O guarani e Iracema


VI.2 IRACEMA: A ÍNDIA-HEROÍNA



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VI.2 IRACEMA: A ÍNDIA-HEROÍNA

VI.2.1 PERFIL GERAL DE IRACEMA: FÍSICO E PSICOLÓGICO


Iracema, cujo nome significa em guarani lábios de mel99, e também um anagrama da América, é a grande heroína da obra Iracema, e nesta obra mais do que em O Guarani, a natureza serve um propósito de comparação100, isso verifica-se logo ao inicio da obra quando Alencar descreve a fisionomia de Iracema: "Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque Como seu hálito perfumado. Mais rápida que a corça selvagem (...)"101

A perfeita sintonia entre Iracema e a natureza, é visível também pelo facto de esta se mover indetetável na floresta, e ainda noutros momentos pela relação quase de amizade com todas as aves:

Quando ele transmontou o vale e ia penetrar na mata, surgiu um vulto de Iracema. A virgem seguira o estrangeiro como a brisa sutil que resvala sem murmurejar por entre a ramagem…”102

Iracema passou entre as árvores, silenciosa como uma sombra; seu olhar cintilante coava entre as folhas, qual frouxo raio de estrelas; ela escutava o silêncio profundo da noite e aspirava as auras sutis que aflavam…”103

Iracema é associada à luz, e sendo assim torna-se simbolicamente algo de bom na memória de Martim:

Iracema parou em face do jovem guerreiro:

E a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do estrangeiro? Martim pousou brandos olhos na face da virgem:

Não, filha de Araquém: tua presença alegra, como a luz da manhã.”104

Os movimentos de Iracema são associados à natureza e a própria fala é associada à natureza:

A filha do Pajé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a haste frágil foi abalada; rorejam do espato as lágrimas da chuva, e os leques ciciam brandamente”105

“…o coração lhe tremia nos lábios, como gota de orvalho nas folhas do bambu”106

O próprio Martim ao dirigir-se a Iracema associa-a a natureza:

-Teu hóspede fica, virgem dos olhos negros: ele fica para ver abrir em tuas faces a flor da alegria, e para colher, como a abelha, o mel de teus lábios.”107

Parece que Alencar em Iracema, mais do que comparar a sua heroína Iracema à bela natureza do Brasil, quis fundir a natureza com Iracema108. Tal verifica-se em inúmeros pontos da obra, mas logo ao início essa fusão parece ser claríssima


Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto. Iracema saiu do banho: o aljôfar d'água ainda a roreja, como A doce mangaba que corou em manhã de chuva.”109

Veja-se que a árvore oiticica, que é uma planta da família da roseira, cria a sombra para o seu corpo, uma sombra fresca como o "orvalho da noite", portanto uma sombra prazerosa num país quente como o Brasil. “Os ramos da acácia silvestre, estendem as flores sobre os seus cabelos húmidos…”, veja-se que a acácia é da família das mimosáceas, e estas por sua vez estão associadas à ideia de delicadeza, suavidade, brandura, sensibilidade, meiga, dócil e até o substantivo masculino de mimoso significa aquele que é feliz ou favorecido pela sorte. No fundo, os pássaros como que reparando que ela descansa ameigam os cânticos como que não querendo perturba-la no seu descanso. Quando Iracema sai do banho, a água é como que pérolas no seu corpo que escorrem pelo mesmo, sendo que o autor ainda reforça a comparação através da alusão à mangaba que é uma fruta com uma tonalidade amarela, mas que brilha.

Em termos de comparações Alencar preferiu comparar Iracema com o colibri, que é mais conhecido como beija-flor, essa ave é de uma beleza notável e é considerada como uma ave formosa que se alimenta de algo doce, o néctar das flores. Alencar compara Iracema com o colibri por exemplo no seguinte caso: “A voz maviosa, débil como sussurro de colibri, ressoa no silêncio...”110 Nesse caso mais uma vez a voz de Iracema se apresenta levíssima, suave, quase como o mero murmurar de um pássaro ligeiro. Algo que pode ser associado até à inocência de Iracema. E que o autor não diz apenas que a voz é sussurrada, mas sim que é débil, mas porém, maviosa, isto é, agradável, suave, doce.

Noutra das comparações verifica-se ainda a liberdade de Iracema, que só se limita por força do amor que a leva à companhia dócil do seu amado companheiro: “A juruti, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as asas, e voa para conchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos braços do guerreiro…”.

Há ainda referências que reforçam por um lado a imagem dos outros índios guerreiros comparativamente a Iracema:“irapuã desceu de seu ninho de águia para seguir na várzea a garça do rio.”111Como se vê Iracema é vista como a garça, esta que é uma ave ligeira, que voa rapidamente, e tem também uma beleza invulgar, não é por acaso que quando se usa em poesia a referência "olhos de garça", se estejam a indicar olhos verdes, ou ainda quando se faz referência a "colo de graça" se esteja a indicar um pescoço alto e bem modelado112.

A comparação também com a andorinha não é feita sem uma intenção, isto é, a Iracema é como a andorinha voa como a andorinha em busca de uma nova família, deixando para trás toda a sua tribo.

Quatro luas tinham alumiado o céu depois que Iracema deixara os campos do Ipu; e três depois que ela habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo. A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha que abandona o ninho de seus pais e emigra para fabricar novo ninho no país onde começa a estação das flores.”113

Esta associação à natureza também se verifica em casos de tristeza:

A ará, pousada no jirau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos. Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos tabajaras, Iracema a esqueceu. Os róseos lábios da virgem não se abriram mais para que ela colhesse entre eles a polpa da fruta ou a papa do milho verde; nem a doce mão a afagara uma só vez, alisando a dourada penugem da cabeça. Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se voltava para ela, nem o ouvido parecia escutar a voz da companheira e amiga, que dantes tão suave era ao seu coração. Triste dela! A gente tupi a chamava jandaia, porque sempre alegre estrugia os campos com seu canto fremente. Mas agora, triste e muda, desdenhada de sua senhora, não parecia mais a linda jandaia, e sim o feio urutau que somente sabe gemer. O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso das eminências. A surdina merencória da tarde, precedendo o silêncio da noite, começava de velar os crebros rumores do campo. Uma ave noturna, talvez iludida com a sombra mais espessa do bosque, desatou o estrídulo.”114

Perante a melancolia de Iracema, o próprio sol quase que nem ousa raiar nos céus, praticamente «espreita» timidamente, iluminando só os cumes das montanhas. O resto, move-se sob o som abafado da melancolia que engole a tarde, e traz consigo a noite silenciosa. O ambiente é de tal forma pesado e sombrio que as árvores noturnas reagem com gorjeios ruidosos.



VI.2.2 IRACEMA E O AMOR ROMÂNTICO


O amor de Iracema por Martim é de um sentimentalismo romântico e heroico. Por um lado, porque Iracema é virgem e tem que manter a virgindade para proteger o seu povo e o próprio Martim, mas essa função não a inibe de se entregar a Martim: “— Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o mistério do sonho. Sua mão fabrica para o Pajé a bebida de Tupã.”115; “— Guerreiro branco, Iracema é filha do Pajé, e guarda o segredo da jurema. O guerreiro que possuisse a virgem de Tupã morreria. — E Iracema? — Pois que tu morrias!...”116. De um ponto de vista simbólico o amor de Iracema, parece ser o resultado de uma atração fatal: “O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe...”117. Cásio Silveira defende que esta comparação de Martim com uma serpente é algo com grande significado, uma vez que a serpente “na cultura cristã é quem provoca a quebra do paraíso terrestre, é ela que tira os homens do Jardim do Éden, o que o Martim, o colonizador, faz, mesmo que involuntariamente118. A atração de Iracema por Martim é fatal como é reconhecido também nas seguintes passagens: “— O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba: tem na doçura o veneno”119; “os lábios da virgem de Tupã amargam e doem como o espinho da jurema”120. Iracema vive um amor que é mais uma situação de dependência, veja-se que Iracema reconhece que “— A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace”121; “— A tristeza escurece a vista de Iracema, e amarga seu lábio. Mas a alegria há de voltar à alma da esposa, como volta à árvore a verde rama”122 , sendo assim, Iracema precisa da rama que a abrigue e do tronco que a enlace para ser formosa, o que significa que há uma certa relação de dependência entre a rama e o tronco, o que me parece que é o amor e a pessoa amada, neste caso Martim. Daí que quando o amor entre Iracema e Martim não se realiza esta não possa sobreviver: “— Como a estrela que só brilha de noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os olhos do esposo podem apagar a sombra em seu rosto.”123; “— Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu fruto.”124 O seu amor é um amor de dor, daí que o filho que resulta desse amor tenha recebido o nome de Moacir, isto é, aquele que é nascido do sofrimento. “— Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento.”125

VI.3 OUTROS ÍNDIOS EM IRACEMA





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