Nossas Memórias, Nossas Histórias Ou de como as bibliotecas podem usar e abusar



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Nossas Memórias, Nossas Histórias

Ou de como as bibliotecas podem usar e abusar

do Museu da Pessoa, uma grande “humanoteca”

Karen Worcman
Introdução

Orhan Pamuk, escritor turco e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, escreveu em A Inocência dos Objetos (2012), um manifesto do que deveria ser, a seu ver, o norte dos museus no século XXI. Ele pontua que “os museus deveriam tornar-se menores, mais baratos e individuais. Esse é o único caminho para que esses museus possam contar histórias em uma escala mais humana. Grandes museus, com suas grandes entradas, nos fazem esquecer nossa humanidade e nos levam apenas a valorizar o Estado e as massas. Esse é o motivo pelo qual milhões de pessoas fora do mundo ocidental e desenvolvido têm medo de ir a museus” (e poderíamos dizer também pouco interesse). Pamuk diz ainda que “o futuro dos museus está dentro de nossas próprias casas” e que “o sucesso dos museus deveria ser medido não a partir de sua habilidade em representar um Estado, uma nação ou uma empresa ou, ainda, uma narrativa particular, mas, sim, na sua capacidade de revelar a humanidade dos indivíduos” (Pamuk, 2012, p. 55-58). Seus comentários vêm ao encontro de um movimento que tem ocorrido desde a década de 80, de importantes e significativas transformações no papel dos museus em nossas sociedades. Coleção, curadoria, participação, território, comunidade e virtualidade são conceitos que têm sido revisitados no mundo dos museus.

Podemos afirmar que tais conceitos, que permeiam as mudanças no mundo dos museus, abarcam também o mundo das bibliotecas. Inicialmente fundadas como espaços exclusivos e restritos, as bibliotecas, sobretudo as comunitárias, também criam novas possibilidades de relacionamento com as comunidades de seu entorno.

Essa revisão, conceitual e prática, adquire um significado especial quando vista sob o prisma das sociedades de países subdesenvolvidos, nas quais a relação entre a cultura escrita, a memória histórica e os espaços “tradicionais” de seu acondicionamento – os museus e as bibliotecas − é ainda mais desafiadora. É comum entendermos esses desafios como reflexos da falta de letramento do público ou de políticas públicas. Tais questões são de fato relevantes e devem ser enfrentadas. No entanto, se levarmos em conta a afirmação de Pamuk, podemos repensar (como já está sendo feito tanto no mundo dos museus quanto no das bibliotecas) o que exatamente pode e deve ser revisitado para que tanto os museus quanto as bibliotecas possam aprofundar a relação com suas comunidades. No livro Bibliotecas, Leitores e Formação de Professores1, apresenta-se uma série de artigos sobre os desafios vividos pela Biblioteca Maria Carolina, em Libolo, Angola, e suas similitudes com os desafios de ensino de leitura e escrita no Brasil. Já no prefácio, Barzotto destaca a ênfase dada à necessidade da biblioteca: “Criar um acervo composto por gravações de histórias orais, colhidas na comunidade, uma vez que os costumes e valores da cultura angolana são transmitidos oralmente de geração a geração.” 2 O reconhecimento da cultura oral como tendo tanto valor quanto a cultura escrita passa pela compreensão bastante ampla e consistente de que “instâncias em que se cultiva o conhecimento, como a escola e a biblioteca (e aqui acrescento os museus), têm sobre si a responsabilidade de efetivar a validade dos conhecimentos das comunidades nas quais estão inseridas”3.

Creio que é exatamente neste reconhecimento que reside o ponto de encontro entre as questões museológicas e as bibliotecas. Este ponto pode ser entendido como uma grande oportunidade, pois abre a possibilidade de criação de novas instâncias de transmissão e apropriação de conhecimentos em nossa sociedade. O texto a seguir aborda de que forma o Museu da Pessoa, um museu peculiar, que já nasceu digital e colaborativo, pode interagir com bibliotecas e contribuir para tornar essas oportunidades experiências preciosas de interação entre as bibliotecas e suas comunidades.




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