O conceito de Cultura Na Antropologia


  Comunicação Intercultural ou Pragmática Intercultural?



Baixar 288.43 Kb.
Pdf preview
Página12/12
Encontro23.07.2022
Tamanho288.43 Kb.
#24336
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   12
cita art
3.5 

Comunicação Intercultural ou Pragmática Intercultural?
 
O conceito de interculturalidade é bastante atual e é tema constante em 
vários eventos que tratam de ensino de línguas estrangeiras
18
. Como já foi exposto 
no primeiro capítulo, considera-se hoje em dia a abordagem intercultural não 
como um método de ensino de línguas, mas sim uma complementação da 
abordagem comunicativa atualmente privilegiada no contexto de ensino de 
línguas. Grünewald (1996 : 24) nos ensina que já no ano de 1975 o termo 
interkulturelle Kommunikation
(comunicação intercultural) foi usado por Göhring 
e com isso foi dada maior ênfase à Landeskunde/Cultura ao lado da competência 
comunicativa. O que antes eram apenas fatos e informações passa a ser 
considerado importante para uma comunicação efetiva entre membros de 
diferentes comunidades linguísticas.
Azeredo (2011 : 44), que concluiu seu mestrado na Universidade de Kassel 
com um trabalho sobre problemas de interações entre brasileiros e alemães em 
uma firma alemã, diz: 
Neste sentido, é expandido o objetivo pedagógico da aula de língua, pois os 
aprendizes devem atingir competência comunicativa em situações interculturais. 
Para tal, devem ser capazes de entender e julgar fenônemos interculturais não 
através das suas próprias normas culturais. Eles devem ser capazes de comparar 
culturas e reconhecer por si mesmos as diferenças culturais.
19
Ulrike Schröder (2011) afirma que é muito importante que não fiquemos 
apenas no nível de explicações interculturais, mas sim que passemos ao plano 
micro e pragmático. A autora revê alguns conceitos apresentados neste estudo e os 
relativiza usando uma metodologia orientada pela pragmática ao analisar seu 
corpus de entrevistas Schröder (2011 : 150-151): 
(...) Revelou-se que as funções referencial e metacomunicativa são mais 
destacadas no corpus alemão, ao passo que as funções diretivas, fáticas e poéticas 
assumem um papel mais decisivo nas enunciações do corpus brasileiro. (...) no 
18
No 8° Congresso Brasileiro de Professores de Alemão, houve várias plenárias sobre o tema, bem 
como várias comunicações que trataram do tema. 
http://abrapa.org.br/congresso2011/principal.php
19
In diesem Sinne wird das Lernziel des Fremdsprachenunterrichts erweitert, denn die Lernenden 
sollen kommunikative Kompetenz in interkulturellen Situationen erlangen und dabei sollen sie 
begreifen, interkulturelle Erscheinungen und Ereignisse nicht anhand der eigenkulturellen Normen 
zu beurteilen. Sie sollen lernen, Kulturen zu vergleichen, um kulturelle Unterschiede erkennen und 
herausarbeiten zu können.
PUC-Rio 

Certificação 
Digital 
Nº 
0812830/CA


61
corpus brasileiro, o modo de se exprimir caracteriza-se mais por um estilo 
carregado de elementos dramáticos, poéticos e enfáticos, o que dramatiza o dito e 
se serve da força persuasiva da língua.
Mesmo se valendo de um instrumental mais pragmático, Schröder 
desvenda categorias que correspondem àquelas já criadas por outros estudiosos: o 
brasileiro seria mais emocional, prolixo, enquanto o alemão seria mais contido e 
reflexivo. O mesmo se dá com as categorias diretividade/indiretividade, que ela 
reinterpreta a partir das teorias de Brown e Levinson (1978, 1987) de trabalho de 
face e de polidez negativa e positiva.
Schröder (2011 : 157-161) reinterpreta as categorias de low/high context 
de Hall utilizando as teorias de House (2003) e Markowsky e Thomas (1995) para 
chegar à conclusão de que os alemães são mais diretos e codificam menos suas 
mensagens, pois o mais importante é o conteúdo das mesmas. O motivo é que em 
culturas monocrônicas a explicitação existe para evitar ambiguidades. O mesmo 
motivo é visível na interação entre brasileiros e alemães quando há uma discussão 
(no sentido alemão): a definição do turno é algo que não é claramente marcado no 
português brasileiro, de modo que um alemão pode se sentir ofendido por não o 
deixarem ausreden (terminar de falar). 
Também a proxêmica é reavaliada como sendo uma invasão física 
(Schröder 2011 : 162). Na análise de algumas situações cotidianas, como fazer 
compras em uma loja, tomar um táxi, Schröder (2011 : 162-165) encontra outros 
tipos de “invasão de território” de acordo com Goffman (1971): o fato de uma 
vendedora perguntar pelo nome da cliente, intrometer-se na compra, ou um taxista 
indagar o passageiro sobre seu estado civil, são analisados como invasões de 
“reservatório de informação e de conversação”. 
Schröder (2011 : 166) afirma que o estilo de comunicação brasileiro seria 
mais interacional e o alemão mais transacional segundo Spencer-Oatey (2008), 
i.e. os alemães estariam mais interessados em passar a informação enquanto que 
para os brasileiros seria mais importante comunicar amabilidade e boa vontade – o 
homem cordial! Em sua conclusão afirma Schröder (2011 : 166-167) :
Sendo assim, a preferência a um destaque maior das funções referencial e 
metacomunicativa, somada a estratégias de “impression management” mais sutis 
no corpus alemão, ao invés de uma ênfase maior dada às funções emotiva, fática 
e diretiva junto a estratégias do trabalho de face mais aberta (...) a fusão dos 
PUC-Rio 

Certificação 
Digital 
Nº 
0812830/CA


62
papéis do locutor e interlocutor no caso brasileiro e os territórios menos 
rigidamente definidos no Brasil do que na Alemanha – todas essas diferenças 
observadas em um micronível poderiam estar ligadas a essa distinção indicada 
por Spencer-Oatey. Nisso, a língua transacional seria mais destacada no caso 
alemão, ao passo que a fala interacional teria uma importância maior no caso 
brasileiro. Apenas podemos apontar aqui que essas tendências têm a ver com uma 
série de fatores em um macronível da análise, como: as conseqüências mais 
significativas da literalização no caso alemão, visto que na fala e escrita 
brasileiras há mais elementos da oralidade; uma coletividade maior no caso 
brasileiro, que se reflete na língua como modo de atuar com o outro, ao invés de 
um individualismo mais dominante na fala alemã, que busca compreender a 
língua como acesso ao mundo real, ligado a uma interiorização maior das 
atividades cognitivas, que também são reflexo da própria história: do 
protestantismo, do iluminismo, da alta autorreflexão sobre a própria nação pós-
nazista, para nomear apenas alguns aspectos decisivos. 
Wink (2011 : 197-201), no mesmo livro em que foi publicado o texto de 
Schröder, entitulado Ensinar Alemão no Brasil – contextos e conteúdos, é mais 
veemente em sua crítica aos estudiosos interculturalistas, tais como Hofstede, 
Trompenaars e Edward T. Hall, principalmente por sua – segundo ele – 
metodologia falha ao levantar os dados.
Também critica a abordagem intercultural de um modo geral tal como ela 
é feita atualmente, principalmente nos chamados treinamentos interculturais. Seu 
medo é que se perpetuem estereótipos ao invés de eliminá-los: “A praxe de tratar 
através desse conceito [cultura] supostas diferenças interculturais é 
contraprodutiva, pois não leva à relativização de estereótipos, mas volta a afirmá-
los” (Wink 2011 : 190). 
Não compartilhamos de todas as críticas que Wink faz à abordagem 
intercultural, mas compartilhamos sim de sua crítica – na verdade conhecida 
também dos estudiosos criticados por ele – no que se refere ao fato de não haver 
uma cultura nacional única, nem padrões que abarquem a todos os membros de 
uma determinada cultura: (Wink 2011 : 213) “O enfoque intercultural, na crença 
que exista uma cultura alemã até agora não se deu conta disso”. 
O que Wink quer de fato dizer é que nós somos todos formados de várias 
camadas. Para tanto, desenvolveu um modelo baseado em “cubos mágicos” que 
representariam as estruturas universais, socialmente construídas e partilhadas, o 
contexto específico de comunicação e as especificidades de cada indivíduo. No 
ato da comunicação, os elementos dos dados se encaixariam Wink (2011 : 210)

PUC-Rio 

Certificação 
Digital 
Nº 
0812830/CA


63
Dessa forma, observando a si mesmo, escutando o outro, tolerante para 
ambigüidades e na dúvida perguntando, os dois dados mágicos, com formação 
individual, vão se ajustando em dependência mútua e conseguem – ou não – 
realizar um a interacao satisfatória, como em qualquer comunicação. (...) Basta 
lembrar quantas pessoas da “própria” cultura (e que freqüentam a mesma 
academia) nós não suportamos um minuto (só que neste caso não justificamos 
pelas diferenças culturais, mas porque a pessoa é uma chata).
Podemos concluir então, que as interações entre pessoas são sim marcadas 
e muitas vezes norteadas pelo seu background cultural, como vimos 
anteriormente, mas também há outros níveis de análise a serem levados em 
consideração quando se aborda um tema que parece ser culturalmente marcado 
como o humor. Como introdução ao próximo capítulo, no qual discorreremos 
sobre o humor propriamente dito, poderíamos afirmar que rir é universal. Do que 
se ri, por quê, quando e como – para esse fatores há razões tanto culturais quanto 
pessoais, já que todos nós seres humanos somos compostos dessas três camadas, 
como explicita o diagrama: 
Adaptado de:
http://www.tuer-tor-report.com/uploads/images/35_02_d_TTF_5_09.jpg
Na base do triângulo, encontramos o que é da natureza humana 
(menschliche Natur), comum a todos os seres humanos, determinado pela genética 
(angeboren) e universal. Na faixa intermediária, está aquilo que é aprendido 
através da socialização (erlernt), específico de cada grupo ou categoria. A 
extremidade superior do triângulo representa aquilo que cada indivíduo tem de 
Inato e aprendido 
Aprendido 
Inato
Específico de 
cada indivíduo 
Específico de um 
certo grupo ou 
categoria 
Universal 
Personalidade 
Natureza humana 
Cultura 
PUC-Rio 

Certificação 
Digital 
Nº 
0812830/CA


64
específico seu, sua índole, uma mistura do que é natural (angeboren) e do que é 
resultado da socialização (erlernt).
Para que se possa entender o que acontece em situações interculturais, há 
de se levar em consideração essas três camadas, que compõe todos os seres 
humanos. A cultura na qual cada um de nós foi socializado, e que nos transmitiu 
valores, crenças e visões de mundo não deve ser encarada como 100% 
determinante, mas sim como um parâmetro importante nas nossas interações com 
indivíduos ou grupo de pessoas que passaram por outro processo de socialização. 
A crítica feita muitas vezes aos estudos interculturais é a generalização 
feita devido ao uso de estereótipos. No nosso ponto de vista, os estereótipos são 
um elemento válido para o entendimento do que acontece em situações 
interculturais, mas há de se ter a consciência de seu caráter não determinista. 
Portanto, algumas das situações consideradas “engraçadas” nos dois programas de 
televisão escolhidos como corpus para o presente estudo podem não ser 
percebidas como tal por todos os brasileiros ou por todos os alemães, 
respectivamente.
PUC-Rio 

Certificação 
Digital 
Nº 
0812830/CA

Baixar 288.43 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   12




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal