O crescimento da Pessoa na acp – Um Estudo de Caso


Capítulo 4 - Estudo de Caso



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Capítulo 4 - Estudo de Caso 

 

 

A fim de alcançar os objetivos deste trabalho e entender melhor como se dá na prática 



o crescimento da pessoa em tratamento psicoterápico na ACP, passaremos à descrição do 

caso em estudo e à análise deste com base na teoria abordada. 



4.1 O Cliente. 

Carlos (nome fictício) é natural de Brasília, é solteiro, de religião espírita, possui 

curso superior completo, encontrava-se desempregado quando chegou ao CENFOR no 

segundo semestre de 2016, com 24 anos, passou pelo acolhimento e iniciou seu atendimento 

psicoterápico no projeto de Psicanálise Adulto em outubro de 2016. Ele já havia feito um ano 

de psicoterapia anteriormente, fora do CENFOR. Fez uso de Sertralina por dois meses e não 

se adaptou ao medicamento, parando por contra própria.  

Como queixa principal, Carlos relatou sentir-se angustiado e desanimado há, 

aproximadamente, seis ou sete anos, com uma piora significativa no último ano. Apresentava 

insônia e forte sentimento de culpa. Disse ter pensado algumas vezes em morrer. Já não tinha 

vontade de sair de casa e nem de conviver com seus amigos. Em função da insônia, Carlos 

passava as noites nas redes sociais. Ele se mostrava bastante negativo frente à vida, relatando 

que achava que as pessoas não suportavam sua presença, dizendo que ele só reclamava e que 

não fazia nada para melhorar. Achava que era um peso para as pessoas e que se Carlos não 

existisse, talvez fosse melhor para todos. Isso o fez se afastar de seus amigos e ele se sentia 

culpado por esse isolamento. Embora recebesse diversas demonstrações de atenção e afeto, 

Carlos acreditava que seus amigos não gostavam dele. Considerava-se uma pessoa sempre 

disponível para os outros, mas não era reconhecido como gostaria. 




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Nas crises depressivas, Carlos se isolava e chorava bastante. Para evitar as crises, 



buscava meditar, ler textos espíritas e fazia uso de maconha, mas tinha noção de que não 

desejava ficar dependente da droga. 

Carlos demonstrava grandes dificuldades no relacionamento com seus avós paternos, 

a quem ele chama de pais, e com sua mãe biológica. Os avós são evangélicos e, por terem 

uma forma particular de entender o mundo, havia conflito de opiniões. A mãe estava 

desempregada, ingeria bebidas alcoólicas diariamente, perdia o controle e ficava muito 

agressiva. 

Na sua infância Carlos morava com seu pai, mãe e os irmãos gêmeos, mais novos que 

ele. Quando ele tinha dois anos, seu pai morreu e ele foi morar com seus avós paternos. Era 

uma criança bem cuidada, mas seus avós tinham uma preocupação exagerada com sua 

alimentação, sempre o achando magro e desnutrido, resultando na obesidade de Carlos, que 

foi motivo de agressões físicas e morais por parte de um tio, irmão de seu pai, que morava 

com eles e seus colegas da escola. Sua avó foi diagnosticada com depressão e se tornou uma 

pessoa muito negativa.  

Na adolescência Carlos teve anorexia nervosa, trazendo ainda, em 2016, uma baixa 

autoestima e uma percepção distorcida sobre seu corpo, se achando gordo, mesmo sendo 

magro, o que impactava negativamente seus relacionamentos afetivos. Também na 

adolescência, ele teve que lidar com sua homossexualidade e ao falar sobre o assunto com 

seus avós, estes não o aceitaram, expulsando-o de casa. Como ele já estagiava e era 

remunerado, foi morar sozinho, no entanto, se envolveu com drogas e foi morar com a mãe 

para se livrar das más companhias. Essa convivência se tornou conflituosa e Carlos foi morar 

com amigos e depois com o ex-namorado, com quem tinha um relacionamento abusivo e 

humilhante, devido ao domínio que esse ex-namorado exercia sobre ele. Depois de um tempo 

terminou esse relacionamento. Com sua formatura, perdeu o estágio e teve que voltar para a 




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casa da mãe, mesmo sendo um relacionamento difícil devido à instabilidade de humor e uma 



suposta depressão da mãe, além da dependência dela do álcool. A situação financeira ficou 

mais difícil com o desemprego da mãe e Carlos teve que voltar a morar com seus avós. 

Ao chegar ao CENFOR, Carlos estava à procura de emprego em sua área de formação 

e, enquanto não conseguia, tentava retornar à sua antiga profissão de DJ para se manter. 

A hipótese diagnóstica levantada à época foi a de que Carlos apresentava Distimia, 

que de acordo com a CID 10 – Classificação Internacional de Doenças, enquadra-se como 

F34 – Transtornos de humor (afetivos) persistentes, mais especificamente, F34.1 – Distimia, 

que é um rebaixamento crônico de humor, persistindo ao menos por vários anos. E no DSM 

V enquadra-se como 300.4 (F34.1) – Transtorno Depressivo Persistente (Distimia).  

No decorrer das sessões de psicoterapia foi percebido que Carlos foi retomando sua 

vontade de voltar à vida. Buscou a companhia de seus avós como demonstração de afeto e 

gratidão; passou a sair com os amigos e a se dar a oportunidade de conhecer pessoas. Nas 

últimas sessões já não se via o semblante melancólico de antes. Carlos relatou que já estava 

se sentindo bem e que já estava agindo de forma diferente diante das adversidades. 

O processo terapêutico foi considerado positivo, uma vez que o cliente estava cada 

vez mais consciente de si. Carlos é comprometido com seu processo terapêutico, nunca faltou 

às sessões e sempre apresentou disposição em mudar.  

Terminado o semestre, houve a recomendação para continuar a psicoterapia, no 

entanto Carlos não foi chamado para esta continuidade, ficando o primeiro semestre de 2017 

sem terapia.  

No segundo semestre de 2017, Carlos relatou que procurou o CENFOR a fim de 

continuar sua psicoterapia e relatou estar muito feliz por ter conseguido uma vaga, pois disse 

que a psicoterapia havia lhe ajudado muito.  



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Carlos, então, foi incluído no projeto da ACP, reiniciando o tratamento em meados de 



setembro de 2017. Chegou dizendo que aguardava ansiosamente pela retomada da terapia, 

pois continuava com seus altos e baixos em relação às suas crises depressivas e se 

percebendo mais amargo e fechado com as pessoas. O relacionamento com os avós continua 

muito difícil, pois sua avó é rude e o magoa muito. Seu tio, que, segundo relatos de Carlos

era homofóbico e o maltratava teve câncer e somente Carlos, por estar desempregado, pode 

cuidar dele por aproximadamente três meses no hospital, até o tio vir a óbito.  

Nessa primeira sessão, Carlos já estava trabalhando numa boate aos finais de semana, 

embora considerasse esse um subemprego, conseguia cobrir seus gastos com esse salário. 

Continuava se sentindo um inútil, mesmo fazendo tudo pelos seus avós e pela mãe. Tanto a 

mãe de Carlos, quanto ele próprio, pararam de beber. Ele não quer isso para si. Demonstrou 

insatisfação e ansiedade por não conseguir arrumar emprego e ter sua independência 

novamente. Aos 25 anos se acha velho. Segundo ele, suas inseguranças “gritam”. Sua 

autoestima continuava bastante baixa, ao ponto de se achar “desprezível”. Não confia nos 

seus amigos homens, pois acha que eles não são sinceros. Sua melhor amiga, de quem ele 

sente muita falta, encontra-se morando na Argentina.  

O cliente relatou que durante esses últimos sete anos teve três crises depressivas. A 

primeira aconteceu quando do término do seu primeiro relacionamento homossexual e veio 

acompanhada da anorexia nervosa, fazendo com ele perdesse 18 quilos em um mês, mas 

mesmo assim ele ainda se via gordo. E na pior das crises, ele ficou uma semana sem sair do 

quarto. Seus avós ficaram preocupados e cuidaram dele.  

Quando Carlos chegou à ACP, se encontrava entre a terceira e quarta fases do 

processo de evolução terapêutica, formuladas por Rogers (1982). Na terceira porque os 

construtos ainda eram rígidos, embora já os reconhecesse como construtos. Isso se observou 

por ele dizer que se achava desprezível, mesmo que os amigos tivessem uma opinião 




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diferente ao seu respeito. E na quarta fase quando descrevia sentimentos mais intensos, no 



presente, como mágoa e sentimento de inutilidade, mas ainda com medo, por exemplo, de 

ficar amargo como sua avó. 






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