentimento, contrariamente ao classicismo onde a razão é a prioridade máxima. Quanto aos temas abordados, destacam-se o afastamento claro da admiração cega pela produção greco-romana, e acima de tudo a da mitologia. O enfoque passa a ser então a Idade Média, período que ficou marcado por uma aproximação entre povo e os monarcas. Surgem então nas obras figuras de relevo histórico medieval, como cavaleiros, monges, cruzados, mouros, judeus. A forma como o espaço é abordado também se altera, o romântico prefere paisagens melancólicas, áridas, exóticas e selvagens. É muito comum verificar-se que o sujeito romântico fique associado à paisagem circundante, fazendo "um todo com ela e com ela identificando o seu estado de espírito"19. A natureza é também transformada em símbolos, que são retratados por vezes por figuras de estilo. Os românticos também exploram a sensibilidade de uma forma extrema, isto é, o romântico não se afasta da melancolia, pelo contrário, até sente-se atraído por ela. O Romantismo também assenta na exaltação do que é nacional e popular, tal deu uma popularidade a ideais de nacionalismo, e deu prestígio ao patriotismo, ao povo, à história e ao folclore. O Romantismo também está associado a valores religiosos, em diversas obras do Romantismo surgem referências à religião católica, no sentido de que o autor romântico "recupera o simbolismo bíblico e cristão e vibra dum inexplicável desejo de comunhão universal. Fundindo Deus e Natureza..."20. Os personagens têm sempre algo de cavaleiresco, ou heroico, seria o caso de grande coragem, ou fidelidade à pessoa amada. Para compreender o Romantismo no Brasil temos que olhar à sua situação política na altura em que surge o Romantismo. No início do século XIX o Brasil estava numa situação que era complexa, porque o Brasil era uma colónia de um país atrasado que era Portugal, e esse estatuto de colónia era humilhante para a elite brasileira. Devido à falta de investimento de Portugal, no início do século XIX, no Brasil não haviam universidades, tipografias ou periódicos, mas haviam homens cultos que tinham estudado na Europa. Este quadro alterou-se porque a Família Real Portuguesa veio para o Brasil em fuga das forças napoleónicas que invadiram Portugal21 . Por exemplo, no plano cultural, com a presença da Monarquia no Brasil foram possíveis várias melhorias das quais destaco: a autorização de tipografias a partir de 1808, a impressão dos primeiros livros, a importação de obras estrangeiras, a abertura de algumas escolas superiores e bibliotecas públicas de relevo e o surgimento dos primeiros jornais, dos quais se destaca o Correio Brasileirense. Cidades como o Rio de Janeiro transformaram-se com a presença do Príncipe Regente D. João e passaram a atrair gente de todo o lado, inclusivamente homens cultos, quer brasileiros, quer portugueses, quer ainda estrangeiros, o que teve significativa influência na mudança do Brasil. Este intercâmbio com o estrangeiro levou a alterações profundas na forma de pensar de muitos intelectuais. Ao nível da literatura este quadro de fundo tem influência determinante, por um lado, aos poucos vão desaparecendo as odes, cantos épicos, elegias, e alusões mitológicas, e em seu lugar, vão surgindo referências importantes na forma como se abordam os lugares, em especial a natureza, o que anuncia um novo sentimento de orgulho nacional, e até um patriotismo mais forte. O Brasil ao adquirir a sua independência há relativamente pouco tempo, era um país "novo" e isso permitiu que o Romantismo fosse o caminho ideal para exprimir a nação recente, isto é, o Romantismo:

"fornecia conceção e modelos que permitam afirmar o particularismo, e portanto, a identidade, em oposição à Metrópole, identificada com a tradição clássica. Assim surgiu algo de novo: a noção de que no Brasil havia uma produção literária com características próprias, que agora seria definida e descrita como justificativa da reivindicação de autonomia espiritual22

Ferdinand Denis (1798-1890), francês que viveu no Brasil alguns anos, teve a preocupação de escrever sobre o Brasil. Na sua obra "Résumé de l'histoire littéraire du Portugal suivi du résumé de l'histoire littéraire du Brésir (1826) Denis dá a base da teoria da literatura brasileira, e defende a tese de que um país com caraterísticas particulares como o Brasil, ao nível geográfico, étnico, social e histórico, deveria ter a sua própria literatura que retratasse a natureza e a sociedade brasileira. Para esse autor os autores brasileiros deveriam focar-se na sua geografia e no seu povo, em especial naqueles que representam a sua origem primitiva, isto é, o índio. Alguns autores responderam ainda com obediência aos padrões neoclássicos, porém, e para ultrapassar esta situação foi determinante o contributo de um grupo de jovens brasileiros que estavam em França, entre 1832 e 1838, e faziam parte do Institut Historique. Em 1836 surge então o facto que marca o Romantismo brasileiro, isto é, Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-82) publicou, o "Ensaio sobre a história da literatura brasileira", onde o autor defende que se deveria romper com a literatura clássica, e ainda apresentou o prefácio do livro que veio a publicar no mesmo ano Suspiros poéticos e saudades, sendo este livro que marca de facto a introdução do Romantismo no Brasil. Este Romantismo inicial foi como defende António Cândido, um Romantismo programático, que vai de 1836 a 1853 e o nome de referência do primeiro romantismo é Gonçalves de Magalhães com a sua obra A Confederação dos Tamoios (1856). Esta obra foi muito importante no panorama literário brasileiro e como diz Maria Aparecida Ribeiro o poema épico «A Confederação dos Tamoios», abordava a rebelião dos tamoios contra os portugueses, "primeiro de São Vicente e, depois, do Rio de Janeiro, durante a invasão francesa de 1555, e fazia de Aibiré, o chefe, símbolo da resistência.”23 , e a obra embora visasse representar o romantismo, acabou por representar o estilo clássico24, e isso gerou muitas críticas de José de Alencar através das suas «Cartas Sobre a Confederação dos Tamoios». No fundo a crítica a Gonçalves de Magalhães, resultou do facto do poema «A Confederação dos Tamoios» não apresentar os padrões literários expetáveis para a época25, mas foi a critica de Alencar a essa obra que o lançou no mundo literário, uma vez que Gonçalves de Magalhães era na altura chamado pelo Imperador o "chefe da literatura brasileira"26.



Segue-se a este Romantismo, o Romantismo egótico: a segunda geração romântica, que representa ainda uma geração mais próxima da essência do romantismo, isto é, que recusa a tradição e abraça os seus estados de espirito individuais. Um nome de referência deste segundo romantismo é por exemplo Luís Junqueira Freire (Bahia, 1832-1855) e das suas obras destaca-se Inspirações do Claustro (1855). Segue-se a terceira geração romântica, que se foca nos temas do abolicionismo, progresso, futuro, luta pela liberdade. Como autor de referência destaco António Frederico de Castro Alves (Bahia, 1847— Salvador, 1871), com o poemeto "O Poeta dos Escravos" e a fechar o Romantismo destaca-se o nome de Sousândrade (Guimarães, MA,1833- São Luís, 1902) com a obra "Obras Poéticas").
  1. O INDIANISMO


O índio, diz Emilio Carrey, apenas tem um amor no mundo que é a sua liberdade: mas uma liberdade completa, absoluta, sem limites: não como a nossa, mesquinha, limitada, uniformizada, despótica e sanguinária, encadeada por todos os músculos aos prejuízos, as leis, aos contratos, eis necessidades e as vaidades estúpidas da sociedade onde vivemos e que não passam de uma rede de ferro, que coarta o homem civilizado nas suas mais insignificantes ações, ou de um sudário imenso, que o abafa e aniquila. O índio é o poldro indómito e rebelde sem freio d'aço, nem áureas rédeas. O índio a ninguém reconhece e se submete, a não ser a seu capricho.”27

A questão da imagem do índio na literatura brasileira não pode deixar de ter em consideração algumas questões de fundo. A primeira é desde logo a seguinte: - qual a razão da escolha do índio para representar a origem do povo brasileiro? A resposta não é muito complexa. Como o Romantismo defende o nacionalismo e busca valorizar a pátria, e essa defesa da pátria e da ideia de Nação foi particularmente intensa no Brasil devido ao processo recente de independência, era natural procurar uma figura que representasse a origem da Nação brasileira. Ora, o Brasil, sendo um país com uma moldura humana formada por brancos, negros e indígenas, seria necessário decidir por uma das hipóteses possíveis para representar a origem do Brasil. O branco não poderia ser a representação da origem do Brasil, pois o branco representa o europeu e o colonizador, o negro também não poderia representar a origem do Brasil, porque o negro representava o continente africano, e ainda a escravatura, o que seria inaceitável para um país que estava a celebrar a sua liberdade política. Sendo assim restava o índio28. Mas o índio seria fácil de aceitar como o representante da origem do povo brasileiro? Considerando as hipóteses possíveis, só o índio poderia representar a origem do Brasil, mas considerando que a literatura brasileira queria ter uma projeção importante no ocidente, em especial porque a centralização da Monarquia no Brasil permitiu a projeção exterior da produção cultural brasileira, haveria que perguntar qual a imagem é que o índio tinha na Europa? Como escreve Rogério Guerra:

"muitos eruditos acreditavam que os índios eram criaturas míticas, habitantes de um Éden tropical e dotados de uma bondade natural. O homem primitivo não fora corrompido pelos avanços da civilização e era, portanto, moralmente superior ao europeu. As impressões sobre os índios eram baseadas em relados dos exploradores, homens rudes e incultos, e foram alimentadas por ruminações mentais daquilo que poderíamos designar de "antropologia de gabinete". Acreditava-se que os índios eram fortes e bem nutridos e facilmente chegavam aos 150 anos de idade; eles andavam nus como se fossem os primeiros habitantes da Terra, sem a mácula do Pecado Original. As árvores lhes proviam frutos saborosos e suculentos, os rios transbordavam de peixes e animais carnudos praticamente se ofereciam para o abate. O modo de vida tranquilo e a alimentação farta explicavam o sistema comunal perfeito; não havia espaço para a ganância, inveja e o acúmulo de bens materiais. A natureza provia tudo..."29

Diz o mesmo autor mais frente:

"Em contraste com tais ideias, muitos pensavam que os índios não pertenciam ao gênero humano e encontravam-se no meio do processo evolucionário (meio homem, meio macaco). Alguns acreditavam que o cruzamento entre o homem e o macaco ainda era possível e era esta a explicação para a crença na existência de seres humanos dotados de caudas vistosas, criaturas peludas e os orangutans ("homens da selva", de acordo com o idioma malaio). No que diz respeito aos nossos índios, alguns exploradores se encantaram com os hábitos dos "americanos", mas o modo de vida e o suposto apetite por came humana levaram muitos a acreditarem que os índios deveriam ser escravizados ou exterminados, pois não eram humanos. Essas ideias predominaram entre os rudes e incultos exploradores, de modo que o papa Paulo III promulgou uma bula (Sublimis Dei, 2 de Julho de 1537) estabelecendo que os índios eram seres humanos e deveriam ser expostos às Sagradas Escrituras. Até o "pai da independência" do Brasil, José Bonifácio, tinha um conceito nada lisonjeiro em relação aos nativos: eles eram apáticos, preguiçosos, melancólicos e tais vícios eram os resultados da amamentação prolongada dos indiozinhos — "não é muito fora de propósito o que alguns dizem, que entre o índio e o europeu do meio e norte da Europa há a mesma diferença que entre os índios e os monos grandes". Ora os índios são seres perfeitos, ora são criaturas bestiais..."30.

Na Europa reinava então uma diversidade de opiniões acerca dos índios, porém, havia suficiente base de intelectuais que defendiam a tese da bondade natural dos índios, pensemos nos casos de: Thomas More, Erasmus, Montaigne, John Locke e mais importante Jean Jacques Rousseau com o «mito do bom selvagem». Assim sendo a defesa do índio, foi trabalhada por diversos autores, como Basílio da Gama (1741-1795), que escreveu a obra Uraguai (1769) e onde se verificam referências importantes ao heroísmo do índio:

Quem podia esperar que uns índios rudes,


Sem disciplina, sem valor, sem armas,
Se atravessassem no caminho aos nossos,
E que lhes disputassem o terreno!”31


E mais tarde surgem outros autores que como diz Alfredo Bosi: "cantam no mesmo tom o herói pacífico, Tomás António Gonzaga, Silva Alvarenga e Santa Rita Durão"32. Mas mais importante foi Ferdinand Denis, que escreveu o Résumé de l'histoire Du Brésil et de la Guyane (1825), onde este autor defende que o Brasil era um país novo com uma energia própria que deveria ser transposta para a sua literatura. Essa energia seria em grande medida resultado da influência da natureza, que seria ao contrário do que defendiam outros autores, fonte de inspiração, e até de desenvolvimento do génio: "Cette nature si favorable au développement du génie..."33. Seria então neste contexto que os indígenas haveriam construído a sua história incrível, que nada deve em espetacularidade e fascínio à Grécia Antiga:

Le merveilleux, si nécessaire à la poésie, se trouvera dans les antiques coutumes de ces peuples comme dans la force incompréhensible d'une nature variant continuellement ses phénomènes: si cette nature de l'Amérique a plus de splendeur que celle de l'Europe, qu 'ont-ils donc d'inférieur aux héros des temps fabule de la Grèce, ces hommes "34

E sendo para o autor essa natureza e esses antepassados que deveriam inspirar os autores do Brasil:

"L 'Amérique, brillante de jeunesse, doit avoir des pensées neuves et énergiques comme elle; notre gloire littéraire ne peut toujours l'éclairer d'une leur qui s 'affaiblit en traversant les mers, et qui doit s 'évanouir complètent devant les inspirations primitives dune nation pleine d 'énergie. Dans ces belles contrées si favorisées de la nature, la pens& doit s'agrandir comme le spectacle que lui est offert; majestueuse grâce aux anciens chefs-dmuvre, elle doit rester indépendante, et ne chercher son guide que dans l'observation. L'Amérique enfim doit être livre dans sa poésie comme dans son gouvernement...”35.

Isso não significa que a França não desempenhe um papel de inspiração dos autores brasileiros, inspiração essa que leva Gonçalves Magalhães a dizer que: "hoje o Brasil é filho da civilização Francesa...”36, esse papel Denis quer manter, uma vez que a França queria manter um papel cultural importante num mundo onde a Inglaterra assumia a dianteira no plano do comércio.

Os brasileiros deveriam portanto concentrar-se na descrição da sua natureza e costumes, dando realce ao índio, o habitante primitivo e por isso mais autêntico, segundo Denis. Como modelos no passado, indicava os poemas de Basílio da Gama (1769) e Santa Rita Durão (1781), por terem assunto ligado ao indígenas; quanto à prática no presente, ele próprio deu o exemplo no livro Scènes de la nature sous les tropiques (1824), no qual inseriu o seu conto indianista "Les Machakalis", primeira produção de um gênero que seria considerado, a partir da sua doutrinação, o mais nacional e o mais legítimo...”37

Gonçalves de Magalhães, escreve na revista Niterói, revista com título indígena, o seu Ensaio Sobre a História da Literatura do Brasil (1836), e nesse ensaio o autor diz desde logo o seguinte em relação à influência portuguesa no Brasil:

"O Brasil descoberto em 1500, jazeo trez séculos esmagado de baixo da cadeira de ferro, em que se recostava um Governador colonial com todo o peso de sua insufficiencia, e de sua imbecilidade. Mis quinhas intençoens políticas, por não avançar outra cousa, leis absurdas, e iníquas dictavam , que o progresso da civilisação, e da industria entorpeciam. Os melhores gênios em flor morriam, faltos deste orvalho protector, que os desabrocha; um ferete ignomimoso de desapprovação, na fronte gravado do Brasileiro, indigno o tornava de altos e civis empregos. Para elle obstruídas, e feixadas estavam todas as portas, e estradas que á illustração o conduzir podiam; umas oporia ante seus passos se abria, era aporta do convento, do retiro, e do esquecimento "38.

O mesmo autor critica a forma como os portugueses olhavam para os nativos no Brasil: "Taes homens (os primeiros habitadores do Brasil) de seu lado para seus próprios filhos olhavam como para uma raça degenerada, inepta para tudo; fatal preconceito, que ainda hoje medra entre alguns Portuguezes. Quanto aos índios, esses perseguidos eram com ferro, e fogo, como se fossem animaes ferozes; nem elles em outra cathegoria eram considerados...”39. Defende ainda o autor que se não fosse a intervenção do Papa Paulo III o extermínio total poderia ter ocorrido. A situação era de tal forma má que o brasileiro: "como lançado em uma terra estrangeira, duvidoso em seu próprio paiz vagava, sem que dizer podesse: isto é meu, neste lugar nasci. Envergonhava-se de ser Brasileiro, e muitas vezes com o nome Portuguez se acobertava, para ao menos apparecer como um ente da espécie humana e poder alcançar um lugar em seu paiz... "40. Magalhães refere-se ainda muito negativamente à escravatura, considerando os malefícios que ela produz num povo. E depois o autor critica ainda os autores brasileiros por olharem com espanto e devoção para os estrangeiros, sem fazerem o mesmo para os seus autores brasileiros41, e como o Brasil recebeu influência tão significativa do estrangeiro a sua produção literária refletia-o, o que levou Magalhães a dizer que os: "Poetas Brasileiros se deixaram levar pelos seus cânticos, e olvidaram as simples imagens, que uma Natureza virgem..."42 Diz o autor mais à frente: "Alem de que, como o pássaro da fábula, despimos nossas plumas :para apavonar-mo-nos com antigas gallas, que não nos pertencem..."43. Mais à frente Magalhães refere-se à importância do lugar onde o sujeito poético se encontra para a produção da sua obra artística, e fala da imensa beleza do país que considera um autêntico Éden, que inspirou decerto os seus primeiros habitantes:

com tão felizes disposições da Natureza o Brasil necessariamente inspirar devera seus primeiros habitadores; os Brasileiros músicos, e poetas nascer deviam. Quem o duvida ? Elles o foram, ales ainda o são. Por alguns escriptos antigos sabemos que varias tribus indias pelo talento da da musica, eda Poesia se avantajavam. Entre todas, os Tam oyos, que mais perto das costas habitavam, eram também os mais talentosos; em suas festas , e per occasião de combates, inspirados pelas scenas, que os torneavam, guerreiros hymnos improvisavam, com que accendiam a coragem nas almas dos combatentes, ou cantavam em coros alternados de musica, e dansa hymnos herdados dos seus maiores. Diz mais frente o autor: "os Caités, e mais ainda os Tupinambás, que em paz veviam com os primeiros, e em costumes a el/es se assimilhavam , também cultivavam a poesia... "44.

Gonçalves de Magalhães, vinte anos mais tarde publica A confederação dos Tamoios (1856), há outros autores que se lhe seguem que são também relevantes, autores como Manuel Porto-Alegre (1806-79), com o livro Brasilianas (1863), este que cria "uma intimidade pitoresca com os costumes e a paisagem do interior do Brasil.”45

Outros autores acabaram por desprezar os indígenas do seu tempo, um exemplo desses autores foi Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-78), que escreveu a História geral do Brasil (2 volumes, 1854- 7), e que:

"tinha uma concepção anti-romântica do índio, que apresentou como selvagem cruel, desprovido de instituições e crenças humanizadoras, em relação ao qual se justificavam os métodos do colonizador. O seu ponto de vista acentuadamente conservador discrepava, ainda, por justificar sempre a política metropolitana, divergindo, por isso, do forte nativismo do tempo. Tanto assim, que minimizou, ou mesmo desqualificou os movimentos de inconformismo e rebeldia, tão caros à sensibilidade dos românticos liberais.46

Este autor foi criticado por Gonçalves de Magalhães no ensaio "Os indígenas do Brasil perante a história" (1859).

Vamos agora analisar a forma como é representado o índio nas obras O Guarani e em Iracema.


  1. O ÍNDIO EM O GUARANI

V.1 SINOPSE DE O GUARANI


A história em O Guarani, palavra que significa o indígena brasileiro47, ocorre no início do século XVII, nas florestas virgens do Rio de Janeiro. Aqui instalou-se D. Antônio de Mariz, numa fortaleza construída sobre uma rocha praticamente inacessível, e juntamente com D. Antônio de Mariz estava a sua família, D. Lauriana, sua esposa; D. Diogo e Cecília, filhos do casal; Isabel, filha do fidalgo com uma índia, mas oficialmente tida como sobrinha do aristocrata português. Com a família de D. Antônio vivia também Álvaro de Sá, um nobre da confiança de D. Antônio, que também ama Ceci e Loredano, um ex-frei cujo amor por Ceci representa muito mais uma obsessão e insanidade. O herói da obra é Peri, um índio da tribo dos goitacases, que está voluntariamente ao serviço do aristocrata português. Peri, em dada ocasião salvou Ceci de uma situação que lhe poderia ter sido fatal, e Peri desenvolveu um amor e afeto profundos por Ceci, o que o levou a deixar a sua tribo.

A situação na história complica-se quando D. Diogo, mata acidentalmente uma índia da tribo Aimorés. Após o incidente, Peri e D. Antônio sabem que os Aimorés vão procurar vingar-se. Ao mesmo tempo, Loredano organiza um motim entre os homens de D. Antônio, e prepara um plano para saquear a casa, assassinar a família de Ceci, rapta-la e fugir com ela. Infelizmente para Loredano, Peri, escondido num matagal, ouve o plano de Loredano e está decidido a salvar não só a Ceci, mas também toda a família, matando os traidores. Assim, começa uma batalha entre D. Antônio e Peri contra os traidores, bem como uma batalha entre os habitantes da fortaleza e os Aimorés, que, entretanto, começam a atacar a fortaleza.



Quando Peri percebe que D. Antônio não têm chance nenhuma contra a superioridade numérica dos Aimorés, ele decide sacrificar sua vida para salvar toda a família. Como Peri sabe que os Aimorés são antropófagos, toma veneno para envenenar todos os inimigos da tribo Aimorés que viessem a come-lo. Mesmo após D. Antônio exigir a Peri que não saia, Peri desobedece a D. Antônio e deixa a fortaleza sem contar a ninguém o seu plano. A tentativa de Peri de envenenar os Aimorés é, porém, atrapalhada por Álvaro, que a pedido de Ceci, foi enviado por D. Antônio para salvar a vida de Peri. Como o veneno começa a funcionar, Peri volta a floresta para obter um antídoto contra o veneno, antidoto que Peri encontra e toma. Entretanto, Álvaro é ferido na batalha e morre na fortaleza.

A dada altura todos que estão no pátio de D. Antônio sabem que a fortaleza será inevitavelmente conquistada pelos Aimorés. D. Antônio querendo salvar sua filha Ceci, vê que a única esperança de seu resgate é Peri. Mas, Peri deverá tornar-se cristão para ter a bênção de D. Antônio, e sendo assim Peri, por amor a Ceci, aceita ser batizado pelo próprio D. Antônio. Após o batismo, Peri embarca com Ceci em uma canoa e eles navegam para o Rio de Janeiro, observando pela distância a destruição da fortaleza. Depois de alguns dias, Ceci percebe que seu amor por Peri não é apenas fraterno, e ela decide ficar com Peri no deserto. No final do livro, ambos estão em perigo de vida durante uma tempestade, enquanto estão presos no topo de uma palmeira. No entanto, Peri, encorajado pelo amor, puxa com uma força animalesca a palmeira do chão para criar uma jangada segura na qual ambos navegam, ninguém sabe para onde.


V.2 PERI: O ÍNDIO-CAVALEIRO EM O GUARANI

V.2.1 PERFIL GERAL DE PERI: FÍSICO E PSICOLÓGICO


Como apresentei anteriormente na sinopse, Peri é uma figura central na obra O Guarani, e nesta fase vou apresentar o perfil físico e psicológico de Peri e a partir dai verificar globalmente como é representado Peri enquanto índio.

A figura de Peri só surge na obra O Guarani no quarto capitulo – “Caçada”, e este é apresentado como uma figura jovial: "Em pé, no meio do espaço que formava a grande abóbada de árvores, encostado a um velho tronco decepado pelo raio, via-se um Índio na flor da idade..."48. Para além da juventude, há traços de beleza exótica, que são próprias e exclusivas do indígena, bem como uma força física e inteligência que são percetíveis mesmo sem que o índio fale:

Sobre a alvura diáfana do algodão, a sua pele, cor do cobre, brilhava com reflexos dourados; os cabelos pretos cortados rentes, a tez lisa, os olhos grandes com os cantos exteriores erguidos para a fronte; a pupila negra, móbil, cintilante; a boca forte mas bem modelada e guarnecida de dentes alvos, davam ao rosto pouco oval a beleza inculta da graça, da força e da inteligência.”49



Já na mesma descrição inicial de Peri se verifica que o jovem é um guerreiro, veloz e firme:

"Era de alta estatura; tinha as mãos delicadas; a perna ágil e nervosa (…), apoiava-se sobre um pé pequeno, mas firme no andar e veloz na corrida. Segurava o arco e as flechas com a mão direita calda... "50

E logo nesta fase Alencar apresenta o heroísmo de Peri, apresentando-o como um jovem calmo perante o perigo de uma onça enorme, que estava a preparar-se para ataca-lo:

Era uma onça enorme (...) O índio, sorrindo e indolentemente encostado ao tronco seco, não perdia um só desses movimentos, e esperava o inimigo com a calma e serenidade do homem que contempla uma cena agradável: apenas a fixidade do olhar revelava um pensamento de defesa”51

Para além de calmo, Peri não quer ajuda de ninguém, quer capturar a onça sozinho, e transmite a sua mensagem com nobreza na sua expressão:



"... sem deixar a sua posição, nem tirar os olhos do animal, viu a banda que parara à sua direita. Estendeu o braço e fez com a mão um gesto de rei, que rei das florestas ele era, intimando aos cavaleiros que continuassem a sua marcha. Como, porém, o italiano, com o arcabuz em face, procurasse fazer a pontaria entre as folhas, o índio bateu com o pé no chão em sinal de impaciência, e exclamou apontando para o tigre, e levando a mão ao peito: — E meu!... meu só!"52

E Peri não só captura a onça, como também mata ainda uma "cutia tímida", que utiliza para provocar a onça quase morta com gotas de sangue da cutia na boca da onça53.

Estas atitudes de Peri, conforme indica Maria Ribeiro Aparecida: "mostram uma nobreza que independe de brasões. A lealdade e o gosto pela aventura são as suas marcas principais, embora não apareçam como fruto de uma educação cavaleiresca, mas como um traço da comunidade de onde ele provém"54. Mas, esta força do autor parece ser algo que vai para além do heroico, parece ser algo de "sobre-humano"55. Embora Maria Ribeiro Aparecida defenda quê o que Alencar procura é mostrar que as proezas de Peri resultam do facto de este ser um "selvagem em estado puro, ainda capaz de dominar a floresta"56 e de a compreender melhor do que ninguém:

"Por muito tempo seguiu as pegadas da índia pelo meio do mato com uma rapidez e uma certeza incríveis para quem não conhecer a facilidade com que os selvagens percebem os mais fracos vestígios que deixam as pisadas de um animal qualquer. Um ramo quebrado, o capim abatido, as folhas secas espalhadas e partidas, um galho que ainda se agita, as pérolas do orvalho desfeitas, são aos seus olhos exercitados o mesmo que uma linha tragada na floresta, e que eles seguem sem hesitação.”57

A mim parece-me que há algo mais, porque Peri não é apenas hábil perante a natureza, há no perfil de Peri algo de idealizado e poético, uma vez que como é reconhecido na obra quando já ninguém tem esperanças que Peri sobreviva, Ceci pensa o seguinte:



"Nunca Peri lhe havia dito uma coisa que se não realizasse; o que parecia impossível aos outros, tornava-se fácil para sua vontade firme e inabalável, para o poder sobre-humano, de que a força e a inteligência o revestia.”58

Há ainda no final da obra uma demonstração de força que provam a sua força sobre-humana quando este arranca uma palmeira do solo com a sua própria força muscular:

Três vezes os seus músculos de aço, estorcendo-se, inclinaram a haste robusta (…) Ambos, árvore e homem, embalançaram-se no seio das águas: a haste oscilou; as raízes desprenderam-se da terra já minada profundamente pela torrente.”59



Com estas passagens da obra parece claro que Peri é um produto de uma certa idealização romântica, isto é, é um ser sobre-humano.

Por outro lado, e como defende Alencar, Peri é um selvagem que é "um ideal que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça"60 . Peri estando tão próximo da natureza, não só a conhece melhor do que ninguém, identifica-se com a mesma, e causando espanto aos outros que não conseguem compreender como ele sobrevive aos perigos da floresta:





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