O guarani e Iracema



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VI.3.4 ANDIRA

Andira, é um velho e experiente guerreiro que tem uma conotação negativa na obra. Desde logo o nome "Andira" que significa morcego138, em tupi.

“— Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já bebêram cauim nas festas de Tupã, todos quantos guerreiros alumia agora a luz de seus olhos. Ele viu mais combates em sua vida, do que luas lhe despiram a fronte. Quanto crânio de potiguara escalpelou sua mão implacável, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabelo? E o velho Andira nunca temeu que o inimigo pisasse a terra de seus pais; mas alegrava-se quando ele vinha, e sentia com o faro da guerra a juventude renascer no corpo decrépito, como a árvore seca renasce com o sopro do inverno…”139

Vê-se que Andirá ao contrário de Irapuã, não pretende a guerra com os estrangeiros, porque a guerra só deve ocorrer em determinados contextos, porém, Irapuã vê o estrangeiro como algo que não é desejável ao bem comum do índio, e vendo o estrangeiro como invasor pretende a guerra, e chega mesma a ofender Andirá, chamando-o de cobarde:“— Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, fica, velho morcego…”140


VI.3.5 IRAPUÃ

Irapuã, nome que significa “abelha virulenta e brava”141, aparece na obra também como um guerreiro conhecido, e até temido em vários pontos das terras dos indígenas: “O nome de Irapuã voa mais longe que o goaná do lago, quando sente a chuva além das serras…”142. Irapuã é ainda um personagem conflituoso com o estrangeiro representado por Martim. Irapuã vê no estrangeiro um perigo para a sua comunidade, e ele quer preservar a vida do índio: “Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em nossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?”143. Irapuã é ainda visto como uma águia, mais no sentido de alguém que tudo vê, e que tem um desejo de rapina pela garça do rio, neste caso Iracema, que ele sabe que o desdenha, o que reforça o seu ódio por Martim: “Irapuã desceu de seu ninho de águia para seguir na várzea a garça do rio.”144. Irapuã nos seus momentos de ira é comparado sempre a animais ferozes, como onças, lobos ou mesmo cobras: “Irapuã soltou o bramido da onça atacada na furna…”145; “Bramiu Irapuã; o grito ronco troou nas arcas do peito, como o frêmito da sucuri na profundeza do rio”146. Destas descrições podemos depreender que Irapuã é extremamente forte, e ao ser comparado com uma sucuri, fica realçada a sua capacidade de matar e comer os seus opositores ou as suas presas. Veja-se que o próprio reforça o seu caráter violento ao assumir-se com canibal: “Quero beber-lhe o sangue todo: quando o sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araquém”147.Em suma Irapuã é comparado sempre com animais ferozes, fortes, assustadores, perigosos e outros que até podem ser considerados traiçoeiros ou mortíferos. Mas estes animais, embora matem com força e brutalidade as suas vítimas, estes fazem-no sem intenção maliciosa, isto é, fazem-no com base no seu instinto de sobrevivência. Isso leva-me a pensar que apesar de tudo Irapuã é movido pelo desejo de manter o seu país puro de um ponto de vista da sua identidade étnica e racial, bem como atrair a mulher mais bela que os seus olhos já haviam visto e procriar com ela a sua descendência. O que há em Irapuã não é talvez maldade, mas sim medo do desconhecido, que acorda o seu lado selvagem, que cria uma selvajaria em si que se torna absoluta com o ciúme e com a evidência de que a sua paixão não se irá concretizar por força do "invasor" branco. Irapuã não é então mau, mas sim um guerreiro, apegado à sua terra, que quer proteger a sua terra, a sua cultura, o seu povo, e até a sua amada, mesmo que amada de um amor não correspondido.






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