No último fim de semana, é provável que você tenha visto postadas aos montes no Instagram



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#24235
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Documento sem nome-8
A vida como ela é
O problema começou há tempos. Mesmo.
“Estamos marcados por uma divisão de milênios,
na linguagem e no imaginário”, lembra a
psicanalista Maria Lucia Homem, especializada
em estética e literatura. “Essa busca de um plano
ideal, diferente de tudo o que é feio, sujo, ‘mal’, é


muito antiga.” Antiga tipo Grécia Antiga, quando o
filósofo Platão, com a Teoria das Ideias, criou uma
divisão entre a vida como ela é e o mundo
perfeito. Resumindo: um plano real e outro ideal,
duas coisas separadas. A confusão aumenta,
segundo Maria Lucia, quando se busca esse lado
ideal no mundo concreto – como se fosse
possível.
“Todos querem a perfeição no Facebook, inclusive
eu. Querem mostrar o melhor que têm, o que
alcançaram”, diz a booker Milena Paes de Barros,
43 anos. Responsável pelo portfólio internacional
da agência Way Model, das tops Alessandra
Ambrósio e Carol Trentini, ela sabe exatamente o
que é procurar a melhor pose. “Tenho que tirar
muitas fotos das modelos, de vários ângulos, para
que elas fiquem satisfeitas e aprovem para colocar
nas redes sociais”, diz. Quando expõe algo da
própria vida, não é diferente. “Não vou abrir para
as pessoas que briguei com o meu filho. Agora, se
ele me der flores, vou postar: ‘Olha que lindas as
flores que ganhei do meu filho’. Naquele espaço
você é a melhor mãe, a melhor amiga, a melhor
profissional, a melhor de si.”
De acordo com o psiquiatra Cristiano Nabuco de
Abreu, coordenador do Grupo de Dependência de


Internet – pois é, já foi preciso criar um, em 2006 –
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas
de São Paulo, vida virtual e vida social não são
tão separadas assim. “Essa teoria de que, na
internet, temos um ‘outro eu’ é uma grande
bobagem. O que você está fazendo lá são ensaios
do que você é na realidade”, afirma. Para ele, a
rede é mais um lugar onde as pessoas vão buscar
aceitação.
A designer Vanessa Queiroz, 36 anos, sabe bem
disso. Sócia de um estúdio que gerencia a
imagem de diversas marcas na internet, ela
trabalha justamente para fazer com que o maior
número de pessoas clique no curtir. Como pessoa
física, em sua página pessoal no Facebook,
mostra seu dia a dia no trabalho, palpita sobre
política e tenta não sofrer quando comete um
deslize (como a vez que postou uma piada sobre
o estado de saúde do arquiteto Oscar Niemeyer e
foi criticada).
Por se sentir à vontade no mundo virtual,
estranhou quando o namorado a deixou de fora do
perfil dele. “Entrei numa crise e falei: ‘Por que
você não põe foto minha? Tem um monte de


mulher que te segue e você não vai colocar foto
minha?’”. O que Vanessa queria – a essa altura
você já deve ter entendido – era que essas
mulheres soubessem que o moço tinha dona. “Foi
ciúme, possessão, aquelas coisas irracionais.” A
crise passou sem nenhuma foto dela no perfil do
rapaz. “Ele odeia postar fotos pessoais no
Instagram. Disse que o perfil é dele, e respeitei.”
Essa discrição, no entanto, não é o
comportamento mais comum nas redes. Ser visto,
reconhecido e curtido a todo custo é uma
necessidade real para muitas pessoas. E não
estamos falando daquelas com perfis antissociais,
mas de gente comum, sem dificuldade para fazer
amigos ou paquerar. “Por mais soltas que sejam
socialmente, muitas pessoas não têm uma
sedimentação daquilo que são. Falta maturidade,
confiança, autoestima. Pacientes dizem que, se
ninguém curte algo que postaram, deletam o post.
É como se eles se nutrissem da valorização que
vem de fora. E isso é fugaz”, explica Nabuco.
Além do risco de se viciar nas redes, outro efeito
da busca desenfreada por um curtir é a
desconexão da realidade. Para Luli Radfahrer, um
dos principais estudiosos de mídia eletrônica no


Brasil, a perda de espontaneidade faz crescer
uma bola de neve. “O Instagram foi feito para
mostrar as coisas legais que você achou. O erro é
ficar carente do “curti”. Se dependo do aplauso
dos outros, começo a fazer qualquer coisa para
garantir isso.” Como consequência, Radfahrer vê
as pessoas tratando a própria vida como uma
mídia. “A vida não é cinza nem colorida. Mas,
quando vira entretenimento, o indivíduo se sente
obrigado a fazer uma programação florida todos
os dias. É um Show de Truman voluntário”, diz.

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