Negro, mas belo: SÃo benedito, o santo preto da idade moderna



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Niger, sed formosus

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 é uma inscrição em latim encontrada na bandeira da ISB de São Benedito de 

Santos, mas não era apenas Benedito estaria associado a este apontamento. Encontramos também em Santo 

Antônio  de  Noto

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  expressões  similares,  como  Niger  in  facie,  sed  formosus  in  core



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.  A  origem  dessas 

expressões remonta o antigo Cântico dos Cânticos, o qual está associado à Rainha de Sabá, especificamente 

num  trecho  o  qual  há  uma  autoafirmação  de  sua  cor:  Nigra  sum  sed  formosura



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.  Apesar  da  expressão 

afirmar a negritude, a cor escura da pele é colocada como algo não muito bem quisto.  

Benedetto Manasseri, seu nome de batismo, nasceu em San Fratello em 1526 e faleceu em Palermo 

em 04 de abril de 1589, ambas cidades da Sicília, na Itália. Filho primogênito de ex-escravos convertidos ao 

catolicismo,  Benedetto  se  tornou  livre  aos  18 anos  de  idade,  iniciando sua  jornada  eremita  com  um  grupo 

seguidores de São Francisco de Assis, liderado por Jerônimo Lanza. Não há dados tão precisos quanto a este 

período  que  remete  à  vida  eremita  e  à  clausura  de  Benedetto.  Pode-se  determinar  que  entre  seus  32  e  36 

anos,  ele  se  tornou  frei  ao  ingressar  na  Ordem  de  São  Francisco  e  passou  a  viver  no  Convento  de  Santa 

Maria  de  Jesus  em  Palermo,  onde  exerceu  a  função  de  cozinheiro,  Frei  Superior  dos  Noviços  e  Guardião 

deste convento, algo que chama atenção, pois Benedetto era analfabeto e negro. 

Pesquisadores  como  Giovanna  Fiume  e  Alessandro  Dell‘Aira  desenvolveram  extensas  pesquisas 

sobre a figura emblemática do santo, desde a construção de uma santidade negra, do ponto de vista europeu 

à  recepção  deste  santo  italiano  nas  Américas.  Também  o  trabalho  de  Vicent  Bernard  sobre  a  difusão  das 

hagiografias  na  Espanha  e  na  Nova  Espanha  do  Setecentos  e  os  estudos  de  Monique  Augras  sobre  a 

iconografia e devoção do santo no Brasil, são pesquisas que se destacaram pela abordagem mais direcionada 

às fontes primárias sobre a construção de santidade de Benedito.  

Embora  São  Benedito  foi  um  santo  proclamado  padroeiro  das  populações  negras  que  passavam 

pelo  processo  de  conversão  ao  catolicismo,  suas  esculturas  surgiram  no  século  XVII  em  um  contexto  não 

propriamente sobre a escravidão negra, mas era um dos resultados da presença negra nas ordens religiosas 

durante os primeiros passos do catolicismo tridentino na Europa. A Ordem dos Frades Menores se destacou 

                                                            

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 Negro na face, mas belo no coração. Benedito o que vem em nome de Deus. CONCEIÇÃO, Fr. Apolinário   da. Flor peregrina 



ou  nova  maravilha  da  graça  descoberta  na  prodigiosa  vida  do  beato  Benedicto  de  S.  Philadelphio,  religioso  leigo  da  província 

reformada de Sicília. Lisboa: Oficina Pinheirense da Música e da sagrada religião de Malta, 1744, p.255. 

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 Negro, mas formoso ou Negro, mas belo. 



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 Muito confundido com Categeró. 

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 Negro na face, mas belo no coração. 



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 Sou negra, mas bela. 




XII EHA – ENCONTRO DE HISTÓRIA DA ARTE –UNICAMP 

2017 


 

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neste contexto, sobretudo na Sicília, por isso o surgimento das primeiras esculturas do frade negro ocorreu 

precisamente  nesta  região,  mas  rapidamente  a  popularidade  de  frei  franciscano  como  santidade  negra 

percorreu  a  Espanha  e  Portugal  numa  época  em  que  a  circulação  das  primeiras  hagiografias  italianas  do 

Beato Benedetto eram beneficiadas pela dimensão do domínio da Dinastia Filipina.  

Um adendo significativo que seguiu o fluxo da popularidade do santo, foi a obra que Lope de Vega 

publicava na sequência de Antônio Daza

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, a comédia El santo negro Rosambuco de la ciudad de Palermo 



(1612).  Obra  baseada  na  história  de  vida  de  São  Benedito,  obra  que  tem  uma  retórica  de  cunho  popular  e 

folclórica,  que  combina  comédia  burlesca  com  um  drama  heroico  e  religioso.  As  comédias  de  santos 

também  fluíram  do  projeto  tridentino,  muitas  vezes  alinhavam-se  à  propaganda  imagética  das  imagens  de 

devoção.  Assim,  o  teatro  e  a  teatralidade  das  imagens,  ampliava  a  dimensão  pedagógica  por  detrás  do 

projeto tridentino

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.  



Com  base  nestes  aspectos  da  difusão  da  devoção  do  santo  na  Europa,  as  esculturas  do  santo 

apresentam três modelos iconográficos. Em termos gerais, as imagens do santo trazem a roupa típica de um 

franciscano  capucho

  e  sua  pele  alterna  entre  a  negritude  a  tons  amorenados,  mas  há  diferentes  atributos 

dependendo das regiões, mas é certo que foram estabelecidos oficialmente três modelos e todos surgiram no 

século XVII. 

O primeiro modelo é italiano, o São Benedito como Menino Jesus, referente à Aparição da Virgem 

ao beato negro, constatando-se as tendências artísticas na elaboração iconográfica do catolicismo tridentino. 

Para Dell‘Aira, no caso dos santos franciscanos, o modelo de São Benedito parece ter seguido referências 

iconográficas do português Santo Antônio de Pádua

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O  modelo  espanhol  também  seguiu  as  diretrizes  tridentinas,  porém,  a  abordagem  espanhola 



apresenta influências da Religio Cordis, tendo como o atributo mais recorrente o coração jorrando gotas de 

sangue. Neste modelo denominado o Milagre do sangue, o santo carrega na mão direita um coração, mas há 

variações,  por  vezes,  Benedito  carrega  no  lugar  do  coração  um  pequeno  tecido  manchado  de  sangue, 

também pode aparecer portando um crucifixo, ou portando um cajado. Este último poderia ser uma analogia 

a Santo Isidoro, padroeiro de Sevilha

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. Em outra variação do modelo espanhol, há a versão do santo como 



orador, portando em uma das mãos o Livro Sagrado. A iconografia espanhola apresenta um oscilante quadro 

                                                            

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 Em 1611, o franciscano Antônio Daza publicou em Valladolid a Quarta parte de la chronica general del nuestro Serafico Padre 






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