O catolicismo e a diversidade étnico-racial e religiosa na pós-modernidade



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O catolicismo e a diversidade étnico-racial e religiosa na pós-modernidade

Frei David Santos OFM

I – Introdução

Em 16 de maio de 2018, num encontro com religiões não cristãs, o Papa Francisco disse que o “diálogo e colaboração são palavras-chave nos dias de hoje” e é importante ver cada vez mais os líderes religiosos “se comprometerem em cultivar a cultura do encontro e dar exemplo de diálogo colaborando efetivamente ao serviço da vida, da dignidade humana e da tutela da criação”. Assim o Papa Francisco dá continuidade à EXORTAÇÃO APOSTÓLICA “EVANGELII NUNTIANDI” do PAPA PAULO VI, especialmente no número 20 Esta leitura nos revela que o diálogo religioso continua sendo o grande desafio que ainda não foi plenamente abraçado pela Igreja, para se libertar do domínio totalitário da cultura europeia dentro dos espaços eclesiais e pregar o evangelho à todas as culturas, com a liberdade de filhos de Deus, a partir dos valores de cada cultura, mantendo o cerne do vigor evangélico. Poucos Cardeais, Bispos, Padres, Religiosos/as e suas respectivas Congregações levam-no a sério e o colocam em prática, no dia-a-dia, com dedicação e compromisso com o Reino de Deus. Por quê? Infelizmente a resposta é muito fácil e chocante: exigia e exige que as culturas que predominavam e predominam dentro da Igreja abrissem mão de seu poderio cultural europeu, na forma de evangelizar e celebrar, dando espaço para a diversidade cultural criada por Deus e desejada pelos documentos eclesiais. Que permitissem que as culturas oprimidas, especialmente a indígena e a afro-brasileira fossem protagonistas no serviço de evangelizar e gerar o diálogo com Deus. Este é um problema verificado só na Igreja Católica? Não. Todas as Igrejas cristãs desrespeitavam e desrespeitam, na base de suas estruturas, a rica diversidade cultural, criada e doada à humanidade por Deus que é o senhor de todas as culturas.

II – De cada 10 líderes negros norte-americanos, 9 foram “gestados” nos espaços religioso-cristãos

Este tema é de vital importância para o aprofundamento do ser Igreja na atual fase de busca e construção de comprometimento e identidade com a comunidade afrodescendente e indígena, nas Igrejas e fora das Igrejas, em nível nacional. As Igrejas, mais uma vez, erram e não dão espaço para o novo! Os cristãos em geral estão descobrindo algo fantástico: este povo afro-brasileiro é marcadamente religioso! Se a Igreja Católica não lhes permite espaço, buscam, sem perda de tempo, em outras expressões religiosas. Este é um dos fatores através dos quais a Igreja Católica está, cada vez mais, em queda livre... A religião está na flor da pele deste povo negro! Eles têm grande potencial para viver a fé, mas ela está formatada equivocadamente para os pertencentes ao poder branco. Percebemos que, antigamente, nos quatro cantos do Brasil, havia uma tentativa de articulação da luta pelos direitos dos afrodescendentes nas respectivas Paróquias, Dioceses e Arquidioceses nas quais vivenciavam sua fé.

Fazendo-se uma retrospectiva histórica da luta dos negros nos EUA vamos constatar que, de cada 10 líderes negros norte-americanos, com diferente intensidade na aplicação de sua pedagogia de liderar, 9 foram “gestados” nos espaços religioso-cristãos. É o caso do Pastor Luther King, Malcon X e outros grandes exemplos a serem seguidos. Lá nos EUA, a tática usada pela comunidade afrodescendente fez as estruturas das Igrejas a se colocarem a serviço da causa do povo negro, consciente ou inconscientemente. Na década de 80 cresceu aqui no Brasil a articulação dos afrodescendentes dentro dos espaços religiosos. Com a constatação de que esta foi também uma estratégia que garantiu conquistas da comunidade negra cristã norte americana. A tendência hoje é de retomada e investimento neste caminho? Ou as estruturas contrárias são as mesmas e, mais uma vez não irão deixar o novo florescer? Não temos dúvidas: consciente ou inconscientemente este é o caminho que trará, mais rapidamente, as vitórias que almejamos – uma Igreja sendo instrumento de Deus na construção da diversidade étnica na Igreja e na sociedade. Todos os cristãos: brancos e negros estaremos mais próximos e em sintonia com as exigências proféticas do Reino de Deus, se optar por este caminho!

III – Os afro-brasileiros e as Religiões Evangélicas

É possível um trabalho conjunto da Católica Católica com os movimentos cristãos evangélicos negros, em atitude de abertura? Ao se tratar deste tema no Brasil, uma grande pergunta fica no ar: se nos EUA a Igreja Batista foi o principal instrumento que lutou pela libertação dos afrodescendentes, porque, aqui no Brasil, a Igreja Batista não cumpriu o mesmo papel? E os demais Evangélicos? Seria fundamental se fazer esta pergunta a todos os nossos irmãos evangélicos. Uma tentativa de resposta é esta: o poder central batista (que era branco) dificultou, ao longo destes anos a vinda de Pastores Batistas negros que eram conscientes dos direitos do povo negro. Só enviaram como Missionários para o Brasil pastores e leigos brancos que tinham posturas contra o investimento na retomada da consciência e dos direitos do povo negro no Brasil. Os poucos negros que aqui vieram como Missionários Batistas não tinham consciência de negritude relativamente bem elaborada.

Por volta dos anos 80 surgem pessoas batistas negras e outros evangélicos que tentavam fazer um trabalho de evangelização nesta linha. Organizavam-se em várias partes do Brasil. No Paraná editavam um informativo impresso com as demandas por evangelização dos batistas negros. Nas assembleias dos Agentes de Pastoral Negros participavam batistas negros e outras denominações.

O Jornal da Igreja Evangélica do Reino de Deus (que tem uma grande tiragem), na edição 304/1998 dedicou uma página inteira discutindo o racismo no Brasil e colocando em debate, dois expoentes da reflexão racial brasileira: Aroldo Macedo, Diretor da Revista Raça e Ivanir dos Santos, secretário executivo do CEAP-Rio.

A Igreja “Assembleia de Deus” tem tido uma ou outra pessoa preocupada com este aspecto da evangelização. O ritmo dos cantos evangélicos adaptado dos ritmos das ricas culturas afros, com letras religiosas, tem sido cada vez mais comum nestas Igrejas e em outras pentecostais que atuam em todo o Brasil. O ritmo do samba, além de ter entrada em várias Igrejas ocupa boa parte das programações evangélicas nas rádios e televisões no Brasil e conquista grande parte da comunidade negra, inclusive multidões de Católicos negros!

O estilo musical GOSPEL (dos negros dos EUA), inclusive com seu visual estético afro tem ocupado bons espaços nos corais que se apresentam nas Igrejas e televisões, caindo de cheio no gosto do povo e tem sido cada vez mais comum no Brasil. Em que podemos aprender com as Igrejas evangélicas, sem nos contagiar com possíveis equívocos?

Cresceu no Rio de Janeiro a articulação através dos encontros de CAPOEIRISTAS EVANGÉLICOS. Conseguiram reunir pastores e leigos afrodescendentes de várias religiões evangélicas e uniram com qualidade a reflexão evangélica com elementos simbólicos da cultura afro-brasileira.

Nos anos 90 surgiu, no Brasil, uma articulação de evangélicos afrodescendentes, provenientes de mais de 5 denominações religiosas. Seus objetivos foram o de refletir o evangelho a partir dos valores culturais; avaliar a prática das Igrejas Evangélicas no tocante ao racismo inconsciente ou conscientemente praticado no interior das Igrejas; avaliar possíveis passos de avanço enquanto negros e evangélicos que deveriam ser dados, etc. Tiveram algumas dificuldades institucionais para manter esta novidade profética e dar continuidade a este valor do Reino de Deus. Por que tudo para o povo negro é mais difícil?

Entre as Igrejas Evangélicas, a que teve um trabalho de negritude razoável foi a Metodista. Conseguiram elevar à categoria de MINISTÉRIO o trabalho de luta contra o racismo, surgindo assim oficialmente o MINISTÉRIO DE COMBATE AO RACISMO DA IGREJA METODISTA. Realizam cursos, encontros, seminários, etc. Já realizaram alguns encontros de pastores evangélicos negros metodistas. Num dos Concílios a Igreja aprovou que todas as instituições de ensino do 1º, 2º e 3º graus pertencentes à instituição deveriam dar prioridade, na concessão de bolsas de estudo, a estudantes afrodescendentes e mulheres. Infelizmente a estrutura da Instituição, percebendo o avanço deste povo de Deus, “cortou as asas de cada líder” e os trabalhos desapareceram quase que completamente.

Na década de 80 um grupo de 16 pessoas, afrodescendentes, que eram Metodistas, Batistas e Católicas organizou um grupo de estudo, com apoio do ISER (Instituto Superior do Estudo das Religiões) com o objetivo de se produzir uma “TEOLOGIA NEGRA DE LIBERTAÇÃO” a partir dos líderes populares dos movimentos sociais negros. O grupo encontrava-se dois dias integrais por mês, com o intuito de estudar e debater as questões comuns à comunidade afrodescendente cristã em geral, a partir do prisma da teologia da libertação. As reuniões aconteceram, em sua maior parte, nas dependências da Faculdade Metodista Bennett, próximo ao Largo do Machado, na cidade do Rio de Janeiro. O primeiro negro Doutor em Teologia no Brasil, desta nova geração, Geraldo da Rocha, foi participante deste grupo experimental.

Um dos momentos de auge dos Metodistas negros aconteceu no dia 28 de junho de 1997, quando o Ministério Regional de Combate ao Racismo da Igreja Metodista realizou um importante encontro no Rio de Janeiro, cujo título foi: “COMO A IGREJA COMBATE O RACISMO”?

IV – Como a Igreja trataram os negros nestes 518 anos?

Em 1994 estávamos preparando fundamentadas pesquisas para trabalhar, com bons conteúdos, a celebração dos 300 anos do martírio de Zumbi dos Palmares. Decidi buscar resposta para uma pergunta: como a vida religiosa tratou os Quilombolas do Quilombo dos Palmares, em 1690? Fui pesquisar em Recife, Pernambuco, com esta pergunta bem definida. Tinha uma expectativa de encontrar posturas corajosas, no estilo de Francisco de Assis, que foi até o Sultão em busca da paz. O que encontrei deixou-me chocado: uma carta do Guardião do Convento Franciscano de Recife, cobrando do Governador da época os salários dos 12 frades colocados a serviço das tropas que foram destruir os Quilombos dos Palmares e matar os Quilombolas. Quais as responsabilidades e compromissos que esta descoberta traz a nós continuadores da Vida Religiosa no Brasil de hoje.

Para compreendermos a postura omissa da Igreja hoje, podemos e devemos olhar para a história. Ao longo destes séculos, a Igreja católica e todos os cristãos foram influenciados e formados por quatro projetos de evangelização/reino de Deus. São eles:

1 - PRIMEIRO PROJETO

No período colonial, entre os anos de 1500 e 1842, a proposta deste projeto era a de promover a fé cristã, baseada na leitura do Evangelho a partir da ótica do opressor, tendo como foco a cultura europeia. Sendo assim, tudo o que se originava da cultura negra era menosprezado pela cultura branca dominante. O lugar ocupado pelo negro era o de escravo e a escravidão roubava do negro o direito de constituir família, de vivenciar suas tradições culturais, de resgatar suas raízes e possuir os direitos iguais aos demais cristãos.

Este projeto, do ponto de vista do colonizador, era anunciado como sendo a grande Boa Nova, mas da ótica do povo escravizado e oprimido, significava MÁ NOTÍCIA: a extinção dos seus direitos de cidadãos, de seus valores culturais, religiosos e humanos.

Infelizmente, a Vida Religiosa e a Igreja estabeleceram um forte vínculo com o Império, no sentido de ratificar esta proposta ante evangelizadora. Elas não tinham como foco a dimensão libertadora e salvífica, trazidas por Jesus Cristo. Preocupavam-se com os privilégios obtidos para a Vida Religiosa e para a Igreja a partir desta parceria. Em outras palavras: a Igreja apoiava o Império nas lutas armadas contra os escravizados negros e outros invasores. A vida Religiosa e a Igreja investiram na destruição dos Quilombos dos Palmares, no assassinato de Zumbi, além de estar conivente com o assassinato de todas as demais lideranças do povo negro, nos quatro cantos do Brasil. Um dos exemplos foi o julgamento injusto do líder Manoel Congo, que fez uma forte revolta nos engenhos da cidade de Vassouras, Rio de Janeiro, fundando um Quilombo que foi rapidamente exterminado pelo falso herói Nacional Chamado de Duque de Caxias. Manoel congo foi enforcado no dia 6 de setembro de 1839. A Igreja limitou-se a colocar um religioso para legitimar o enforcamento, dando-lhe a extrema unção. Todos os líderes do povo negro que lutaram contra a escravidão e libertação de seu povo foram dizimados para intimidar o surgimento de novas lideranças. Hoje, alguns religiosos mal informados têm a coragem de dizer que o negro não lutou contra a escravidão. O Império concedia à Igreja poder e status para que esta também pudesse influenciar politicamente nos rumos do país, e ajudar na manutenção da escravidão.

2 - SEGUNDO PROJETO

No segundo projeto, denominado romano-europeu, a partir de 1842 até 1968, a luta era pela retomada da europeização da vida religiosa e da Igreja no país e isto significava combater as irmandades e todas as organizações leigas. Passar por cima dos grupos e das culturas consideradas inferiores, a fim de que prevalecesse o processo de ocidentalização. Para isso, abrem-se as portas para os imigrantes europeus, ao mesmo tempo em que se busca a perseguição e eliminação dos quilombos, pelo perigo que ele representava ao projeto de europeização do país. Os negros, neste caso, só teriam vez se entrassem no esquema da europeização, que tinha como um de seus instrumentos a ideologia do embranquecimento. Os negros que procuravam defender sua cultura, principalmente através da vivência da fé nas religiões afro (um dos poucos espaços de resistência), eram impiedosamente perseguidos e mortos. Foi nesta fase que a ideologia determinou que as religiões afro fossem coisas do demônio e proibidas de funcionar.

Os colonizadores e missionários europeizavam/catequizavam negros e índios e, aqueles que se rebelavam eram massacrados pelos colonizadores sem a defesa da vida Religiosa ou da Igreja. No máximo, iam ministrar o sacramento da extrema unção para os injustamente condenados à morte.

Ainda fazendo referência à ideologia do embranquecimento do país, proibindo a entrada de negros e só permitindo brancos, lembramos o decreto Nº 7967, artigo Nº 2, de 18 de setembro de 1945, assinado pelo então Presidente Getúlio Vargas que diz: “Atender-se-á, na admissão dos novos imigrantes, a necessidade de preservar e desenvolver na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia, assim como a defesa do trabalhador nacional”.

Em 1960, com a Lei Afonso Arinos que punia todas as atitudes de discriminações raciais, as Congregações Religiosas do Brasil, por pressão do advogado da CRB Nacional, começaram a tirar de seus estatutos e normas internas a proibição de se permitir a entrada de negros(as) e mestiços(as) na vida religiosa.

3 - TERCEIRO PROJETO

A partir de 1968, com a Conferência de Medellin e Puebla, a compreensão de vida religiosa em missão profética consistia em trabalhar a evangelização baseada na situação concreta e histórica do povo oprimido, afirmando e defendendo que este era o verdadeiro rosto de Deus, configurando assim, o terceiro projeto de evangelização.

Concluíram que este povo oprimido reúne principalmente negros/as e índios, entre o grande volume de marginalizados. Foi então que começaram a surgir os grupos de base formados por negros católicos que em 1980, fundaram articulações de negros(as) católicos em todos os seguimentos. A Articulação dos Franciscanos Negros desembocou na luta tenaz pelas Ações Afirmativas e cotas nas universidades brasileiras, uma das principais conquistas do povo negro nos últimos 150 anos!

Depois de um grande trabalho de pressão da base negra católica, formada em grande parte por Religiosas e Religiosos negros/as, a CNBB assume na Campanha da Fraternidade de 1988 o tema: “A Fraternidade e o Negro!” graças a grande mobilização dos grupos pastorais negros de base. Esta iniciativa projetou o trabalho dos negros católicos no sentido de conquistar um espaço para levar toda a sociedade a refletir a condição socioeconômica sub-humana de homens e mulheres negros excluídos institucionalmente dos espaços de decisão da sociedade e da Igreja.

4 - QUARTO PROJETO

Finalmente, a proposta do “quarto projeto de evangelização” é o que se tem de mais recente no tocante à postura da Igreja em relação às questões raciais. O retorno ao conservadorismo, a valorização da oração sem o compromisso da ação enquanto escolha mais eficaz para a solução dos problemas começam a ganhar mais impulso. A tendência dos grupos de base foi de esmorecimento quase total. Alguns têm optado por realizar trabalhos mais internos, na tentativa de não perder os espaços já conquistados anteriormente. O projeto latino-americano perde sua força na medida em que os agentes negros que tiveram um bom “pique” no começo perderam-se no caminho, com conflitos onde o negro era o “revoltado”. Os negros católicos comprometidos, principalmente religiosos e religiosas, tentam trabalhar a causa do negro fora da Igreja. Focam na luta por políticas públicas, contra a continuação da discriminação racial, através dos veículos de comunicação, de iniciativas junto ao poder público, atuando também junto ao processo educacional, no sentido de promover a cultura negra e de conscientizar a partir da compreensão da unidade respeitando a diversidade.

V - COMO OS NEGROS CATÓLICOS ORGANIZARAM-SE NESTES 518 ANOS?

A organização religiosa só é possível ser plena na liberdade. A primeira grande experiência de liberdade religiosa foi experimentada nos quilombos reunidos dos Palmares. A comunidade quilombola, por ser radicalmente livre do domínio do pensar político e religioso dos colonizadores, tinha total liberdade e motivo para rechaçar a influência da Igreja Católica e todos os seus símbolos religiosos. No entanto, não foi isto que aconteceu. O povo quilombola foi capaz de distinguir os valores religiosos emanados dos evangelhos, tais como a justiça, o respeito à diversidade que trazia a Igreja Católica da prática dos que se diziam “donos” da fé católica.

Os Quilombolas naquele novo espaço de liberdade poderiam fechar-se somente em sua compreensão religiosa tradicional africana. Entretanto, eles sabiam diferenciar Jesus Cristo e seu Evangelho da prática dos cristãos colonizadores em terras brasileiras. OS QUILOMBOLAS REPROVAVAM a prática religiosa dos cristãos, pois não valorizavam a justiça e o respeito ao diferente, mas, por outro lado, souberam perceber o potencial libertador trazido por Jesus e seu Evangelho e o abraçaram. Na guerra contra os palmarinos, em 1645, chefiado por BLAER - REIJEMBACH, o escrivão da tropa invasora relata que encontrou no centro do Mocambo GRANDE PALMARES uma casa religiosa, com imagens de Santos Católicos, entre elas a imagem do MENINO JESUS, e ricamente adornadas com objetos religiosos africanos. A inculturação, tão discutida hoje na Vida Religiosa e na Igreja, já era algo normal, praticada no espaço de liberdade chamado QUILOMBO. Os Sacerdotes eram escolhidos entre os mais capazes, que possuíam espírito de liderança, sabedoria e profundo conhecimento da natureza. A intimidade com o DEUS PAI TODO-PODEROSO, chamado de OLORUM - OLO + ORUM (senhor do orum, ou seja: senhor de todos os espaços terrestres e celestes), era a principal qualidade nos Sacerdotes. Já entendiam como normal e natural o Sacerdócio casado, bem como o Sacerdócio feminino, dimensões ainda hoje, em pleno século XXI, negada pela principal religião ocidental.

VI – CONCLUSÃO

O clima e o momento é muito positivo para debater o diálogo religioso ou o macro ecumenismo. Um exemplo, para concluir, está na postura positiva do Papa. Pessoas de diferentes religiões se uniram com o Papa na Praça São Pedro em uma reflexão sobre a importância da abertura inter-religiosa, com as religiões não cristãs. Este encontro ecumênico promovido pelo Papa foi também para comemorar os 50 anos da declaração apostólica “Nostra aetate”. “A Igreja olha com estima para os crentes de todas as religiões, apreciando o seu empenho espiritual e moral. A Igreja aberta ao diálogo com todos é, ao mesmo, tempo, fiel à sua crença” e respeitosa com a crença dos irmãos, disse o Papa Francisco.

Neste ano de 2018 a Igreja/CNBB comemora os 30 anos da primeira Campanha da Fraternidade com o tema sobre o negro. De lá para cá, o que mudou dentro da Igreja, com referência ao diálogo intereligioso? Uma liturgia Inculturada Afro foi oficializada?

O maior espetáculo da terra, o carnaval brasileiro e mais especialmente os desfiles das Escolas de Samba, trazem dicas de como a Igreja deve se inculturar. Como exemplo, vamos ler a letra da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense, do carnaval de 2015 e vamos nos perguntar: é ou não uma proposta de reflexão que poderia partir da Igreja? E porque não parte? Vejamos o conteúdo da música:

"AXÉ, NKENDA! Um ritual à liberdade”

(E que a voz da Igualdade seja sempre a nossa voz!)

FOI UM GRITO QUE ECOOU, "AXÉ-NKENDA"!

A LUZ DENTRO DE VOCÊ... ACENDA!

NADA É MAIOR QUE O AMOR, ENTENDA

A VOZ DO VENTO VEM PRA NOS CONTAR

QUE NA MÃE ÁFRICA NASCEU A VIDA

PURA MAGIA, "BAOBÁ" ABENÇOADO...

TANTA RIQUEZA NO TRIÂNGULO SAGRADO...

MISTÉRIOS! GRANDEZA!

O HOMEM EM COMUNHÃO COM A NATUREZA!

TRISTEZA E DOR,

NA VIOLÊNCIA PELAS MÃOS DO INVASOR

E O MAR LEVOU...

NOSSA CULTURA UM NOVO MUNDO ENCONTROU

PÕE PIMENTA PRA ARDER, ARDER, ARDER!

SENTE O GOSTO DO DENDÊ, O IAIÁ, OYÁ

TEM ACARAJÉ NO CANJERÊ,

TEM CARURU E VATAPÁ (É DIVINO O PALADAR)

CAPOEIRA VAI FERVER! VEM VER! VEM VER!

ABRE A RODA QUE IOIÔ QUER DANÇAR.. SAMBAR..

TRAZ MARACATU, MACULELÊ..

É FESTA ATÉ O SOL RAIAR

LIBERDADE!

SAGRADA BUSCA POR JUSTIÇA E IGUALDADE

E COM ARTE EU SEMEIO A VERDADE

O DESPERTAR PARA UM NOVO AMANHECER

FAÇO BROTAR A FORÇA DA ESPERANÇA

DEIXO DE HERANÇA UM NOVO JEITO DE VIVER!

VAMOS LOUVAR O CANTO DA MASSA

UNINDO AS RAÇAS PELO RESPEITO

VAMOS À LUTA PELOS DIREITOS

UMA "BANANA" PARA O PRECONCEITO.

"MANDELA"! "MANDELA"!

NUM RITUAL DE LIBERDADE

LÁ VEM A IMPERATRIZ! EU VOU COM ELA

EU SOU "MADIBA"! SOU A VOZ DA IGUALDADE.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

Moore, Carlos. Racismo & Sociedade – novas bases epistemológicas para se entender o racismo. Belo Horizonte: Mazza Edições Ltda, 2007

ZWETSCH, Roberto E. (Org.). 500 anos de invasão — 500 anos de resistência. São Paulo: Paulinas, 1992.

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Hoornaert, Eduardo. “Padres e Escravos no Brasil-Colônia” in Vida Pastoral. Janeiro e Fevereiro de 1988.

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* Teólogo e Filósofo




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