O fantástico mistério de Feiurinha Pedro Bandeira



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O fantástico mistério de Feiurinha

Pedro Bandeira

Ilustrações Avelino Guedes

Prémio Jabuti/1986 - melhor texto infantil

O texto deste livro foi também escrito pelo Autor na forma de peça teatral. Os colégios ou grupos de teatro interessados na montagem da peça devem pedir autorização à SBAT - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, por carta, neste endereço: Avenida Almirante Barroso, 97 - 3°andar, CEP 20031-005 - Rio de Janeiro - RJ. O texto da peça será enviado posteriormente pelo Autor aos grupos solicitantes, através da SBAT.

Copyright (c) Pedro Bandeira, 1986

Todos os direitos de edição reservados à EDITORA FTD S.A.

Matriz: Rua Rui Barbosa, 156 (Bela Vista) São Paulo - SP

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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Bandeira, Pedro, 1942-

O fantástico mistério de Feiurinha / Pedro Bandeira; ilustrações Avelino Guedes. - 23. ed - São Paulo : FTD, 1999 - (Coleção terceiras histórias)

1. Literatura infanto-juvenil

índices para catálogo sistemático:

1. Literatura infanto-juvenil 2 Literatura juvenil

CAPÍTULO ZERO

CAPÍTULO ZERO E MEIO

CAPÍTULO ZERO E TRÊS QUARTOS

CAPÍTULO ZERO, TRÊS QUARTOS E MAIS UM POUQUINHO

CAPÍTULO ZERO, TRÊS QUARTOS E OUTRO POUQUINHO

CAPÍTULO ZERO E CINCO SEXTOS

CAPÍTULO ZERO, CINCO SEXTOS E TANTO

CAPÍTULO ZERO, QUASE UM

CAPÍTULO ZERO, MAIS QUE QUASE UM

CAPÍTULO ZERO, QUASE CAINDO NO UM

CAPÍTULO UM

"... a obra literária é um objeto social. Para que ela exista é preciso que alguém a escreva e outro alguém a leia"

Mansa Lajolo

Para a Marisa, por tudo que ela já criou, e por tudo que ainda há de criar

CAPÍTULO ZERO

difícil explicar direito como é que eu fui me meter nessa história. Naquela época, eu era um autor iniciante, com muitas idéias na cabeça e poucas no papel. Observava as pessoas, os bichos e a mim mesmo, tentando entender tudo e a tudo transformar em histórias que tivessem verdade, que tivessem calor, que tivessem graça.

Por isso, é difícil entender como é que eu fui me meter num embrulho que nada tinha a ver com tudo que eu observava. Só sei que me meti e não soube como cair fora da confusão.

O engraçado é que eu me meti no meio da confusão, mas não no meio de história nenhuma. Eu me meti no fim de todas as histórias.

Você se lembra, não é? Quase todas as histórias antigas que você leu terminavam dizendo que a heroína se casava com o príncipe encantado e pronto. Iam viver felizes para sempre e estava acabado.

Mas o que significa "viver feliz para sempre"? Significa casar, ter filhos, engordar e reunir a família no domingo pra comer macarronada? Quer dizer que a felicidade é não viver mais nenhuma aventura? Nada mais de anõezinhos, maçãs envenenadas e sapatinhos de cristal? Como é que alguém pode viver feliz sem aventuras?

Ah, não pode ser! Não é possível que heróis e heroínas tão sensacionais tenham passado o resto da vida assistindo ao tempo passar feito novela de televisão. É preciso saber o que acontece depois do fim.

Pois fique sabendo que, mesmo sem querer, eu tive essa oportunidade. E é isso que eu quero contar para você.

Quando aconteceu? Também é difícil responder a essa pergunta. Quando aconteceram as histórias de fadas e princesas? Olha, eu acho que todas começaram ao mesmo tempo, porque todas começam assim:

Era uma vez, há muitos, muitos anos atrás...

Está vendo? Nem um muito a mais, nem um muito a menos. Assim, fica provado que todas as histórias começaram ao mesmo tempo. E, se todas começaram ao mesmo tempo, todas terminaram também mais ou menos ao mesmo tempo, não é?

Pois foi justamente alguns anos depois de há muitos, muitos anos atrás que esta história começou, ou que todas as outras histórias recomeçaram. Comigo no meio...

Estava eu sozinho no meu pequeno apartamento, extremamente ocupado apontando um lápis quando...

Naturalmente você sabe que os escritores, quando estão sem inspiração, sentem inadiável necessidade de apontar lápis, limpar os tipos da máquina, verificar se há papel suficiente na gaveta e ver se a empregada deixou sobrar alguma coisa na geladeira, não é?

Então, como eu ia dizendo, estava extremamente ocupado com minha literatura quando me entrou pelo apartamento um sujeito esquisitíssimo. Vestia uma calça de malha justa sobre as pernas, um blusão largo de veludo, sapatos em ponta e um boné com uma longa pena. Pareceria o Robin Hood se suas roupas fossem verdes, e não vermelhas e amarelas.

"O embaixador da Espanha!", pensei logo.

Não era. Era Caio, o lacaio, que viera para me encarregar de uma estranha missão.

Agora estou novamente sozinho com a máquina de escrever à frente. Os tipos da máquina estão limpos, os lápis estão apontados, há papel de sobra na gaveta e Jerusa, a velha empregada, não deixou sobrar nada na geladeira. Estou, portanto, preparado para começar a escrever a história da Feiurinha.

Antes, porém, preciso contar a você como é que eu me meti nessa enrascada e como é que eu reconstruí a história da Feiurinha.

CAPÍTULO ZERO E MEIO

A uma vez, há muitos, muitos anos atrás mais vinte e cinco anos, uma senhora de cabelos negros como o ébano, onde já começavam a aparecer alguns fios brancos como a neve, bem da cor da pele dela, que também era branca como a neve.

O nome da tal senhora era Branca Encantado. Nos tempos de solteira, o sobrenome dela era "De Neve", mas, depois que se casou com o Príncipe Encantado, Dona Branca passou a usar o sobrenome do marido.

Dona Branca estava com uma barriga enorme, esperando o seu sétimo filho, para ser afilhado do sétimo anãozinho, que vivia reclamando pelo fato de todos os outros anões já serem padrinhos de filhos de Dona Branca e faltar um para ser afilhado dele.

Dali a uma semana ia fazer vinte e cinco anos ue Dona Branca havia se casado para ser feliz para sempre. E, como você sabe, quem fica vinte e cinco anos casado com a mesma pessoa faz uma bruta festa para comemorar as Bodas de Prata.

Feliz com tudo isso, Dona Branca tricotava um casaquinho de lã para o principezinho que ia nascer, sozinha no grande salão do castelo, forrado de mármore cor-de-rosa e veludo vermelho. Os filhos maiores estavam na escola e os menores com as amas. O Príncipe Encantado, como sempre, estava caçando.

Foi aí que a grande porta do salão abriu-se e entrou Caio, o lacaio, anunciando:

- Alteza, a Senhorita Vermelho acaba de chegar ao castelo e pede...

- Chapeuzinho?! - interrompeu Dona Branca. - Que ótimo! Peça para ela entrar. Vamos, Caio, rápido!

Caio, o lacaio, inclinou-se numa reverência e foi buscar a visitante.

Chapeuzinho Vermelho era a mais solteira das amigas de Dona Branca e uma das poucas que não era princesa. A história dela tinha terminado dizendo que ela ia viver feliz para sempre ao lado da Vovozinha, mas não falava em nenhum príncipe encantado. Por isso, Chapeuzinho ficou solteirona e encalhada ao lado de uma velha cada vez mais caduca.

Dona Chapeuzinho entrou com a cestinha pendurada no braço e com o capuz vermelho na cabeça. Dona Branca correu para abraçar a amiga.

- Querida! Há quanto tempo! Como vai a Vovozinha?

- Branca, querida!

As duas deram-se três beijinhos, um numa face e dois na outra, porque o terceiro era para ver se Chapeuzinho desencalhava.

- Minha amiga Branca! Por que você tem esses olhos tão grandes?

- Ora, deixe de besteira, Chapéu!

- Ahn... quer dizer... desculpe, Branca. É que eu sempre me distraio... - atrapalhou-se toda a Chapeuzinho. - E que eu estou sempre pensando na minha história. Ela é tão linda, com o Lobo Mau, tão terrível, e o Caçador, tão valente...

- Até que a sua história é passável, Chapéu - comentou dona Branca, meio despeitada. - Mas linda mesmo é a minha, que tem espelho mágico, maçã envenenada, bruxa malvada, anõezinhos e até caçador generoso...

- Questão de gosto, querida...

Dona chapeuzinho sentou-se confortavelmente, colocou a cestinha ao lado dela, não largava aquela bendita cestinha, tirou um sanduíche de mortadela e pois-se a comer (aliás, Dona Chapeuzinho tinha engodado muito desde aquela aventura com o Lobo mau).

- Aceita, um brioche? - ofereceu a comilona, de boca cheia.

- Não; obrigada.

- Quer uma maçã?

- Não! Eu detesto maçã!

Dona Chapeuzinho acabou o lanche e olhou para a amiga com aquele olhar que as comadres usam quando estão conversando por cima do muro do quintaal.

- Menina, você não imagina o que aconteceu... DonaBranca arregalou os olhos negros como ébano:

- Aconteceu? O que foi que aconteceu? Ah, vamos, conta logo! Sou doida por uma fofoca. Vai ver foi aquela sirigaita da Gata que...

- Branca, Branca! - censurou Chapeuzinho, balançando a cabeça. -Você sabe que Cinderela Encantado detesta ser chamada de Gata Borralheira...

- Ah, deixa pra lá. Continue!

Olhando em volta, para ver se ninguém a ouvia, Chapeuzinho perguntou:

- O Príncipe está no castelo?

- O Príncipe? Que Príncipe?

- O Príncipe Encantado. Seu marido.

- Ah, não está não. Foi à caça.

- Pois então vamos ao assunto. Eu falei com Rapunzel Encantado e ela me disse que o Príncipe...

- Príncipe? Que Príncipe?

- O Príncipe Encantado. Marido da Rapunzel.

- Ah...


- Pois é. O marido da Rapunzel encontrou-se com o Príncipe...

- O Príncipe? Que Príncipe?

- O Príncipe Encantado. Marido da Cinderela.

- Ah...


A família Encantado tinha fornecido muitos príncipes para casar com as heroínas dos contos de fada. Por isso, quase todas as princesas tinham o mesmo sobrenome e eram cunhadas entre si. E claro que isso trazia uma certa confusão.

- Resumindo: o Príncipe da Rapunzel encontrou-se com o Príncipe da Cinderela, que tinha passado no castelo da Feiurinha...

- Feiurinha! - exclamou Dona Branca. - Há quanto tempo não vejo minha querida Feiurinha Encantado...

- Pois é exatamente essa a fofoca: há muito tempo ninguém vê a Feiurinha!

- Ela desapareceu?

- Isso mesmo. O Príncipe deve estar desconsolado...

- Que Príncipe?

- O Príncipe Encantado. Marido da Feiurinha.

- Ah... - Dona Branca interpretou à sua maneira o desaparecimento da Feiurinha. - Será... será que ela abandonou o marido?

20

- E fugiu com outro? Acho difícil. A essa altura não existe mais nenhum Príncipe Encantado solteiro. Eu que o diga! Estou cansada de ser solteirona e agüentar aquela Vovó caduca. Tenho procurado feito louca, mas só encontro príncipe casado...



Dona Branca raciocinou:

- Então, se Feiurinha desapareceu, isso significa que ela pode estar correndo perigo. E, se isso for verdade, será a primeira vez que uma de nós corre perigo desde que casamos para sermos felizes para sempre!

- Menos eu... - suspirou Dona Chapeuzinho. Dona Branca jogou para trás os cabelos cor de ébano e tomou uma decisão:

- Vou convocar uma reunião de todas nós!

- Boa idéia! Chame os Príncipes também!

- Os Príncipes não adianta chamar. Estão todos gordos e passam a vida caçando. Além disso, príncipe de história de fada não serve para nada. A gente tem de se virar sozinha a história inteira, passar por mil perigos, enquanto eles só aparecem no final para o casamento.

Chapeuzinho concordou:

- E... Os únicos decididos são os caçadores. Eu devia ter casado com o Caçador que matou o Lobo...

Dona Branca tocou a campainha de ouro. Imediatamente, Caio, o lacaio, estava à sua frente.

- Às ordens, Princesa.

- Caio, monte nosso melhor cavalo. Corra, voe e chame todas as minhas cunhadas de todos os reinos encantados para uma reunião aqui no castelo. Depressa!

CAPÍTULO ZERO E TRÊS QUARTOS

m histórias de fada, esse negócio de tempo não tem a mínima importância. Por isso, em um minuto as princesas já estavam chegando ao castelo de Dona Branca Encantado. A primeira a chegar foi...

- A Senhora Princesa Cinderela Encantado! - anunciou o lacaio Caio, que também já estava de volta de sua cavalgada de um minuto a todos os reinos encantados.

- Ai, ai, ui, ui...

Dona Cinderela Encantado entrou mancando e logo procurou uma cadeira. Tirou os sapatos e soltou um uf de alívio, enquanto mexia os dedinhos dos pés para reativar-lhes a circulação.

- Esses sapatinhos de cristal estão me matando! Já estou cheia de calos...

Dona Chapeuzinho olhou com inveja para os sapatinhos enquanto Dona

Branca vinha dar as boas-vindas à cunhada.

- Cinderela, que bom que você veio! Puxa, você também está esperando nenê?

- Estou. Para o mês que vem.

- Que coincidência! O meu também é para o mês que vem...

- Pois é. Na próxima semana eu e o Príncipe Encantado vamos fazer Bodas de Prata. O nenê vai nascer um pouco depois.

- Outra coincidência! Eu também vou fazer Bodas de Prata na semana que vem!

- Só eu que não vou fazer boda nenhuma... - suspirou Dona Chapeuzinho.

Dona Cinderela ajeitou os cabelos louros que ajudavam a esconder os fios brancos. No olhar, tinha uma expressão provocativa.

- E... Infelizmente em nossas histórias tem uma ou outra coincidência...

- Espere aí! - protestou Dona Branca, aceitando a provocação. - Não me venha comparar as bobagens da sua história com as emoções da minha. Na minha história...

- Tem muito mau gosto! - cortou Dona Cinderela. - Onde já se viu ficar morta anos e anos ao relento! Aí vem o Príncipe Encantado dar um beijo numa defunta que está morta e esticada há anos e anos! E depois, se muitos e muitos anos se passaram, o teu príncipe já devia estar velho como uma múmia. Até que combinaria, não é? Uma múmia beijando a outra... Que mau gosto!

- Calma, meninas... - interveio Dona Chapeuzinho.

- Mau gosto? - Dona Branca ficou furiosa. - Ora, você não sabe que, nos contos de fada, anos e anos passam em um minuto? Que é só virar a página?

- Mesmo assim! - continuou Dona Cinderela. - Beijar um defunto na boca é de muito mau gosto. Parece até história de vampiro...

- Ah, é, queridinha? - Dona Branca já estava de pé e o sangue avermelhava- lhe as faces brancas como a neve. - E a sua história, hein? Quer mau gosto maior do que o Príncipe ficar experimentando o sapatinho de cristal no chulé de todas as mulheres do reino? Se ele estava tãããão apaixonado, não era capaz de reconhecer a dona do chulé certo simplesmente olhando pra sua cara?

- É que o Príncipe é meio míope, coitadinho... - defendeu-se Dona Cinderela.

- Quem é que é míope? - ofendeu-se Dona Branca. - O Príncipe Encantado, meu marido?

- Não, sua idiota! O Príncipe Encantado, meu marido!

- Tinha de ser míope mesmo, pra casar com uma sirigaita como você!

- Branca! Cinderela! - acudiu aflita Dona Chapeuzinho. - Não briguem, meninas!

Dona Cinderela levantou-se, ofendidíssima.

- Você... você não é branca como a neve coisa nenhuma! Você é branca como um defunto fedorento!

Dona Branca avançou fuzilando de ódio, disposta a dar um pisão no pé descalço de Cinderela.

- Sua... sua Gata Borralheira!

Aquela era a maior ofensa que alguém poderia fazer a Cinderela:

- O quê?! Repita isso!

- Repito sim: Gata Borralheira!

- Defunta!

- Borralheiríssima!

- Vampira!

- Borralheirona toda borrada!

- Cadavérica!

- Calma, meninas!

Como você vê, a discussão já não estava mais naquele nível elegante que se espera de duas senhoras princesas de fino trato. Dona Cinderela já empunhava o sapatinho de cristal, disposta a dar uma sapatada na amiga. Por sorte, naquele momento apareceu o lacaio Caio, anunciando:

- A Senhora Princesa Rapunzel Encantado!

Quando Dona Rapunzel Encantado entrou no salão de mármore e veludo arrastando cinco metros de tranças, as princesas já estavam recompostas e nem parecia que tinham discutido ferozmente ainda há pouco. Somente os olhos de Dona Chapeuzinho pulavam de uma para outra temendo nova explosão de fúria entre as amigas.

Dona Rapunzel também entrou se lamentando. Trazia uma bolsa de gelo que comprimia contra a testa o tempo todo.

- Não agüento mais de dor de cabeça! Ai, que dor de cabeça! O Príncipe...

- O Príncipe? Que Príncipe? - perguntou Dona Branca.

- O Príncipe Encantado, meu marido. - Ah...

- Pois é por causa dele que eu estou com essa dor de cabeça. Toda noite ele esquece a chave do castelo e cisma de entrar em casa subindo pelas minhas tranças. Não agüento mais de dor de cabeça! O Príncipe já não é tão magrinho como antigamente...

Chapeuzinho suspirou, pegando suas pequeninas tranças:

- Quem me dera eu tivesse um príncipe para subir pelas minhas tranças! Quem sabe, o Pequeno Polegar...

Dona Rapunzel sentou-se e colocou a bolsa de gelo sobre a cabeça como se fosse um chapéu. - Mas o pior é o ciúme dele. Vive brigando com migo porque diz que eu ando jogando as tranças pra todo mundo...

- Coitadinha...

- Coitadinha...

- Coitadinha...

- E logo agora que eu e ele vamos fazer Bodas de Prata...

- Que coincidência!

- Que coincidência!

estou esperando nené para o mês que vem!

- Que coincidência!

- Que coincidência!

- Ai, ai! Só eu não faço boda nenhuma e não espero nenê nenhum...

- Ui! Vê se não pisa na minha trança! - gritou Dona Rapunzel.

- Desculpe... - pediu Chapeuzinho.

Dona Rapunzel virou-se para Dona Branca e perguntou:

- Mas, Branca, afinal de contas, por que você mandou me chamar com tanta pressa?

- Ah, Rapunzel, você nem calcula! Imagine que... Nesse instante, a enorme porta do salão abria-se novamente e o lacaio Caio anunciou:

- A Senhora Princesa Bela Adormecida Encantado! E a Senhora Princesa Rosaflor Delia Moura Torta Encantado!

- Mais duas grávidas! - exclamou Chapeuzinho Vermelho. - E aposto que também estão para fazer Bodas de Prata...

As duas espantaram-se e fizeram a mesma pergunta:

- Estou mesmo! Como adivinhou?

- Intuição, queridinhas, intuição...

Dona Branca, como boa anfitriã, adiantou-se educadamente:

- Entrem queridas. Que bom que vocês vieram logo!

Dona Bela Adormecida Encantado entrou bocejando e logo procurou a poltrona mais acolhedora, ajeitando-se confortavelmente. Dona Rosaflor Delia Moura Torta Encantado, porém, não estava para visitas sociais:

- Branca, que história é essa de me chamar com tanta urgência? Então você não sabe que eu vou fazer Bodas de Prata e que ainda por cima estou esperando nenê?

-Todas estamos, queridinha, todas estamos... - disse Cinderela.

- Ai, ai, menos eu... - suspirou Dona Chapeuzinho, comendo mais um brioche.

- Afinal, de que se trata? - insistiu Dona Rosaflor.

Antes que Dona Branca pudesse responder, mais uma vez entrou Caio, o lacaio, anunciando:

- A Senhora Princesa Bela-Fera Encantado! Você adivinhou. Dona Bela-Fera Encantado também estava esperando nené e também ia fazer Bodas de Prata. Só que também estava bocejando.

- Uááá... Que sono!

Dona Branca fez uma cara penalizada.

- Ah, querida Bela-Fera! Meu lacaio tirou você da cama... Só que bocejos não combinam bem com a sua história. Combinam melhor com a da nossa amiga ali, a Bela Adormecida...

- E que eu não consegui dormir a noite toda. Ontem foi noite de lua cheia...

- E o que é que tem isso?

- Nessas ocasiões, meu marido passa a noite toda uivando pra lua. Vocês sabem, não é? Ele tem saudades do seu tempo de Fera...

Dona Rosaflor Delia Moura Torta Encantado deu sua alfinetada:

- Desse jeito, o seu Príncipe vai acabar virando lobisomem...

Bela-Fera fuzilou-a com o olhar:

- Ele era lobisomem, sua fofoqueira! Fui eu quem o fez voltar a ser príncipe!

Rosaflor continuou com a provocação:

- Aquilo? Príncipe? Não me faça rir!

- Ah, é? Quem é você para falar da minha história? Logo você, que casou com um príncipe que não via a menor diferença entre você e a Moura Torta!

- Mas, no fim, eu casei com um Príncipe de verdade, e não com um lobisomem...

- Bruxa! Horrorosa!

- Mulher de lobisomem!

Pois é. Até as distintas princesas perdem a classe às vezes. Na verdade, as heroínas dos contos de fada tinham um pouquinho de ciúmes das histórias umas das outras. Nada grave. Nada que não pudesse ser resolvido com um bom argumento.

- Calem a boca, suas fofoqueiras! - argumentou Dona Branca acalmando a situação. - Estamos com um problema grave nas mãos. Feiurinha desapareceu!

- Como?!


Todas olharam para Dona Branca espantadíssimas. Todas menos Dona Chapeuzinho, que já sabia da história, e Dona Bela Adormecida Encantado, que já dormia a sono solto na poltrona.

- Feiurinha desapareceu? - Dona Rosaflor Delia Moura Torta Encantado estava de olhos arregalados. - Mas isso é impossível!

- O que é que houve? - perguntou Bela-Fera, muito preocupada.

- Não sei - respondeu Dona Branca, desalentadamente. - Só sei que ela desapareceu bem desaparecida e pronto.

Cinderela ficou penalizadíssima:

- Que tristeza!

-Tristeza? - lembrou Dona Branca. - É muito mais do que isso. É um problema enorme para todas nós que terminamos nossas histórias com a promessa de vivermos felizes para sempre. Se algum mal aconteceu com Feiurinha, isso significa que a felicidade eterna de qualquer uma de nós pode ser destruída de uma hora para outra! Se o encanto foi quebrado para uma, pode ter sido quebrado também para todas nós!

Pela primeira vez em uma reunião entre aquelas princesas faladeiras, fez-se um longo silêncio. Todas entreolharam-se, apreensivas. Todas, menos Dona Bela Adormecida, que continuava adormecida, roncando tranqüilamente. Cinderela deu-lhe um discreto pontapé:

- Pára de roncar, desgraçada!

- É isso mesmo! - apoiou Rapunzel. - Vê se vira Bela Acordada, porque Adormecida você é um horror!

- Ahn? Hum? Que foi? - perguntou Dona Bela Adormecida, despertando toda atrapalhada.

- Já que estamos todas aqui reunidas... - começou Dona Branca.

- Todas? - interrompeu Dona Bela Adormecida. - Falta um monte de princesas. Falta Feiurinha...

Dona Branca perdeu a paciência:

- É claro que falta, sua dorminhoca! Era exatamente sobre Feiurinha que eu estava falando o tempo todo!

- Acho melhor deixar Bela Adormecida dormir - propôs Dona Chapeuzinho. - Assim ela atrapalha menos.

CAPÍTULO ZERO, TRÊS QUARTOS E MAIS UM POUQUINHO

Isso tudo me contou Caio, o lacaio, no dia em que entrou pela minha sala adentro e me pegou apontando lápis. A tudo eu ouvi fazendo a cara mais inteligente de que era capaz nas circunstâncias. Afinal, aquela era a primeira vez que eu me via frente a frente com um louco fugido do hospício, e não podia dar-lhe a impressão de que desconfiava da veracidade daquela história maluca.

"Até que esse biruta é imaginoso", pensei, mas não disse nada. "Depois que ele estiver novamente trancafiado na cela forte de onde deve ter fugido, vou dar um jeito de fazer-lhe uma visitinha. Talvez até possa transformar alguma de suas idéias fantásticas em um livro daqueles em que ninguém acredita mas todos gostam."

Caio, o lacaio, contou mais. Contou que as princesas tinham discutido um tempão e que, no fim, tinham mandado todos os lacaios, inclusive ele, à procura da Feiurinha desaparecida. Os lacaios tinham vasculhado todos os cantos de todos os reinos encantados, tinham perguntado em todas as tabernas, mas não tinha sido possível encontrar nem sinal de Feiurinha. E mais: não encontraram nem o castelo da Princesa e não viram nem sinal do Príncipe.

- Do Príncipe? Que Príncipe? - tinha perguntado Dona Branca Encantado, que já fora De Neve.

- O Príncipe Encantado, marido da Senhora Princesa Feiurinha Encantado - tinha esclarecido Caio, o lacaio.

- Ah... - tinha feito a Princesa da pele cor de neve, demonstrando que compreendera.

Eu ainda não conseguia entender o sentido profundo das alucinações daquele louco, mas me dispus a ouvir a continuação daquele assunto biruta. Afinal, Caio parecia um louco manso e eu talvez não estivesse correndo riscos.

- Continue, senhor Caio. O que aconteceu então?

CAPÍTULO ZERO, TRÊS QUARTOS E OUTRO POUQUINHO

Vocês compreendem o perigo que todas nós estamos correndo? - perguntou Dona Branca. - Uma heroína como nós desapareceu sem deixar vestígios. Até o castelo e o marido dela desapareceram. Desse jeito...

- Já procuraram por algum sapatinho de cristal perdido em alguma escadaria? - palpitou Dona Cinderela, tentando ajudar. - Se encontrarem um, é só experimentar nos pés de todas as...

- Cala a boca, Cinderela! - ralhou Dona BelaFera. - O negócio é sério!

- Se uma heroína como nós sofreu alguma coisa ruim, isso quer dizer que o encanto de nossa felicidade eterna foi quebrado... - continuou Dona Branca. - E, sem esse encanto, algum desastre pode acontecer com qualquer uma de nós a qualquer momento!

Todas entendiam que os tempos de felicidade eterna tinham acabado.Todas, até Dona Bela Adormecida, que estava bem acordada naquela hora.

- Não é possível! - comentou Dona Rapunzel. - Acho que os lacaios procuraram errado. São todos uns incompetentes. E preciso procurar direito, falar com as pessoas certas. É preciso interrogar todos os personagens secundários da história da Feiurinha!

- Boa idéia! - concordou Dona Rosaflor Delia Moura Torta Encantado. - Vamos repassar toda a história da Feiurinha, sem esquecer nenhum detalhe. Depois vai ser fácil localizar os personagens secundários. Você começa, Rapunzel.

- Bem... - hesitou Rapunzel puxando a trança que tinha enroscado no pé de uma cadeira. - Não me lembro da história dela. Sabe? É uma história meio boba, não tem o charme da minha...

- Ora, deixe de ser presunçosa! - gozou Dona Bela-Fera. - A sua história não passa de um monte de baboseiras. Charme tem a minha história onde...

Dona Branca levantou-se e encarou Bela-Fera e Rapunzel, decidida:

- Calem a boca! As duas! Vamos deixar a vaidade de lado. O perigo que corremos é muito mais sério. Não há tempo a perder!

- Tem razão, Branca - concordou Dona Chapeuzinho Vermelho. - Comece você, então, a contar a história da Feiurinha.

Dona Branca ficou meio sem jeito.

- Eu... eu não me lembro direito... Talvez, se você começar...

Dona Chapeuzinho tirou outro brioche da cestinha e pôs-se a comer, baixando a cabeça.

- Sabe? Eu também não me lembro da história da Feiurinha...

Ninguém se lembrava de nada. Nem Dona Rosaflor, nem Dona Cinderela, nem Dona Bela Adormecida, nem Dona Bela-Fera.

- O que vamos fazer agora? - desesperou-se Dona Cinderela. - Como vamos investigar um desaparecimento sem conhecer a história da desaparecida? Com quem vamos falar? A quem vamos perguntar qualquer coisa?

- É... - ajuntou Dona Chapeuzinho. - Os lacaios informaram que ninguém viu a Feiurinha e, o que é pior, ninguém sequer sabe quem é essa tal Feiurinha.

- Só tem um jeito - lembrou Dona Rosaflor Delia Moura Torta Encantado.

- Que jeito? Não tem jeito! - desanimou-se Dona Bela-Fera.

- Tem siml Pense só: como é que as pessoas ficam conhecendo nossas histórias?

Aquela pergunta não exigia raciocínio de nenhuma delas. Era fácil:

- Nos livros de histórias, é claro - respondeu Dona Branca.

- Entendi! - Dona Cinderela deu um salto. - Vamos procurar o livro onde está narrada a história da Feiurinha!

- Grande idéia! Agora a coisa fica fácil - alegrou-se Dona Rapunzel. - Quem escreveu a história da Feiurinha?

- Da Feiurinha eu não sei - respondeu Dona Chapeuzinho Vermelho. - Mas a minha eu sei que foi Charles Perrault. Um francês ma-ra-vi-lho-so que só esqueceu de botar um Príncipe Encantado no final.

- Acho que não foi ele - disse Dona Branca. - Vai ver foram Wilhelm e Jacob, os irmãos Grimm, aqueles dois alemãezinhos adoráveis que contaram minhas aventuras de modo tão sensacional...

- Os Grimm? Não, não foram eles - intrometeu-se Dona Bela-Fera. - Não terá sido Andersen?

- Hans Christian Andersen, o sapateiro? Não, vai ver foi Esopo.

- Muito antigo. Na certa, foi La Fontaine.

- Talvez tenha sido Lobato...

- O do Sítio do Picapau Amarelo? Já estive lá. Não foi ele não.

Dona Branca era a dona do castelo e era também quem tomava as decisões.

- Descobrir onde foi parar a Feiurinha não é tarefa para nós, meninas - resolveu ela, tocando a campainha de chamar lacaio. - Isso é trabalho para quem nos inventa. É trabalho para um Autor!

Foi assim que Caio, o lacaio, ficou encarregado de descobrir os grandes autores de contos de fada. Só que não conseguiu encontrar nenhum Perrault, nenhum Lobato, nenhum Grimm, nenhum La Fontaine, e acabou no meu apartamento, interrompendo minha tarefa de apontar lápis.

- Hum... - observei eu, com um sorriso. - Quer dizer que você resolveu me procurar como o melhor autor de contos de fada?

- Não - respondeu Caio, o lacaio. - Como o único que eu encontrei.

CAPÍTULO ZERO E CINCO SEXTOS

lá estava eu com um grande problema nas mãos. Para um autor, criar uma personagem faz parte do ofício, mas descobrir uma heroína desaparecida dos reinos encantados era um desafio que eu não sabia como enfrentar.

Só que eu não me lembrava da história da Feiurinha. Não me lembrava nem de ter ouvido falar nessa princesa antes de receber a visita vermelha e amarela de Caio, o lacaio.

E olhe que eu pensava já ter lido todos os contos de fada, fora os que me contava minha falecida avó. E eu os lia e relia mesmo adulto, sem vergonha de confessá-lo. Tinha até arranjado uma capa de um livro bem sério, bem adulto, desses difíceis de ler. Dentro dessa capa, eu colocava um livro de histórias da carochinha e lia até na sala de espera do dentista. Isso deixava as pessoas muito impressionadas. Ali estava um sujeito que era capaz de ler coisas sérias até mesmo antes de uma obturação.

Mas eu não me lembrava de jamais ter lido ou ouvido falar da história da Feiurinha.

Procurei em todas as bibliotecas e coleções particulares, mas não encontrei nem sombra de uma personagem chamada Feiurinha. Falei com todos os escritores conhecidos que pude, escrevi para os desconhecidos, para os folcloristas, para os bibliotecários e historiadores do mundo inteiro, mas a resposta era sempre a mesma:

- Uglylili? Never heard about...

- Feita? Jamás oí hablar...

- Petite vilaine? Je n'ai jamais entendu parler de ca...

- Bruttezzina? Non ne ho mai sentito parlare...

- Feiurinha? Nunca ouvi falar...

Caio, o lacaio, não saía de perto de mim, aguardando a solução do mistério que era ansiosamente esperada pelas princesas, lá nos distantes reinos encantados. Caio tentava me ajudar, como um bom lacaio, mas sua experiência como qualquer coisa além de lacaio era nula, e ele só atrapalhava. Acabei por mandá-lo ajudar a velha Jerusa nas tarefas domésticas. Jerusa era gorda e resmungona, mas era ótima pessoa e acabou aceitando a ajuda daquele sujeito esquisitíssimo que parecia vestido para um baile de carnaval.

As princesas, porém, começaram a perder a paciência.

Foi assim que, um dia, tocou a campainha e entrou-me pela sala uma senhora muito bonita ainda, de pele muito clara e claramente grávida.

Caio perfilou-se imediatamente e anunciou com solenidade:

- A Senhora Princesa Branca Encantado!

Branca de Neve! Ali, na minha frente! É claro que um pouco mais velha e ligeiramente mais gorda, mas ainda a grande, a incomparável Branca de Neve!

Meu queixo caiu. Até ali, eu aceitara a tarefa proposta pelo lacaio, não por acreditar nele, mas pela emoção inusitada de perseguir a alucinação de um louco. Mas a coisa agora tinha mudado de figura, pois até eu, com toda a minha segurança e maturidade, tinha de reconhecer que aquela só poderia ser, sem sombra de dúvida, a verdadeira Branca de Neve, só que um pouquinho mais velha e mais grávida.

Meu queixo ainda estava caído quando Branca de Neve, ou melhor, a Senhora Princesa Branca Encantado, perguntou para o lacaio Caio:

- É este o Autor?

- Sim, senhora - respondeu Caio, o lacaio. - É este o Autor.

- Você não poderia ter arranjado coisa melhor?

- Tentei, senhora, mas só havia este disponível.

- Então temos de nos arranjar com ele mesmo.

Branca de Neve voltou para mim aqueles lindos olhos negros que haviam virado a cabeça do mais elegante dos príncipes:

- E então, senhor Autor? Já encontrou a Feiurinha?

Como eu ainda estivesse mudo pela surpresa, Dona Branca Encantado veio em meu auxílio:

- Pare de ficar com a boca aberta feito um palerma e responda à minha pergunta. Encontrou ou não encontrou a Feiurinha?

- Eu... bem... - balbuciei a custo. - Estou investigando. E já há progressos consideráveis...

- Muito bem - prosseguiu ela, decidida. - O que já conseguiu?

- Bom, quer dizer... até o momento...

- Seja claro!

- Até o momento, pouca coisa, na verdade...

- Pouca coisa? O que descobriu, afinal?

- De concreto nada, mas... Branca de Neve enfureceu-se:

- Senhor Autor, acho que meu lacaio não foi bem claro. Feiurinha é uma heroína dos contos de fada, como eu, Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel e tantas outras. É uma de nós. Mas desapareceu, mesmo tendo terminado a história dela com a promessa de ser feliz para sempre. O senhor sabe o que isso significa? Significa que não há mais garantias de felicidade nem de eternidade para qualquer heroína. Significa que, a qualquer hora, qualquer uma de nós poderá desaparecer! E o senhor diz que não encontrou nada ainda!

- Bem, senhora, é que...

Fui salvo pela campainha. Todas juntas, uma senhora de chapéu vermelho, mais cinco princesas grávidas e de meia-idade entraram pela minha sala, todas devidamente anunciadas pelo Caio e todas ansiosas pela solução que eu ainda não havia encontrado.

Todas elas! Todas as heroínas da minha infância, em carne e osso! Eu as reconheci imediatamente, mas a minha alegria por conhecê-las foi superada pelo meu remorso em não ter ainda podido livrá-las da aflição que as perseguia.

CAPÍTULO ZERO, CINCO SEXTOS E TANTO

os dias que se seguiram, minha vida tornou-se, no mínimo, original. Todos os dias eu saía à rua em busca da pista da Feiurinha, procurando vovós contadoras de histórias e pesquisando os mais empoeirados arquivos. Exausto, sem qualquer progresso, voltava para o apartamento na certeza de encontrar as seis princesas, mais Chapeuzinho e mais um lacaio colorido, todos nervosos à espera de novidades.

Jerusa pareceu não acreditar que todas aquelas sete mulheres eram minhas primas do interior, mas acabou se conformando, mesmo depois de descobrir que se tratava das mais famosas princesas de todos os tempos. Ela era velha o bastante para entender tudo. Já tinha vivido muito, e já fora obrigada a engolir absurdos maiores.

As princesas tinham esquecido o conforto a que sua posição dava direito. Na minha cama de solteiro, dormia Dona Bela Adormecida praticamente o tempo todo. Dona Rosa, Dona Bela-Fera, Dona Rapunzel e Dona Cinderela ocupavam o sofá e as duas poltronas. Dona Chapeuzinho, Dona Branca e Caio, o lacaio, não saíam do meu pequeno escritório. Jerusa dormia no seu quarto e não aceitou dividi-lo com princesa nenhuma. E eu? Eu dormia debruçado sobre minha mesa de trabalho, depois de cada dia sem qualquer resultado positivo.

E as Bodas de Prata das minhas hóspedes chegaram. Graças à iniciativa da Jerusa, mas sem as presenças dos príncipes encantados nem dos principezinhos, organizamos uma festinha, com bolo, champanhe e tudo mais.

Mas a festa foi um fracasso. Nenhuma das princesas estava para comemorações. Já não mais me cobravam quando me viam voltar para casa. Limitavam-se a dar uma olhada no meu aspecto, na minha expressão de derrota, e baixavam novamente os olhos.

Por tudo isso, a festa das Bodas de Prata de Cinderela, Rosa Delia Moura Torta, Bela-Fera, Rapunzel, Bela Adormecida e Branca de Neve mais parecia um velório. Eu, Chapeuzinho Vermelho, Caio e Jerusa não fazíamos boda nenhuma, éramos convidados. Dez pessoas num pequeno apartamento, desanimadas, desoladas, cada uma esperando o momento em que outra daquelas heroínas desapareceria, quebraria uma perna, prenderia o dedo numa porta ou morreria afogada na banheira.

Eu também esperava por um desastre daqueles quando a campainha tocou. Corri para a porta com uma última esperança. Quem sabe não seria justamente no momento das Bodas de Prata das minhas queridas heroínas que aquele mistério se desvendaria?

Era um telegrama. Abri-o rapidamente, quase rasgando o papel, e soltei uma exclamação:

- Aqui está! Afinal uma resposta que vale a pena!

Correram todos e me cercaram avidamente.

- O que diz?

- Bem... - gaguejei, meio atrapalhado. - Está em língua estrangeira. É preciso traduzir primeiro. Mas sem dúvida é uma pista valiosa.

Dona Chapeuzinho enfiou a cabeça por cima do meu ombro:

- Hum... francês não é. Acho que é alemão.

- Alemão? - exclamou Dona Branca. - Minha história é alemã. Alemão eu conheço. Dá isso aqui.

Arrancou o telegrama da minha mão e leu alto:

- Miesslienchen? Hab me davon gehõrt... Seus braços caíram ao longo do corpo, amassando o telegrama.

Cinderela perguntou:

- Vamos, Branca, fala logo. O que diz o telegrama?

Dona Branca não olhou para Cinderela. Olhou para mim, pálida e decepcionada, acusando-me. Seu olhar seria de ódio se ódio coubesse em seu coração.

- Aqui diz: "Feiurinha? Nunca ouvi falar disso..."

- Exatamente como os outros - suspirou Dona Bela-Fera.

Eu não sabia o que dizer, mas precisava dizer alguma coisa. Mais para mim mesmo do que para as minhas hóspedes.

- Eu... tinha tanta esperança! Esta é a resposta de um eminente especialista de Berlim...

Dona Branca baixou a cabeça e escondeu o rosto nas mãos, chorando sobre o telegrama.

Você imagina o que é ter, de repente, a verdadeira Branca de Neve chorando no meio da sua sala? Corri para ela e peguei sua pequenina mão.

- Oh, senhora, não chore! Não há razão para chorar. Eu juro que hei de encontrar Feiurinha, nem que leve...

- A vida inteira? - interrompeu ela aos soluços. - Aí não vai adiantar mais. Nós todas teremos desaparecido. Eu também. Eu terei desaparecido para sempre, junto com os Anõezinhos, com a Bruxa, com o Príncipe e até com o Espelho Mágico!

Não sabia como consolá-la, mas precisava consolá-la. Não podia deixar aquela heroína maravilhosa chorando por minha causa.

- Nada disso, Branca de Neve! Você jamais desaparecerá. Você é eterna como o Sol, como a Lua! Sua história foi escrita e reescrita pelos maiores artistas da Humanidade e é lida todos os dias por milhões de crianças no mundo todo, o tempo todo. Você está viva nas risadas das crianças, nas narrativas das vovós, na memória de adultos como eu que jamais negaremos a beleza da sua história!

Vagarosamente, Branca de Neve levantou a cabeça e dirigiu seu olhar para o meu. Sua face clara estava molhada pelas lágrimas, mas ela não mais chorava. Olhamo- nos nos olhos e ambos compreendemos ao mesmo tempo.

Compreendemos tudo.

Não. Branca de Neve jamais desapareceria, assim como Cinderela, Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Bela-Fera ou Rosaflor Delia Moura Torta. Elas tinham sido eternizadas nos livros pelos maiores artistas do mundo e suas vidas se renovavam todos os dias quando os livros se abriam na frente de novas crianças, prontas a rir, a chorar e a se emocionar com suas aventuras.

Estava desvendado o mistério. Feiurinha desaparecera porque ninguém havia escrito sua história, porque suas aventuras não se eternizavam através dos séculos nas risadas e nas emoções das crianças.

Feliz! Agora eu, as seis princesas, Chapeuzinho e Caio estávamos felizes e pusemo- nos a dançar, a pular, a rir loucamente.

- Feiurinha! - gritei eu. - Onde está você, Feiurinha? Quem é você, Princesa? Minha felicidade seria completa se eu pudesse descobrir você, Feiurinha!

A velha Jerusa tinha trazido suas banhas para a sala, para ver que alegria toda era aquela.

- Feiurinha? O senhor também conhece a Feiurinha?

A estranha dança parou na mesma hora e nove pares de olhos voltaram-se para Jerusa.

- Eh, que história boa, não é? - continuou ela, a sorrir. - Sempre foi a minha preferida quando minha avó reunia todo mundo pra contar histórias ao pé do fogo...

CAPÍTULO ZERO, QUASE UM

ois é. O tempo todo nós tínhamos, ao nosso lado, alguém que conhecia a história da Feiurinha. Tínhamos perguntado a todos, menos aos que estavam mais próximos. Procurávamos a verdade em todas as lonjuras, quando ela estava ao alcance da vista e nos servia o almoço todos os dias.

Jerusa sentou seus setenta anos no meio da sala, cercada pelas mais famosas heroínas de todos os sonhos. Elas, mais eu e Caio, os mais modestos, mal agüentávamos esperar.

- Ah, assim fico sem jeito... - queixou-se timidamente a boa Jerusa.

-Ora, Jerusa, deixe de bobagem! -comecei eu.

Branca de Neve interrompeu o que eu ia dizer. Pegou as gordas mãos de Jerusa nas suas mãos pequeninas e beijou-as.

-Jerusa, por favor, conte pra nós. Só você pode trazer Feiurinha de volta.

Jerusa não era de grandes letras e, talvez por isso mesmo, compreendeu muito bem o que era ter Branca de Neve a seus pés, beijando-lhe as mãos. Compreendeu que Branca de Neve, Feiurinha e tantas outras faziam parte de si mesma como seu próprio sangue. Eram seu passado, sua cultura. Compreendeu que elas também faziam parte do sangue de todos, ricos e pobres, negros e brancos, nascidos e por nascer. Compreendeu e começou:

- A história da Feiurinha é dos antigos. Quem me contou, há mais de sessenta anos atrás, foi minha avó, que também ouviu da avó dela. Era a minha história preferida, com perdão das princesinhas...

CAPÍTULO ZERO, MAIS QUE QUASE UM

Era uma vez, há muitos, muitos anos atrás, uma menina muito linda que acabara de nascer numa casa muito pobre, mas cheia de amor e felicidade.

Seu papai e sua mamãe não tinham ainda escolhido um nominho para ela e ainda estavam discutindo que nome iriam dar quando ouviram batidas na porta.

Pensando que eram visitas para o bebê, o pai abriu a porta. Não viu, porém, nenhum conhecido da aldeia. O que viu foram três mulheres muito feias e muito malvestidas que pediram para entrar e conhecer a menina. Na verdade aquelas eram três bruxas muito terríveis, chamadas Ruim, Malvada e Piorainda.

Inocentemente, oNbom homem deixou as três entrarem.

No mesmo instante, com uma praga de bruxaria, as três paralisaram o pai e a mãe da menina.

Os dois ficaram como estátuas e, quando passou o efeito da praga, o bebê tinha desaparecido!

- Se essa menina é Feiurinha, que mania de desaparecer, não?

- Cala a boca, Chapeuzinho!

Coitados dos pais da menina! Choraram, procuraram, e continuaram a chorar e a procurar até não haver mais pista a seguir e até não haver mais lágrimas a derramar.

Mas ninguém poderia encontrar a filha deles. Ruim, Malvada e Piorainda tinham raptado a menina e levado para muito longe, onde nem gente ou bicho teria coragem de ir. A menina seria criada com a sobrinha delas, a quem chamavam Belezinha e que era o bebê mais feio do mundo, pois já havia nascido birolha, caspenta, com dente cariado e verruga no nariz.

Assim, a menina foi parar na casa das bruxas, um lugar em ruínas, uma choupana sórdida e lúgubre, longe de tudo e de todos, onde a pobrezinha cresceu junto às corujas, aos ratos e aos morcegos.

- E ela? - perguntou Cinderela. - Não se assustava com um lugar tão horrível?

Nem um pouquinho. Ela nunca tinha visto outro mundo, nem mais feio nem mais bonito. Aquilo era tudo o que ela conhecia, era o seu mundo e ela estava acostumada com todas aquelas barbaridades.

Só não era possível acostumar-se com as três bruxas. Como seus nomes, Ruim, Malvada e Piorainda eram umas pestes. Logo que a menina cresceu, deixaram todo o trabalho da velha casa para ela. Mas a menina não se queixava disso. A única coisa que fazia com que seus dias fossem tristíssimos e as noites cheias de lágrimas era sua própria feiúra.

- Ei, espera aí, Jerusa! - protestou Dona Rapunzel. - Mas ela não era uma linda menina?

Era. Era a coisa mais linda que já tinha nascido e se tornara a mais linda jovem que qualquer mortal já viu. Mas ela não sabia disso. Só o que ela sabia era o que as bruxas lhe contavam:

- Ihhh! Você devia se envergonhar! - comentava Ruim. - Você é feia demais!

- É isso mesmo - acrescentava Malvada. - Nunca vi garota mais feia!

- Você é um horror! - completava Piorainda. E punham-se a pular, a dar voltas em torno da menina, a cutucá-la, a dar-lhe beliscões, a puxarlhe os cabelos.

- Veja só os seus dentes! - provocava Ruim. - Todos iguaizinhos, brancos, enfileiradinhos como idiotas!

- Coisa horrorosa! - concordava Malvada.

- Não são como o nosso, que é único, escuro e cariado! - explicava Piorainda.

A menina chorava, tentava desvencilhar-se, envergonhada, mas as bruxas insistiam:

- E seus cabelos, então? Louros e macios! Parecem uma seda nojenta! - continuava Ruim.

- Coisa horrorosa! - apoiava Malvada.

- Agora veja só nossos cabelos! - completava Piorainda. - Isso sim que é coisa linda. São grossos, sujos, espetados e cheios de caspa!

- E piolhos! - acrescentava a bruxa Ruim. - Não se esqueça dos piolhos!

- E esse nariz? Retinho, pequeno e delicado!

- Coisa horrorosa!

- Os nossos sim, que são lindos! Veja só: enormes, curvos, enrugados, que chegam quase até o queixo!

- É isso: você é mesmo um horror!

- Uma vergonha! Uma feiúra!

- Feiurinha! Feiurinha!

Pois é. Esse era o nome que as bruxas tinham dado para uma menina linda daquele jeito: Feiurinha! Ela, coitada, cresceu com aquele nome, e sua vergonha cresceu mais ainda.

Vivia infeliz, mas sua infelicidade até que seria suportável se não fosse Belezinha e a questão da verruga.

Belezinha crescera uma bruxinha tremenda de ruindade, que não perdia ocasião de atormentar a vida de Feiurinha.

A horrorosa da Belezinha nunca cansava de fazer maldades e arreliar Feiurinha. Entornava o caldeirão quando a comida estava quase pronta, obrigando Feiurinha a cozinhar tudo de novo, enchia o colchão da menina com espinhos, e nunca esquecia de falar da verruga.

Ah, a verruga! Era a razão maior do complexo de feiúra da Feiurinha. A bruxinha e as três bruxas madrastas tinham enormes verrugas cabeludas na ponta do nariz e até no queixo, enquanto ela... Coitadinha! Não tinha uma só pinta na pele!

Feiurinha vivia desesperada, e até já tinha pensado em fugir. Só não fugia porque se lembrava muito bem do que tinham dito as três bruxas malvadas: beleza só havia ali, naquela casa. Fora dela, a menina só encontraria horrores e feiúras como ela mesma.

- Coitadinha! Que crueldade! Enganar assim a pobrezinha... - comentou Dona Bela-Fera.

Os poucos momentos em que Feiurinha tinha paz era quando as quatro bruxas saíam para suas maldades e a deixavam a sós com o Bode.

O Bode era seu único amigo. Um bode velho, com os pêlos sujos, cheio de pulgas e piolhos, lindo e fedido como as bruxas. Mas era um amigo, que acompanhava Feiurinha por todo lado, como um cão fiel.

Certo dia, as quatro foram embora depois de terem espezinhado especialmente a pobre Feiurinha, deixando-a só com o Bode e muitas tarefas domésticas a realizar.

Arrasada, tristíssima com a própria feiúra, a mocinha pegou um cântaro de barro e foi chorando no caminho até o rio, buscar água, sempre com o velho Bode atrás.

Ajoelhou-se à beira do riacho de águas calmas, e viu refletida sua imagem horrorosa, seus longos cabelos louros, cheirando alfazema, sua pele rosada, seus olhos de um azul profundo...

- Aí veio a bruxa por trás, ela viu a cara da bruxa refletida na água e pensou que era ela mesma! - palpitou Dona Rosaflor Delia Moura Torta Encantado. -Justo o contrário da minha história. A bruxa que se chamava Moura Torta estava olhando para o rio, aí viu meu lindo rosto refletido na água e pensou que tinha ficado linda!

- Cala a boca, deixa a Jerusa continuar!

Ao lado de Feiurinha, estava o Bode, o único que parecia gostar dela, o único que não a maltratava.

- Ai, amigo, Bode, como eu sou infeliz! Belezinha e minhas madrastas até que têm razão de brigar tanto comigo. Para elas, deve ser duro ter de morar a vida inteira com uma menina tão feia, tão horrorosa e tão repugnante como eu!

O Bode continuou olhando para Feiurinha, mas seu olhar amigo não era um consolo.

- Se ao menos eu tivesse uma verruga! Uma verrugumha só, para mostrar a elas que eu não sou tão feia assim...

Feiurinha, mirando-se no rio, começou a procurar atentamente em todo o rosto. Nada... O Bode arregalou os olhos.

Depois pesquisou os braços, as mãos, os pés e as pernas. Nada!

E o Bode arregalando os olhos.

- Quem sabe não nasceu uma verrugumha em alguma parte?

Tirou a saia e continuou procurando. Tirou as anáguas, o corpete...

O Bode arregalou ainda mais os olhos.

... até mirar-se nuazinha nas águas do rio.

Nesse instante...

Puf!


... uma nuvem azul envolveu o Bode!

Feiurinha assustou-se:

- O que é isso?

De dentro da nuvem, surgiu o mais horroroso dos jovens. Feiíssimo! Alto, forte, musculoso, cheio de dentes brancos na boca, de olhos verdes e penetrantes como a luz do amanhecer. Nem ao menos era birolho como Piorainda!

Assustada com tanta horripilância, Feiurinha tentou fugir, mas o braço forte do rapaz enlaçoua pela cintura:

- Por favor, não fuja, Feiurinha! Passei esses anos todos ao seu lado, sonhando com esse momento. Eu sou um Príncipe Encantado que foi transformado em bode pelas três bruxas. Sua beleza, me libertou da maldição!

- Beleza?! Mas eu sou horrorosa!

- Você é o anjo mais lindo da Terra, Feiurinha! Eu assisti, esses anos todos, à crueldade dessas bruxas que a enganaram fazendo-a pensar que o feio é bonito e o bonito é feio. Elas sim, são um horror. Eu vou mostrar-lhe a verdade. Você vai ver que o mundo todo cairá de joelhos diante de sua beleza!

- Tem... tem certeza?

-Você vai ver, Feiurinha. Me espere. Vou voltar ao meu reino para retomar todas as posses e a fortuna a que tenho direito. Logo virei buscá-la. Espere por mim! Vamos nos casar e seremos felizes para sempre, para sempre, para sempre!

Feiurinha viu partir aquele jovem e ficou sentindo o calor de suas palavras, que lhe haviam enchido o coração de um sentimento, de uma paz, de uma confiança que ela nunca havia conhecido antes.

- Para sempre, meu Príncipe... - murmurou, sorrindo pela primeira vez na vida.

- Que lindo! - exclamou Dona Branca. - Continue, Jerusa!

Naquela noite, ao servir o jantar, Feiurinha parecia nem ouvir as provocações das bruxas. Só tinha pensamentos para o seu Príncipe, e não havia gozação de bruxa que a fizesse pensar em outra coisa.

A danada da Belezinha tentou de tudo. Quando não havia mais nada para tentar, jogou a última cartada: falou da verruga. Mas tudo que conseguiu de Feiurinha foi um sorriso.

Um sorriso! Nunca tinham visto uma coisa daquela. O que estaria acontecendo?

A bruxa Ruim olhou em volta, à procura do Bode, e foi a primeira a compreender. Depois foi Malvada, depois Piorainda. Quando, finalmente, chegou a vez da bruxa Belezinha, as quatro se entreolharam e seus olhares foram o suficiente para que um plano diabólico ficasse combinado entre elas.

- Onde está o Bode, Feiurinha? - perguntou calmamente a bruxa Ruim.

O coração da menina deu um salto. - O Bode? Não sei...

- Não sabe? - foi o sorriso macabro de Malvada. - Eu acho que sabe sim...

- E eu acho até que você desenfeitiçou o Bode... - brincou Piorainda exibindo a banguela.

Feiurinha recuou, olhando assustada de bruxa em bruxa. Estava apavorada, sem saber o que fariam as quatro. Belezinha aproximou-se amigavelmente.

- Ora, Feiurinha, não tenha medo. Nós sabemos que você desenfeitiçou o Bode. E era isso que queríamos.

- Como? - perguntou a menina, timidamente, surpresa.

- E isso mesmo - reforçou Malvada. - Nós esperávamos, esse tempo todo, que você salvasse o Príncipe...

- Nós queríamos que você salvasse o Príncipe! - afirmou Piorainda.

Feiurinha estava confusa. Sorriu sem jeito, tentando entender melhor.

- Então... por que não me disseram antes?

- Porque não podíamos - respondeu Ruim. - Se contássemos, o seu poder de desencantar bodes perderia o efeito...

- Mas o Príncipe disse que foram vocês mesmas que o enfeitiçaram!

- Ele... disse isso? - hesitou Malvada. - O que foi que ele disse?

- Ele disse que foi transformado em bode pelas três bruxas...

Piorainda pareceu aliviada:

- Então, Feiurinha, não fomos nós. Ele disse três bruxas. E nós não somos bruxas. Nós somos... somos...

- Fadas! - ajudou Ruim. - Nós somos... erh... fadas!

- Isso! Somos fadas! - apoiou Belezinha.

As bruxas conseguiram enganar Feiurinha mais uma vez. A mocinha era ingénua, não conhecia nada do mundo e era muito fácil de convencer.

- Que bom! Então vocês vão ficar muito felizes em saber que o Príncipe prometeu casar comigo. Foi recuperar o reino dele e volta já, já pra me levar com ele!

- Mas que maravilha! - exclamou falsamente Malvada. - Então precisamos preparar você para o casamento. Piorainda! Vá buscar a pele de urso!

- Pele de urso? Ah, ah! Já estou indo!

Piorainda foi e voltou trazendo uma pele de urso castanho suja e malcheirosa.

- Aqui está, querida Feiurinha - ofereceu Malvada. - Este é nosso presente de casamento. Quem vestir esta pele de urso será linda para sempre e feliz por toda a eternidade!

- Obrigada - agradeceu Feiurinha. -Vocês são tão bondosas... Não precisavam se incomodar...

- Incómodo nenhum, queridinha - afirmou Piorainda. - É nossa obrigação...

- Vamos, vista a pele! - propôs Belezinha.

Iludida pela lábia das bruxas, Feiurinha colocou a pele de urso sobre os ombros. No mesmo instante...

Outro puf!

... uma nuvem cinzenta envolveu a menina!

Quando se dissipou, Feiurinha estava transformada numa bruxa tão horrorosa quanto as quatro ruindades que a haviam enganado!

- Socorro! O que está acontecendo comigo? - gritou a menina, tentando arrancar a pele.

As quatro bruxas pularam e dançaram de felicidade em volta da nova companheira:

- Ah, ah! Agora você é uma de nós!

- Essa pele de urso é o feitiço mais poderoso da Terra. Torna velha uma mulher jovem e feia se ela for bonita!

- Pensou que podia fugir da gente? Ah, ah! Fuja agora!

- E não adianta tentar tirar a pele de urso. É um feitiço fortíssimo que só pode ser desatado por uma certa espada de prata!

- Onde estão seus dentes brancos, Feiurinha?

- Cadê seus cabelos de seda?

- E seus olhos de água?

- Agora você já tem verrugas! Ah, ah!

- Não está contente, Feiurinha? Vamos, dance com a gente!

- Agora somos cinco! Ah, ah!

A nova bruxa só era bruxa por fora. Por dentro, continuava sendo a mesma menina, linda e inocente. Queria chorar, mas lágrimas não saíam de seus olhos de bruxa. Enterrou a cabeça nas roupas horrorosas que o feitiço fizera surgir sobre seu corpo e tentou tapar os ouvidos para escapar da louca festa das bruxas.

- Que horror! Essas bruxas são piores do que a bruxa da minha história! - comentou Branca de Neve.

Mas um ruído de galope de cavalos chamou a atenção de todas elas. Correndo para fora da casa e lá estava o Príncipe Encantado com sua comitiva I real.

- Príncipe? Que Príncipe? - perguntou Dona Branca.

- O Príncipe Encantado que vai casar com a Feiurinha...

- Ah, bom! Pensei que fosse o meu...

De cima do cavalo branco, o Príncipe estava ainda mais lindo, agora vestido de ouro e prata, como deve vestir-se um príncipe.

- Suas bruxas malvadas! - gritou ele. - Onde está Feiurinha?

A menina transformada em bruxa correu para ele:

- Sou eu, meu amor! Essas malvadas me transformaram em bruxa! Salve-me!

No mesmo instante, Belezinha caiu de joelhos:

- Não acredite nela, meu querido! Feiurinha sou eu. Eu é que fui enfeitiçada!

Malvada correu e agarrou as rédeas do cavalo branco:

- Não! Sou eu a Feiurinha! Não acredite em mentiras. Case-se comigo!

Daí foi a vez da bruxa Ruim:

- Todas elas mentem, meu Príncipe! Eu sou Feiurinha! Você tem que casar comigo!

- Feiurinha sou eu! - gritou Piorainda. - Sou eu! Fui enfeitiçada para enganá-lo. Case-se comigo! Você prometeu!

- Bem parecido com a minha história - lembrou Dona Rosaflor. - A Moura Torta também...

- Cala a boca!

- Continue, Jerusa, por favor!

O Príncipe desembainhou sua espada de prata. Estava colérico, disposto a tudo.

- Suas ruindades! O que fizeram com minha amada? Só uma de vocês está falando a verdade. Todas as outras mentem. Quando eu descobrir quem são, juro que vou cortar a cabeça de todas com esta espada!

- Isso mesmo! - concordou Piorainda. - Casese comigo e mate as outras!

- Não! Comigo! - berrou Belezinha. - Morte às outras!

- É comigo que ele vai casar! - esgoelou-se Malvada. -Vocês todas vão ser degoladas!

- Comigo! Que morram as outras! - gritou Ruim.

Nesse momento, a bruxa que havia sido Feiurinha ajoelhou-se e abraçou-se ao pé do cavaleiro.

- Não, meu amor, não faça isso! Elas são malvadas, mas me criaram desde pequenininha. Me judiaram e me fizeram trabalhar demais, mas eu não quero mal a elas. Pelo meu amor, poupe a vida delas!

O Príncipe Encantado sorriu. Desceu do cavalo e abraçou a bruxinha.

- Meu amor! Só você pode ser Feiurinha! Só uma menina maravilhosa como Feiurinha poderia ser tão generosa! O que essas malvadas fizeram com você?

- Elas me fizeram vestir esta pele de urso. E um feitiço que me transformou em bruxa. Só pode ser desatado por uma certa espada de prata...

- Então, que essa espada de prata seja a minha espada! - decidiu o Príncipe, cortando a pele de urso com um golpe certeiro de sua espada!

Um trovão estourou os céus!

Bruuum!

E, no lugar da bruxa repelente, a linda imagem de Feiurinha voltou a encantar os olhos do Príncipe!

O trovão foi seguido por um relâmpago. Que soltou quatro raios sobre as quatro bruxas!

Cráááás!


Em meio a uma nuvem amarela e ao cheiro de enxofre e gases de cadáveres...

- Aaaaaah...

... as quatro bruxas malvadas transformaram-se em quatro cogumelos venenosos!

Feiurinha foi levada para o Reino Encantado do Príncipe e encontrou seus verdadeiros pais, que já estavam velhinhos mas não tinham perdido a esperança de reencontrar a filha.

A festa de casamento foi a maior de que se tem notícia e durou três dias e três noites. Assim, com a multidão gritando, com as trombetas trombeteando, Feiurinha casou-se com o Príncipe Encantado e eles viveram...

- Felizes para sempre! - gritei feliz. - Que maravilha! Agora já posso escrever a história da Feiurinha. Agora, quem sabe, poderei fazê-la reaparecer. Quantas histórias lindas, inventadas e contadas ao pé do fogo em noites de inverno por vovós imaginosas, perderam-se, foram esquecidas, por falta de alguém que as escrevesse. E, mesmo escritas, por falta de alguém que as lesse! Será que, se eu escrever a história da Feiurinha, alguém vai ler? E será que muitos outros vão continuar lendo para sempre, para que Feiurinha não desapareça nunca mais? Preciso caprichar...

CAPÍTULO ZERO, QUASE CAINDO NO UM

foi essa a confusão em que eu me envolvi quando me entrou pela sala adentro o colorido Caio, o lacaio de Branca de Neve.

Caio e as heroínas já partiram de volta a seus reinos encantados, confiantes no meu talento, certos de que eu saberei como trazer Feiurinha de volta ao mundo das personagens imortais. Deixaram-me um presente: como não tinham uma pena de ganso como as que os escritores antigos usavam para escrever suas histórias, deram-me a pena de um velho cisne, que outrora foi o Patinho Feio.

Mas eu prefiro escreverá máquina, pois sou um autor moderno. Vou guardar a pena de cisne com muito carinho, como recordação de um verdadeiro sonho que eu pude viver acordado.

Agora, estou novamente sozinho e posso começar a escrever a história da Feiurinha.

CAPÍTULO UM

Era uma vez, há muitos, muitos anos atrás, uma linda menina que foi raptada ainda no berço por três bruxas malvadíssimas...

Bom, os lápis já estão apontados, os tipos da máquina estão limpos e há papel de sobra na gaveta. Vou dar um pulinho até a cozinha para ver se Dona Chapeuzinho (aquela gulosa!) deixou sobrar alguma coisa na geladeira e volto já, já pra continuar a história da Feiurinha...

Quem é Pedro Bandeira

O Autor desta história, publicada em 1986 e que foi agraciada com o Prêmio Jabuti daquele ano, nasceu em Santos em 1942 e vive em São Paulo desde 1961.

Desde pequeno, os contos de fada sempre tiveram enorme presença em seu imaginário, de modo que criar Feiurinha e, ao mesmo tempo, prestar uma homenagem a todas as fantásticas heroínas, como Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Cinderela e Rapunzel, foi um grande prazer e uma grande honra. Foi o pagamento de uma dívida.

Pedro Bandeira sempre se considerou um eterno devedor não só de Monteiro Lobato, Charles Perrault, Jacob e Wilhelm Grimm, Hans Christian Andersen, Esopo, ou La Fontaine, mas principalmente das antigas contadoras de histórias. Essas foram mulheres que não deixaram seus nomes para a História, mas que, provavelmente analfabetas e muito pobres, usaram de sua imaginação para aquecer os corações das crianças em noites geladas, quando o vento e os lobos uivavam lá fora e quando a fome causada pela pobreza e pelo rigor do inverno impediam que o sono viesse.

Assim nasceu a Literatura Infantil: do amor de mulheres fantásticas, pobres e analfabetas, que inventaram esses contos maravilhosos como alternativa à dor da fome, à desesperança da pobreza, ao medo das feras, ao tiritar do frio, à ameaça sempre presente da morte. Assim, a Literatura Infantil é a mais doce das Artes:

é a alternativa ao frio, ao medo, à fome, à miséria e à morte.

Literatura Infantil significa Vida e Esperança!

Obras publicadas:

Infantis: É proibido miar, Pequeno pode tudo, Velhinho entalado na chaminé, menor fazedora de mágicas do mundo, Ritinha danadinha, Chá de sumiço, A imundação, Burrinho amarrado, Cacareco de chocolate, Contrabando de gato, Ritinha troca bolas, As cores de Launnha, J\ onça e o saci, O guizo do gato, a roupa nova do rei, O pequeno dragão, a formiga e a pomba, Chapeuzinho e o Lobo Mau, O Patinho Feio, O Cato de Botas, Cidinha e a pulga da Cidinha, O pequeno fantasma, O pequeno Bicho-Papão, Cavalgando o arco-íris, Por enquanto eu sou pequeno, Mais respeito, eu sou criança!

Infanto-juvenis: O dinossauro que fazia au-au, Malasaventuras - safadezas do Malasarte, O mistério da fábrica de livros, Minha primeira paixão, Rosaflor e a Moura Torta, O poeta e o cavaleiro. Juvenis: a droga da obediência, Pântano de sangue, Anjo da morte, a droga do amor, Na colmeia do inferno, a marca de uma lágrima, Agora estou sozinha..., Brincadeira mortal, Prova de fogo, Descanse em paz, meu amor..., Marina, O medo e a ternura, Qente de estimação, O grande desafio, Amor impossível, possível amor, Contos na Coleção Sete Faces: Volta e meia vamos dar, O incrível inspetor Almeida, Ai que delícia de robô, O Homem Montanha, A ponte, Alô-alô, Um crime mais que perfeito, Só que tem uma diferença, O último suspiro, Serespaperconfi, Eu nunca vou te deixar, Um par de tênis novmho em folha, Maldita professora!, E o que há de errado nisso?

Teatro: Feiurinha, A marca de uma lágrima, Telmah.

Quem é nelíno Guedes



Eu sou ilustrador, aquele cara que enche de figurinhas a história do autor. Parece pouco quando a gente fala desse jeito, mas eu acho (claro!!!) o meu tipo de trabalho, o desenho, um grande barato. E quando a gente ilustra textos como os do Pedro Bandeira, aí tudo fica mais divertido. Alguns autores, como ele, têm muita facilidade para criar personagens que fazem a festa dos ilustradores. São gostosos de desenhar. O desenho começou muito cedo na minha vida, mais ou menos aos quatro anos de idade, pelo que dizia minha mãe. Toda criança desenha - desenhar é uma das nossas primeiras formas de comunicação. A maioria não continua, mas eu, não sei por quê, fui em frente e acabei fazendo disso a minha profissão. Estudei em muitas escolas, fiz desenhos para vitrines, propaganda, quadrinhos, mas foi no desenho infantil que eu encontrei um caminho onde me dei bem, onde pude desenvolver um trabalho que me dá muita satisfação.

Como ilustro há muito tempo, já fiz trabalhos para a maioria das editoras de São Paulo, como FTD, Moderna, Scipione, etc. De vez em quando recebo cartas de escolas e de crianças que leram ou fizeram trabalhos sobre algum livro meu. E é muito gostoso sentir o carinho, o envolvimento e as sugestões que elas dão, sempre enriquecendo o meu trabalho.


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