Novas práticas de leitura literária à luz do teatro do oprimido



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NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA LITERÁRIA À LUZ DO TEATRO DO OPRIMIDO
 
4.5. Ato 3: E as meninas? 
 
Apesar das personagens serem meninos, isso não impedia de as alunas participarem 
das leituras e dos jogos. Mas elas ficaram um dia inquietas: “Não tem personagem menina 
nesta história, não? Elas só aparecem para serem ‘derrubadas na areia
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’?” 
A queixa das alunas ecoa uma indignação do papel feminino que é assumido na ficção 
e na vida em meio a um grupo masculino, ou uma sociedade patriarcal: um sexo frágil, 
vulnerável, passivo, sem vez e sem voz. 
Mesmo que a obra não apresentasse tantas falas das mulheres como esperávamos, 
pudemos trabalhar o papel feminino em torno da personagem Dora. 
Em virtude desta discussão, os capítulos Alastrim e Aventura de Ogum foram lidos pela 
professora de forma mais didática, apresentando a mitologia dos orixás e suas divindades, e 
a situação da varíola na época para contextualizar a inserção da personagem Dora no 
romance. 
Em resposta à inquietação das meninas, propomos primeiramente um Teatro-fórum 
através de 3 momentos: a introdução da personagem Dora no romance, a intervenção de Dora 
no grupo e o empoderamento de Dora. No jogo a seguir, foram distribuídas entre todos os 
meninos das turmas falas divididas por números em sequência, ora eram falas isoladas, ora 
em duplas, ora falas coletivas, resultando em jogral. Todos os meninos estavam em um círculo 
maior enquanto todas as meninas estavam no círculo menor no centro. As falas foram 
retiradas do capítulo A Filha do bexiguentoDora, mãe; Dora, irmã e noiva e adaptadas pelos 
próprios alunos
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A expressão “derrubar a menina na areia” significa estuprar as moças que cortavam caminho pela praia à noite. 


A cada momento finalizado, fazíamos uma roda de conversa a fim de refletir e olhar 
criticamente as falas das personagens direcionadas à mulher. As reflexões e impressões eram 
de repugnância até da parte dos alunos. O assédio era latente nas falas e no comportamento 
das personagens. Infelizmente ainda real e sofrido entre as mulheres fora da ficção.
O primeiro momento encerra com a fala de Pedro Bala, “Ninguém toca em você!”, e 
os demais meninos do trapiche obedecem e confirmam. No jogo, os alunos falam em uníssono 
a ponto de que as meninas presentes no jogo sentem um sentimento de acolhida, proteção e 
irmandade com os meninos da turma. Essas falas foram expressas e declaradas pelas meninas 
para os meninos, envolvendo uma parceria e companheirismo entre a turma. 
No segundo momento do Teatro-Fórum, as falas ainda ditas pelos meninos, seguindo 
o modo jogral, apresentavam um tom mais brando. Estas falas retratavam o que os meninos 
do trapiche sentiam por Dora ao ver que ela estava lá para cuidar, a mãe. À parte os serviços 
domésticos retratados no romance como “coisas de mulher”, consideremos o perfil materno 
de Dora, do qual aqueles garotos eram carentes e encontraram nela esse suporte.
Em nossas rodas de conversas, percebemos aí uma proteção mútua, dos meninos para 
as meninas e das meninas para os meninos. Extrapolou-se a discussão a respeito da figura 
mais próxima que todos possuem, a figura materna, mesmo que uns não tenham mais a mãe, 
mas tem uma avó, uma tia, uma madrinha ou uma irmã mais velha que assume este papel. A 
importância e valoração deste ser na sociedade. 
No terceiro momento, a valoração dos meninos por Dora é tanta que eles querem 
retribuir com presentes, com palavras e gestos. Nossa discussão chega a tomar uma atitude 
de querer retribuir e contribuir através da transformação pessoal e social. Daí a ideia em 
apresentar os jogos para a escola através de uma peça teatral segundo os moldes do Teatro 
do Oprimido. 
 
4.6. Ato final 
 
Para conseguir finalizar o livro a tempo, acompanhamos os capítulos Reformatório, 
Orfanato e Dora, esposa através de um audiolivro, para que os alunos se familiarizassem 
também com a linguagem radiofônica dos anos 30, pois já era uma proposta apresentarmos 
os jogos dramáticos utilizando a linguagem e os costumes da época. Devido a apresentação 


ter sido feita no final do ano letivo, os alunos pesquisaram propaganda radiofônicas em climas 
natalinos da época. 
A culminância do ato foi uma apresentação dos jogos aplicados em sala de aula para 
toda a comunidade escolar como pano de fundo os eventos natalinos e a era do rádio, 1937, 
ano em que foi publicada a primeira versão da obra literária. 
Foi escolhido para desfecho, o jogo que se dá com o funeral de Dora, coreografado 
com as algumas alunas assumindo seus perfis de irmã, mãe, noiva e esposa, mulheres que 
lutam, que ocupam seu espaço, que são líderes, capitãs, guerreiras, santas, que têm vez e voz 
e um recado para a sociedade atual através do canto de Maria Betânia “Não mexe comigo”. 
Encerrando o grande ato com os capítulos Vocações, Na rabada de um trem e Uma 
pátria, uma família, ao apresentar, ainda ao som da mesma canção de Betânia, a adaptação 
produzida pelos alunos sobre o desfecho de cada menino do trapiche, sua transformação ou 
o que se esperava de seu fim. 

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