O conceito de Cultura Na Antropologia



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O Conceito de Cultura
3.1 

Na Antropologia 
O conceito de cultura não é – e nunca foi – unânime. Quando um leigo se 
refere ao termo cultura, ele geralmente tem em mente o conceito mais erudito, que 
levaria em conta apenas as artes, as manifestações culturais de prestígio em uma 
sociedade: teatro, cinema, dança etc. Poder-se-ia pensar também em fatos 
geográficos e históricos relevantes de uma sociedade, como no termo alemão 
Landeskunde
, a ser discutido mais adiante, que pode abarcar tantos aspectos da 
chamada cultura subjetiva, quanto da cultura objetiva (fatos, números).
Duranti (1997) lista e analisa seis teorias sobre o que seria cultura em sua 
obra Linguistic Anthropology. A primeira veria a cultura como tudo aquilo que o 
ser humano produz e que seria oposto à natureza. Cultura seria algo que os grupos 
humanos passariam para seus descendentes. Franz Boas (1911, 1963) é um dos 
representantes desse grupo, pois ele via a cultura como todas as ações do homem 
face à natureza e aos outros indivíduos. Para Boas, o ser humano apreende o 
mundo sob a ótica de sua cultura, a famosa “lente” já citada anteriormente que de 
alguma forma molda nossa visão de tudo o que vemos.
A segunda teoria, denominada de cognitiva, veria a cultura como uma 
síntese dos conhecimentos que são compartilhados pelos membros de uma 
determinada sociedade e que lhes servem de parâmetros para interagir entre si e 
também para apreender o mundo à sua volta, como foi sintetizada por 
Goodenough (1964 apud Duranti 1997). 
A terceira teoria, cujos representantes mais famosos seriam Lévi-Strauss e 
Geertz, considera a cultura como uma maneira de representar o mundo e de 
entendê-lo. No entanto, enquanto o primeiro vê as culturas como adaptações da 
mente humana aos vários ambientes em que os seres humanos vivem para que 
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possam viver de maneira satisfatória, para o segundo, o que é mais interessante é 
justamente ver aquilo que é comum a todas as culturas, a fim de traçar regras 
gerais para o entendimento das culturas humanas. Já para estudiosos defensores da 
quarta teoria, como Marx, a cultura seria um mediador entre o ser humano e seus 
afazeres, i.e. tudo aquilo que o homem produz com o intuito de atingir seus 
objetivos, seja material ou não.
A quinta abordagem, pós-estruturalista, que teve em Bourdieu um de seus 
expoentes, vê a cultura como um sistema de práticas mediadas pelas relações que 
se estabelecem dentro de uma sociedade, abarcando aquelas entre indivíduos e 
também entre indivíduos e instituições.
O sexto entendimento do que seria cultura a vê como um sistema 
interativo, i.e. tudo o que o ser humano faz deve ser entendido dentro do contexto 
social. A cultura seria um resultado das interações entre os indivíduos de cada 
sociedade. 
Laraia (2003) também faz um apanhado das várias teorias que tratam do 
conceito de cultura. É interessante notar que segundo o autor (Laraia 2003 : 25), o 
termo alemão Kultur já era utilizado no século XVIII para simbolizar todos os 
aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization 
referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. O antropólogo 
inglês Edward Tylor teria sintetizado ambos os conceitos no termo inglês culture
Laraia (2003 : 68)
define cultura como: 
O modo de ver o mundo, as apreciações de ordem moral e valorativa, os 
diferentes comportamentos sociais e mesmo as posturas corporais são assim 
produtos de uma herança cultural, ou seja, resultado da operação de uma 
determinada cultura.
A cultura seria para Laraia - como já foi dito mais acima – uma espécie de 
guia de comportamento em cada sociedade. Ela determinaria como nos vestimos, 
o que é considerado adequado ou não em uma sociedade, como nos comportamos 
em relação aos demais, enfim, nossas ações seriam mediadas por aquilo que 
recebemos através da socialização.
No ensino de línguas estrangeiras modernas, é imprescindível que se 
transmitam, além dos conhecimentos puramente linguísticos, informações 
culturais no sentido acima descrito por Laraia para que a comunicação 
intercultural possa fluir de maneira bem sucedida. Essa abordagem pôde ser 
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observada nos preceitos contidos no QECR, como já foi dito no capítulo anterior. 
Notou-se uma preocupação em não se dissociar o ensino puramente linguístico 
das outras competências necessárias para que o aprendiz de uma língua 
estrangeira possa interagir eficazmente sob todos os aspectos com falantes 
nativos. 
E o humor? Gostaríamos de lembrar o que diz Laraia sobre esse tema no 
contexto de seus estudos sobre cultura (Laraia 2003 : 68-69): 
Mesmo o exercício de atividades consideradas como parte da fisiologia humana 
podem refletir diferenças de cultura. Tomemos, por exemplo, o riso. Rir é uma 
propriedade do homem e dos primatas superiores. O riso se expressa, 
primariamente, através da contração de determinados músculos da face e da 
emissão de um determinado tipo de som vocal. O riso exprime quase sempre um 
estado de alegria. Todos os homens riem, mas o fazem de maneira diferente por 
motivos diversos. (...) 
Pessoas de culturas diferentes riem de coisas diversas. O repetitivo pastelão 
americano não encontra entre nós a mesma receptividade da comédia erótica 
italiana, porque em nossa cultura a piada deve ser temperada com uma boa dose 
de sexo e não melada pelo arremesso de tortas e bolos na face do adversário. (...) 
Enfim, poderíamos continuar indefinidamente mostrando que o riso é totalmente 
condicionado pelos padrões culturais, apesar de toda sua fisiologia.
O riso seria inerente ao ser humano, mas suas realizações seriam 
diferentes. Daí a necessidade de seu entendimento por parte do aprendiz de uma 
língua estrangeira, pois seu desconhecimento pode levar a situações embaraçosas, 
p.ex. Pois, como diz Laraia (2003: 92
)
, baseando-se em Needham: 
O que podemos deduzir da analogia de formulada por Needham é que cada 
cultura ordenou a seu modo o mundo que a circunscreve e que essa ordenação dá 
um sentido cultural à aparente confusão das coisas naturais.
Assim, também o riso - considerado já por Aristóteles um dos pontos que 
nos diferencia dos animais, sendo algo natural ao ser humano - faz parte dos 
valores e crenças de cada cultura. Citando Laraia (2003 : 93) uma derradeira vez: 

Finalmente, entender a lógica de um sistema cultural depende da compreensão 
das categorias constituídas pelo mesmo”.

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