Novas práticas de leitura literária à luz do teatro do oprimido


 JOGOS DRAMÁTICOS NA SALA DE AULA: NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA LITERÁRIA



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NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA LITERÁRIA À LUZ DO TEATRO DO OPRIMIDO
4. JOGOS DRAMÁTICOS NA SALA DE AULA: NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA LITERÁRIA
4.1. Capitães da Areia, um romance social 
 
Um dos objetivos da literatura, além da fruição, é promover a reflexão sobre si, o outro 
e a sociedade independente de escola literária ou estilo de autor. Logo, a literatura social se 
autointitula assim declarando explicitamente seu principal intuito: o de refletir sobre a 
sociedade. Alguns autores às vezes até consideram que há a literatura de denúncia. 
Diante desta premissa a literatura ao longo da história sempre apresentou seja de 
modo sutil ou mais explícito o meio social como cenário de seus enredos, sobretudo os 
romances. Nas narrativas, por exemplo, esse meio é bem marcado na retração do lugar, do 
meio e do contexto da história/enredo, como também através dos papeis sociais encarnados 
por cada personagem. Tal dinâmica social é tão bem retratada na estrutura narrativa a ponto 
de manifestar um encadeamento de ações, rumo a um clímax, desencadeando a novas ações 
para concluir em um desfecho da história ou não.
No caso da literatura social, cada elemento da narrativa é evidenciado ou está 
subjugado ao meio social, sejam os personagens, suas ações, o cenário, e o desencadeamento 
do enredo.
Inserido na 2ª fase modernista do Brasil, o romance regionalista, Capitães da Areia, 
escrito pelo escritor baiano Jorge Amado, faz parte da literatura social.
Vale ressaltar
conforme Freitas (2018) que
“Jorge Amado foi fortemente ligado à política e, por meio de suas 
obras, procurava labutar em prol da visibilidade aos mais atingidos pela desigualdade social, aos 
abandonados pela sociedade.” 
FREITAS (2018, p.104)
Capitães da Areia aborda várias perspectivas e problemas sociais: crianças 
abandonadas, questões de gênero, saúde pública, desigualdade social, ideologias políticas, 
intolerância religiosa, questões de direitos trabalhistas e violência sexual.


4.2- Os jogos dramáticos 
 
A proposta foi aplicada no chão da sala de aula da Escola Estadual Jesus Maria José em 
2 turmas de 7º ano do Ensino Fundamental nas aulas de Língua Portuguesa e Formação Cidadã 
em 2017. Os alunos, meninos e meninas na faixa etária de 13 a 16 anos, leram a obra com a 
professora, de forma coletiva e dinâmica em sala de aula durante todo o segundo semestre 
daquele ano. A identificação com as personagens era latente, daí a metodologia do jogo a ser 
aplicada: a necessidade em querer mudar/transformar aquela história, a sua história.
A própria obra inicia de maneira inusitada, através de uma denúncia de jornal, 
reportagem e cartas à redação numa espécie de voz editorial sobre a atuação de menores 
infratores liderados por um garoto chamado Pedro Bala. 
As cartas e depoimentos foram trazidos para sala nas aulas de Língua Portuguesa e 
Formação Cidadã para serem trabalhadas questões de argumentos de autoridades e o 
discurso ideológico que há por trás de cada carta e depoimento. Tais análises foram feitas 
após um debate, no qual os alunos foram divididos em grupos representando cada carta a fim 
de defender as ideias que havia no texto. Praticamente, as opiniões eram divergentes e gerou 
muita discussão para compreender se esses garotos do trapiche eram vilões ou vítimas da 
sociedade. 
Na semana seguinte, as cartas foram apresentadas como composição da obra de ficção 
do romance escrito por Jorge Amado, Capitães da Areia. Neste momento, foi apresentado 
também o nome da obra, do autor, da época e o contexto em que foi escrita. A reação dos 
alunos foi de surpresa e curiosidade em querer conhecer mais sobre a obra. Uma vez garantida 
a atenção e o interesse, hora de ler. A proposta foi lê-la na íntegra sem se preocupar com o 
tempo e o que viria a seguir, sem se preocupar também em realizar tarefas, provas ou 
preencher fichas.
A surpresa ficou maior ainda ao saber que eles fariam a leitura da obra sem precisar 
fazer prova. Porém a única condição imposta foi a participação e a contribuição de uma leitura 
dinâmica, reflexiva e crítica sobre a obra. Entende-se aqui por leitura dinâmica, uma leitura 
motivada, coletiva ou individual, aberta ao diálogo, à intertextualidade e a outros 
conhecimentos, e sobretudo aplicada no jogo dramático, quando possível. 
Este tipo de abordagem metodológica está de acordo com a pedagogia do oprimido 
de Paulo Freire, na qual “o diálogo é a essência desse método, educador e educando são 


somente sujeitos do processo, (...). A relação educador/educando é horizontal e a avaliação 
consiste em um processo de autoavaliação e avaliação mútua.” (TEIXEIRA, 2007, p.29)
A primeira aplicação do jogo foi a releitura das cartas e depoimentos. Voluntariamente 
os alunos faziam a leitura de uma das cartas, assumindo o perfil social de cada remetente. A 
sucessão das leituras se dava de forma tão natural, que era perceptível a presença do diálogo 
entre as cartas, assim como a réplica e a tréplica. 
Até aqui, a leitura despertava muitas curiosidades em querer conhecer mais. Os alunos 
ainda não conheciam os garotos do trapiche, a discussão era querer conhecê-los. Alguns 
alunos buscavam leituras em casa para ter os famosos “spoilers” sobre o romance. À medida 
que a leitura do romance prosseguia, os jogos se intensificavam. 

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