O brado da floresta – Ana Gabriela Pacheco



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O brado da floresta

O brado da floresta – Ana Gabriela Pacheco
Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida. O entoar da canção me parabenizava por simplesmente e somente ter nascido, enquanto eu encarava a tentativa de bolo de chocolate do meu irmão mais velho, um lado assado e o outro tombado já que não havia crescido, a calda grudenta e a vela brilhante do número treze, o número conhecido como o número do azar. Fiquei me perguntando o que eu tinha feito, além de nascer, pra merecer isso.
A noite fora da casa era a mais escura da noite, cheia de neblina. A cidade que normalmente estaria barulhenta em algum tipo de feira noturna perto da prefeitura, estava hoje silenciosa. Igual a todos os anos nessa mesma data: meu aniversário.
Ninguém novo por aqui desde que vim ao mundo. Todo e qualquer viajante desaparecia pouco tempo depois. A polícia local emitia relatórios falsos dizendo que pessoas desaparecidas foram encontradas morando em cidades próximas, pra que nenhuma autoridade de fora desconfiasse. Sei disso porque já ouvi meu pai, o xerife, falando.
Odiava ter que fazer aniversário porque ninguém nunca vinha na festa. Não tinha amigos da minha idade além do Mark e do meu irmão, que não conta por que é meu irmão mais velho e é meu amigo por obrigação. Ou pena.
Os pais das crianças, incluindo meus pais, estavam anualmente ocupados nessa data porque algo maior e obrigatório acontecia. Sempre quis estar lá, mas nunca pude. Meu sonho real sempre foi uma festa iluminada onde finalmente seria meu momento de fala.
Enquanto eu soprava as velas escutei o barulho da coleira do Tobias e o latido. Meu irmão Severo se virou e olhou na janela. Mark fez uma piada sobre meu pedido ter se realizado e o Tobias finalmente virar um dragão.
— Cachorro idiota. — Severo xingou.
— Cachorro idiota! — Mark repetiu, batendo a mão na coxa, me fazendo entender que era uma imitação barata do Eustácio de Coragem, o cão covarde.
— Simon, o Tobias fugiu. Vamos atrás antes que o pai chegue. — Severo se virou, com a expressão fechada, jogando os casacos na cadeira em Mark e em mim. Encarei o bolo e as três caixas de presente na mesa. — Depois você abre. Vem, antes que ele vá muito longe.
Saímos de casa tremendo, fechando os casacos iguais no pescoço. Mark me deu um cascudo na cabeça e rindo, tirou a lanterna do bolso. A neblina era tão grande nesse dia que era necessário levar lanternas ao sair de casa.
Severo estava mais à frente na rua com a lanterna acesa na mão, gritando pelo nosso vira-lata e verificando se estávamos indo atrás dele, que era o comandante da busca do cachorro. Tobias estava comigo desde que eu tinha um ano. Era meu parceiro como todo cachorro, mas me entendendo como ninguém entendia.
— Simon, acho que seus pais vão te dar um videogame novo. O novo Resident Evil. Chuto pela caixa. — Mark disse enquanto eu olhava pros lados procurando Tobias. — Ouvi falar que é assustador.
O encarei com uma cara irônica. Na cidade onde morávamos, aprendemos que nada é mais assustador do que o que humanos são capazes de fazer pela sobrevivência. Ele entendeu meu olhar e deu risada. Severo fez um sinal pra nos aproximarmos:
— Shh. Fiquem quietos, vamos ver se escutamos latidos.
Nos reunimos e meu irmão colocou a mão nos nossos ombros. Apesar de parecer como o perdedor Bob Fayge, o sem amigos da escola quando eu pensava desse jeito, era um fato: meu irmão e o Mark me bastavam. O trio perfeito dos mosqueteiros. Mesmo eles sendo quatro. Quando alguém me questionava sobre esse apelido, eu apontava pro Tobias como o D’Artagnan.
Escutamos um latido seguido de um uivo vindo do final da rua, onde começava o bosque com a trilha pra floresta.
— Escutaram isso? — Mark perguntou se tremendo de excitação. Era bobo e gostava de qualquer coisa da vida real que fizesse parecer que ele estava num livro do Stephen King. Queria ser o Danny Lloyd.
Meu irmão fez um sinal pra irmos na frente, enquanto olhava pros lados e pra frente, nos guiando e tomando conta. Ele só tinha dezesseis anos, mas seu nome, responsabilidade e expressões no rosto o tornavam um espírito chato de meia-idade.
Enquanto nos aproximávamos da entrada do bosque onde os pinheiros eram baixos e neblina começava a ficar mais baixa e densa, escutei um berro. Um grito de dor horrendo e longo de alguém desesperado chamando algo. Arregalei os olhos e dei um passo pra trás, trombando com Mark e caindo:
— Presta atenção Simon! Já tá com medo?
Fiz que não e ele me ajudou a levantar. Acendi a lanterna. Escutei mais latidos e sinalizei pros dois, que me seguiram rapidamente. No meio do caminho pisei em algo que se quebrou em pedacinhos embaixo dos meus pés, como caquinhos de vidro. Soltei um suspiro como que em repúdio antes de olhar no chão.
— Pisei num passarinho morto, eca! — Mark levantou o pé sujo. Severo me puxou pra perto dele e vi as penas grudadas no meu tênis. Embaixo da neblina, alguns passarinhos mortos.
Severo pegou um passarinho na mão.
— A cabeça deles tá tipo explodida.
— Deixa eu ver! — Mark se aproximou e Severo levantou a mão com o pobre passarinho pra que ele não alcançasse, enfiando a luz da lanterna na cara dele. — Alguém andando cantando ópera pra cabeça deles explodirem assim.
Olhei em volta. Escutei uivos doloridos do Tobias mais à frente. Quis chamar por ele, acho que ele sempre esperou isso. O berro veio logo em seguida. Encarei meu irmão.
— Temos que pegar o Tobias logo, se nos afastarmos muito vamos acabar indo pra floresta e o pai disse que não devemos ir. — O encarei curioso enquanto ele falava. — Não me olhe assim, sabe o porquê.
— Por quê? — Mark questionou por mim, de certa forma me poupando. Em seguida me deu uma cotovelada. Devolvi..
Enquanto andávamos, Severo começou a explicar, receoso:
— Essa noite do ano é importante pra cidade porque é quando as pessoas entregam as oferendas, tá ligado? São por conta delas que a cidade fica bem. Em alguns anos as pessoas pedem outras coisas. Minha mãe tinha problemas pra engravidar. Usou o ritual pra engravidar de mim.
— Tá, mas e aí? — Mark piscou repetidamente prestando atenção, ajeitando os óculos embaçados que o deixavam com olhos enormes de coruja.
— Bom, depois usou pra engravidar do Simon, mas não tinha funcionado. Então do nada, ela deu à luz a ele no ano seguinte, nessa mesma noite. E aí morreu. Ninguém entendeu nada. Mas pra finalizar o papo, meu pai não gosta que participemos, primeiro porque somos menores de idade, segundo porque não quer nos perder como perdeu nossa mãe.
— Meus pais estão doidos pra que eu participe, eles dizem que engrandeia muito o espírito.
— Engrandece.
— Isso aí. Passamos a entender melhor tudo. Disseram que me ajudaria a me concentrar melhor.
— O que te ajudaria a se concentrar é um terapeuta, Mark. Claramente você tem algum problema de atenção. — Severo começou a passar entre as árvores menores e mais próximas, as folhas se entrelaçando e criando um labirinto escuro. Mal o víamos, mas o seguíamos com as luzes.
— Só não te mando calar a boca porque você é mais velho e pode me dar um cascudo. — Mark riu. Escutei outro grito e me tremi. — Simon, tudo bem?
Latidos. Outro grito. Um brado ensurdecedor. Um ruído alto e estrondoso que fazia meu coração palpitar como se quisesse ir atrás. Trêmulo, encarei Mark e apontei pro meu ouvido, fazendo com que ele calasse a boca por um momento e tentasse se concentrar nos barulhos da floresta.
— Por que pararam? — Severo voltou, colocando a lanterna na nossa cara com a voz severa.
— Simon escutou algo esquisito. Shh.
Outro berro, mais próximo. Seguido de um uivo do Tobias, como os que ele dava quando chegávamos em casa pra cessar sua tarde solitária.
— É o Tobias, Simon. — Meu irmão me repreendeu, sinalizando pra frente com as mãos. Fiquei sério, balançando a cabeça negativamente. Engoli a seco. O brado veio novamente, choroso como se tivesse muito a dizer e quisesse ser ouvido. — Escutaram isso?
— Será que é um dos deuses da floresta vindo pro ritual? — Mark perguntou, ansioso.
— Foi um grito, não um chamado de deuses. Tem algo errado. Meninos, venham. — Severo continuou andando pelo labirinto cada vez mais fechado de árvores, enquanto eu me tremia a cada berro que ouvia. Fiquei feliz apenas por não ser o único a ouvir esse barulho e triste porque parecia que antes era algo meu.
Eles ficavam cada vez mais próximos e meu coração cada vez mais acelerado. A floresta era silenciosa normalmente, era por isso que eu sempre andava por ela de dia. Assim como o Tobias, ela me entendia e ouvia. Hoje, na noite mais escura do ano, ela parecia querer gritar o que quer que tenha guardado de mim.
Severo parou de andar e bateu na lanterna, que piscava pra uma árvore com tronco grosso no meio de uma terra úmida. A névoa parecia pior ali, mal dava pra enxergar ao redor. Virei minha lanterna pra onde ele apontava e vimos um tronco oco, com um espaço cheio de riscos de garras e pingando água, como se lágrimas saíssem do tronco.
Nos aproximamos, encostei na lágrima, escutando o grito bem próximo. Me virei pra eles, que continuavam olhando como se não tivessem escutado. A lágrima no meu dedo me fazia querer chorar bem alto. A coloquei na boca, agridoce. Meu coração estava apertado.
— Algum animal estranho passou aqui? — Mark questionou e me olhou, enquanto eu pensava num urso. Escutamos o barulho das folhas e o vento soprando.
— Não é o tronco de um animal. Fomos longe demais. Temos que voltar. — Ele se virou e começou a voltar, batendo nos galhos. — Vamos meninos. Agora. — Ordenou.
Irritado por nunca ter explicações e sempre ouvir coisas omissas do outro, me aproximei e empurrei ele com força, com as duas mãos. Ele foi um pouco pra trás e agarrou meus braços:
— Para de ser teimoso, Simon! Vamos agora. — Ele gritava enquanto Mark tentava me tirar dos braços dele. — Vamos pelo menos sair daqui, agora!
Assim que ele me largou, cai no chão sentado, sujando a mão de uma terra farinhenta que parecia cinzas póstumas. Me levantei limpando as mãos horrorizado e saímos correndo pra esquerda, onde a floresta parecia menos escura. Severo murmurava palavras sem sentido, apontando a lanterna pro chão.
Mark corria com os cadarços soltos, quando num rompante, ele bateu os tênis num galho e caiu com a testa na pedra.
— Mark!
— Ai, essa doeu. — Ele se levantou, amarrando os sapatos rapidamente enquanto ria com os dentes separados e os óculos sujos e quebrados. — Vou ter que trocar meus óculos de novo.
— Você não toma jeito. Seus pais vão me matar. Pelo menos nos afastamos de lá.
— Era uma oca, né? De um espírito obsessor. Meus pais comentaram sobre. Disseram que quando eu visse uma era pra me afastar e rezar pros deuses da floresta me guiarem pra casa. Assim eu afastaria todo o mal.
— Isso é balela. — Severo disse, enquanto eu ajudava meu amigo a se levantar.
— Se é balela, porque você tava rezando enquanto corria? — Mark limpou os óculos, encarando meu irmão. O encarei também. — E mandou a gente ir embora de lá.
— Os deuses protegem a cidade e a nós, os espíritos obsessores são espíritos ruins vagantes, que não conseguiram ir pro céu, nem pro inferno. Então eles ficam aqui, tentando pegar algum corpo pra possuir e se alimentar da nossa energia. Energia essa que é dada pelos deuses e pra eles. A noite da fogueira também é agradecimento a proteção. Mas já sabe disso. — Ele se virou pra mim. — Você não sabia.
Emburreci cruzando os braços. Ele sabia que estava tão irritado que mal podia me expressar sobre.
— Simon, escuta. O pai me pede pra não te contar isso porque quanto mais você souber, mais perigoso é pra você. Você é diferente. Uma alma sensível, você veio da noite da fogueira. — Ele me olhou de forma cautelosa. — você tá suscetível as energias das coisas boas tanto quanto das ruins. Mudar as coisas pra você é perigoso pros outros, então vamos manter como está. Não quer ser levado por ninguém, quer?
Fiz que não. Mark me abraçou.
— Relaxa, cara. Vamos pegar o Tobias e abrir seus presentes. Vai ser seu momento!
— É isso aí. Vamos, vi as patas do Tobias no chão desde a oca. É pra cá.
Escutamos latidos próximos, Severo começou a chamar pelo Tobias incansavelmente. Uma luz crepitante surgia ao fundo da floresta enquanto andávamos. Entrando num bosque, vimos outra árvore com o tronco aberto, as garras e a terra úmida. Sem lágrimas ou gritos, só o Tobias deitado do lado:
— Tobias!
Assim que nos viu, ele correu pra lamber nossos rostos, numa animação tão grande que rodopiava como um pião. Os latidos eram altos, mas eram de felicidade. O abracei fortemente, enquanto ele tentava fugir dos meus braços. Severo agarrou a coleira com o fio partido no meio e começou a guiá-lo.
Cutuquei Mark, apontando pra oca, fazendo com que ele notasse que essa era diferente:
— Aí Severo, por que essa oca é diferente daquela?
— Isso importa? São casas de coisas ruins. Vem, vamos pra casa.
— A gente quer saber. Você nunca responde se é seu irmão quem pergunta. — Retrucou.
Escutei outro berro, perto de onde a luz crepitava ao fundo da floresta. Provavelmente a grande fogueira. Seguido do berro, a voz que dizia: O seu momento de fala.
— Deve ser porque o Simon nunca precisa perguntar, né. Você fala por ele sempre. Tá, presta atenção, só vou falar mais isso. Já estão sabendo mais do que deveriam, depois vão ficar assustando as outras crianças da sala.
— Não somos crianças! Temos treze anos.
— A oca que vimos antes era de um Bradador. A cada treze anos um deles aparece e rouba a voz de alguém pra se expressar. É uma alma penada que foi rejeitada e fica vagando pelo mundo, principalmente nas sextas-feiras, depois da meia noite. Eram ruins em vida. Eles ficam berrando em volta de casas e florestas até que alguém se aproxime do grito pra ver o que é ou oferecendo ajuda. Ficam berrando e choramingando por aí.
— E então? — Mark perguntou, curioso.
— Consomem a pessoa até que ela se torne cinzas e ganham mais um tempinho pra ficar vagando. Há casos também de possessão onde o corpo fica dentro de outro pra berrar e falar algo que não disse ainda em vida, ou a voz pede socorro, tipo um cachorro latindo pra chegar até o dono. — Enquanto meu irmão falava, algo na voz que me chamava me afastava lentamente deles.
Dei mais alguns passos contra a direção, até escutar um chamado.
— Simon, onde tá indo? Vamos, já estamos com o cachorro. — Severo fechou a expressão, mandando em mim. Fechei a expressão de volta e dei alguns passos pra trás. — Simon, para de birra. De novo, cara? O que tem de errado com você? Você é sempre o bebê chorão!
Antes de ver a expressão dele enquanto gritava comigo, me virei e saí correndo em direção a voz que me chamava. Um chamado da floresta, dos deuses. Eles queriam me dizer algo no meu aniversário. Poderia até ser minha mãe querendo me ouvir.
Escutei passos rápidos atrás de mim, enquanto eu batia em todos os galhos possíveis, cortando meu rosto.
A floresta parecia mais escura sem meu irmão, mas parecia mais livre. Não estava preso numa coleira indo apenas aonde ele queria. Deve ter sido isso que Tobias sentiu ao fugir. A floresta parecia mais silenciosa sem meu amigo, mas era porque eu estava indo atrás do meu momento de falar, sem que ele tivesse que falar por mim ou me interromper de alguma forma.
Escutei um rosnado do Tobias, algo muito incomum, seguido de um choramingo alto e o silêncio de volta.
— Tobias! — A voz de Severo chamava.
Pensei em parar, mas sabia que podia ser um truque do meu irmão. Enquanto corria, escutei os sons dos tambores e violinos, o entoar da canção pros deuses. Ora pareciam tocar uma linda música, ora parecia que estavam completamente desafinados e era a sinfonia dos berros. O calor da grande fogueira parecia se aproximar, mas antes da luz, existia a escuridão. Vi a luz laranja próxima, atrás de um bosque escuro, enquanto passos pareciam me seguir.
Assim que adentrei o bosque, vi uma sombra. Um espírito de luz escura, mórbida, com a energia pesada. O cheiro de sangue subiu, um odoro pútrido e forte. Sentia que estava pisando em restos dos outros. Sangue entre as folhas, manchas de corpos arrastados.
O chão parecia ceder abaixo dos meus pés, como se a força do escuro tivesse tirado a luz da floresta que era tão elevada. Escutei um choro perto de mim e fechei os olhos com força, correndo.
Quando parei de correr e abri os olhos, entendi por que sentia calor. Estava perto da fogueira. Todos estavam nus, os corpos pintados de sangue, outros cobertos, de mãos dadas. Respirei fundo, prendendo o fôlego pra que não me vissem. Os passos atrás de mim estavam próximos. Me virei pra ver o que era, caindo com alguém sobre mim, surpreso.
— Mark! — Mark gritou seu nome, caído em cima de mim. O encarei com os olhos arregalados. Lágrimas caíam dos seus olhos, enquanto todos ao redor nos encaravam e a música continuava. — Sai de cima de mim!
Ele gritou comigo, estando em cima de mim. O empurrei, irritado. Ele estava estranho. Esse era pra ser o meu momento.
— Por que você veio atrás de mim aqui? Tá doido? — Ele gritou comigo. Quis gritar de volta, mas não podia. Todos nos olhavam.
Do outro lado da fogueira, meu pai me encarava enfurecido por eu estar ali, num misto de raiva e preocupação e confusão com a situação. Mesmo assim, não conseguia o levar a sério já que ele estava pelado. Mark riu:
— Tão olhando o quê?
Os pais dele se aproximaram com as mãos pra frente, tentando acalmar o filho o chamando de forma cautelosa pelo nome. Ele nem sequer os atendia, continuava me encarando com raiva. Me levantei.
— Já chega. — Ele disse pra mim, correndo e me empurrando. Devolvi um soco e ele caiu no chão, com o queixo e a testa sangrando. Num surto, começou a se debater, como se brigasse consigo mesmo. — Me solta! Me larga você! Já chega! Para, você sempre rouba meu momento de fala!
Tentando o agarrar pra que ele parasse de se debater, o segurei pelos braços e ele me encarou como se estivesse assustado. Depois, mudou a expressão, ficando enfurecido e amedrontado:
— Você é um imbecil! Cala boca, ah é, não dá, você já tá com ela calada! Você vai pagar por ter falado isso!
Meu pai veio atrás de mim e segurou meus ombros, porém tarde demais. Num rompante raivoso, chutei meu próprio amigo pra dentro da grande fogueira. Uma grande bruxa de fogo surgia do fogo, com risadas altas. Ao som da música, meu amigo queimou em cinzas rapidamente, enquanto o Bradador saía de dentro dele, berrando. Dessa vez pela própria morte e não pra conseguir vítimas. O grito fazia meus tímpanos doerem, num zumbido terrível. Meu ouvido fechou.
Minha respiração começou a ficar ofegante e eu me senti sufocado. O Bradador esticou os braços pra mim e me desvencilhei do meu pai e corri pra mais perto do fogo, encostando no espírito. Sentia minha pele queimando e meu coração na garganta, que se abria recebendo ar da boca berrante do espírito obsessor.
Me virei ofegante pro meu pai, enquanto os pais de Mark estavam caídos em pranto, com a irmã mais velha os afagando. Haviam perdido seu filho caçula. Enquanto a treze anos, perdi minha mãe sem se quer ter a oportunidade de conhecê-la e falar com ela.
Vi Severo adentrar o ritual, com Tobias no colo dele, as patinhas caída, sem reação. Ele se aproximava chocado. Não chorava, mas quando seus olhos me encararam, percebi que estavam marejados. Tobias estava morto, provavelmente pelo Bradador. Ele deitou o cachorro no chão.
Todos do ritual deram as mãos novamente, enquanto apenas eu e meu pai estávamos no centro do círculo que os cidadãos fizeram. Me ajoelhei, respirando fundo como se estivesse me acalmando de uma crise de pânico em anos. Queria gritar desesperadamente.
— Filho? Tá tudo bem agora. Já acabou. — Meu pai disse.
O encarei assustado, ele oferecia uma mão pra que eu me levantasse. Assim que me levantei, ele bateu nos meus ombros e se afastou, indo pro círculo. Meu irmão tirava a roupa e se reunia com os outros.
Engolia a seco e piscava repetidamente, enquanto todos pareciam plácidos com o fato de eu ter matado meu próprio amigo. Possuído pelo Bradador, mas ainda sim meu amigo.
Olhei em volta, a música tocando e o resto da floresta silenciosa. A grande bruxa da fogueira dançava com a música, em comemoração. Ao redor dela, espíritos de fogo dançavam ao redor da fogueira. Consegui ver a silhueta de Mark e de quem eu acreditava ser minha mãe:
— Algo a dizer, menino? É o seu momento de fala. — A fogueira dizia pra mim de forma autoritária e poderosa, mas carinhosa. Como normalmente o fogo é, perigoso e quente.
As lágrimas começaram a cair do meu rosto, agridoces como as da oca na árvore. Todos me encaravam, me fazendo entender que minha voz tinha sido tirada de mim por muito tempo, mas não mais. Esperavam que eu dissesse algo, mas eu não sabia o que eu queria dizer entre tantas coisas. Nada disso seria possível se Tobias tivesse fugido. Mas meu D’Artagnan tinha morrido pelas mãos do mesmo espírito que me deu meu momento de fala.
Respirei fundo e fechei os olhos, me preparando pra ser igual a todos e participar da noite da fogueira. Iluminada e musical, em agradecimento por tudo que os deuses nos dão, inclusive a ter me trazido a vida. As primeiras palavras da minha vida antes de começar a dançar, foi um brado pra floresta:
— Cachorro idiota!
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