Novas práticas de leitura literária à luz do teatro do oprimido



Baixar 0.8 Mb.
Pdf preview
Página3/8
Encontro20.07.2022
Tamanho0.8 Mb.
#24318
1   2   3   4   5   6   7   8
NOVAS PRÁTICAS DE LEITURA LITERÁRIA À LUZ DO TEATRO DO OPRIMIDO
3. O TEATRO DO OPRIMIDO
No trabalho aqui relatado, o teatro do oprimido foi considerado como metodologia de 
prática de leitura literária para interpretação, análise e reflexão crítica da obra Capitães da 
Areia. Fazendo uma analogia
1
da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire ao Teatro do 
Oprimido de Augusto Boal, não nos conformemos a uma leitura literária apenas empática e 
catártica, sensações passivas de espectadores/leitores passivos, mas promovamos uma 
leitura literária crítica e transformadora, por atores/protagonistas/leitores críticos. 
A partir desta analogia, a análise e a reflexão social e crítica serão dadas seguindo a 
prática do Teatro do Oprimido, dinâmica teatral de prática cênico-pedagógica, vinculado ao 
teatro de resistência, no qual os atores assumem papeis sociais, conjugados com a plateia, 
incrementando reflexão e crítica sobre os atos assumidos por cada ator, buscando em seguida 
extrapolar os limites da ficção do palco até atingir uma transformação real na sociedade.
O método de Augusto Boal encaixa-se muito bem na leitura e análise desta obra por 
conta da própria contextualização social que ela retrata e tem como objetivos principais 
transformar o espectador de um ser passivo e depositário em protagonista da ação dramática; 
e nunca se contentar em refletir sobre o passado, mas se preparar para o futuro. Logo, todas 
estas formas de teatro, segundo o próprio Boal, poderiam ser aplicadas até na escola por ser 
simplesmente uma linguagem humana. 
Para Boal, “o oprimido é o indivíduo despossuído, desprovido do direito de falar, do 
direito de ter a sua personalidade, do direito de ser”.
(BOAL, 2009, p. 77) Segundo ele, “através 
do teatro, as pessoas desenvolvem a autoestima, libertam o corpo, oprimido pelo cotidiano, 
pela sociedade.” (IDEM) 
Ao encarar o romance como um cenário de teatro, percebe-se que este mesmo retrato 
é ainda atual e os papeis sociais continuam os mesmos. Apesar de ser retratado nos anos 30, 
o romance garante em si uma contemporaneidade aos tempos atuais. No posfácio da obra, 
Milton Hatoum acrescenta que
é surpreendente a atualidade dos temas de Capitães da Areia. [...] Lido hoje, 
este romance ainda comove e faz pensar nas crianças desvalidas, nas 
1
A referida analogia entre Paulo Freire e Augusto Boal é considerada relevante pelos seguintes fatores: ambos 
foram contemporâneos, lutaram em defesa dos oprimidos, adotaram metodologias que promovessem os 
oprimidos a protagonistas/agentes, sofreram as represálias do regime militar (1964-1979) e foram exilados. 


crianças de rua, nas crianças abandonadas, quase todas órfãs de pai e mãe, 
filhos da miséria e do abandono. Atiradas à marginalidade, elas roubam e 
cometem outros delitos para sobreviver. Detidas, são submetidas à 
humilhação, ao castigo, à tortura. (AMADO, 2009, p. 265)
A partir deste contexto o jogo é conduzido de maneira até fácil por conta do quão as 
atitudes, as falas e os comportamentos são similares para os atores de então. 
O espectador vê, assiste, o espect-ator vê e age, ou melhor, ver para agir na cena e na 
vida. Mas é preciso haver um processo de conversão do espectador em ator, que segundo 
Boal compreende 4 etapas:
1. Conhecimento do Corpo ( conhecimento teatral do corpo a partir dos 
condicionamentos e de formações sociais). 
2. Tornar-se o Corpo Expressivo (exercícios que exploram as possibilidades 
de expressão corporal). 
3. Teatro como Linguagem (exercícios teatrais que estudam o encontro de 
múltiplas linguagens expressivas). É subdividido em três graus: a Dramaturgia 
Simultânea, o Teatro-Imagem e o Teatro-Debate. 
4. Teatro como Discurso (composição de cenas simples em que os 
espectadores intervêm cenicamente na apresentação teatral). Utiliza-se das 
seguintes variantes: Teatro-Jornal, Teatro-Invisível, Teatro-fotonovela, 
Quebra de Repressões, Teatro-Mito e Teatro-Julgamento. (TEIXEIRA, 2007, 
p.92-93) 
A fim de otimizar o trabalho da prática de Leitura do romance, selecionamos alguns 
jogos dramáticos do Teatro do Oprimido e de sua estética os quais contemplam todas as 
etapas de conversão assim como promovem uma dinâmica interativa entre a leitura do 
romance e a própria busca individual e coletiva dos alunos, mantendo a dialética da proposta. 
Dessa forma, atende ao objetivo metodológico do Teatro do Oprimido em 
realizar reflexões sobre as relações de poder, explorando histórias entre 
opressor e oprimido, onde o espectador assiste e participa da peça. Todos os 
textos são construídos coletivamente a partir de histórias de vida, baseados 
nas experiências e problemas típicos da coletividade, como a discriminação, 
o preconceito, o trabalho, a violência, entre outros. Com a finalidade de criar 
condições práticas para que o oprimido se aproprie dos meios de produzir 
teatro e amplie suas possibilidades de expressão, além de estabelecer uma 
comunicação direta, ativa e propositiva entre espectadores e atores. 
(TEIXEIRA, 2007, p.73) 
Optou-se aqui por explorar o próprio texto do romance para realizar os jogos 
dramáticos, passando por uma etapa de recriação ou adaptação para a linguagem teatral feita 
coletivamente em sala de aula. Percebe-se então que a prática da leitura literária aplicada à 
metodologia do Teatro do Oprimido envolve um conjunto de atividades atribuídas a 


exercícios, processos de reescrita, jogos e técnicas teatrais que proporcionam uma 
interatividade entre leitores e o texto, professor e alunos, alunos e alunos, atores e 
espectadores, visando uma melhor compreensão do texto, dos problemas sociais e a procura 
de alternativas para resolvê-los. 

Baixar 0.8 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8




©historiapt.info 2023
enviar mensagem

    Página principal