O dia de açÃo de graças nos eua: pressupostos religiosos na construçÃo da identidade nacional norte-americana


Keywords: National Identity, religion, Puritanism, Thanksgiving Day. INTRODUÇÃO



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Keywords: National Identity, religion, Puritanism, Thanksgiving Day.

INTRODUÇÃO

O sentimento nacionalista surgiu nos Estados Unidos da América do Norte a partir da constru-

ção de um nativismo que reforçava o sentido de pertencimento à terra onde se nasceu. À épo-

ca da independência o nacionalismo era visto como o direito dos colonos de se organizarem 

como povo e defenderem a construção de sua nação. Neste contexto, a elaboração ideológica 

de uma missão destino, como um ideal nacional fundado na liberdade individual, igualdade 

jurídica e prosperidade, converteu os princípios religiosos do puritanismo em concepção polí-

tica. 


Desde as primeiras manifestações de descontentamento com a política colonial inglesa pre-

sentes no Congresso Da Lei do Selo, realizado em Nova York, em 1765, quando os colonos 

pela primeira vez reivindicaram direitos assegurados aos súditos britânicos pelo Bill of Ri-

ghts de 1689, ato que implantou a monarquia parlamentarista no Reino Unido, o princípio de 

igualdade jurídica exigida pelos colonos ligava-se à descendência anglo-saxônica dos Pilgrim 



Fathers, reforçada pelo protestantismo puritano.

O princípio calvinista de uma missão destino relacionada à forma de colonização e aos pri-

meiros colonizadores, foi mantido na redação da Carta dos Direitos dos Colonos, aprovada 

pelo Primeiro Congresso Continental da Filadélfia (1774-1775), documento inspirado nos 

fundamentos do jusnaturalismo moderno. Em certa medida também está presente na Declara-

ção de Independência como determinação e Declaração Unânime dos Treze Estados Unidos 

da América, aprovada no Segundo Congresso Continental da Filadélfia que em seu preâmbulo 

define: 


Consideramos estas verdades por si mesmo evidentes, que todos os homens são cria-


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dos iguais, sendo-lhes conferidos pelo seu Criador certos Direitos inalienáveis, entre 

os quais se contam a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade. Que para garantir 

estes Direitos, são instituídos Governos entre os Homens, derivando os seus justos 

poderes do consentimento dos governados. (SYRETT (org), 1995, p.65)

 

Os dois documentos acima mencionados nortearam e modelaram a construção simbólica da 



nação nos Estados Unidos. Os princípios jusnaturalistas expressos no conteúdo destes docu-

mentos definiram as bases doutrinárias do sentido de liberdade e de direitos que fundamen-

taram o ideário nacional, aos quais se junta também a valoração da prosperidade como valor 

americano. A liberdade, a democracia e a prosperidade, como princípios fundantes, tornaram-

-se as condições que definiram a identidade nacional a partir daquilo que se construiu como 

o ‘sonho americano’ e como ‘Destino Manifesto’, ambos fundamentados no protestantismo 

puritano.

O Dia de Ação de Graças é resultado desse paradoxo histórico cultural, é político e religioso 

ao mesmo tempo. A data é uma rememoração do ano de 1621, quando ocorreu o Primeiro Dia 

de Ação de Graças, que foi comemorado por peregrinos ingleses e índios americanos em Pli-

mouth, na colônia de Massachusetts. No entanto, o dia de Ação de Graças só foi oficializado 

como feriado nacional nos Estados Unidos em 1863, quase 250 anos depois do Primeiro Dia 

de Ação de Graças dos peregrinos, quando, em meio à guerra civil americana, com uma forte 

intencionalidade política, o Presidente Abraham Lincoln declarou: “Eu...convido meus com-

panheiros, cidadãos de todas as partes dos Estados Unidos e também aqueles que estão no mar 

ou morando em terras estrangeiras, que dediquem a última quinta-feira de novembro ao lou-

vor e agradecimento ao nosso Pai que está no céu” (LINCOLN, on-line).

Com base em Mircea Eliade para quem “o mito designa, ao contrário, uma ‘história verda-

deira’ e, ademais, extremamente preciosa por seu caráter sagrado, exemplar e significativo” 

(1972, p. 07), as celebrações de agradecimento nas comunidades são tão antigas e tão abran-

gentes quanto a própria cultura, constituindo-se em um de seus elementos estruturantes. O 

Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos é uma comemoração secular que não está ligada a 

nenhuma denominação religiosa específica, liga-se muito a um pressuposto fundante da nação 

calcado no ideal de missão/destino do povo americano e, por isso mesmo, encerra em si um 

profundo paradoxo: apesar de ser independente de qualquer doutrina religiosa, o Dia de Ação 

de Graças é o feriado que atribui à nação uma natureza sagrada, capaz de reunir espiritual-

mente todo o povo americano através do tempo e espaço, dar sentido a sua história e invocar 

uma identidade. Nesse sentido os ‘ritos’ que expressam as formas de celebração reúne ima-

gens, sentimentos e experiências tipicamente americanas.




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