O conceito de Cultura Na Antropologia



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cita art
 
3.3 

O entendimento de Cultura na Comunicação Intercultural 
3.3.1 

Hall
1
A disciplina Alemão como língua estrangeira persiste ainda em meados da década de 90 em 
posicionamentos didáticos dos anos 70: para espanto de muitos estudantes de alemão no mundo 
todo, que só são impedidos por sua educação de se admirar em voz alta que no país cuja cultura 
eles amam e veneram - cuja língua eles desejam aprender com considerável esforço e empenho de 
tempo- sejam produzidos vários livros que transmitem uma imagem unilateral, que se concentra 
basicamente em situações cotidianas. 
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A preocupação com o elemento intercultural cresceu no mundo inteiro a 
partir da Segunda Guerra Mundial por causa do aumento dos fluxos de pessoas e 
comércio através do mundo, como já foi dito acima. Os livros de Edward Hall 
(1959) The Silent Language e (1966) The Hidden Dimension são considerados 
dois marcos dos estudos interculturais. Nessas obras, Hall lançou as bases para um 
estudo mais científico e palpável dos fenômenos interculturais através da criação 
de parâmetros para se entender as diferenças entre as culturas sem pré-conceitos.
As experiências pessoais de Hall ajudaram a sensibilizá-lo desde cedo para 
as diferenças culturais. Ele teve contato muito cedo com comunidades indígenas 
norte-americanas, afro-americanas e estrangeiras por ter crescido no Novo México 
e servido no exército americano nas Filipinas e posteriormente no Ministério das 
Relações Exteriores Americano na Europa e notou as dificuldades que surgiam 
não só da falta de conhecimento linguístico por parte dos diplomatas americanos 
como também do desconhecimento acerca de fatos até então considerados mais 
sutis, relacionados à cultura, tradições, tabus (Rogers, Hart, & Miike 2002 : 3). 
Hall foi influenciado por vários nomes importantes no início do século 
XX, como os linguistas Whorf e Sapir e os antropólogos Boas e Rose Benedict. 
Esses estudiosos foram representantes do que se convencionou chamar 
relativismo linguístico/cultural – teoria que teve uma leitura por vezes mais 
radical, o determinismo (Dourado & Poshar 2002 : 4).
As raízes do relativismo - ou mesmo do determinismo – estavam já 
presentes nas ideias dos estudiosos alemães Herder e Wilhelm von Humboldt, que 
no contexto do Romantismo e da formação das identidades nacionais no século 
XVIII-XIX pregavam a singularidade de cada língua e por consequência de cada 
cultura, já que nessa época iniciou-se o processo que levou ao entendimento que 
ainda hoje se tem muitas vezes de que a um país correspondem uma língua e uma 
cultura nacionais, como foi feito na França após a Revolução Francesa. Como diz 
Robl (1975 : 6): 
No entender de Humboldt, a diversidade de línguas provém não tanto da 
diferença de sons e signos, mas sim, das diferentes concepções do mundo. E 
qualificou de verdadeiramente desastrosa para a lingüística a idéia muito 
difundida de que as diversas línguas não fariam outra coisa senão assinar ou 
rotular nomes a uma mesma congérie de objetos existentes independentemente 
desses nomes. Para Humboldt, "embora as línguas tenham propriedades 
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universais, atribuíveis à mentalidade humana como tal, cada língua oferece um 
"mundo de pensamento" e um ponto de vista de tipo único”. 
Portanto, qualquer língua deve ser olhada como um todo orgânico, diferente dos 
demais. É a expressão da individualidade do povo que a fala. A característica da 
psique de uma nação. De certa forma — afirma ele — "a língua é a manifestação 
exterior do espírito dos povos; seu espírito c sua língua c sua língua é seu 
espírito". Em resumo, a língua não designa uma "realidade" pré-existente. Ela 
organiza, para os falantes, o mundo circunstante.
A partir dessas ideias, Humboldt cunhou dois termos que passaram a ser 
usados em várias línguas para designar o fato de que cada cultura vê o mundo de 
sua maneira particular, e que a língua é um veículo dessa concepção/visão de 
mundo: Weltanschauung e Weltbild (visão de mundo e imagem do mundo). 
Hall se insere nessa linha de pensamento que vê as idiossincrasias de cada 
cultura como relativas, i.e. não como elementos de algo determinista. Para 
entendê-las, ele criou parâmetros que têm por finalidade entender a lógica interna 
de cada cultura, seguindo a lógica de Boas (Dourado & Poshar 2007 : 5).
O termo proxêmica, cunhado por Hall a partir dos ensinamentos de Boas, é 
considerado hoje um instrumento válido para se categorizar culturas. O Brasil 
seria uma cultura onde a necessidade de distância é mínima se comparada à 
cultura americana ou à alemã, onde a necessidade de distância física é sentida 
como maior. O fato de brasileiros se tocarem com mais frequência que alemães é 
um indício da veracidade dessa afirmação.
Schopenhauer, em sua famosa metáfora do grupo de porcos-espinho
2
nos 
dá um bom exemplo dessa imagem: no frio, os porcos do mato se aproximam a 
fim de se aquecerem mutuamente, mas seus espinhos os impedem de aproximar-
se demais. Transportando a imagem de Schopenhauer para a teoria de Hall, 
equivaleria a se dizer que a distância que cada indivíduo necessita do outro para 
não se “ferir” depende do que lhe tiver sido imposto pela socialização em 
determinado grupo humano.
Em seu livro Beyond Culture, publicado em 1976, Hall introduziu mais um 
parâmetro amplamente aceito hoje em dia nos estudos interculturais e que é 
normalmente utilizado em inglês: low/ high context (baixo/alto contexto). 
Esses dois conceitos correspondem à quantidade de informação verbal que 
é necessária em cada cultura para que a mensagem seja decodificada de maneira 
2
Cf. 
http://gutenberg.spiegel.de/buch/4997/1
, acessado no dia 18/01/2012. 
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eficaz, completa. O exemplo mais conhecido de cultura high-context é o Japão, 
onde os ensinamentos de Hall foram amplamente difundidos por ajudarem a 
explicar muitas fontes de mal-entendidos no contato com estrangeiros.
No Japão, há vários códigos, interditos que não são expressos verbalmente 
ou diretamente. Os falantes nativos do japonês, tendo sido socializados dentro 
daquela cultura, entendem mensagens subliminares que passam totalmente 
despercebidas pelos forasteiros. O Brasil também é um caso de high-context, mas 
menos exacerbado do que naquele país oriental. Muitas informações são 
compartilhadas pelos falantes e por isso não precisam ser explicitadas na fala.
Um exemplo clássico é o famoso “passa lá em casa” dos brasileiros que 
pode ser interpretado literalmente pelos estrangeiros, ou o “a gente se fala” – que 
não necessariamente se realizarão. Um encontro marcado às 8 horas em um bar 
não deve ser encarado como algo a ser cumprido pontualmente por um carioca por 
ex., pois o horário das 8 é apenas um horário de referência. Isso não será 
decodificado por um alemão, que faz questão de pontualidade mesmo em 
situações mais informais. Um bom exemplo disso na Alemanha é o fato de que há 
dois termos no sistema universitário alemão para dizer quando a aula de um 
professor começará respectivamente pontual às 10 h p.ex. ou “pontualmente 
atrasada” às 10.15. Trata-se de uma informação explícita nos horários: c.t. e s.t., 
respectivamente: cum tempore, sine tempore. O “atraso” deve ser comunicado 
diretamente.

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