O dia de açÃo de graças nos eua: pressupostos religiosos na construçÃo da identidade nacional norte-americana


O DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE



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O DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS E A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE 

NACIONAL NOS ESTADOS UNIDOS

Nos Estados Unidos não há uma confusão entre a história nacional e a colonização inglesa, 

isto é, não há a concepção de que a história do país tenha seu início na colonização e com ela 

estabeleça uma relação de continuidade. A gênese da nação é encontrada na independência 

e não na colonização. Contudo, a construção da identidade nacional baseou-se consideravel-

mente em princípios que são encontrados no puritanismo dos colonos que desembarcaram em 

terras coloniais nas primeiras décadas do século XVII. A documentação relativa aos primeiros 

tempos coloniais ao mesmo tempo em que destaca as dificuldades de se viver na colônia pos-

sibilita a leitura que mais tarde constituiria na base para a formulação do ideal nacional, que 



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em um sentido épico exalta o trabalho e a perseverança como traço identitário do povo ame-

ricano. Entre os relatos da história da ocupação e colonização da Virgínia pode-se ler: “para o 

industrioso há recompensa suficiente” (História Geral da Virgínia, in: SYRETT, 1995, p.11). 

Tais concepções ligam os primeiros tempos aos valores que foram trazidos pelos puritanos à 

nova terra.

O puritanismo em sua origem inglesa não está associado a nenhuma teologia única ou defini-

ção de igreja (embora muitos fossem calvinistas). Os puritanos ingleses eram conhecidos por 

sua atitude extremamente crítica em relação aos compromissos religiosos realizados pela Igre-

ja Anglicana.  A ascese puritana encoraja a experiência religiosa pessoal direta, uma sincera 

conduta moral e os cultos simples. 

Depois que James I se tornou rei da Inglaterra, em 1603, líderes puritanos pediram-lhe para 

conceder várias reformas que lhes possibilitassem uma liberdade religiosa, no sentido de afir-

marem as convicções de que a fé deveria se constituir no foco central da existência humana. 

Apesar do apelo popular que a nova religião obteve na Inglaterra durante o século XVII, a 

política adotada pela monarquia tornou-se cada vez mais repressiva, o que obrigou muitos pu-

ritanos a emigrarem para as colônias. 

Portanto, no início do século XVII alguns grupos puritanos, separadas da Igreja da Inglaterra, 

desembarcaram nas colônias em busca de liberdade religiosa e de possibilidade de prosperi-

dade pelo seu trabalho, incluindo entre os seus valores religiosos o utilitarismo e o pragma-

tismo. Entre estes estavam os peregrinos, que em 1620, fundaram a colônia de Plymouth. A 

experiência religiosa direta dos primeiros pilgrim fathers é exaltada nas agruras vividas na 

travessia do oceano na viagem do Mayflower

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, o que possibilita atribuir à viagem um sentido 



de purificação. Bradford, em sua história da plantação de Plymouth, escrita entre 1630 e 1648, 

ao descrever a chegada dos colonos reforça tal ideia, assim dizendo:

Tendo assim chegado a bom porto e desembarcado seguros em terra, caíram de joe-

lhos e deram graças a deus do céu, que os trouxera por sobre o vasto e furioso oce-

ano, e os livrara de todos os perigos e misérias dele, para que pudessem novamente 

pôr os pés em terra firme e estável, seu elemento mais próprio. (In: SYRETT, 1995, 

p. 15)

Dez anos mais tarde, sob os auspícios da Companhia da Baía de Massachusetts, o primeiro 



grande fluxo de migração de puritanos para a Nova Inglaterra

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 teve lugar. Os primeiros colo-



nos desembarcaram na região do Cabo Cod em 11 de novembro de 1620, em pleno inverno, 

enfrentando inúmeros problemas como a falta de alimentos e uma epidemia, possivelmente 

tifo, o que fez com que associassem sua sobrevivência a uma experiência religiosa comunitá-

ria que estabelecia paradoxalmente uma relação entre uma culpabilidade, na qual as mazelas 

são associadas à sua falta de indústria, governo e providência, e a graça divina na superação 

destas dificuldades

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.

Esta experiência religiosa pode ser interpretada a partir da definição de  numinoso elaborado 



por Otto (1984).  Rudolf Otto sustenta suas afirmações em um movimento que demonstra 

o caráter não-racional da experiência religiosa. Destaca que a manifestação do sagrado no 

indivíduo se expressa pelo sentimento do mysterium tremendum, o mistério que faz tremer, 

um tremor em si que “quer dizer simplesmente medo” (OTTO, 1984, p.18), sendo este um 

atributo do numen, que faz o indivíduo se reconhecer como criatura, reconhecendo sua impo-

tência diante do sagrado. A superioridade absoluta do poder numinoso é um de seus elementos 

constituintes, isto é a tremenda majestas que forma a matéria bruta da humildade religiosa, o 



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sentimento de dependência em relação ao criador, entendido como aquilo que está acima de 

toda criatura.

Dessa forma, pode-se dizer que as comunidades puritanas trouxeram fortes impulsos reli-

giosos para as colônias da Nova Inglaterra, principalmente uma ética ligada ao trabalho e à 

prosperidade. As igrejas Congregationalist estabelecidas em território colonial foram capazes 

de perpetuar suas convicções religiosas em pequenas comunidades religiosas relativamente 

isoladas por todo o período colonial, principalmente na baía de Massachusetts

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Além de acreditarem na soberania absoluta de Deus, a depravação total do homem, e da 

completa dependência dos seres humanos da graça divina para a sua salvação, salientando a 

importância da experiência religiosa pessoal, esses puritanos insistiram que, como eleitos de 

Deus, tinham o dever de construir uma nova sociedade conforme a vontade de Deus revelada 

pela Bíblia

6

. No entanto, o crescimento populacional nas colônias no início do século XVIII 



e a prosperidade mercantil de algumas áreas coloniais fragilizaram não só o isolamento, mas 

também, os princípios do puritanismo religioso

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Devido à sua natureza difusa, o momento em que o puritanismo religioso começou a decli-



nar na América é difícil de precisar. Alguns afirmam que ele perdeu sua influência na  

Nova Inglaterra no início do século XVIII. Outros chamam a atenção para o declínio gradual 

no poder de congregacionalismo ao longo de todo esse período, mas, no entanto, Presbiteria-

nos, sob a liderança de Jonathan Dickinson e batistas liderados pelo exemplo de Isaac Backus 

(1724 - 1806), revitalizaram os ideais puritanos em várias formas denominacionais durante o 

período de luta pela independência, o que possibilitou a sociogênese de seus princípios como 

fundamento identitário da nação.

Contudo, à época da independência não se pode dizer que a religião dominante nas Treze Co-

lônias seja o puritanismo, pois este havia perdido espaço para outras formas denominacionais 

mesmo na região da Nova Inglaterra. Mas, mesmo assim, tornou-se a mais importante tradi-

ção religiosa dos Estados Unidos independente, como base para construção de sua identidade 

nacional calcada no ideal de uma missão destino, o que mais tarde se converteria na Doutrina 

do Destino Manifesto, reforçando a crença que fazia dos estadunidenses uma espécie de novo 

povo eleito. 

Tornada uma doutrina política em meados do século XIX, o Destino Manifesto justificou o 

expansionismo territorial do Estado nacional. Esta ideia político/pastoral, no entanto, já fora 

definida por Jefferson quando em 1801 ele assumiu a presidência do país nos seguintes ter-

mos: 


Aqueles que trabalham a terra são o povo escolhido de Deus,...Cujos corações Ele 

constituiu no seu depósito peculiar de virtude genuína...A corrupção da moral na 

massa de agricultores é um fenômeno do qual nenhuma era ou nação forneceu exem-

plo. Ela é a marca colocada naqueles que, não buscando o paraíso no seu próprio 

solo e indústria, como faz o agricultor, para sua própria subsistência, dependem para 

isso das casualidades e caprichos do costume. A dependência alimenta a subserviên-

cia e a venalidade, sufocando o germe da virtude e preparando as ferramentas para 

os desígnios da ambição (in: SYRETT, 1995, p.118).

O Partido Republicano-Democrático, ao qual pertencia Jefferson defendia a superioridade 

da organização social agrária sobre o ambiente urbano-industrial

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. Em um mundo agrário, os 



fazendeiros, fossem eles escravistas ou não, podiam usufruir direitos iguais e compartilhar 

as mesmas aspirações por liberdade e democracia. Mas essa aliança só era possível porque a 

ordem democrática a que eles aspiravam era limitada, incluindo somente os homens brancos 

preconizando um ‘igualitarismo racista’ e sexista, que se tornou fundamento ideológico e 

identitário do ideal nacional formulado no início do século XIX.



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Dessa forma, ao longo do século XIX foi possível, nos Estados Unidos, conciliar liberdade e 

escravidão, bem como a total submissão da mulher ao homem, apelando para um importante 

aspecto conservador da ideologia do Partido Republicano-democrático. Pois a preservação das 

diferenças raciais e de gênero fortalecia o senso de igualdade entre os homens brancos e con-

finava o trabalho desqualificado a uma raça inferior bem como a reprodução social à mulher, 

submissa aos preceitos religiosos de maternidade. Todo homem branco estaria pelo menos 

um gigantesco degrau acima do status dos escravos e das mulheres e, assim, em relação aos 

grupos inferiorizados, a igualdade existiria no grupo dominante de cidadãos. Paradoxalmente, 

a democracia americana avançou neste período, principalmente no que se refere à questão do 

sufrágio universal masculino. 

O surgimento de uma democracia de massas a partir da eleição de Andrew Jackson, em 1829, 

deu suporte à rápida incorporação dos imigrantes ao universo dos votantes

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, de forma que 



praticamente desapareciam as restrições à participação política por parte dos homens brancos 

(desde 1824 apenas três estados mantinham algum tipo de restrição). A base de apoio político 

para o que ficou conhecido como democracia jacksoniana provinha de uma reunião heterogê-

nea de grupos, tais como os trabalhadores urbanos, imigrantes e fazendeiros de quase todas as 

regiões e classes. 

A filosofia política dessa democracia era fundamentalmente liberal e fortemente influenciada 

pela tradição laissezfariana. A filosofia política do Partido Democrata foi um elemento impor-

tante para a constituição da democracia de massas nos Estados Unidos, mas também baseou-

-se em uma herança da qual negros e mulheres estavam excluídos. 

Este processo foi determinante para a consolidação do culturalismo nos Estados Unidos e 

subsidiou o surgimento da cultura wasp (do inglês: White, Anglo-Saxon and Protestant)

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, que 



tem como fundamento seis valores estreitamente relacionados, os quais definem os traços do 

caráter da democracia branca e sexista no país: a consciência nacional, o espírito cívico, o 

trabalho, o sucesso, o utilitarismo, e, por fim, uma moral sexual conservadora

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. Dentre eles, 



o mais importante é a consciência nacional associada ao grande legado do protestantismo, o 

ideal de destino manifesto e de povo eleito, reforçado anualmente nas celebrações do Dia de 

Ação de Graças. 

A consciência nacional norte-americana, até meados do século passado, não estava associada 

às formas modernas de nacionalismo, carregadas de ambiguidade e tensões, mas sim a um 

conservadorismo racista, sexista e excludente, concebendo os valores nacionais como verda-

des auto-evidentes

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, como a fonte de tudo o que a sociedade pode gozar em seu espírito cívi-



co: liberdade e justiça, carregadas de forte espírito religioso. Honra, família, sentido de grupo, 

passam a ser um suporte para a preservação do bem para a sociedade, constituem em preceitos 

morais que devem ser observados de forma a assegurar a democracia e o próprio Estado na-

cional.


Nos Estados Unidos do século XIX o conceito de liberdade associava-se ao direito de partici-

pação e de integração a uma sociedade liberal, regida pelo trabalho, pelo ideal de prosperida-

de e pelo individualismo. Neste sentido, o acesso à política como forma de validar os direitos 

civis tornou-se uma questão crucial em um país em que brancos, nativos, imigrantes, e negros 

ex-escravos disputavam os espaços no mundo do trabalho.

Portanto, pensar a noção de direitos como uma condição mutável em relação aos diferentes 

grupos étnicos e às relações de gênero, permite compreender justificativas que envolvem a 

compreensão de cidadania, trabalho, sexo e raça para além das diferenças, estabelecendo um 

sentido de unidade social que enquadra o indivíduo nos preceitos sociais a partir de uma inter-

conexão entre religião, espiritualidade e liberalismo político, o que pode ser entendido sob a 

perspectiva do pensamento de Cohen (apud LEMOS, 2012) que afirma o caráter simbólico da 


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