O componente laical da comunidade salesiana



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Essa laicidade olha para o ‘mundo’ não tanto como criação, mas como realidade dos homens, enquanto “é teatro da história do gênero humano e marcado por sua atividade, der­rotas e vitórias... mundo da verdade reduzido à servidão do pecado, mas libertado pelo Cristo” (GS 2).

O cristão “leigo” vive como membro de uma Igreja que é servidora do homem e Sacramento universal de salvação. Ela tem a missão também de “penetrar do espírito evangélico as realidades temporais e aperfeiçoá-las” (AA 5). E o “leigo” sente-se encarregado precisamente desse papel específico vivendo o seu batismo através da característica da “secularidade” (LG 31). Empenha-se, por isso, com sentido voca­cional nas variadas realidades temporais: da família, da demografia, da saúde, da educação e da cultura, do trabalho e das profissões, das ciências, da indústria, da economia, da justiça, da política, das relações entre os povos, da paz etc.

Os setores humanos que se deve penetrar e aperfeiçoar com o espírito do Evangelho são numerosos e complexos; exigem multíplices funções e profissões, estilos diferentes de com­promisso, de forma individual e associada e com distintos estados de vida que vão do ma­trimônio à secularidade consagrada. Há dessa maneira variado e benéfico pluralismo entre os leigos na Igreja, mas com a convergência comum sobre seu idêntico “caráter secular”.

O leigo, todavia, constata viva e diariamente que está ativamente presente na história o mis­tério do mal com os imorredouros ídolos do eros, da riqueza e do poder; sente o peso da limitação humana, da ignorância e do pecado que impedem ao homem perceber e respeitar a laicidade fundamental da criação, crescer na transcendência e abrir as portas a Cristo. Com­preende claramente que o mal não está nas coisas, mas no coração do homem e em certas estruturas por ele fabricadas; é a liberdade humana que manipula desordenadamente os valores temporais.

O leigo sente-se assim chamado a uma luta permanente e ingente; compreende – de dentro do mundo – a indispensabilidade de Cristo e a necessidade da Igreja; e gosta de sentir-se parte complementar de um Corpo místico mais vasto e divinamente eficaz. Olha a Ordem sacer­dotal e a Vida religiosa como componentes essenciais do seu ser cristão e fontes indispen­sáveis de inspiração, energia e espiritualidade; vê em toda a Comunidade eclesial a fecunda matriz da salvação.

Neste segundo nível da laicidade, mais do que de uma mentalidade laical (já pressuposta do nível precedente), deve-se falar de uma vocação laical; trata-se, com efeito, de viver uma parti­cipação na missão da Igreja. Com essa vocação, o leigo põe sentido evangélico no compromisso temporal; sente que não pode ser autêntico leigo sem a ajuda da graça; que não pode exercer uma profissão ou um ofício com pureza sem superar a tentação de colocar o próprio pro­veito acima dos valores objetivos; e está expe­riencialmente convencido de que não se pode ser homem integral sem aquele Cristo que é o Senhor da história!

A vocação laical leva a uma vontade de presença útil na história; a optar corajosamente pelo homem e a sentir-se solidário com seu trágico devir; a considerar o mundo como o espaço teológico, e não puramente sociológico, da sua vida de fé; a adquirir verdadeira perícia em algumas das atividades temporais; a ter consciência da complexidade extrema de muitas coisas; a desenvolver o sentido do possível e do provável nas conjunturas socioculturais e polí­ticas. Por conseguinte, não assume um tom dogmático, não sacraliza o que é discutível, respeita o pluralismo e abre o diálogo com todos para a laicidade fundamental das coisas e para o mistério de Cristo.

A vocação laical forma para uma psicologia nutrida de realismo e de concretude: baseia-se na convicção de que a ação apostólica é obra de seriedade, dedicação, estudo, programação, sacrifício, humildade, oração e coragem.

O leigo não desconhece nem evita as com­plicações inerentes à organização, às estruturas, às instituições; antes, admira-se de que em certos setores do clero e dos religiosos possa existir uma concepção do compromisso cristão tão abstrato e superficial que o torne como de­sencarnado e o confine no âmbito exclusivo de um espiritualismo, talvez atraente, mas distante das exigências da realidade.

Estribando-se na sua qualificação batismal de membro sacerdotal, profético e real do Povo de Deus (LG, n. 34.36), aplica-se em fazer do Mundo o verdadeiro Templo do Senhor, e da multiforme atividade humana uma expressão consciente e vital de liturgia a ser incorporada existencialmente na Eucaristia do Cristo. De modo que o universo criado se torne, através da história da salvação, a grande Palavra do diálogo de amor entre Deus e o Homem, e o Mundo se apresente como mediação sacramen­tal da mútua intercomunhão deles.

Com essa vocação, o leigo retira do profano rica mina de santidade, servindo-se também de espiritualidades iniciadas por santos Funda­dores de peculiares movimentos evangélicos. Entre eles agradecemos ao Senhor haver susci­tado, nos albores da civilização industrial, a Dom Bosco, cuja espiritualidade de ação apostólica se abre para todos e pode ser vivida tanto na vocação laical, como do ministério ordenado, e ainda na da vida religiosa.

Laicidade” como dimensão realizável na vida religiosa

Há, enfim, um terceiro nível de ‘laicidade’ no âmbito da Igreja, com um significado mais delimitado, como dimensão realizável também na vocação religiosa. Ela não apresenta o ca­ráter da “secularidade”, mas situa-se na tipologia eclesial própria da “forma de vida religiosa”. Não comporta uma inserção imediata no mundo com uma atividade temporal no seu interior, mas envolve uma pertença direta e pública a uma comunidade de religiosos dedicados a tes­temunhar o espírito das bem-aventuranças; é alimentada por um ‘sopro escatológico’ que ressalta os valores da ressurreição como já pre­sentes e operantes na história após a vitória da Páscoa.

Os “religiosos” são grupos de discípulos do Cristo ressuscitado que testemunham publica­mente, por reconhecimento e encargo eclesial, o primado da caridade difundida definitivamen­te no mundo, em Pentecostes, pelo Espírito do Senhor ressuscitado. Por isso o seu caráter espe­cífico é “o dom total de si mesmos a Deus sumamente amado”, por Ele ratificado com “uma consagração mais íntima” de docilidade ao Espírito Santo (LG 44).

Esse caráter específico aparece claramente diferente da “secularidade”, porquanto se traduz numa forma de vida que implica incorporação a uma determinada comunidade com o vínculo de votos públicos (que contestam os três fa­mosos ídolos do mal), com a profissão de um Projeto evangélico sancionado por Constituições próprias, com referência de obediência a uma legítima autoridade e com uma participação específica na missão da Igreja, segundo o pro­pósito do Fundador.

Deve-se notar que, de per si, a Vida religiosa não exclui – tendo em conta a estrutura orgâ­nica da Igreja – nem a condição do Padre ou Clérigo, nem a do Leigo, “mas de ambos são chamados alguns fiéis por Deus a fim de des­frutar desse peculiar dom na vida da Igreja, procurando cada qual a seu modo ser útil à sua missão salvífica (LG 43). Portanto, a vida religiosa não é unidimensional, e não pode ser interpretada de forma unívoca como se nela não fossem numerosos e diversos os carismas suscitados pelo Espírito de Cristo através dos Fundadores.

No pluralismo dos Institutos de vida ativa há uma verdadeira possibilidade de assumir de diferentes maneiras também uma certa dimen­são laical. Muitos Institutos de vida ativa são somente “laicais” e outros, como a nossa Con­gregação, têm uma específica e original dimen­são “laical”. Tal característica não deverá ser interpretada e vivida como “secularidade”. Entre­tanto, conservará segundo os diferentes caris­mas, verdadeira ligação e certa sintonia de mentalidade e de atividade com os dois níveis anteriormente descritos pela laicidade. A di­mensão contemplativa própria de toda Vida religiosa não obriga uma Congregação de vida ativa a ter “uma alma monástica”, mas, sim, a cultivar o seu “impulso escatológico” no aposto­lado entre os homens.

Seria desconhecer os fatos querer defender uma concepção religiosa que marginalize a nossa Congregação, em relação ao mundo e à sua problemática de salvação, da área da cultura popular e da educação da juventude. O próprio Concílio exclama: “ninguém julgue que os reli­giosos pela sua consagração se tornem alheios aos demais homens ou inúteis na cidade ter­rena” (LG 46).

E o grande Papa Paulo VI na exortação apostólica Evangelica testificatio diz precisamente aos Religiosos. “Uma candente interroga­ção nos inquieta: como fazer penetrar a men­sagem evangélica na civilização das massas? Como agir nos níveis em que se elabora uma nova cultura, em que se forma um novo tipo de homem? (...) Vós deveis seguir de olhos bem abertos as necessidades dos homens, seus pro­blemas, buscas, testemunhando em meio a eles, com a oração e a ação, a eficácia da Boa Nova de amor, justiça e paz. (...) Tal missão, como é comum a todo o Povo de Deus, é vossa por um título particular” (ET 52).

Com efeito, a “índole secular”, carac­terística dos Leigos, reflete e encarna neles uma dimensão de realismo histórico, própria de toda a Igreja na sua missão de Sacramento universal de salvação; pode ser, pois, de alguma maneira assumida, na forma de vida que lhes é própria, também por vários Carismas religiosos. É o nosso caso. Bem sabemos que a Sociedade dos Salesianos de Dom Bosco nasceu nos albo­res da civilização industrial para colaborar “religiosamente” na construção da nova Socie­dade.

Nos institutos de vida ativa que têm uma dimensão laical própria, serão sobretudo os “irmãos leigos” a desempenhar o papel especí­fico de garantir ao Instituto e de realizar na prática esta sua particular dimensão. Esse papel é uma “vocação”, e não simplesmente um “ofício”; envolve a consolidação quotidiana de três aspec­tos complementares e inseparáveis que consti­tuem a grande fonte de identidade de vida do Religioso-leigo:


  • a “consagração religiosa”, como sua opção fundamental na sequela de Cristo;

  • o “espírito do Fundador”, como seu clima evangélico de existência e animação dos des­tinatários do próprio apostolado;

  • a “escolha da dimensão laical”, como seu ideal positivo de vocação percebido e que­rido à luz do Carisma global do próprio Insti­tuto.

Nesse terceiro aspecto está claro que o laço que liga às qualidades laicais dos outros dois níveis anteriormente descritos, não pode ser explicitado de forma arbitrária e apriorística, mas deverá ser objeto de atualizada e concreta reflexão em cada um dos Institutos interes­sados.




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